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“Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz”

O testemunho de quem se viu obrigado a deixar a família e os amigos para trás em busca de segurança, longe de um país em guerra. Rostyslav Hutsol partilha com o Diário da Lagoa a experiência de ter deixado a Ucrânia, sozinho, aos 17 anos, para encontrar em Portugal a estabilidade de que necessitava

Rostyslav tem atualmente 21 anos e já visitou os Açores várias vezes © DIREITOS RESERVADOS

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.

DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.

DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos?  Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.

DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda. 

DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.

DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.

DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.

DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.

DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.

DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.

DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.

DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.

DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

Professor da Universidade dos Açores defende: “imigração deve ser vista como mais-valia social, cultural e económica” para os Açores

Especialista, Paulo Fontes, defende visão integrada da imigração e alerta para a necessidade de valorizar as qualificações de quem escolhe os Açores

© AGÊNCIA INCOMPARÁVEIS

Paulo Fontes, professor da Universidade dos Açores, destacou a necessidade de repensar o papel das migrações nas políticas públicas regionais, defendendo uma abordagem mais abrangente e integrada. Declarações dadas à margem do 4.º Fórum das Migrações, uma iniciativa promovida pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades do governo dos Açores nas ilhas do Corvo e das Flores, entre os dias 8 e 10 de abril, reunindo especialistas, académicos, instituições, associações, autoridades, membros da sociedade civil e imigrantes residentes no arquipélago para “debater os desafios e oportunidades das migrações nos territórios ultraperiféricos”.

Ao longo da nossa conversa, o docente alertou para a visão redutora que muitas vezes é atribuída aos imigrantes, afirmando que não se deve “olhar só para os imigrantes como alguém que vem colmatar uma falta de mão de obra, porque isso é sinal que a economia não funciona bem”.

Segundo este especialista, essa realidade revela fragilidades estruturais, uma vez que “não valoriza certas profissões e não paga bem certas profissões, por isso é que até os locais não as querem exercer”.

Apesar disso, reconhece que, numa fase inicial, os imigrantes podem responder a necessidades concretas do mercado de trabalho. No entanto, defende que o verdadeiro desafio está em ir além dessa lógica.

“A ideia é, sim, os imigrantes chegarem numa primeira fase para colmatar essas necessidades, mas nós devemos valorizar esses imigrantes, porque vamos todos enriquecer com eles”, referiu.

Na sua opinião, essa valorização passa pelo reconhecimento efetivo das competências e experiências trazidas por quem chega.

“Valorizar as suas qualificações, reconhecê-las em Portugal, valorizar as suas experiências e aquela inovação que eles podem trazer para valorizar a nossa economia e a nossa sociedade”, afirmou.

Neste sentido, Paulo Fontes reforça que não devemos “ver só os imigrantes como um recurso económico, que vem pontualmente colmatar certas falhas pontuais da economia”, mas sim como “alguém que social, culturalmente e economicamente vem ser uma mais-valia”.

Questionado sobre a realidade açoriana, o professor considera que a região já demonstra sinais positivos, embora haja margem para evoluir.

“Penso que valorizam, mas poderão valorizar mais, a nossa reflexão vai nesse sentido”, sublinhou, destacando ainda o anúncio recente de uma estratégia regional para a integração dos imigrantes como um passo relevante.

O académico enquadra esta abertura à imigração na própria história dos Açores, lembrando que o território tem raízes profundamente marcadas pela mobilidade humana.

“Nós emigramos, saímos daqui durante pelo menos uns quatro séculos”, disse, acrescentando que “o povoamento destas ilhas é fruto também de imigrantes que vieram”, uma vez que “os Açores nasceram do encontro de quatro culturas, entre flamengos, portugueses, espanhóis e franceses”.

Essa herança histórica, associada a períodos de dificuldades económicas e sociais, levou a uma forte diáspora.

“Fomos marcados por situações difíceis, pobreza, dificuldades de vida e saímos em massa dos Açores”, salientou. Hoje, porém, o cenário inverteu-se: com o desenvolvimento alcançado sobretudo após o 25 de Abril e a autonomia política regional, os Açores conseguiram “evoluir, desenvolver a região e hoje somos uma terra próspera, desenvolvida e atraímos imigrantes de outras paragens”.

Paulo Fontes concluiu dizendo que “os Açores hoje recebem mais pessoas do que mandam para fora”, o que considera “positivo”.

“É um sinal de que nós estamos mais evoluídos e que essas pessoas podem vir ajudar a evoluir ainda mais a região”, finalizou.

Povoação acolhe terceira prova do Campeonato Regional de Vela Ligeira dos Açores

O evento desportivo reuniu dezenas de atletas de várias ilhas do arquipélago, combinando as regatas oficiais com iniciativas de cariz ambiental e educativo direcionadas para a comunidade local

© CM POVOAÇÃO

A vila da Povoação acolheu, nos dias 16 e 17 de maio, a terceira prova do Campeonato Regional de Vela Ligeira dos Açores. Segundo a nota de imprensa enviada pelo Clube Naval da Povoação, entidade organizadora do evento, a iniciativa reuniu dezenas de atletas, treinadores, dirigentes e familiares provenientes de diversas ilhas do arquipélago açoriano.

Além da vertente puramente competitiva, o programa da prova integrou ações paralelas de envolvimento comunitário, ambiental e educativo. Entre estas, realizou-se uma ação de limpeza da costa em parceria com o Município da Povoação, a Junta de Freguesia local e entidades parceiras.

Foram também promovidas palestras destinadas a atletas e alunos da Escola Profissional Monsenhor João Maurício Amaral Ferreira. O evento contou ainda com a participação de uma atleta olímpica, que partilhou mensagens de motivação com os jovens velejadores.

Na cerimónia de encerramento, o presidente do Clube Naval da Povoação, André Ávila, afirmou ser “com enorme orgulho, profunda satisfação e um sentimento de missão cumprida que hoje nos reunimos para assinalar o encerramento da terceira prova do Campeonato Regional de Vela Ligeira dos Açores, realizada aqui, na nossa Povoação”.

O dirigente sublinhou que o acolhimento do campeonato representa “a afirmação da capacidade organizativa do clube, da dedicação à modalidade e da vontade em colocar a Povoação no mapa dos grandes eventos náuticos dos Açores”.

Dirigindo-se aos participantes, o responsável realçou que “a vela ensina-nos muito mais do que competir. Ensina-nos disciplina, resiliência, humildade, respeito pelo próximo e capacidade de superação”, agradecendo de seguida o apoio das instituições, voluntários e clubes envolvidos na logística da prova.

No plano desportivo, as classificações finais da competição ditaram a vitória de Oleg Diatlov (Clube Naval da Horta) na categoria Infantil – Optimist. O pódio ficou completo com Francisco Couto e Miguel Viveiros, ambos do Clube Naval Vila Franca do Campo, tendo Guiomar Mourão (Clube Naval de São Mateus da Calheta) vencido no setor feminino.

Na categoria Juvenil – Optimist, o primeiro lugar pertenceu a Miguel Ferreira (Clube Naval Vila Franca do Campo). Bernardo Miranda (Clube Naval da Praia da Vitória) ficou em segundo e Tomás Bourbeau (Clube Naval de Ponta Delgada) em terceiro, enquanto Margarida Costa (Clube Naval Vila Franca do Campo) arrecadou o troféu feminino.

Na classe Ilca 4, o pódio foi liderado por Joaquim Barcelos, com Matilde Moules em segundo lugar, que acumulou também a posição de primeira classificada feminina. Ambos os atletas representam o Clube Naval da Praia da Vitória. Ricardo Pacheco (Clube Naval de Ponta Delgada) terminou na terceira posição.

Por fim, na categoria Ilca 6, Duarte Santos (Clube Naval de Ponta Delgada) alcançou o primeiro lugar. O velejador Francisco Monteiro da Silva (Clube Náutico de Lagoa) conquistou a segunda posição, seguido por António Damião (Clube Naval Vila Franca do Campo) em terceiro e Juliana Paiva (Clube Naval da Povoação) como a melhor atleta feminina.

De acordo com a organização, o evento encerrou com um balanço positivo no que concerne à dinamização desportiva e social da região.

Acesso à Ferraria reaberto ao trânsito automóvel

© SRTMI

O caminho de acesso à Ferraria, na freguesia dos Ginetes, em Ponta Delgada, já se encontra reaberto ao trânsito automóvel, ainda que de forma condicionada e ordenada.

A circulação neste caminho foi retomada após a conclusão das intervenções preliminares de mitigação de risco no troço instabilizado, permitindo abrir em segurança o acesso à Ferraria durante a época alta.

A solução adotada consistiu na construção de um muro de blocos pré-fabricados em betão, numa extensão de cerca de 30 metros.

Com o objetivo de disciplinar a circulação automóvel, a via foi alvo de um reforço da sinalização vertical e da colocação de um sistema de semáforos para gestão alternada do tráfego.

Estas medidas impedem o cruzamento de viaturas no troço instabilizado e asseguram que a passagem automóvel ocorra exclusivamente na faixa mais afastada do talude, minimizando a exposição ao risco.

Paralelamente, está em curso o estudo das características geotécnicas que permitirão a definição do programa preliminar com vista à realização de intervenções adicionais no talude, a ocorrer durante o inverno, para a respetiva estabilização definitiva.

Governo anuncia medidas de combate à subida dos preços dos combustíveis

© MIGUEL MACHADO/GRA

O secretário regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública, Duarte Freitas, anunciou um pacote de medidas de combate à subida dos preços dos combustíveis, sublinhando que o “os açorianos podem contar com o seu governo”.

As medidas anunciadas por Duarte Freitas “assentam em três prioridades”: o aliviar de imediato os custos suportados pelas famílias, pelas empresas e pelos setores mais expostos; a proteção de quem se encontra em maior vulnerabilidade e o acelerar de adaptações que tornem a região menos dependente de choques energéticos.

“Em primeiro lugar, atendendo a que a situação política internacional continua instável, decidimos reduzir ainda mais o ISP, com o objetivo de continuar a atenuar o preço final dos combustíveis suportado por famílias e empresas”, começou por referir. A redução será de oito e treze cêntimos na gasolina e gasóleo, respetivamente.

E prosseguiu: “Em paralelo, vamos antecipar o Aviso do Açores 2030 para reforçar a eficiência energética no setor empresarial, nas instituições particulares de solidariedade social e na habitação, combatendo a pobreza energética e promovendo soluções que reduzam de forma duradoura os consumos e os encargos”.

A agricultura e as pescas têm, igualmente, “respostas específicas”, acrescentou Duarte Freitas, detalhando: “Para além do apoio extraordinário ao custo do gasóleo agrícola, no valor de dez cêntimos por litro, conforme já anunciado pelo presidente do governo regional, no setor das pescas, será criado um apoio temporário aos combustíveis para compensar os custos acrescidos”.

“E porque a capacidade de resposta no socorro e na emergência não pode ser fragilizada, procederemos à revisão extraordinária dos plafonds de combustível atribuídos às associações de bombeiros voluntários dos Açores, adequando esse apoio ao aumento do preço do gasóleo e salvaguardando a sua operacionalidade durante o ano de 2026”, adiantou também.

No que toca às IPSS, o responsável da tutela das Finanças lembrou que estas tiveram uma medida desenhada na reprogramação do PRR que já permitiu a entrega de 130 viaturas elétricas, num valor de 4,5 milhões de euros. “Para as empresas em específico e seus trabalhadores, apoiaremos a sua liquidez, estimulando extraordinariamente a conversão de contratos de trabalho a termo em contratos sem termo, assegurando estabilidade laboral neste momento difícil. Lançaremos ainda, formação dirigida à mudança e readaptação das empresas e dos trabalhadores, incidindo em eficiência energética, competências digitais e verdes, logística, produtividade e economia circular”, prosseguiu.

Para as famílias mais carenciadas, será criada uma medida de combate à privação material, através da atribuição de um apoio para acesso a alimentos e alguns produtos de saúde.

Quando a fileira cresce, mas o produtor perde

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Os números mais recentes do setor leiteiro açoriano merecem mais do que uma leitura superficial.

Segundo dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores, no primeiro trimestre de 2026 a recolha direta de leite aumentou 1,1%, atingindo 153,28 milhões de litros, mais 1,7 milhões de litros face ao período homólogo.

À primeira vista, o dado parece positivo.

Mas quem conhece a fileira leiteira sabe que os mercados raramente se explicam por uma única variável.

No mesmo período, a produção de queijo nos Açores caiu 12,6%, passando de 8.633 para 7.541 toneladas.

E este dado muda completamente a leitura.

Porque o leite mede volume. Mas o queijo mede valor.

Nem todo litro de leite gera o mesmo retorno económico. Um litro destinado a leite UHT ou a produtos de menor diferenciação não cria o mesmo valor que um litro transformado em queijo, sobretudo quando falamos de produtos com identidade, marca, maturação e posicionamento premium.

Por isso, a verdadeira pergunta não é apenas se estamos a produzir mais.

A pergunta é: estamos a criar mais valor ou apenas mais volume?

E este ponto é decisivo.

Os Açores não ganharão uma competição assente apenas na quantidade. Somos uma região ultraperiférica, com custos logísticos elevados, forte dependência de fatores externos e limitações de escala.

A nossa competitividade só pode estar na diferenciação, na transformação e na capacidade de fazer com que cada litro de leite valha mais.

É por isso que a quebra do queijo merece atenção.

Pode haver explicações técnicas legítimas: ajustamento industrial, gestão de stocks, pressão comercial, necessidade de liquidez ou desvio para produtos com menor tempo de imobilização financeira.

Tudo isso faz parte da lógica dos mercados.

Mas há um dado adicional que não pode ser ignorado.

No início deste ano, produtores de algumas ilhas viram o preço pago ao leite diminuir cerca de 3 cêntimos por litro.

E aqui a leitura torna-se mais exigente.

Porque passamos a ter três sinais simultâneos: mais leite; menos queijo; menos preço pago ao produtor.

Ou seja: mais esforço produtivo, sem garantia de melhor remuneração.

Quem trabalha no setor sabe o que representam três cêntimos por litro.

Numa exploração com 500 mil litros anuais, falamos de menos 15 mil euros por ano.

Numa exploração com um milhão de litros, menos 30 mil euros.

Não estamos a falar de um detalhe estatístico.

Estamos a falar de rendimento, tesouraria, investimento, previsibilidade e, muitas vezes, da diferença entre continuar ou desistir.

Há ainda um paradoxo que quem conhece a produção leiteira compreende bem.

Quando o preço pago ao produtor desce, a reação económica imediata raramente é produzir menos.

Pelo contrário.

Numa exploração leiteira, os custos fixos mantêm-se: salários, energia, maquinaria, financiamentos, manutenção, rendas.

A estrutura continua lá.

E quando o litro vale menos, a reação de sobrevivência tende a ser simples: produzir mais para tentar compensar o que se perdeu.

Mas é precisamente aqui que reside um dos maiores riscos do setor.

Aquilo que faz sentido à escala individual de uma exploração pode, quando replicado em larga escala, agravar o problema: mais oferta, maior pressão sobre o mercado, novo aperto no preço.

Perante esta realidade, uma das respostas que o Governo tem vindo a assumir passa pela reconversão de explorações leiteiras para produção de carne.

A medida pode fazer sentido em determinados contextos e em determinadas ilhas.

Mas levanta uma questão essencial: qual é afinal a visão para a fileira do leite e dos lacticínios nos Açores?

Porque há uma diferença entre gerir ajustamentos conjunturais e aceitar, como resposta estrutural, a redução da própria capacidade produtiva.

Se perante a pressão sobre o preço a solução passa por reduzir produção, corremos o risco de responder a uma dificuldade de mercado com retração produtiva, em vez de enfrentar a verdadeira questão: a criação e distribuição de valor ao longo da cadeia.

E é precisamente aqui que entra a política.

Não para contrariar artificialmente o mercado.

Mas para garantir visão estratégica sobre a forma como a fileira se organiza, valoriza e distribui riqueza.

Porque se a fileira cresce em volume, mas quem produz perde rendimento, então há uma pergunta inevitável: quem está, afinal, a ficar com o valor gerado ao longo da cadeia?

Os Açores não podem resignar-se a um modelo em que a resposta às oscilações do mercado passa por produzir mais, transformar menos em valor acrescentado e ajustar o equilíbrio financeiro sempre à custa do elo mais vulnerável.

Porque no fim, os números sobem e descem.

A fileira ajusta-se. A indústria reorganiza-se. O mercado oscila. A distribuição protege as suas margens. Mas quem absorve a pancada continua a ser quem acorda às cinco da manhã para fazer a ordenha.

Isto não é sustentável.

Porque sem produtores não há leite.

Sem leite não há indústria.

Sem indústria não há fileira.

Mas há uma verdade mais profunda do que qualquer indicador económico: nenhuma fileira resiste quando quem trabalha todos os dias deixa de sentir que o esforço compensa.

Quando a esperança se vai tornando mais curta do que os dias de trabalho.

Quando acordar às cinco da manhã deixa de ser sinal de compromisso e passa a ser apenas resistência.

E quando se perde um produtor, não se perde apenas produção.

Perde-se conhecimento.

Perde-se território.

Perde-se economia local.

Perde-se identidade.

Perde-se futuro.

Hospitais dos Açores entram na era da cirurgia robótica com investimento de 2,3 milhões de euros do PRR

O Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira acolheu a primeira intervenção cirúrgica ortopédica com recurso a tecnologia robótica na região, num passo histórico para a modernização do Serviço Regional de Saúde que chegará também ao Hospital Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada

© MIGUEL MACHADO

O Serviço Regional de Saúde deu um passo histórico na modernização tecnológica e na diferenciação dos cuidados prestados aos utentes açorianos. O Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira (HSEIT) acolheu a primeira intervenção cirúrgica com recurso a um robô ortopédico na Região Autónoma dos Açores, assinalando o arranque oficial desta valência médica nas ilhas. De acordo com a nota de imprensa enviada pelo executivo regional, o momento foi presenciado pelo presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, que sublinhou o impacto desta inovação. “Estamos a inaugurar a possibilidade da robótica cirúrgica. Esta era uma necessidade e estamos hoje a celebrar este momento”, afirmou o governante, aproveitando a ocasião para deixar um reconhecimento público à administração hospitalar e aos profissionais do HSEIT pelo empenho em reforçar a capacidade de resposta aos doentes. “Este hospital tem instalações magníficas e profissionais briosos. O objetivo é aumentar a sua diferenciação, as suas capacidades e também torná-lo mais atrativo para mais profissionais”, acrescentou.

A introdução desta tecnologia de ponta resulta de um investimento estratégico global que ascende a 2,35 milhões de euros (acrescidos de IVA), financiado através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), na componente destinada à modernização e requalificação da saúde. Este pacote financeiro permitiu a aquisição de dois sistemas de cirurgia robótica ortopédica: o equipamento agora estreado na Ilha Terceira, orçado em 1,25 milhões de euros, e um segundo sistema, no valor de 1,1 milhões de euros, destinado ao Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, aproximando esta inovação também dos utentes de São Miguel. A cirurgia robótica destaca-se por permitir uma maior precisão nos procedimentos, um planeamento cirúrgico refinado, menor invasividade e uma recuperação pós-operatória visivelmente mais rápida e eficaz. O executivo antecipa elevados ganhos em saúde, traduzidos na redução do tempo de internamento, na diminuição das sessões de fisioterapia necessárias e na quebra de custos sociais indiretos, como o absentismo laboral, estando já previstos estudos específicos para avaliar o impacto clínico e operacional desta tecnologia.

O ato inaugural no bloco operatório contou ainda com a presença da secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, do presidente do Conselho de Administração do HSEIT, Paulo Diz, da diretora clínica, Rute Couto, da diretora do Bloco Operatório, Lisandra Martins, e da responsável pelo Bloco Operatório, Sandra Pavão. Após acompanharem o procedimento cirúrgico, a comitiva governamental e os responsáveis hospitalares prosseguiram com uma visita de trabalho à Unidade de Cuidados Intermédios Cardíacos (UCIC) e avaliaram o andamento das obras de instalação do novo angiógrafo, infraestruturas que complementam o forte investimento em equipamentos no hospital terceirense, que já soma 15 milhões de euros acumulados entre os anos de 2021 e 2026.

Equipas de Saúde Escolar dos Açores recebem formação em Ponta Delgada para apoiar alunos com necessidades especiais

A iniciativa, promovida pela Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social entre os dias 19 e 21 de maio, visa capacitar os profissionais da região para a deteção precoce e intervenção sistemática junto de crianças e jovens em contexto escolar

© SRSSS

As Equipas de Saúde Escolar da Região Autónoma dos Açores estão a participar, em Ponta Delgada, numa ação de formação focada no “Suporte a crianças e jovens com Necessidades de Saúde Especiais na escola”. A iniciativa, que decorre entre os dias 19 e 21 de maio, é promovida pela Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social, através do Programa Regional de Saúde Escolar, conforme informou o departamento governamental em nota de imprensa. Este investimento na qualificação dos profissionais visa estreitar a articulação entre a saúde e a educação nas ilhas, tendo como principal objetivo reforçar a capacitação técnica para a deteção precoce e para a intervenção sistemática junto dos alunos que enfrentam estes desafios no seu quotidiano escolar.

O encontro de trabalho conta com a participação de especialistas de reconhecido mérito e com experiência consolidada na área, promovendo a partilha de conhecimento científico e de boas práticas para robustecer a capacidade de resposta regional. O painel de formadores convidados integra Eva Menino, docente e investigadora na área da enfermagem comunitária; Maria do Céu Pires, docente e investigadora com atividade académica centrada na saúde infantil, comunitária e inclusão escolar; Leonel Lusquinhos de Sousa Oliveira, enfermeiro, docente e presidente da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Escolar; e Ana Granadeiro, enfermeira especialista em saúde comunitária com intervenção direta nesta área.

Através deste programa formativo, a Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social refere, em comunicado, que reafirma o compromisso com a valorização do conhecimento científico aplicado à prática diária, procurando garantir decisões clínicas e organizacionais mais informadas que resultem em respostas integradas, inclusivas e equitativas para a comunidade escolar açoriana.

João Pedro Moniz distinguido como “Bombeiro de Mérito 2025”

© DIREITOS RESERVADOS

Faltavam poucos minutos para a 01h00 do dia 4 de dezembro de 2025 quando o bombeiro João Pedro Moniz se lançou à água nas Portas do Mar, em Ponta Delgada, para tentar salvar uma vítima que se encontrava em situação de afogamento eminente a cerca de duzentos metros do cais de cruzeiros.

Apercebendo-se das dificuldades da vítima e da urgência do socorro, João Pedro Moniz despiu o uniforme e, em condições climatéricas muito adversas, equipando-se com boia e corda de salvamento e apenas com roupa interior, num ato de extrema coragem, lançou-se ao mar, colocando em risco a sua própria vida, sendo orientado por lanternas e indicações verbais do pessoal em terra, conseguindo alcançar a vítima em apenas alguns minutos.

O bombeiro João Pedro Moniz, que com este ato conseguiu salvar a vítima, mostrou ser fiel ao lema “vida por vida” elevando a reputação, o brio, o profissionalismo, o altruísmo e a coragem dos bombeiros de Ponta Delgada e de Portugal sendo, por isso, merecedor da atribuição da distinção nacional

O feito foi reconhecido pela Liga dos Bombeiros Portugueses que distinguiu João Pedro Moniz com o galardão “Bombeiro de Mérito 2025”, prémio que será entregue no dia 31 de maio aquando das comemorações do Dia Nacional do Bombeiro, cerimónia que terá lugar em Paredes, Porto.

Convento de Santo António acolhe última jornada do Torneio da Juventude em Xadrez

O concelho da Lagoa voltou a demonstrar a sua forte ligação à modalidade, num evento que reuniu jovens atletas e reforçou o estatuto dos Açores como a região do país com mais xadrezistas federados por habitante

© CM LAGOA

O Convento de Santo António, na freguesia de Santa Cruz, Lagoa, acolheu este sábado, 16 de maio, a última jornada do Torneio da Juventude em Xadrez, uma prova que movimentou o panorama desportivo local. A iniciativa foi organizada pela Associação de Xadrez da Região Autónoma dos Açores (AXRAA) e contou com o apoio estratégico da Câmara da Lagoa, segundo informou a autarquia em nota enviada à redação do Diário da Lagoa.

Presente na cerimónia de entrega de troféus, o vice-presidente da autarquia lagoense, Nelson Santos, fez questão de salientar o empenho e o dinamismo que a AXRAA tem demonstrado ao longo dos anos na promoção do xadrez. O autarca defendeu que a modalidade deve continuar a ser fomentada junto dos mais novos, destacando os seus benefícios no desenvolvimento de aspetos intelectuais e recreativos, tais como a concentração, o raciocínio, o cálculo mental, a autoconfiança, a tática e a estratégia, sem esquecer o seu papel na socialização e no respeito pelas normas.

A fechar o evento, foi recordado o estatuto de relevo que o arquipélago detém no panorama nacional: os Açores são atualmente a região do país com o maior número de atletas federados por habitante nesta modalidade. Esta forte adesão é bem visível na elevada participação que se regista nas iniciativas locais, sendo que, em 2025, a AXRAA alcançou um total de 280 atletas federados, na sua grande maioria jovens.