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Resistência aos antibióticos: um problema de saúde pública

Maria João Pereira
Farmacêutica

É bem sabido que, quando estamos doentes, o que mais queremos é recuperar rapidamente. Por vezes, a palavra “antibiótico” soa a um verdadeiro remédio milagroso – mas nem sempre é assim.

Os antibióticos são medicamentos utilizados para tratar infeções causadas por bactérias. Isto significa que infeções provocadas por vírus, como a gripe, a constipação e a COVID-19, não são tratáveis com antibióticos. Existem várias classes de antibióticos que diferente entre si, de uma forma simples, pelo seu mecanismo de ação, ou seja, pela forma como atuam nas bactérias – impedindo o seu crescimento e replicação (antibiótico bacteriostático) ou levando à sua morte (antibiótico bactericida).

Atualmente, o mundo enfrenta uma ameaça crescente à saúde pública: a resistência aos antibióticos. Esta resistência ocorre quando as bactérias continuam a replicar-se e sofrem mutações (alterações) mesmo na presença de um antibiótico. Quando isso acontece, o antibiótico deixa de ter o efeito desejado e a infeção até se pode tornar mais violenta. Entramos, assim, num ciclo preocupante: antibiótico –> bactéria resistente –> infeção difícil ou impossível de tratar.

Os antibióticos não são apenas usados para tratar infeções em humanos. São também utilizados no tratamento de infeções bacterianas em medicina veterinária, como promotores de crescimento em animais que fazem parte da cadeia alimentar e como pesticidas no controlo de infeções na agricultura. Ou seja, estão muito mais presentes no nosso dia-a-dia do que imaginamos, o que torna essencial uma utilização cautelosa e responsável.

Mas por que razão se trata de um problema de saúde pública? Quanto maior o número de bactérias resistentes, maior será a necessidade antibióticos diferentes e mais potentes. No entanto, a velocidade com que as bactérias desenvolvem resistências é muito superior à velocidade de descoberta de novos antibióticos. Em suma, a crescente resistência pode levar a um futuro – talvez mais próximo do que pensamos – em que não existam tratamentos eficazes para infeções comuns.

É importante compreender que nem sempre a ausência de prescrição de um antibiótico significa falta de tratamento. Muitas vezes, significa exatamente o contrário: uma decisão consciente e responsável, baseada na melhor evidência científica, para proteger a saúde do doente no presente e evitar resistências no futuro.

Sendo um problema de saúde pública, todos nós podemos contribuir para a sua prevenção:

Os antibióticos são um recurso precioso capazes de salvar vidas, mas só continuarão a fazê-lo se forem usados de forma responsável. Cada vez que os utilizamos de forma consciente estamos não só a proteger a nossa saúde, mas também a de todos à nossa volta. O combate à resistência de antibióticos começa em pequenos gestos diários – gestos de cuidado, consciência e responsabilidade hoje, para garantir tratamentos eficazes no futuro.

Carta a um jovem poeta

– (porque se eu ao menos tivesse lido esta carta antes…)

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Caro jovem poeta, de dezoito anos, Júlio,

Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de saúde e cheio de jovialidade.

Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como é, está, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, está adiado e, assim, para sempre, a glória que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, está perdido; não há, como querias, um pedaço deste Céu.

Caro poeta, mas não desanimes. A vida se é longa, ou curta, não importa – importa mais a sua ligeireza aos assuntos do coração – e da razão.

Diria eu, do alto do meu posto, onze anos à frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel é mesmo essa, a palavra – absurda – “Vazio”, a mesma que tu adiarás constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu coração, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de mágoas.

Publicarás; é certo – mas quem não neste ermo? Isso não é critério e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.

Escrever versos dói – dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, à latitude desse verso, uma distância concreta entre o passado e o futuro – dói saber quem somos, e o que somos, enfim, (só) a penugem do Tempo, o pó da calçada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da maré alta.

Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim – com “y”, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu não és uma má pessoa; és uma pessoa à qual más coisas aconteceram – e, para tal, movido pela fúria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperançoso, demorado, ansioso, adiado …e, muitas vezes, odiado.

Espero-te, jovem poeta Júlio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que não consegues enxergar com esses olhos cheios de esperança e de virilidade: fala-te quem já passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem já viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.

Não basta escrever bem; é preciso ter uma boa fama no público, ser apupado e respeitado pelas elites; é necessário conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus próprios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consciência cheio de urina pálida. Sim: de escura urina, para não dizer outra palavra – porque nada mais importa do que ser verdadeiramente “importante” nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual quê, também falhará.

Assim te vês, decerto, no presente: muito “importante”, inédito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, ó jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e inéditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno – prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo cânone ou pelo Nobel… ou pelo premiozinho literário.

Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas não nos futuros louvores, mas em ti. E, embora não o vás fazer, que o faças, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho – longe de todos: vale a poesia a pena nas mãos de um jovem poeta?

Escrevo-te para te salvar; embora já esteja perdida, de pouca absolvição, a tua nobre, e genuína, pena… Então, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servirá mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinatário.

Assim o farás: porás estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de alguém verdadeiramente amigo e lúcido, terás a tua jovem consciência, virtuosa, a afirmar-te com raiva: “É um grande disparate!”. E, não obstante acompanhado de outros poetas – mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles também te deixarão à berma da estrada, por só… e só, somente sozinho com a tua consciência.

Restar-te-á, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atrás. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, Júlio. Não se desfaz. Não há remédio. Nem retorno. Nem absolvição.

Mas não será, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa só sua?

Então, também a terás, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.

Lamento contar-te, mas, de ti, verá auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solidão ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio – terminarás, ó se sim…, os primeiros degraus académicos e, por ora, não te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, só por isso – eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles…

Termino, ó jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: lê! Lê! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.

Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremediável. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o coração e, claro, a escrita.

Com enorme estima,
o teu
Júlio Tavares Oliveira

Água de Pau celebra desporto e comunidade na sétima edição da Corrida da Vila

Evento integrado no Campeonato de Estrada de São Miguel reuniu 120 atletas, distribuídos por vários escalões etários

© CM LAGOA

A Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, foi esta sexta-feira, 7 de fevereiro, o palco da sétima edição da “Corrida da Vila”, uma iniciativa que juntou 120 atletas de diversos escalões etários. Organizada pelo Clube Desportivo Escolar e pela Junta de Freguesia local, a prova afirmou-se como um momento de convívio comunitário e promoção do atletismo junto das camadas mais jovens.

O evento contou com o apoio logístico da Câmara da Lagoa e a colaboração técnica da Associação de Atletismo de São Miguel. O percurso, desenhado pelo coração da vila com partida junto à sede da Junta de Freguesia, dividiu-se em dois itinerários distintos: uma volta pequena de 1.000 metros e uma volta grande de 2.600 metros, permitindo a participação de atletas com diferentes níveis de preparação.

Durante a cerimónia de entrega de prémios, o presidente da autarquia lagoense, Frederico Sousa, acompanhado pela presidente da Junta de Freguesia, Vanessa Silva, sublinhou o papel estratégico destas atividades. Para o autarca, a “Corrida da Vila de Água de Pau” é uma ferramenta “fundamental para incentivar a prática desportiva e reforçar a ligação entre a população e o desporto”, destacando o impacto positivo na saúde pública e na identidade da freguesia.

Além da vertente competitiva, a organização enfatizou que o plano desportivo do clube visa a divulgação da Vila de Água de Pau como um polo de dinamismo recreativo. Ao proporcionar o contacto direto com a modalidade num ambiente festivo, o evento procura garantir a renovação do atletismo regional, atraindo um número crescente de novos praticantes.

O sucesso desta sétima edição confirma a tendência de crescimento da modalidade em São Miguel, consolidando a prova como um marco anual na agenda desportiva e social da localidade.

Polícia Judiciária trava entrada de 29 mil doses de droga em São Miguel

© DL

Uma mulher de 25 anos foi detida em flagrante delito pela Polícia Judiciária (PJ), na cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, na posse de uma elevada quantidade de heroína e cocaína, numa operação que retira do mercado ilícito açoriano milhares de doses individuais de estupefacientes.

A detenção, levada a cabo pelo Departamento de Investigação Criminal dos Açores da PJ, ocorreu na sequência de uma ação policial que culminou na apreensão de mais de um quilo e meio de heroína e de um quilo de cocaína.

De acordo com a informação disponibilizada pela Judiciária, o volume de substâncias ilícitas apreendidas seria suficiente para a preparação de aproximadamente 29 mil doses individuais, representando um golpe significativo no tráfico de droga que opera em São Miguel.

A suspeita, uma cidadã de nacionalidade estrangeira e sem antecedentes criminais conhecidos, foi intercetada na posse direta dos estupefacientes no decurso da diligência policial em Ponta Delgada. Após a detenção e a formalização da apreensão da droga, a arguida será agora presente às autoridades judiciárias competentes para o primeiro interrogatório judicial, com vista à aplicação das respetivas medidas de coação.

Marinha resgata oito tripulantes de embarcação de pesca a sul de São Miguel

© MARINHA PORTUGUESA

A Marinha Portuguesa, através do Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC Delgada), coordenou com sucesso o auxílio à embarcação de pesca “Caixa Velho”, de bandeira espanhola, que se encontrava à deriva com oito pessoas a bordo, garantindo a chegada em segurança ao porto de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, na manhã deste sábado.

O alerta foi recebido pelo MRCC Delgada às 9h05 desta sexta-feira, 6 de fevereiro, dando conta de que a embarcação se encontrava a navegar a cerca de 30 milhas náuticas (aproximadamente 60 quilómetros) a sul de São Miguel.

Segundo comunicado da Marinha, de imediato foram acionados os protocolos de busca e salvamento para localizar o pesqueiro, que enfrentava uma falha total de energia a bordo, situação que impossibilitava qualquer contacto com o armador e comprometia a segurança da navegação e dos seus oito tripulantes.

Após a localização da embarcação e o restabelecimento das comunicações, foi efetuado um acompanhamento permanente da mesma durante o trajeto de regresso a terra. A operação, que se estendeu pela madrugada, contou com o envolvimento articulado entre o MRCC Delgada, a Capitania do Porto de Ponta Delgada e a Portos dos Açores, culminando com a atracagem segura da embarcação em Ponta Delgada às 8h40 de hoje, sem registo de danos pessoais.

A história de Outsidah: o rapper de Água de Pau que usa a criatividade como motor das músicas que escreve e produz

Viveu entre Água de Pau e as Bermudas. “The Emigrant” é o seu mais recente tema inspirado na sua vivência. Viajámos com o artista pelo seu próprio mundo

Ruben Almeida tem 30 anos e assume que fazer rap é a sua grande paixão © CLIFE BOTELHO

A música, mais propriamente, o rap, ou hip-hop, está-lhe no sangue. Desde cedo que, Ruben Almeida, 30 anos, conhecido como Outsidah, se fundiu com as notas musicais sem contudo, nunca ter tido formação musical: “neste álbum que vai surgir em abril, eu tentei fazer uma coisa diferente, misturar o rap, o hip-hop, com a visão do fado e não perdendo a própria essência, transmitir a minha mensagem, a minha história, tudo o que eu sofro, tudo o que eu já vivi, tudo o que eu vivo, as minhas perspetivas diferentes” conta ao Diário da Lagoa (DL).

É a partir do seu “home studio”, estúdio em casa, no seu quarto, que escreve, compõe e cria as suas músicas. A mais recente, “The Emigrant”, mistura hip-hop com a sonoridade do fado, um género bem português. “Pensei mais nas minhas raízes. Os meus pais emigraram para a Bermuda quando eu tinha um ano e tal. E tive a vivência durante dez anos lá fora, na Bermuda. Eu sinto-me mais que obrigado a fazer algum tema neste sentido. Para a nossa comunidade dar valor aos emigrantes que se sacrificaram por terem saído da sua terra natal, para procurarem melhores condições de vida fora. Tentei dar valor e uma voz a essas pessoas”, destaca Ruben Almeida.

Natural da vila de Água de Pau, na ilha de São Miguel, é aqui que vive e cria a maior parte das suas músicas. “Já lancei um álbum de três faixas, um EP [Extended Play] com 10 e vou lançar mais um álbum agora para abril, com mais três faixas. Anteriormente eu lancei também um EP com quatro a cinco faixas e estou a persistir ainda”, diz.

O videoclipe do mais recente tema de Outsidah, “The Emigrant”, foi todo gravado em Água de Pau e Água D´Alto. “Eu tinha uma visão e disse assim, ok, na música eu já dei a entender o que é que eu quero trazer, mas também no vídeo, no visual, eu também quero transmitir as minhas raízes e de onde eu sou”. No videoclipe Ruben canta a música que ele próprio escreveu e compôs e conta com a ajuda de alguns figurantes especiais: os avós: “está a minha avó, está o meu avô, está a minha avó do lado materno também, então é ainda mais íntimo. Eles gostaram da experiência, gostaram do conceito e também do vídeo final”, assegura.

“E o que é que eles te dizem, encorajam-te a seguir a música?”, perguntámos. 

“Sim, eles já sabem que eu faço isso há algum tempo, tanto do lado materno, quanto do lado paterno, e gostam. Sempre que tenho algumas novidades, gosto de lhes mostrar, tanto à minha família mais chegada, aos meus pais, como à família que está na América e no Canadá”, conta Ruben Almeida ao DL.

Outsidah explica que ter sido emigrante não foi fácil. “A adaptação a uma cultura diferente foi difícil, vivi a minha infância toda lá fora. O diálogo era diferente, falava diferente, vestia e agia de outra maneira, então foi um bocado difícil” e conta que quando regressou a Água de Pau, demorou “ainda uns dois anos para conseguir fazer parte da comunidade”.

“Viver isto e não viver disto”

Ruben sublinha que nas suas músicas tenta “dar voz” a quem não a tem © CLIFE BOTELHO

Ruben é técnico de vendas e faz da música a sua grande paixão. Reconhece a importância de ter vivido nas Bermudas mas garante que não sente saudades deste território ultramarino do Reino Unido, no Atlântico Norte. “Acabou por dar-me o inglês perfeito que eu consigo transmitir na música”, admite.

Nas suas músicas, Outsidah fala sobretudo do que já passou: “eu sofri de bullying durante dois anos, tentei e consegui colocar todas as minhas tristezas, angústias na escrita, no papel, transformando-as em poesia e em rap, e até hoje, tenho 30 anos, vou fazer 31, ainda estou a persistir e a ser consistente neste assunto”, garante. 

“Se nós não tivermos paixão por aquilo que fazemos, isso se torna uma obrigação, e quando se torna uma obrigação, não vai ter o mesmo efeito. Como disse o meu amigo André Saudade noutra entrevista, o objetivo é ‘viver isto e não viver disto’”, assegura, referindo-se à música.

Com a sua música, Ruben tenta “dar voz” a quem não a tem: “não espero retorno, mas sim transmitir a minha mensagem, algo que eu tento sempre dar às pessoas que já passaram pelo mesmo, ou que passam por outras histórias similares, e não têm voz”. 

Outsidah faz da criatividade o motor de toda a sua criação musical. “Gosto sempre de explorar e expandir os meus horizontes. Tanto na escrita, quanto na forma de cantar vai ser sempre diferente para mim. Cada música tem a sua própria personalidade. Mas, claro, não perco a essência e eu falo sempre sobre a minha vivência”, garante.

Em abril, lança o seu novo álbum chamado “Roots”, que significa raízes. Sobre onde encontra inspiração para escrever e compor, Ruben diz que consegue “assentar as ideias, quando está tudo mais tranquilo, sem ninguém .Eu gosto muito de ir para perto do mar, porque transmite mais tranquilidade”. Mas também diz que “a inspiração pode surgir em qualquer lugar ou hora”. “Posso ter inspiração através de uma interação com um amigo, uma interação com uma pessoa de fora, ou quem não conheço. Pode depender de uma viagem que fiz ou de uma discussão antiga. Coisas que já passei ou que gostava de passar. Ou mesmo aleatórias. Sobretudo, foco-me no que eu vivo, o resto vem em ‘EgoTrip’”, uma espécie de “viagem do ego”.

Apesar de ser uma viagem muito dele, Ruben Almeida faz questão de sublinhar o apoio dos amigos durante todo o processo de concretização das suas músicas. “Consigo manter a minha criatividade ativa, falando com as pessoas certas. Tanto com o André Saudade, o Bruno Cabral, o Rafael Tavares, o Luís Coutinho. Tenho um amigo de infância, o Guilherme Pacheco que também me ajudou na mixagem e masterização”. Todos contam.

E porquê “Outsidah”? “Porque senti-me um forasteiro”, responde. “Ainda te sentes como um outsider?” quisemos saber. “Eu já me encaro como um insider”, conclui, a rir.

Diretor do Diário da Lagoa defende literacia mediática para travar perigos da Inteligência Artificial

Clife Botelho analisou a mensagem do Papa Leão XIV para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Em entrevista à agência Igreja Açores, o responsável pelo jornal defende que a literacia mediática é a única solução contra a desinformação

Clife Botelho sublinha que a Inteligência Artificial já é uma realidade incontornável © ACÁCIO MATEUS

O alerta do Papa Leão XIV sobre os perigos da Inteligência Artificial, lançado na mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, reflete um receio global perante uma tecnologia que, embora inovadora, carece ainda de regulamentação e tem um impacto profundo no jornalismo e na vida quotidiana. A análise é de Clife Botelho, diretor do Diário da Lagoa, que em declarações à agência Igreja Açores sublinhou a urgência de reforçar a literacia mediática e preservar o humanismo na comunicação social. Para o diretor, a mensagem do Papa ecoa o “medo do desconhecido”, uma reação natural do ser humano perante algo que evolui de forma tão rápida e imprevisível, sublinhando que a voz do Pontífice é um alerta relevante não apenas para a comunidade católica, mas para toda a sociedade civil.

No campo da comunicação social, Clife Botelho sublinha que a Inteligência Artificial (IA) já é uma realidade incontornável e pode ser uma aliada nas redações, nomeadamente em tarefas técnicas como a transcrição de entrevistas ou a organização de dados, permitindo uma gestão de tempo mais eficiente. No entanto, o diretor do Diário da Lagoa deixa um aviso: a tecnologia deve ser encarada estritamente como um instrumento e “nunca como um substituto do jornalista”. O grande risco, aponta, reside na tentação de alguns órgãos de comunicação optarem por conteúdos gerados integralmente por algoritmos, o que sacrificaria a ética, o espírito crítico e a autenticidade que definem o bom jornalismo.

Um dos perigos mais prementes identificados pelo responsável é a proliferação desenfreada de notícias falsas e de plataformas digitais que sobrevivem à custa de “cliques” e publicidade enganosa. Neste ecossistema, torna-se cada vez mais difícil para o cidadão comum distinguir a informação verificada de conteúdos manipulados. Clife Botelho recorda casos mediáticos de imagens geradas por IA que enganaram milhões de utilizadores em todo o mundo, alertando para o facto de que esta confusão generalizada leva a que as pessoas comecem a duvidar de tudo, incluindo do jornalismo sério e credível que se faz nas comunidades locais.

A situação agrava-se com a dependência dos dispositivos móveis para o consumo de notícias. Segundo o diretor do Diário da Lagoa, sem uma base sólida de literacia mediática, os cidadãos ficam vulneráveis a manobras de desinformação e boatos que se espalham instantaneamente nas redes sociais. Por esta razão, Clife Botelho defende que a educação para os media deve ser uma prioridade nas escolas, começando desde os primeiros anos de escolaridade. O objetivo é capacitar as novas gerações para o escrutínio das fontes e para a distinção clara entre factos verificáveis e opiniões infundadas ou discursos de ódio.

Clife Botelho destaca ainda a importância do apelo do Papa para a preservação de “vozes e rostos humanos”. Num futuro onde pivôs virtuais e vozes sintéticas podem simular a presença humana, a questão da autenticidade torna-se central. O diretor sublinha que a perda do lado humano na comunicação não é apenas uma perda profissional, mas um risco para a própria democracia. Além disso, aponta o dedo ao papel dos algoritmos que alimentam a polarização social, criando “bolhas” onde as pessoas apenas recebem conteúdos que reforçam os seus preconceitos, impedindo o diálogo e o contraditório.

Apesar deste cenário desafiante, Clife Botelho evita adotar uma visão catastrofista, acreditando que a regulamentação será o caminho inevitável. Aponta a União Europeia como um exemplo de onde o debate legislativo já começou e reforça o papel vital das entidades reguladoras em Portugal. Para o responsável do Diário da Lagoa, o jornalismo de proximidade tem agora uma responsabilidade redobrada: ser o porto de abrigo da verdade num mar de conteúdos artificiais. “O jornalismo tem de reafirmar a sua utilidade essencial: a verificação dos factos”, conclui, reforçando que a mensagem papal é, acima de tudo, um convite à ética e à defesa de uma comunicação humana num mundo digitalizado.

Inetese sensibiliza comunidade escolar na Lagoa no Dia Mundial do Cancro

Através da decoração de laços e da partilha de mensagens inspiradoras, a iniciativa envolveu a comunidade escolar numa homenagem simbólica à coragem e resiliência de quem enfrenta a doença

© INETESE

O polo da Lagoa do Inetese – Instituto de Educação Técnica assinalou, no passado dia 4 de fevereiro, o Dia Mundial do Cancro, através de uma iniciativa de sensibilização promovida pelos alunos do curso de Comunicação-Marketing, Relações Públicas e Publicidade. A atividade, que uniu criatividade e solidariedade, consistiu na pintura e decoração de laços, acompanhados por frases inspiradoras, como forma simbólica de homenagem a todos os que enfrentam ou já enfrentaram esta doença.

Durante a jornada, os alunos organizadores percorreram as diferentes turmas da instituição para explicar o significado da efeméride e convidar toda a comunidade escolar a participar na decoração dos laços. A ação visou reforçar a importância da informação, da empatia e do apoio mútuo no combate ao cancro, destacando que a escola deve ser também um espaço de consciência social.

Segundo comunicado enviado pela escola profissional, para os promotores da iniciativa, este dia serve para recordar que, para além da luta clínica contra a doença, existem histórias de coragem, resiliência e esperança que merecem ser celebradas. O Inetese na Lagoa sublinha, com este evento, que pequenos gestos podem fazer a diferença na vida de quem atravessa momentos difíceis, reafirmando o princípio de que a união e a solidariedade tornam a comunidade mais forte.

Requalificação da Fábrica do Açúcar abre “novo ciclo” urbano em Ponta Delgada

Proposta orientadora prevê polo multifuncional com habitação, cultura e comércio na antiga fábrica da Sinaga

© SRFPAP

A antiga Fábrica do Açúcar (Sinaga), em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, será transformada num polo multifuncional de regeneração urbana que combina habitação acessível, espaços culturais, áreas verdes e valências económicas. A proposta orientadora para a intervenção, apresentada esta quinta-feira, 5 de fevereiro, no Teatro Micaelense, resulta de um processo de planeamento participativo entre o Governo regional dos Açores e a Ordem dos Arquitetos, marcando o que a autarquia local classifica como um “novo ciclo” para a zona poente da cidade. O projeto incide sobre uma área de mais de cinco hectares na freguesia de Santa Clara e propõe um modelo de uso misto que preserva a memória industrial do complexo, articulando-se com valores patrimoniais e naturais relevantes, como a Gruta do Carvão.

O programa de usos, detalhado no relatório de participação pública, prevê a criação de comércio e restauração de proximidade, pequena indústria alimentar, escritórios e espaços de coworking, além de serviços comunitários e habitação com quota acessível. Para garantir a viabilidade da intervenção, o documento técnico recomenda a classificação de elementos do conjunto como Imóvel de Interesse Público e identifica a necessidade urgente de obras de conservação nas coberturas e estruturas para estancar a degradação do edificado.

O secretário regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública, Duarte Freitas, sublinhou o caráter “exemplar” deste exercício de cidadania, destacando que a mobilização pública registada durante as fases de auscultação valida a estratégia do executivo. Segundo o governante, o Governo avançará nos próximos meses com um procedimento concursal que integrará a conceção, construção e concessão, sem excluir soluções específicas para parcelas distintas do terreno.

Pela parte do município, o presidente da Câmara de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral, afirmou ser um “imperativo categórico” projetar valências que dignifiquem o tempo atual e criem referências para as novas gerações. O autarca enalteceu o diálogo institucional e reiterou a disponibilidade total da autarquia para colaborar na implementação de soluções que revitalizem a zona urbana a poente da cidade, transformando o antigo complexo fabril numa alavanca de desenvolvimento económico e social para a ilha de São Miguel.

Para a concretização do plano, a Comissão de Trabalho sugere um modelo de concurso que avalie em simultâneo a qualidade arquitetónica e a viabilidade económica, admitindo-se ainda a criação de uma Unidade de Execução para garantir que o desenvolvimento do complexo ocorra de forma faseada, coerente e integrada na malha urbana existente.

Juiz jubilado condenado a pena suspensa por abuso de menores na Lagoa

Manuel Mota Botelho foi condenado por nove crimes de recurso à prostituição de menores. O coletivo de juízes sublinhou que o arguido se terá aproveitado da vulnerabilidade de jovens institucionalizados

© STJ

O Supremo Tribunal de Justiça condenou o juiz conselheiro jubilado Manuel Mota Botelho, natural da cidade da Lagoa, na ilha de São Miguel, a uma pena de cinco anos de prisão, suspensa por igual período, pela prática de nove crimes de recurso à prostituição de menores.

De acordo com o jornal Açoriano Oriental, os factos ocorreram entre 2019 e 2023 e envolveram jovens institucionalizados da Santa Casa da Misericórdia da Lagoa. O tribunal deu como provado que o arguido, de 73 anos, se aproveitava da vulnerabilidade socioeconómica das vítimas, atraindo-as com boleias e pagando 25 euros por cada ato sexual.

O mesmo jornal indica que na leitura do acórdão, a juíza conselheira Ana Paramés sublinhou a “personalidade distorcida” do magistrado, realçando que as funções de prestígio que este exerceu no Tribunal de Contas deveriam ter servido de impedimento ético à prática dos crimes. O caso foi denunciado pelos responsáveis da instituição onde os menores residiam, após terem detetado a posse de bens incompatíveis com os rendimentos dos jovens.

Embora o arguido tenha sido absolvido de sete dos 16 crimes iniciais, a condenação foi fixada mediante a prova do intuito de exploração de menores vulneráveis. A suspensão da pena foi justificada pela idade de Manuel Mota Botelho, ficando, contudo, condicionada ao pagamento de indemnizações às três vítimas, à frequência de um programa psicoterapêutico de prevenção de abusos sexuais e à inclusão do seu ADN na base de dados nacional de agressores sexuais.

De acordo com a SIC Notícias, «o novo processo, em que o juiz foi hoje condenado, foi aberto a partir de uma escuta ao telemóvel de “Farfalha”».