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Uma Viagem de Camões Até aos Açores

Nuno Costa Santos
Escritor e argumentista

Leio o livro “Camões Na Voz de Poetas Açorianos (1524-2024)”, edição da Nona Poesia, com coordenação de Henrique Levy. Iniciativa importante pela forma como, em ano de celebração dos 500 anos do nascimento, põe em diálogo autores do arquipélago com um cultor superlativo da língua portuguesa. A cada um dos nove convidados a participar no volume ficou destinada a tarefa de escolher nove excertos da poética de Luís Vaz de Camões e de fazer acompanhar a escolha de uma nota reflexiva.

O coordenador da edição – e da editora – Henrique Levy, num ensaio sugestivo e cativante, convoca figuras que se pronunciaram sobre Camões, como Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Frederico Lourenço e Vítor Aguiar e Silva, e recorda que “foi o primeiro poeta português a cruzar oceanos, aventurar-se por diferentes geografias, conviver com povos e civilizações não-europeias”.

Existe uma intenção de homenagem. Mas o movimento publicado funciona também como uma forma de, como nota o coordenador, convidar os leitores a relerem a poesia camoniana. Uma curadoria a abrir caminho para um terreno literário do qual muitos estudantes se afastam por ser reduzido às funções gramaticais exigidas pelas cadeiras de português. Camões, um poeta de todos os sentimentos, merecer ser lido para lá das orações.

Cada um dos desafiados escolhe uma visão sua sobre o autor. E, sem que se note qualquer tipo de combinação, as visões parecem complementares. Levy invoca uma curiosa descrição psicológica, com os critérios da Escola Pitagórica, e refere-se à tarefa arriscada, com imensas dificuldades e possibilidades, de traduzir Camões para outras línguas (para a língua chinesa, para a língua turca, para a língua árabe e para o russo, por exemplo). Além disso, distende a sua visão sobre “Os Lusíadas”, destacando a vocação para celebrar uma viagem e um povo mas também a dimensão crítica sobre a decadência de um tempo e os perigos da cobiça ocidental.

© PAULO R. CABRAL/ LETRAS LAVADAS

Álamo Oliveira sublinha, além da elegância da forma exercida dramaticamente sobre sentidos e sentimentos, o erotismo, “declarado e sofrido em amores mal correspondidos ou não assumidos”. Ângela de Almeida enfatiza “o desamparo e a solidão imensa do poeta, o profundo desencanto e a desmesurada tristeza numa escrita elevada”. Carlos Bessa ressalta o facto de alguém que, após a morte, recebeu o título de “príncipe dos poetas”, ter tido uma duríssima biografia, sem um vislumbre de honra e glória. Daniel Gonçalves, em discurso poético, a partir das brancas que existem sobre a sua existência, especula sobre a relevância do amor num destino de infortúnio. João Pedro Porto anuncia-se na sua gratidão de escritor: “todos nós escrevemos, ainda hoje, com a pena por demais aparada do grande poeta, e a ele devemos a memória, as palavras, e a fiel ideia de futuro virente, a que damos o nome de esperança”. Manuel Tomás escolhe, do labor poético, a dimensão analítica sobre a imperfeição constitucional da vida dos homens e traz à baila, de modo inventivo, o nome da ilha do Pico.

Natividade Ribeiro trata das suas experiências de leitura de Camões em fases diferentes da sua cronologia – numa delas a lírica apresenta-se em patuá, crioulo macaense (remeteu-me para uma experiência maior – a que vivi há uns anos na Casa Fernando Pessoa, quando ouvi José Luiz Tavares a ler Camões em crioulo de Cabo Verde). Urbano Bettencourt, salientando em Camões a capacidade de aprofundar e reinventar dramática e linguisticamente temas como a celebração do amor, contraditório e contingente, e a errância e o exílio, assume que chegou ao poeta pela admiração e, num segundo plano, pela comoção por incidir “sobre a condição humana do ‘bicho da terra tão pequeno’”.

No texto de Carlos Bessa – tal como acontece com o de Natividade Ribeiro – há um atalho para uma dimensão mais pessoal da relação com o poeta. Bessa alude, de forma breve mas importante, ao seu pai e aos momentos em que declamava de cor sonetos camonianos que o filho depois transcrevia. Também assim, permitam-me a partilha, aconteceu comigo. Ao ouvir o meu pai, decorei, em criança, o início do Canto I de “Os Lusíadas”. Pergunto-me se, neste “tempo detergente” (Ruy Belo), ainda haverá pais e filhos que façam informais parelhas camonianas, baseadas numa transmissão, emotiva e festiva, de saber. Nestes tempos de celebração, fecho os olhos aqui no escritório onde me demoro e ouço Camões na voz de alunos açorianos. E também Camões na voz de rappers açorianos. Cantando e espalhando por toda a parte. Se a tanto os ajudarem o engenho e a arte.