
Maria João Pereira
Farmacêutica
A hepatite C é uma infeção causada pelo vírus da hepatite C, responsável por causar inflamação no fígado. É uma doença de resolução espontânea em cerca de 20 a 30% dos casos; no entanto, pode evoluir para uma infeção crónica. Estima-se que cerca de 170 milhões de pessoas no mundo tenham hepatite C crónica, dos quais 40 mil em Portugal.
A hepatite C transmite-se pelo contacto com sangue contaminado, nomeadamente pela partilha de seringas contaminadas, transfusões de sangue realizadas antes de 1992, transmissão da mãe para o filho aquando da gravidez ou parto (transmissão perinatal) e relações sexuais desprotegidas. A hepatite C não se transmite por beijos, abraços, partilha de comida ou talheres, pelo que o estigma não deve existir.
É possível prevenir a hepatite C através da não partilha de seringas e objetos cortantes, garantindo o uso de material esterilizado no caso de tatuagens, piercings e procedimentos médicos, utilização de preservativo, rastreios em grávidas para prevenir a transmissão perinatal. Outra forma essencial de prevenção é o rastreio, em especial nos grupos de risco – consumidores de drogas injetáveis, pessoas que receberam transfusões de sangue anteriores a 1992, indivíduos com múltiplos parceiros sexuais, indivíduos que fizeram piercings e/ou tatuagens sem as devidas condições de higiene.
Por se tratar de uma doença crónica maioritariamente assintomática, o seu diagnóstico torna-se difícil. Os sintomas da hepatite C aguda surgem, geralmente, entre 2 a 12 semanas após a exposição ao vírus e o indivíduo pode apresentar sintomas semelhantes a uma gripe, sintomas gastrointestinais, dores na zona do fígado, problemas de concentração e icterícia – coloração amarelada da pele e dos olhos, um sinal bastante característico. A cronicidade está associada a problemas hepáticos, como cirrose, insuficiência hepática e cancro do fígado.
Os sintomas são frequentemente inespecíficos, podendo instalar-se uma infeção crónica sem que o indivíduo apresente sinais evidentes de doença. Assim, o diagnóstico é feito através da pesquisa de anticorpos contra o vírus da hepatite C e, posteriormente, pela confirmação da presença do vírus através de análises mais específicas.
Portugal dispõe de medicamentos inovadores para o tratamento da hepatite C, com taxas de cura entre 95 e 97%. Estes tratamentos consistem em antivirais de ação direta, medicamentos com esquemas terapêuticos simples, curtos e eficazes. Na maioria dos casos, o tratamento dura entre 8 a 12 semanas, especialmente quando a doença é diagnosticada precocemente.
Pelo menos uma vez na vida, todos deveriam realizar o teste de rastreio para a hepatite C. Um resultado positivo não significa o fim: felizmente, dispomos de um sistema de saúde que disponibiliza gratuitamente tratamentos altamente eficazes e potencialmente curativos.
Apesar de muitas vezes silenciosa, a hepatite C continua a afetar milhares de pessoas que desconhecem viver com a infeção. Falar sobre esta doença, promover o rastreio e combater o estigma são passos fundamentais para a sua erradicação. Um simples teste pode significar um diagnóstico precoce, acesso a tratamento e a possibilidade real de cura. Ninguém deve sentir vergonha ou medo de procurar ajuda: a hepatite C é uma doença como qualquer outra e merece ser encarada com informação, empatia e responsabilidade. Consciencializar é proteger — e diagnosticar atempadamente pode salvar vidas.
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