
A semana passada o governo levou a cabo a sua visita estatutária à ilha do Corvo. Sabemos muito bem da importância que esse círculo eleitoral porta na atual solução governativa. Vale tanto como o governo todo, apesar de ter eleito dois deputados, um em coligação com o CDS-PP com 115 votos e outro com 360 votos. Só para se entender a disparidade de representatividade que o nosso sistema eleitoral imprime nestas coisas, ficam estes dados: O Chega elegeu também dois deputados com 5260 votos, dez vezes mais, e a Iniciativa Liberal (sim é uma iniciativa antes de ser um partido, por isso é “a”) elegeu um deputado com 2012 votos. Isto deverá fazer sentido em alguma democracia, e mesmo sabendo que este sistema não é inédito, é no mínimo aberrante quando gera as atuais assimetrias de poder, mas também de políticas que se traduzem naturalmente em investimento e alocação de recursos.
O próprio modelo de visita estatutária é bem reflexo de tais bizarrias. Fará algum sentido o governo passar um número semelhante de dias em cada ilha, como estou a crer foi a interpretação do anterior governo, e é a deste? Acontece que o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores não obriga a nenhum número de dias em particular, nem forma particular a não ser a reunião com o conselho de ilha, referindo apenas que o governo regional tem de visitar uma vez por ano cada ilha dos Açores, o pode ser interpretado de diversas maneiras. Como já é imagem de marca deste governo pseudo reformista, a opção foi, como em muitas outras coisas, fazer exatamente igual ao tão criticado anterior executivo.
Foram variados os investimentos anunciados para a ilha, todos muito necessários certamente, incluindo uma gare de luxo nova para o aeroporto no valor estimado de investimento de 5 milhões de euros. Alguns dirão que sendo um equipamento multifunções agregando também o quartel de bombeiros que serve o aeroporto e a ilha, e dado o custo elevado de construção dada a ultra periferia, que o valor até não é disparatado. Eu sei que estas obras serão todas avaliadas à lupa do mecanismo de avaliação custo-benefício imposto no plano e orçamento de 2023 pela IL, como e por quem não se sabe bem, e por isso estamos todos descansados de que gastar 13 mil euros, mais euro menos euro, por cada Corvino, numa estrutura que servirá para desembarcar por dia em média 11,8 passageiros (em 2021). A pergunta que se impõe, e que talvez ninguém ainda fez aos Corvinos, numa lógica do que será melhor para a ilha e para os Açores, é se eles preferiam receber pessoalmente os 13 mil euros, em opção a uma gare nova. Se pensarmos que um agregado familiar de 4 pessoas receberia 52 mil euros, certamente iríamos ficar surpreendidos com as respostas.
Sem nada contra o investimento em particular, que deverá ser, repito, muito necessário, muito menos contra os legítimos desígnios dos Corvinos e de sua elite política, e tendo total consciência que o governo tem toda a legitimidade para tais opções, não deixa de ser passível de interpretação as referidas opções, sendo que a primeira é a constatação de que, no que diz respeito a uma forte majoração do investimento nas ilhas mais pequenas, nada mudou com esta coligação, talvez até tenha piorado com a migração do poder para ocidente. No momento em que a Região é avisada pelos mercados, leia-se por exemplo a Moody’s, e no ano em que se aprova e bem um plano e orçamento de zero endividamento, continuar com esta falta de discrição nas opções, sobrepondo os micro interesses de muito poucos a uma política de desenvolvimento assente em investimentos que realmente promovam o progresso de todos os Açores, é um erro político grosseiro. Mas é mais do que isso, é fazer exatamente igual aos anteriores governos do PS/A. Os Açorianos votaram para uma mudança, e certamente começam a sentir-se enganados, muito em particular os Micaelenses que deram a José Manuel Bolieiro a possibilidade de fazer diferente. Está na hora de o fazer.
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