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Joice Yane: A liderança feminina e a reinvenção profissional no Dia da Mulher

Em entrevista, a ex-profissional de aviação internacional explica como transformou uma transição de carreira num projeto dedicado ao autoconhecimento e à liderança consciente

Líder do ‘TheProjectJoy’, Joice Yane partilha o seu percurso de transição entre a lógica operacional e a arquitetura da consciência © AGÊNCIA INCOMPARÁVEIS

No Dia Internacional da Mulher, a trajetória de Joice Yane surge como estudo de caso sobre reinvenção profissional e reposicionamento pessoal. Depois de anos na aviação internacional, num setor marcado por exigência operacional e rigor comunicacional, decidiu interromper um percurso considerado estável para liderar o “TheProjectJoy”, iniciativa centrada no autoconhecimento e na expansão da consciência. A mudança não foi apenas de carreira. Foi, como a própria define à nossa reportagem, um reposicionamento existencial que transformou crise em estrutura e introspeção em projeto com identidade própria.

A líder do “TheProjectJoy” estará em Portugal para participar no Congresso Internacional Metamorfose da Alma, onde conduzirá, a 17 de abril, um workshop sobre arquitetura da consciência, ao lado de Cátia Simionato. No dia seguinte apresentará uma palestra dedicada às realidades paralelas e à manifestação da realidade, culminando, a 19, com a exposição dos seus quadros no hall da Torre de Águila. No momento em que o debate sobre liderança feminina ganha novos contornos, Joice Yane afirma-se como exemplo de transição estratégica entre mundos distintos, assumindo-se hoje como ponte entre lógica e intuição, ciência e mistério, numa abordagem que procura traduzir conceitos complexos em linguagem acessível e aplicável.

DL: Ao olhar para a sua trajetória, que passa da aviação internacional para a liderança do “TheProjectJoy”, de que forma o reposicionamento de carreira se tornou um exercício de afirmação pessoal e profissional enquanto mulher?
O meu reposicionamento não foi apenas profissional, foi existencial. Durante anos, tive de aprender a comunicar, a posicionar-me e a lidar com o mundo externo. Mas a verdadeira afirmação aconteceu quando tive coragem de escutar o mundo interno. Assumir a mudança de rumo significou confiar na minha própria perceção, mesmo quando ela não correspondia aos caminhos considerados “seguros”. Para uma mulher, isso é um ato de soberania. É reconhecer que o sucesso não é apenas aquilo que se vê de fora, mas aquilo que se sustenta por dentro.

DL: Num mercado que ainda valoriza percursos lineares, como foi assumir uma mudança profunda de rumo e transformar uma crise pessoal e global num projeto estruturado com identidade própria?
Foi um salto de consciência. A pandemia obrigou o mundo a parar, e a mim obrigou-me a olhar. O que parecia interrupção revelou-se alinhamento. Em vez de resistir à crise, usei-a como portal de reinvenção. O “TheProjectJoy” nasceu desse momento de silêncio e observação, como uma escola de pensamento dedicada a introduzir uma nova lógica de compreensão da realidade. O percurso pode não ter sido linear, mas foi coerente, e coerência interna vale mais do que linearidade externa. E mais tarde percebi também que a linearidade é uma ilusão criada pela mente humana, que foi designada para identificar harmonia e coerência nos padrões da natureza, mesmo sabendo que vem e vive no meio do caos.

DL: A sua história envolve silêncio, introspecção e reconstrução interna. Que competências desenvolvidas nesse processo considera hoje decisivas para a afirmação feminina em contextos de pressão, exposição e tomada de decisão?
Clareza interna, autoconsciência e estabilidade emocional. Quando uma mulher desenvolve essas três competências, ela deixa de reagir ao mundo e passa a responder a partir de si. A pressão externa perde força quando a referência interna é sólida. A introspeção ensinou-me que a verdadeira autoridade não nasce da validação, nasce do alinhamento.

DL: A experiência na aviação foi um ponto de viragem na sua comunicação e posicionamento. Que aprendizagens desse período continuam a influenciar a forma como lidera e comunica hoje?
A aviação foi um ponto de viragem na minha comunicação e no meu posicionamento. Esse período ensinou-me presença, precisão, inteligência emocional e responsabilidade. Num avião, comunicar não é apenas falar; é observar, sentir o ambiente e agir com consciência. Servir não é simplesmente entregar uma refeição, mas saber ler o que cada passageiro precisa, mesmo quando ele próprio ainda não percebeu. Trabalhar em equipa não é apenas saber delegar, é cuidar de cada membro como se fosse a pessoa que poderia salvar a sua vida, porque, de facto, pode ser necessário. Levo esses princípios para tudo o que faço hoje. Liderar um projeto exige exatamente as mesmas competências: capacidade de leitura humana, clareza na mensagem, responsabilidade na informação transmitida e serenidade diante de contextos imprevisíveis.

DL: O “TheProjectJoy” nasceu de uma lógica não convencional. Como é gerir um projeto liderado por uma mulher num campo que ainda enfrenta resistência institucional e preconceito simbólico?
Gerir um projeto inovador implica aceitar que resistência faz parte do processo. Sempre que surge uma ideia nova, ela primeiro é questionada, depois testada e só depois compreendida. Ser mulher nesse contexto acrescenta responsabilidade, porque a presença feminina em espaços de pensamento ainda em expansão representa abertura de caminho para outras. Não vejo a resistência como obstáculo, mas como indicador de fronteira. E fronteiras são exatamente os lugares onde nascem novas visões.

DL: Em 2025, falar de carreira feminina implica também falar de coragem para parar e redefinir prioridades. Que mensagem considera essencial para mulheres que sentem sucesso externo, mas desalinhamento interno?
Se existe desalinhamento interno, o sucesso externo não é sustentável. A mensagem é simples: parar não é falhar, é recalibrar. A pausa consciente é um ato de inteligência, não de fraqueza. Toda mulher que tem coragem de se escutar dá início a um processo de transformação que nenhuma validação externa consegue substituir.

DL: Num Dia Internacional da Mulher marcado por debates sobre liderança e propósito, que responsabilidade sente enquanto mulher empreendedora ao influenciar outras trajetórias femininas?
Sinto a responsabilidade de mostrar que autenticidade é estratégia, não risco. Quando uma mulher se permite existir sem se moldar ao que esperam dela, ela autoriza outras a fazer o mesmo. Influenciar, para mim, não é criar seguidoras. É despertar líderes.

DL: Explique o projeto que lidera hoje…
O “TheProjectJoy” é uma escola do pensamento dedicada à introdução de uma nova lógica de compreensão da realidade, funcionando como uma ponte entre ciência, consciência e percepção. O projeto parte da premissa de que aquilo que muitas vezes é rotulado como irracional pode, na verdade, ser observado, analisado e até quantificado, o que abre um novo campo de exploração em todos os níveis da experiência humana. Atualmente, o foco está cada vez mais direcionado ao ensino e à mentoria, formando pessoas para expandirem a forma como interpretam a realidade, a si mesmas e o universo.

DL: Quais as suas expetativas em relação à sua participação no Congresso Internacional Metamorfose da Alma? O que o público pode esperar?
Será uma participação multidimensional, alinhada com a essência do meu trabalho. No dia 17 de abril conduzirei um workshop, juntamente com Cátia Simionato, dedicado à arquitetura da consciência. No dia 18 apresentarei uma palestra sobre realidades paralelas e manifestação da realidade. E no dia 19 estarão expostos os meus quadros de pintura canalizada no hall da Torre de Águila. O público pode esperar profundidade, clareza e expansão de perceção.

“Não tive apoio do meu ex-namorado que chegou a chamar-me de avariada porque tinha o peito retalhado”

Helena Sousa, 44 anos, é um entre muitos exemplos de mulher que sobreviveu praticamente sozinha às amarguras da vida. De reanimada aquando do nascimento da filha à superação de um cancro da mama, a segurança privada de profissão curou-se “praticamente sozinha”

Helena Sousa diz que só quer paz, viver para si e reconhecer-se como mulher © ACÁCIO MATEUS

Dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher. Mais do que uma data para homenagear as mulheres que viram o seu papel na sociedade desvalorizado, este é um momento para valorizar quem, por sua conta e risco, enfrentou a morte depois de receber um diagnóstico de cancro, mas recusou desistir e continua presente para contar a sua história de vida.

Helena Sousa, 44 anos, natural da freguesia do Pico da Pedra, é um exemplo de mulher que ofereceu o peito às balas e recusou desistir perante um diagnóstico que abala qualquer pessoa. A irmã mais nova de quatro filhas não teve uma adolescência/início de vida adulta fácil, pois só concluiu o 9.º ano antes de emigrar para o Canadá, país onde conheceu o ex-namorado.

Poucos meses depois da experiência em solo canadiano, regressou a São Miguel, tendo engravidado para o filho mais velho. Mais tarde foi mãe pela segunda vez, de uma menina. Com pouco mais de vinte anos de idade já tinha dois filhos à sua responsabilidade e um futuro ex-namorado pouco solidário, entregue ao álcool e à droga.

A história de vida de Helena Sousa é contada na primeira pessoa. “Cresci na infância com mais três irmãs, todas mais velhas. Atualmente vivo em Ponta Delgada. Estudei no Pico da Pedra e depois fiz o Liceu até ao 9.º ano. Emigrei para o Canadá onde conheci o meu ex-marido, pai dos meus filhos. Não correu muito bem. Voltei a São Miguel para morar em casa da minha mãe, grávida do meu filho mais velho. Ele veio comigo, moramos ambos em casa da minha mãe. Ainda tivemos uma filha, atualmente com dezasseis anos. Depois comprei uma casa na Lagoa”, resumiu.

Do sonho ao pesadelo

O sonho de uma vida a dois estava prestes a esfumar-se. “A crise entre 2012/2013 colocou-me no desemprego e fomos todos para casa. O meu ex-namorado também perdeu o emprego porque era segurança e com os problemas de alcoolismo que ele começava a evidenciar não ajudou. Tivemos de entregar a casa ao banco, mas ainda ficou uma dívida para pagar. Divorciamo-nos… Voltei para casa da minha mãe. Quando consegui uma casa mais barata mudei-me para Ponta Delgada e dei uma segunda oportunidade ao meu ex-namorado. Mas ele já estava nos vícios e depois andou na droga, alcoolismo e tudo se complicou”, recordou.

O pior veio depois. “Em 2024 decidi tirar o curso de segurança. Nessa altura já evidenciava alguns sintomas como o peito inchado. Antes do incêndio no Divino Espírito Santo tive febres muito altas e fui ao hospital. Parecia que ia morrer. A minha médica estava de serviço e mandou-me fazer antibiótico. Levou um bocado de tempo a passar, mas a massa dura persistia. Voltei uns tempos depois e voltei ao antibiótico. Ela pediu uma mamografia de urgência, mas com o incêndio tudo se complicou e, em junho, apareceu nova infeção. Acabei por pagar tudo do meu bolso na CUF e foi lá que foi detetada uma pequena suspeita. Fiz uma biopsia”.

A consulta agendada para 20 de agosto foi antecipada duas semanas. “Chamaram-me para o dia 4 de agosto e, nessa altura, percebi qual seria o resultado. A médica informou-me que era um tumor maligno, mas que era localizado, pelo que iria apenas fazer cirurgia e radioterapia. Mas, nessa altura, já estava a trabalhar e voltou tudo para trás. Tive de colocar baixa médica e fiquei sem receber qualquer apoio porque não tinha seis meses de trabalho para ter direito a apoio da Segurança Social. Foi muito complicado…”, assumiu.

Helena Sousa foi operada pela primeira vez a 5 de setembro de 2024. “Correu tudo bem”, disse. Dois dias depois teve alta, mas dois meses volvidos a médica “disse-me que tinha dois tipos de cancro: um intradutal e outro invasivo, sendo que o invasivo é mais complicado porque espalha-se para outros órgãos através das células”. Solução? “Tive de ser novamente operada para limpar o cancro invasivo e tive de fazer quimioterapia. Nessa altura não aguentei o choro porque o meu cabelo era comprido e sabia que iria cair. Para a imagem da mulher é algo difícil. Quando fui operada ao peito e olhei-me ao espelho e vi que me falta um mamilo também não é fácil”.

Com um tumor com cerca de 7,5 centímetros, Helena Sousa não tinha muitas opções. “No espaço de um mês fui operada por duas vezes. Correu tudo bem, mas depois fui encaminhada para a oncologia para a quimioterapia. Foram dezasseis sessões durante cinco meses. Mexeu comigo. Só queria deitar-me. O cansaço extremo quase não dava para subir as escadas de casa”, recordou.

Depois da quimioterapia veio a radioterapia e uma injeção hormonal de três em três meses para reduzir as células malignas. “Esta medicação é para reduzir o estrogénio para que o cancro não volte”, acrescentou.

Sou uma grande mulher”

Depois de dois anos a lutar pela vida, Helena Sousa voltou ao trabalho, como segurança, mas como uma mulher diferente. “A vida ensinou-me a pensar mais em mim. Sempre dei muito de mim aos outros, sempre lutei pelos meus filhos porque o pai ou está internado numa clínica ou está na rua. Quando os meus sogros faleceram ele recebeu a herança, mas não deu nada aos filhos. Os meus filhos só têm a mim e à minha mãe que também lida com cancro de pâncreas”.

“Sinto-me uma mulher diferente, mais madura. Conseguir colocar um travão numa relação tóxica, narcisista, durante a qual fui maltratada. Curei-me praticamente sozinha. Não tive apoio do meu ex-namorado que chegou a chamar-me de avariada porque tinha o peito retalhado. Depois de tudo o que já passei – inclusivamente duas reanimações quando a minha filha nasceu porque apanhei uma bactéria no hospital – só quero é paz, viver para mim e reconhecer-me como mulher. Sei que sou uma grande mulher!”

Mónica Seidi assinala Dia da Mulher com foco na redução das desigualdades salariais na região

Governante apela ao reforço das políticas públicas e da sensibilização para garantir uma sociedade açoriana livre de discriminação e mais equitativa

Momento reuniu mais de uma centena de trabalhadoras da tutela para assinalar Dia da Mulher © SRSSS

A secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, assinalou o Dia Internacional da Mulher através de uma iniciativa simbólica no Solar dos Remédios, em Angra do Heroísmo, no passado dia 6 de março. O momento reuniu mais de uma centena de trabalhadoras da tutela numa fotografia conjunta que, segundo nota enviada pela Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social, visou reconhecer o contributo diário das mulheres para o desenvolvimento dos Açores e renovar o compromisso do Governo regional com a promoção da igualdade, tanto no mercado de trabalho como na sociedade em geral.

Durante a iniciativa, a governante destacou que a data constitui uma oportunidade para valorizar o papel feminino no crescimento social, económico e institucional do arquipélago açoriano, reforçando a importância de políticas que garantam uma igualdade efetiva de oportunidades. De acordo com os dados partilhados pela Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social, baseados no Barómetro das Diferenças Remuneratórias, os Açores registam atualmente um gender pay gap de 11,3% na remuneração base e de 13,3% no ganho médio. Estes indicadores, referentes a 2023 e publicados este ano, revelam-se inferiores à média nacional (12,5% e 15,4%, respetivamente).

No que diz respeito à presença feminina em funções de liderança, a secretaria regional da Saúde e Segurança Social detalha que as mulheres representam já 53% dos cargos de direção intermédia na Administração Pública Regional, ao passo que nos cargos de dirigente superior de 1.º grau a representação fixa-se nos 43,7%. No entanto, e apesar dos progressos estatísticos, Mónica Seidi reconhece que ainda persistem desafios estruturais. “Apesar dos progressos registados, continua a ser necessário reforçar a sensibilização, a monitorização e as políticas públicas que promovam uma igualdade efetiva entre mulheres e homens”, afirmou a secretária regional, citada no comunicado da sua tutela.

A responsável concluiu a sua intervenção reforçando a vertente política e social da data, sublinhando que “assinalar o Dia Internacional da Mulher é também reafirmar o compromisso do Governo dos Açores com uma sociedade mais justa, equitativa e livre de discriminação”.

Lagoa debate soluções para travar sinistralidade sobre duas rodas

Encontro no Nonagon reuniu Governo regional, Câmara da Lagoa e especialistas para debater estratégias de prevenção e o reforço da responsabilidade individual nas estradas

© JF

O auditório do Nonagon, na cidade da Lagoa, ilha de São Miguel, serviu de palco este sábado, 7 de março, para uma análise profunda e multifacetada sobre a segurança dos motociclistas em Portugal. A iniciativa, organizada pela Associação Bênção dos Capacetes (ABC), reuniu governantes, autarcas e especialistas num esforço conjunto para encontrar soluções que permitam inverter os indicadores preocupantes de sinistralidade que envolvem veículos de duas rodas.

A sessão de abertura do V Fórum Nacional de Segurança, Sensibilização e Prevenção Rodoviária para Motociclistas, foi marcada pela intervenção do presidente do Governo regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, que defendeu a necessidade de uma “abordagem de proteção cívica e civil” perante os riscos da estrada. O líder do executivo açoriano destacou que a segurança não depende apenas de infraestruturas, mas de uma estratégia assente em três pilares fundamentais: proteção, conhecimento e valorização. Segundo Bolieiro, a literacia sobre os riscos da condução e o papel das escolas de condução são “fundamentais na preparação de condutores mais conscientes”, sublinhando que a responsabilidade individual deve ser o ponto de partida para a proteção coletiva. “A cada passo que damos devemos reforçar um espírito de proteção pessoal e de proteção pelo outro”, afirmou o governante, reforçando o compromisso do executivo regional com esta causa.

Por outro lado, a visão técnica e operacional da gestão do território foi trazida pelo vice-presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Nelson Santos. O autarca destacou que o Município tem procurado passar das palavras aos atos através de medidas concretas, como a renovação de pavimentos, o reforço da sinalização e a reorganização do estacionamento para eliminar bloqueios de visibilidade. Nelson Santos foi incisivo ao abordar a complexidade da gestão urbana, lembrando que “o território não é elástico” e que a segurança exige, muitas vezes, opções que privilegiam o bem comum em detrimento da conveniência individual. “No momento decisivo, o que salva vidas é uma escolha”, afirmou o vice-presidente, concluindo com o apelo de que “chegar a casa não pode ser sorte, tem de ser uma certeza”.

O debate contou ainda com a participação de diversos especialistas e forças de segurança, que alertaram para a evolução negativa dos dados de acidentes com motociclos a nível nacional. Foi consensual a ideia de que é necessário intensificar a fiscalização, mas também apostar numa formação contínua que acompanhe a evolução dos meios de mobilidade. A presença de entidades como a PSP, a GNR e a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária reforçou o caráter nacional do encontro, que procurou não apenas diagnosticar o problema, mas traçar recomendações práticas. No encerramento dos trabalhos, ficou clara a expectativa de que este fórum resulte em compromissos de continuidade, unindo o poder político, as autoridades e o movimento associativo, representado pela Associação Bênção dos Capacetes, num objetivo comum: garantir que a estrada seja um espaço de circulação segura para todos.

A agricultura também tem rosto de mulher

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Celebramos o Dia Internacional da Mulher.
Este ano com um significado ainda mais especial: 2026 foi declarado, pela ONU, como o Ano Internacional da Mulher Agricultora.

É uma oportunidade importante para reconhecer algo que sempre esteve presente, mas que muitas vezes passou despercebido.

A agricultura sempre teve mãos de mulher. Hoje começa, finalmente, a ter voz.

Talvez por isso seja tão importante dizê-lo de forma simples, mas clara: a agricultura também tem rosto de mulher.

Tem o rosto das mulheres que acordam cedo para ajudar na ordenha, que tratam dos animais, que cuidam das culturas, que plantam vinhas e colhem as uvas, que acompanham as contas da exploração e que equilibram o trabalho no campo com a vida familiar. Mulheres que, muitas vezes sem grande visibilidade, foram sempre uma parte essencial da vida agrícola.

Nos Açores, essa realidade é particularmente evidente. Em muitas explorações, as mulheres estão presentes nas decisões, nas tarefas diárias e também nos momentos difíceis que o setor enfrenta. São parte da força silenciosa que sustenta muitas famílias e muitas comunidades rurais.

Durante muito tempo, o papel das mulheres na agricultura foi visto como um complemento. Hoje sabemos que não é assim. As mulheres são cada vez mais agricultoras, gestoras, técnicas, empreendedoras e líderes no setor.

Mas, acima de tudo, são pessoas profundamente ligadas à terra e ao que ela representa.

A agricultura ensina-nos muitas coisas: a paciência, a persistência e o respeito pelos ciclos da natureza. Quem vive da terra sabe que nada se constrói de um dia para o outro e que o futuro depende das decisões que tomamos hoje.

Talvez por isso muitas mulheres tragam também para a agricultura uma forma particular de olhar para o trabalho agrícola: com sentido de cuidado, de responsabilidade e de continuidade.

Mulheres que não pedem privilégios, pedem apenas reconhecimento, condições e oportunidades.

Mas falar das mulheres na agricultura não é apenas reconhecer o passado. É, sobretudo, pensar o futuro.

Quando falamos do futuro da agricultura, falamos da necessidade de atrair jovens para o setor. E isso é verdade. Mas esse futuro também passa por criar condições para que mais mulheres possam escolher a agricultura como projeto de vida.

Isso significa reconhecer o valor do seu trabalho, garantir melhores condições para quem produz e dar espaço para que as mulheres possam também participar nas decisões sobre o futuro do setor.

No fundo, trata-se de algo simples: valorizar quem trabalha a terra. Sem isso, falar de rejuvenescimento do setor é apenas retórica.

Eu própria cresci ligada à agricultura e sei bem o que ela representa para muitas famílias.
Foi na agricultura que aprendi o significado da persistência, da responsabilidade e da ligação profunda entre trabalho e vida.

Sei também que por trás de muitas explorações agrícolas existe sempre uma mulher que ajuda a manter tudo de pé, muitas vezes com discrição, mas com uma força enorme.

A política ensinou-me outra coisa: que liderar é também abrir caminhos para os outros.

E é por isso que acredito que o futuro da agricultura deve ser construído com mais mulheres a decidir, a inovar, a produzir e a liderar.

Porque quando uma mulher ocupa o seu lugar, não transforma apenas a sua própria vida.

Transforma também a comunidade que a rodeia.

Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, e neste Ano Internacional da Mulher Agricultora, vale a pena lembrar algo que sempre esteve diante de nós:

A agricultura não se faz apenas com máquinas, terras ou números.

Faz-se sobretudo com pessoas. E muitas dessas pessoas são mulheres.

Mulheres que trabalham, que cuidam, que resistem e que continuam, todos os dias, a ajudar a construir o futuro da nossa agricultura.

Talvez por isso seja tão importante dizê-lo de forma simples, mas clara: a agricultura também tem rosto de mulher.

Tem o rosto das nossas avós, das nossas mães, das nossas filhas, das agricultoras que hoje continuam a escolher a terra como caminho.

E reconhecer esse rosto é também reconhecer uma verdade essencial: valorizar as mulheres agricultoras não é apenas fazer justiça. É investir no futuro da agricultura e no futuro da nossa sociedade.

Os Açores são um desses lugares

Turismo em tempo de guerra: quando o mundo procura destinos de Paz

Rúben Cabral
Deputado pelo PSD na ALRAA

Vivemos numa época em que a estabilidade internacional já não é garantida.

O Turismo é muitas vezes visto como uma indústria de paz. Viajar aproxima pessoas, culturas e realidades diferentes. Mas é também um dos setores que mais rapidamente reage quando o mundo entra em tensão.

As tensões geopolíticas regressaram ao centro do debate internacional e conflitos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a tensão na Faixa de Gaza e a guerra no Irão lembram-nos que a estabilidade global não é um dado adquirido.

Quando o mundo muda, mudam também os comportamentos das pessoas — e o Turismo é dos primeiros setores a sentir esses sinais. Alteram-se rotas aéreas, aumentam custos, cresce a prudência nas decisões e muda a forma como os viajantes escolhem os seus destinos.

A literatura sobre turismo e crises mostra-nos algo importante: as pessoas raramente deixam de viajar, mas tendem a escolher de forma diferente.

Quando o mundo parece mais incerto, procuram destinos que transmitam confiança e estabilidade, lugares onde seja possível abrandar e sentir alguma distância do ruído das tensões globais.

Mas há também desafios claros. Em contextos de instabilidade internacional, os turistas tendem muitas vezes a privilegiar viagens mais curtas e destinos mais próximos. Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos costumam provocar aumentos no preço da energia e do petróleo, o que pressiona diretamente os custos da aviação e, consequentemente, o preço dos bilhetes.

Para destinos insulares e mais distantes, como os Açores, esta realidade coloca uma exigência adicional. A distância é parte da nossa identidade atlântica, mas também obriga a uma competitividade reforçada: quando viajar se torna mais caro, os turistas escolhem ainda com mais critério, procurando destinos que inspirem confiança e ofereçam experiências que marcam uma vida.

E como temos desvantagem no que às distâncias diz respeito, a qualificação do destino torna-se, absolutamente, decisiva. Num setor cada vez mais exigente, destacam-se os destinos que investem continuamente na qualidade da experiência que oferecem.

Significa formar melhor, organizar melhor e preservar melhor. Significa garantir que quem visita os Açores não encontra somente paisagens extraordinárias, mas também serviços de qualidade, mobilidade eficiente e uma experiência coerente com a sustentabilidade que o arquipélago tem afirmado.

A competitividade turística dos Açores não se constrói apenas com promoção. Constrói-se com qualidade e credibilidade. Com confiança.

É precisamente aí que está o grande desafio dos Açores: continuar a afirmar-se não pela quantidade, mas pela qualidade. Não pela pressa, mas pelo equilíbrio.

Porque, quando o mundo parece mais turbulento, há lugares que se tornam ainda mais valiosos.

Os Açores são um desses lugares.

Açores abrem candidaturas para programas de Ocupação de Tempos Livres com bolsas reforçadas

Jovens e entidades podem candidatar-se até 30 de abril aos subprogramas do OTLJ, que incluem o novo “Verão em Ocupação” e apoios majorados em 20%

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Já estão abertas as candidaturas para a edição de verão 2026 do programa de Ocupação de Tempos Livres dos Jovens (OTLJ), uma iniciativa do Governo regional dos Açores que visa promover a ocupação cívica e formativa da juventude durante o período de férias escolares. Promovido pela Secretaria Regional da Juventude, Habitação e Emprego, através da Direção Regional da Juventude, o concurso decorre até ao dia 30 de abril e abrange os subprogramas “Ocupação em Férias”, “Verão em Ocupação” e “Jovens Ativos”. Segundo a nota enviada pela tutela, o processo de submissão de projetos e de inscrição de participantes ocorre em simultâneo no Portal da Juventude.

Esta edição consolida as alterações introduzidas pelo novo regulamento publicado em janeiro de 2025, fruto de uma revisão a uma normativa que “esteve sete anos sem ser atualizada”. Entre as principais novidades desta reforma destaca-se o facto de as bolsas de apoio terem sido “reforçadas em 20%”, além do alargamento do prazo de candidaturas de um para dois meses, permitindo uma maior margem de planeamento tanto para os jovens como para as entidades promotoras.

No subprograma “Ocupação em Férias”, destinado a jovens entre os 14 e os 24 anos que frequentem desde o nono ano ao Ensino Secundário, os projetos terão a duração de 20 dias úteis durante os meses de julho e agosto. Com um limite de cinco horas diárias, os participantes recebem uma bolsa de três euros por hora, o que pode perfazer um total de até 207 euros mensais. Com moldes semelhantes, o subprograma “Jovens Ativos” foca-se na inclusão social, sendo direcionado a jovens dos 15 aos 24 anos em situação de vulnerabilidade, integrados em projetos promovidos por Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).

Uma das grandes apostas desta temporada é o “Verão em Ocupação”, subprograma criado no ano anterior e desenhado para estudantes do Ensino Secundário (Geral ou Profissional) e Ensino Superior, residentes na região, com idades entre os 16 e os 24 anos. Esta modalidade oferece uma ocupação mais extensa, totalizando 35 dias úteis, e uma remuneração superior de quatro euros por hora. Caso o jovem cumpra a totalidade das 20 horas semanais previstas, a bolsa poderá atingir o valor de 560 euros. De acordo com a Direção Regional da Juventude, estas mudanças visam garantir uma “maior oferta e diversificação de projetos” para os jovens residentes no arquipélago, estando todos os detalhes e requisitos disponíveis para consulta nas plataformas oficiais da juventude açoriana.

Suplemento de Economia e Gestão e o Correio Económico

Gualter Furtado
Economista

A Faculdade de Economia e Gestão e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores promoveram recentemente, na UAc, uma conferência sobre “Os Desafios do Jornalismo”, que coincidiu com o encerramento da pós-graduação em Economia para os Media, justamente promovida pelas duas Faculdades em conjunto.

Como referiu, na ocasião da conferência, o Presidente da Faculdade de Economia e Gestão, o Prof. Doutor João Teixeira, esta pós-graduação foi destinada a jornalistas, tendo como objetivo fornecer conhecimentos e ferramentas que os ajudassem na sua profissão, quando tratam notícias e trabalhos relacionados com temas económicos. Tratou-se de uma iniciativa louvável, sobretudo numa Região em que os OCS se debatem com muitas carências, desafios e redações pequenas, impossibilitadas de contratar jornalistas especialistas, pelo custo que representam e, por vezes, pela sua inexistência no mercado.

A propósito desta iniciativa, recordo que o Departamento de Economia e Gestão da UAc, nos anos 80 do século passado, celebrou uma parceria com o Açoriano Oriental, que permitiu a realização de um conjunto de conferências sobre temas que, na altura, eram relevantes, como as Arroteias do Pico, Porto Oceânico da Praia da Vitória e a criação de Parques Industriais como instrumento de nascimento de empresas e aumento da produção industrial, eventos enquadrados nos 150 anos do jornal. Paralelamente, possibilitou a publicação de um Suplemento de Economia e Gestão, com a direção do então Presidente do Departamento de Economia e Gestão (DEG), o Professor Doutor José Manuel Monteiro da Silva, e sob a minha coordenação e execução, aliás, fui eu que em outubro de 1984 assinei o primeiro Editorial.

Esta parceria foi celebrada com o então Diretor do Açoriano Oriental, o Senhor Gustavo Moura. Os colaboradores deste suplemento eram docentes do DEG, e os temas tratados abordavam a política económica, o desenvolvimento económico, a gestão orçamental e financeira, a contabilidade, a fiscalidade, os transportes e as acessibilidades. Na gráfica do Açoriano Oriental, o saudoso Professor Andrade sempre nos ajudou na composição deste suplemento, que, na altura, foi pioneiro e representou uma abertura da Universidade à sociedade civil açoriana.

O suplemento terminou quando alguns de nós fomos trabalhar para o setor privado, e os colegas que continuaram na Universidade tiveram de dedicar mais tempo às suas carreiras universitárias, algumas desenvolvidas no estrangeiro, em programas de doutoramento. Este Suplemento de Economia e Gestão pode ser consultado na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (anos de 1984 e 1985), que tem depositados todos os jornais micaelenses.

Uma outra iniciativa na área do jornalismo económico, já neste século, foi o Correio Económico, um suplemento do Correio dos Açores. Este suplemento atingiu centenas de números, era publicado à sexta-feira, tinha como coordenadores o Dr. Luís Guilherme Pacheco e o Dr. Óscar Rocha e, como colaboradores regulares, muitos profissionais ligados à Universidade dos Açores, inclusivamente alguns que já tinham participado no Suplemento de Economia e Finanças. Contou também com muitos economistas e gestores sem ligação à Universidade dos Açores, mas com grande envolvimento na sociedade e economia dos Açores, o que possibilitava ao Correio Económico ter várias secções, que iam da consultoria até à informação sobre os negócios que se faziam nos Açores. Para além disso, promoveu várias iniciativas sobre a importância e o peso que alguns gestores tinham nas empresas e na própria economia açoriana. Foi, de facto, um marco importante no jornalismo económico dos Açores.

Finalmente, uma nota para referir que o jornalismo em geral nos Açores sempre teve uma grande expressão, sendo que alguns dos títulos publicados nos Açores são centenários, como o Açoriano Oriental, que ostenta no seu historial a designação de ser “o mais antigo jornal português”. Paralelamente, existe uma prática de publicação de dezenas de pequenos jornais de paróquias, Casas do Povo, associações cívicas e sociais, sindicatos, etc., verdadeiramente notável.

Não é por acaso que tivemos e temos jornalistas, nos jornais e na televisão, que ocuparam e ocupam cargos de direção a nível nacional, como são os casos de Mário Mesquita, Bettencourt Resendes, Padre António Rego e José Eduardo Moniz.

Janela do Inferno: Um legado de engenharia e natureza em avaliação europeia

Grupo focal reuniu especialistas e parceiros na Universidade dos Açores para analisar o impacto das Soluções Baseadas na Natureza e resgatar a memória coletiva da Serra de Água de Pau

Parceiros do TRANS-Lighthouses reuniram-se na Universidade dos Açores para discutir e responder a questões sobre o projeto © TRANS-LIGHTHOUSES

O projeto que envolve o trilho da Janela do Inferno entrou numa fase crucial de avaliação. Num grupo de discussão recente, que decorreu no mês passado, na Universidade dos Açores, parceiros locais e especialistas reuniram-se para analisar o progresso do projeto sob diversas dimensões — governança, economia, ambiente, sociedade e cultura — utilizando uma metodologia partilhada com outros países europeus, como Bélgica e Alemanha.

Segundo Eduardo Marques, responsável pelo Translight Houses, este grupo focal funciona como uma “câmara de ressonância” do que foi alcançado até agora. O objetivo é recolher dados comparáveis que permitam à Comissão Europeia delinear políticas públicas alinhadas com o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). “Estamos aqui para celebrar o nosso compromisso com os territórios e o bem-estar das pessoas, num respeito profundo pela natureza”, afirmou o docente, sublinhando que a Lagoa é um dos “pilotos” cujos resultados servirão de bitola para o futuro da sustentabilidade urbana na Europa.

Um dos pontos altos do encontro foi a intervenção de Roberto Medeiros, que trouxe luz sobre a toponímia local. Ao contrário do que o nome “Janela do Inferno” possa sugerir, a origem está profundamente ligada à engenharia hidráulica micaelense do século XIX. O antigo vereador municipal, Roberto Medeiros, explicou que o termo “Janelas”, utilizado comumente entre os habitantes de Água de Pau, refere-se aos vãos dos imponentes aquedutos que transportavam água para a antiga Fábrica do Álcool da Lagoa e, mais tarde, para o abastecimento público de Ponta Delgada. O “Inferno” seria uma alusão à imponência das ravinas e à força da natureza no local. “A Vila de Água de Pau é a única no país com quatro fontenários a correr 24 horas por dia há mais de cem anos”, destacou Medeiros, reforçando o valor estratégico e histórico deste património hídrico onde ainda se podem observar espécies como os tritões.

Desafios: Do Turismo à Participação Comunitária

Grupos de trabalho falaram sobre o futuro do Trilho da Janela do Inferno © TRANS-LIGHTHOUSES

Apesar do valor paisagístico, os parceiros do projeto apontam desafios práticos. Ana Rita Matias, investigadora do projeto, mencionou a importância do trabalho de campo e da proximidade com os lavradores mas notou alguma “desconexão entre o que se pretende e o que se faz”. Já Rita Patarra, do Expolab, destacou que o maior ganho são as relações estabelecidas, embora a escassez de tempo e recursos humanos sejam limitações reais.

Pedro Gouveia, da Kairós, trouxe uma reflexão crítica sobre o impacto real na comunidade. O retorno local relativamente ao Lugar dos Remédios, apesar de próximo do trilho muito visitado, ainda beneficia pouco do investimento público realizado; preservação versus uso: o desafio de usar o recurso sem o degradar (notando que o avistamento de tritões tem diminuído) e a necessidade de combater o “défice de contacto com a natureza” das crianças através de aprendizagem in loco.

O consenso do grupo é que o final deste projeto deve ser, na verdade, um ponto de partida. A meta agora é garantir que o sistema de governança facilite a gestão deste trilho que, antes de ser uma “solução baseada na natureza”, já era parte integrante da identidade e da sobrevivência da população da Lagoa.

O projeto “Translight Houses, Para além do verde: Faróis de soluções transformadoras baseadas na natureza para comunidades inclusivas” trata-se de um projeto de investigação à escala europeia e que, nos Açores, é liderado pela Universidade dos Açores em consórcio com outras entidades locais e com um único local a estudar: os Remédios da Lagoa, mais concretamente, tudo o que inclui e envolve o trilho da Janela do Inferno, localizado naquele lugar lagoense, para onde são atraídos, diariamente, centenas de turistas, em época alta.

Em junho de 2025, Eduardo Marques explicava quais os principais objetivos deste projeto pioneiro nos Açores. “A ideia é perceber como é que um ativo, um recurso importante, a «Rota da Água – Janela do Inferno», pode alavancar um processo de uma relação mais positiva com o trilho de forma a que também que a comunidade pudesse ter benefícios dessa relação com o trilho”, justifica. O responsável acrescenta que se pretende “transformar o trilho numa solução baseada na natureza para um turismo sustentável”. Nós podemos inspirar-nos na natureza e no seu funcionamento para resolver problemas sociais complexos”. E dá exemplos: “como é que se resolve problemas de desemprego, como é que nos podemos inspirar, basear na natureza para resolver problemas de emprego versus desemprego, como podemos melhorar a saúde — temos soluções desde os anos 60 implementadas no Japão que são os parques de terapias da natureza que reduzem o stress, reduzem a tensão arterial — portanto, podemos utilizar a natureza para nos curar, para ser integrada nos sistemas de saúde, podemos integrar a natureza como dimensão da arte e cultura”.

O barulho do irreparável

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Soube da infeliz morte de António Lobo Antunes, um magnífico ser humano, que viveu intensamente, e recebi a «sua» morte, via noticiário, com a óbvia tristeza de quem vê um «distante» escritor lusitano, um dos melhores de Portugal, a desaparecer do mapa dos vivos, e que, agora, finalmente, voa como um pássaro livre na cauda das nuvens soltas, cabendo, por vezes, quase na palma das nossas próprias mãos através dos seus livros e do resgate que fazemos da sua boa memória e das suas leituras.

Na verdade, e desculpem-me por isso, mas nunca li nada dele, confesso. Li algumas entrevistas avulsas, notas bastante soltas; sei, por alto, quem foi, sei o que escreveu; mas não compreendo realisticamente a sua narrativa densa, a sua obra – mas compreendo a sua geração.

Não se ensina António Lobo Antunes na escola, nem ele foi feito para uma descoberta apertada ou forçada; temos de ir de frente com ele, voluntários, que ele não vai sozinho connosco, e ainda bem. E temos de estar preparados para nos afundarmos nele, na sua narrativa.

Ninguém é sobretudo coletivamente irreparável, porque toda a gente tem de morrer e de partir, tem de desaparecer, logo toda a morte tem reparo na substância do mundo.

Não obstante, a única coisa que podemos aprender uns com os outros, por isso, é que todos nós somos uma perda substancial na vida de alguém em particular, e isso não é de se desmerecer; somos sem reparo, sobretudo dos mais próximos, de facto; mas muito pouco relevantes na vida e na circunstância da Vida, ela mesma, na sua mecânica, nas dinâmicas do Sol e da Lua, do vento e da maré, se quisermos.

Afinal, do que sei, o que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la: é precisamente ignorando, de facto, a morte que seguimos, justamente, bem vivos na vida. O que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la, de todo.

A infeliz, mas necessária, partida de qualquer ser humano, nas nossas vidas, deixa, nalgum lugar, um vazio branco, inesquecível e irreparável; eu chamar-lhe-ia o barulho do irreparável.

Deixa rasto num coração dormente, mais envelhecido, e por vezes assustado. A sensação de impotência e de pesada solidão num cadeirão, cheio de raízes e de memórias, mas agora despojado do seu dono, revela um eco de vazio irreparável, de qualquer coisa sozinha, agora despojada, um despovoamento e a sensação sólida de um desaparecimento subtil, mas incerto.

Depois da morte de um amigo, de uma pessoa, seja familiar ou conhecida, que é muito importante para nós, a vida muda, fica mais forte, mas, ao mesmo tempo, fica mais vazia e menos significativamente importante – e é esse peso irreparável que não se substitui, ele é substancialmente grande o suficiente para durar a vida toda, tanto que a morte é um peso doloroso.

Recordo, com saudade, figuras icónicas, e ilustres, da minha freguesia, por mero exemplo, e delas, e através delas, vejo não elas mesmas, na sua imagem, mas um tempo que se foi definitivamente embora.

Vejo a minha infância e juventude, as que já não voltam mais, e vejo uma geração diferente que foi substituída, irreparavelmente substituída por outra.

Com tudo isso, sinto que algo morreu pelo caminho; mais do que a morte de alguém, morreu uma geração uniforme, morrem gerações mais ou menos concisas, gerações de costumes, de tradições, de práticas, de vivências, de memórias, de aspereza, de dureza e de dificuldades vividas.

A geração que conheceu os pés descalços e a fome está a desaparecer. Por um lado, é bom, excelente sinal; por outro, pode ser impactante o suficiente no nosso futuro e na forma como vivemo-lo; pode ser imprudente desvalorizar isso.

Afinal, como não compreender a morte senão através da vida? Olhemos os álbuns do passado, alguns bem feitos, e reviremos a história, compreendamos gerações de trabalho inteiras, e prestemos homenagem a quem, desaparecendo, levou consigo uma geração de enormes dificuldades e desafios.

A morte de António Lobo Antunes, mais do que a importância da sua rica narrativa, provoca-me essa sensação de viva impotência: de que algo muito importante está-se a ir embora de nós, de que algo já não volta mais – não a pessoa, mas uma fibra de gerações inteiras que, substituindo-se no Tempo, estão vagamente, e lentamente, a sair do palco.