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Ouvidos de mercador

Rui Menezes cronicas Jornal Diario da LAaoa

Se fizermos uma pesquisa na internet, sobre este conhecido provérbio popular, “fazer ouvidos de mercador”, constatamos que existem duas correntes diferentes em relação à origem do mesmo.

 primeira defende que, não é “ouvidos de mercador”, mas sim “ouvidos de marcador”, pois na origem do provérbio, está no facto de antigamente os escravos serem marcados com um ferro quente, com o nome do seu dono, para que fossem facilmente identificados. Para além dos escravos, também os ladrões e outros carrascos eram marcados da mesma forma, para que todos pudessem ter conhecimento que aquele ou aquela cometeu algum crime.

Num e noutro caso, “o marcador” parecia muito surdo ou distraído, pois não atendia aos gritos e súplicas das pessoas visadas, quando estas expressavam a sua dor, independentemente de se tratar de homens, mulheres ou crianças.

Uma segunda corrente entende que o provérbio tem origem nos mercadores, que eram aqueles comerciantes que compravam mercadorias para revender noutras terras e que, quando estavam a apregoar o seu negócio, falavam muito mais alto que os clientes. Como muitas vezes não lhes interessava ouvir as propostas dos compradores, mesmo que as ouvissem, faziam-se desentendidos.

Vem esta introdução a respeito de alguns comportamentos que o Governo Regional dos Açores tem demostrado nos últimos tempos, certamente pelo cansaço de quase vinte anos de governação.

Faz orelhas moucas aos partidos da oposição, não atende aos pedidos e propostas da sociedade civil e não leva, muitas vezes, em atenção muitas das recomendações que o Tribunal de Contas tem apresentado. Algumas destas repetem-se de ano para ano.

Em tudo isso, o Governo faz ouvidos de mercador, fazendo-se distraído como o “marcador”, ou fala mais alto, normalmente mudando de assunto, como os mercadores que não querem ouvir a opinião dos seus clientes, quem é como quem diz dos Açorianos.

É claro que o exemplo vem de cima. Se neste momento temos um governo da Republica, liderado pelo Partido Socialista, que também resolveu não atender aquilo que foi a vontade do povo, é óbvio que não se pode esperar outra coisa do Partido Socialista regional. Oxalá que o feitiço não se vire contra o feiticeiro.

As recentes reivindicações, que as comunidades escolares de algumas localidades têm vindo a fazer junto da Secretaria com a tutela da educação, em relação às condições de algumas escolas e as respostas que têm obtido, são bem o exemplo da atenção que este governo presta às populações.

Há muito tempo que todos os partidos da oposição e diversos economistas têm alertado para o maior problema da nossa região: o desemprego. Em relação à fórmula para a sua resolução, parecem não existir muitas dúvidas: Investimento e desenvolvimento económico.

E o que faz o Governo Regional? Faz Investimento, mas só em vésperas de eleições, pois só assim se explica que no ano passado tenha adjudicado 73% das obras previstas até 2020 e cria programas de emprego, muitos deles para manter as pessoas dependentes da sua alçada e para as colocar nas autarquias da sua cor política, dando mais protagonismo aos seus.

Em relação ao tribunal de contas, muitas têm sido as recomendações que este organismo tem feito, ano após ano, às contas da Região. Uma delas e que está relacionada com o equilibro do próprio orçamento, pois tem a ver com a classificação das verbas transferidas do Estado para a Região, ao seja as transferências que vêm do Governo da República ao abrigo do principio da solidariedade.

Não é permitido que as verbas que foram transferidas para fins de investimentos, sejam aplicadas em despesas correntes. O Governo Regional com esta prática está a desprezar o investimento, que como vimos é prioritário e a utilizar as verbas que lhe estava reservado, para pagar a máquina governamental, que de tão grande, não consegue se sustentar com só com receitas correntes.

Por último, vejamos outra situação. As empresas publicam regionais e o seu financiamento.

Como é do conhecimento geral, as empresas publicas regionais, foram criadas, muitas delas, numa tentativa de poder ultrapassar as dificuldades de indevidamente do próprio Governo Regional.

Acontece que a banca, dada a situação de caos destas empresas, já não consegue conceder empréstimos sem outras garantias, pelo que o Governo dos Açores começou a conceder avales a essas empresas, esgotando rapidamente o plafond que tinha autorizado para o fazer.

Sem capacidade de indevidamente e sem valor para avales, o Governo Regional “inventou” as cartas conforto, que na realidade são uma forma encapotada de ultrapassar o valor dos avales autorizados, violando assim a lei. Se assim não for, estas cartas não dão conforto algum.

Que pena que o Governo Regional continue a fazer ouvidos de mercador a tudo e a todos e entenda que é o único com o passo certo…

Por Rui Meneses
Crónica na edição Impressa de março de 2016

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