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Universidade dos Açores – 50 anos

Alexandra Manes

No mesmo ano, em que se comemoram os 50 anos da nossa Autonomia, celebramos os 50 anos da Universidade dos Açores, uma conquista da Democracia e da Autonomia, da qual é essencial destacar o seu papel determinante para a nossa região, bem como a excelência do seu corpo docente, cujo seu maior desafio se prende com o carácter da sua tripolaridade.

Ao longo das últimas décadas, assistimos ao esvaziamento do Polo de Angra do Heroísmo com a saída de cursos como o de Educação Básica e seu mestrado e o de Gestão, este último bastante contestado. O de enfermagem, vai resistindo… Pelo Faial, houve a possibilidade de o curso de Ciências do Mar ser deslocalizado para Ponta Delgada, mas, devido a questões óbvias e à luta de docentes e investigadores(as), resistiu ao processo de contenção de custos e está onde deve estar e que, embora com pouco, produz Ciência reconhecida a nível mundial.

Foi neste contexto de celebração, que fui alertada para a realidade, que afeta a vida de muitas pessoas, mesmo sendo facilmente varrida para debaixo do tapete quando é tempo de discursos e frases feitas. Numa Região, cada vez mais dividida, há atitudes e estratégias de gestão que se refletem na falta de coesão, e que são menos notadas, todavia, igualmente sentidas pela população residente. É importante que se assuma o facto de que, de forma sistemática e propositada, a academia insular parece ter esquecido a sua raiz tripartida, cimentando-se em torno de um modelo de centralização, anacrónico, que não pode ser ignorado.

Na verdade, em pleno séc. XXI, com ferramentas proporcionadas pela evolução tecnológica, a Uaç contraria a coesão que se exige num território descontínuo e disperso, pela falta de resposta consistente no E-learning, impossibilitando a frequência, por exemplo de Mestrados, a pessoas de outras ilhas. Bem sei que esse impedimento resulta, não somente da concentração de respostas em Ponta Delgada, mas, também, da exigência de regras de acreditação de cursos oferecidos nessa modalidade pela agência A3ES. No entanto, cedemos a essas dificuldades ou esforçamo-nos para ultrapassar esse obstáculo?

Susana Mira Leal foi reeleita por maioria, por lista única. A nova e antiga reitora voltou a sublinhar querer diversificar e descentralizar a instituição, com maior abertura de cursos e modalidades digitais e híbridas. Só que bastará a qualquer possível aluna ou aluno uma breve consulta das normas institucionais e regulamentares em vigor, para perceber que uma boa parte do funcionamento da UAç vive impedido de funcionar à distância. Qualquer pessoa adulta, sob o Estatuto Trabalhador-Estudante, que almeje realizar um mestrado ao longe, terá que se preparar para duras provas.

Claro que restam sempre hipóteses funcionais para quem segue a teoria do empreendedorismo sem razão. Demissão e alterar a residência fiscal, seguir os percursos académicos da Aberta, ficando limitados às respostas. Ou não estudar, e deixar-se estar caladinhas e subservientes, que é como o sistema gosta. A decadência deste modelo é mais uma prova silenciosa do estado a que este Estado chegou. Vivemos a medo, sem saber como avançar, sempre retidos por algemas invisíveis, da centralização, do capitalismo e do absurdismo de aceitar que a aposta na valorização académica é só para algumas pessoas. Quebrar o ciclo da pobreza estrutural dos Açores passa pela Uaç, mas não podemos aceitar que para a frequentar, sejamos potenciais números nas estatísticas da pobreza.

Pacote patronal

Alexandra Manes

Hugo acordou e abriu as persianas. Recebeu uma mensagem do patrão que informava que naquele dia ia fazer mais três horas, dentro do banco de extraordinárias. Estava perto do final do ano e ainda não tinha cumprido as 150 horas extra que a empresa aprovara, sem a autorização expressa dos trabalhadores. Quem se recusar já sabe: “a porta da rua é serventia da casa”.

No andar de baixo do prédio, Rosário passara a noite em branco. Roía as unhas, até à pele, enquanto pensava no que ia dizer naquela entrevista de emprego que estava programada para daí a duas horas. Uma oferta rara naqueles dias. Um contrato a prazo, sem qualquer regalia, e com a possibilidade de terminar a meio, se a patroa o entender. Mas, como Rosário estava a entrar no mercado de trabalho, as suas opções estavam limitadas a ofertas daquele género. Era isso, ou escravatura. E ela roía as unhas, na dúvida sobre qual a melhor tortura.

Do outro lado da cidade, numa casinha pequenina, com o telhado a cair e manchas de humidade, o casal Esteves discutia de forma acesa. Carla tinha descoberto que o Luís tinha sido despedido e não lhe tinha dito nada. Quando confrontado, desatou a chorar e admitiu que tinha ido para a rua. A empresa mudara de política interna. Fora substituído por um computador. E ainda lhe disseram que era justa causa. Carla não podia acreditar. Tal coisa não poderia ser verdade. Não viviam num mundo desumano assim, pois não?

Aquela manhã chegara a Portugal, e não veio pela calada. Veio vestida com nuvens cinzentas e pacotes apresentados pela Spinumviva, com a validação dos amigos que já não são nem do centro, nem cristãos. Não esquecer os sanguinários partidários da filosofia de Milei, capazes de explorar tudo para justificar vidas humanas com números imaginários. E, claro, sentados nas sombras, a aplaudir, estavam os senhores do ódio. Aqueles que se arrogam de serem machos, mas que deixam o cravo afrouxar e morrer nas suas mãos.

Chamaram-lhe, eufemisticamente, pacote laboral. Uma medida de marketing, certamente patrocinada pela consultadoria de uma empresa digna de futuro primeiro-ministro. Na verdade, é a sangria do povo. Uma última investida junto dos direitos que conquistamos há mais de cinquenta anos, a ferro e fogo. É uma armadilha e uma morte anunciada para o que resta dos pobres e remediados em Portugal. Montenegro está disponível para assinar este acordo com os grandes senhores do patronato, desde que lhe garantam um lugar na mesa, em anos vindouros. Um acordo miserável, parafraseando o outro que acha que a Revolução é brinquedo.

Quando celebramos as datas que andam por aí por estes dias, não se trata de um apagar de velas, e de um sorriso acéfalo. Honrar o 25 de abril e, principalmente, o 1 de maio, é levar a luta para a rua. O país está à beira de acordar com mais horas de trabalho e menos direitos para a classe operária. Mais cego, é quem não o quer ver. Eles estão a aproveitar esta luta para destruir o que resta do sindicalismo. E mais cego é quem ainda não vê. Estamos condenados a cair, mas não precisamos de nos deixar ficar no chão. Juntem-se, este ano, e sempre que for necessário. Marchem junto às casas dos ministros. Não se calem em frente aos fachos e aos patrões. Somos seres humanos. Mulheres e homens com direitos. Obriguem-nos a temer a realidade que não querem que se saiba: o povo é soberano. E o povo tem fome de viver.

Tapar o sol com o mecanismo

Alexandra Manes

Aos Açores compete ter a noção mínima e não aplaudir aqueles que põem o mundo em chamas só porque depois aparecem com um balde. Assim deve ser, em qualquer contexto, mas neste momento particular da nossa tímida história, talvez seja importante falar às claras, citando a coragem dos nossos vizinhos ibéricos.

Neste caso, é sobre a emboscada à SATA, o assunto da Ryanair e do Subsídio que agora é Mecanismo, que escrevo. Após anos de péssima gestão e de empurrões sucessivos, em nome de problemáticas constitucionais e integridades territoriais, voltamos, mais ou menos, à estaca zero, com o acréscimo de termos perdido mais umas quantas valências associadas à nossa acessibilidade. O Governo Regional é, em primeira instância, o grande culpado, e os partidos que o sustentam não possuem qualquer legitimidade para se fustigar, por terem tentado interromper a enchente a meio da inundação que criaram.

Na verdade, e contrariamente à realidade da Madeira, o caso açoriano, ao abrigo da extrema bem direita que o sustenta, foi preparado propositadamente, para que se possam manobrar negociações entre o setor privado, o semipúblico e o grande buraco que lhes interessa que cresça. Para a governança neoliberal da Secretaria das Finanças, que anda de mãos bem dadas à Senhora Secretária da Mobilidade “Só Para Alguns”, a realidade que almejam criar é cada vez mais evidente.

Está é cada vez mais selvagem. Mas os neoliberais continuam a achar que o conseguem domar, até porque normalmente quando se afastam dos cargos há uma posição a abrir na direção das empresas e fundações de amizade do peito.

A realidade é esta: a SATA é um problema alimentado pelas forças mais conservadoras da sociedade civil açoriana, que se entrelaça partidariamente.

A SATA é um problema porque querem que seja, da mesma maneira que o Subsídio de Mobilidade só levantou comichão quando foi preciso usar o umbiguismo institucional do centralismo lisboeta para escudar os erros a nível local. Lisboa, claro está, responde sempre ao repto de nos oprimir. Mas isso não pode legitimar os partidos açorianos, que agora surgem de balde na mão, para apagar uma parte ínfima do fogo que vão ateando na Região.

A acessibilidade não pode ser a bandeira de governos que, sistematicamente, se vão esquecendo de partes dos seus territórios. De pouco ou nada nos serve a organização de encontros e eventos na ilha das Flores, quando as estimativas mais simpáticas apontam para anos de trabalho até que volte a ter uma operacionalidade mínima no seu porto comercial. Apregoar aos sete ventos as virtudes do setor espacial em Santa Maria não servirá para nos fazer esquecer os barcos que para lá deixaram de operar, ou as milícias políticas que continuam a destruir a sua sustentabilidade orçamental interna.

A reconquista de algumas das coisas boas que o Subsídio nos trazia, limitando-se essencialmente a repor o que já antes acontecia, é apenas um placebo para a população, e uma forma de granjear alguns votos, principalmente para os que temem perder o seu lugar. A remodelação está ali à espreita, e as facas serão longas. Não haverá Mecanismo que salve da incompetência.

Termino, relembrando a data histórica de 1974, a qual Sophia Andresen tão bem nos descreve “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo“. 25 de Abril, sempre!

Um conto infantil

Alexandra Manes

Por estes dias, recebi um pedido para assinar uma petição pública defendendo a continuidade da Hora do Conto, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. Muitas das pessoas que lerem este texto também terão recebido. Assumo a incredulidade só com o título. Então não há dinheiro para pagar uma hora do conto?

Foi um susto passageiro. Agravou-se rapidamente. É que, como muitas e muitos açorianos, eu também tenho ouvidos nos corredores do Palacete Silveira e Paulo. E não são os ouvidos que as teorias da conspiração podem fazer crer. São ouvidos discretos. Em todos os sentidos da palavra. O que me chegou foi a informação, já desmentida, numa breve resposta ao Diário Insular, mas que me parece bater certo com este cancelamento da Cultura. A nova diretora regional, depois de ter demorado meio semestre a tomar posse, reuniu as suas chefias para informar que, em 2026, não há dinheiro. Sim, leram bem. Este ano, as bibliotecas e museus da Região vão congelar muitos dos seus planos de atividades, algo que, perante o Diário Insular, a Secretaria se escudou de confirmar… ou desmentir.

Comecei por pensar que poderia ser um ato performativo, estilo instalação artística, a modos que invisível, para celebrar os 50 anos da Autonomia e a efeméride da Capital Portuguesa da Cultura. A nossa liberdade permite que nada façamos! Algo assim, meio para o abstrato. Mas não. É informação transmitida em nome da Senhora Secretária, que nem esteve na reunião. Não há dinheiro para a Cultura. Outra vez. E desta vez nem o arroz escapa. Prato vazio para quem quer usar os nossos serviços externos para representar o arquipélago.

Agora, entendo a “fuga” da anterior diretora da cultura, provavelmente por antever a crise profetizada. Não se esperava era que fosse desta dimensão. Ao que é possível apurar, junto de quem de direito, os diretores e as diretoras estão de cabelos em pé. Dezenas de fornecedores de serviços, alguns deles apalavrados e outros com compromisso firmado, receberam nota de cancelamento. Entre eles, a hora dos contos infantis na biblioteca de Angra. São as crianças que perdem. Os adultos. Os turistas. Segundo consta, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo já terá indicado a sua disponibilidade para assegurar a manutenção da Hora do Conto, resolvendo mais um imbróglio da ineficácia governamental. Assim o espero. Caso contrário, fica tudo ao abandono, como se fosse um cenário de guerra ou uma autoestrada depois do rio galgar. Esta é a política do governo de Bolieiro, secundada pela extrema direita e validada pela atual diretora e pelas suas chefias diretas, que nada fazem para apaziguar as direções dos museus e bibliotecas. Cancelem. Esqueçam. A cultura agoniza. Tal como num conto infantil do século passado, são os vilões de cinema que se levantam para nos engolir. Deixo um abraço solidário a quem trabalha na Direção Regional da Cultura e não tem culpa de nada. Querem fazer, mas não vos deixam. Eu sei. Desejo-vos força e resiliência. Tal como nos contos infantis, um dia esta sombra irá passar. Bem que há abaixo-assinados a pedir o regresso de D. Sebastião. Até lá, é aguentar.

Já agora, talvez fosse interessante conhecer a distribuição das verbas orçamentadas entre o Teatro Micaelense e as restantes ilhas, no contexto regional, após os cortes transmitidos.

3.500 Caracteres

Alexandra Manes

A democracia morre na escuridão. É esse o lema que permanece na montra do afamado jornal The Washington Post, e que simboliza aquilo que melhor representa o espírito livre do jornalismo. Na prática, o Post é agora o braço armado do bilionário Jeff Bezos, que controla a sua linha editorial de forma inflexível. Com a ascensão do ditador Trump à Casa Branca, e a queda das máscaras dos oligarcas americanos, o jornal passou a assumir uma postura clara, contra quem é adversário do dinheiro, procurando sempre favorecer os interesses do senhor do novo fascismo que agora emana das sedes do poder, nos Estados Unidos, para o resto do mundo.

A democracia morreu, às claras, e ninguém a conseguiu salvar. Lá. E cá? A realidade é inevitável, mesmo que continue a surpreender os mais distraídos desta vida, quando escutam debates e procuram soluções impossíveis de encontrar. Portugal, tal como o resto do mundo, segue a rota de colisão dos americanos. A polarização alcançou proporções monumentais e é agora quase impossível voltar ao que era dantes. Assim, o nosso país corre o risco sério de ser governado por um salazarista convicto, apoiado por neonazis e outros que tal, nos próximos dez anos, se não o for já agora, com as presidenciais de domingo, dia 8.

E o que é que isso tem a ver com o Washington Post? Quase tudo. Nos últimos tempos, graças ao esforço dantesco de algumas personalidades da nossa praça digital, conseguimos apurar a quantidade de vezes que o Ventura foi entrevistado. Às vezes, estão a transmitir uma conversa com ele, em direto, enquanto em rodapé vai passando mais informação sobre o seu gangue de alegados criminosos, e nos jornais de tiragem em papel, aludirem à sua ascensão e suposta inteligência. Quem o ouve com mais atenção sabe que ele não é tão brilhante como o querem vender. Mas, isso não interessa. O que vende é a polémica. O imediatismo. A luz dos holofotes jornalísticos que esmaga a democracia com mais força do que alguma escuridão poderia imaginar.

Já não me restam muitas dúvidas acerca do futuro estatuto de primeiro-ministro de Ventura. Espero apenas que seja como o primeiro mandato de Trump, e que o consigamos impedir de alcançar o segundo. Entristece-me ver como a comunicação social foi transformada, de pilar da democracia para instrumento deste novo poder, que joga com as regras velhas do absolutismo e dos salazarentos dossiers do dinheiro. Aprofundo a minha depressão ao perceber as ameaças que sofre o jornalismo. Problema profundo, com raízes nas dificuldades da periferia, aprofundadas pelas crises e finalmente cimentados em regras e estatutos que promovem o imediatismo e combatem a reflexão de acalmia.

Assim, resta-me apelar a que continuem a pensar pela sua cabeça e desconstruam as mentiras virais. A partir de hoje, serei mais concisa na minha opinião. Três mil e quinhentos caracteres. Eu respeito a lógica e reconheço o esforço hercúleo da comunicação social escrita na manutenção de espaço para as reflexões, mas aborrece-me a ideia de que só posso escrever dentro de uma baliza. A democracia morre, em jaulas. Esperemos que não seja o caso. E, no domingo, não se esqueçam de votar, e de votar com democracia, luz e humanidade, porque hoje são garrafões de água, mas futuramente sabemos nós se teremos acesso ao copo de água?

No dia que o Império cair

Alexandra Manes

8 de janeiro, mais uma novidade desastrosa que nos atinge como um murro, proveniente da terra outrora arrogada de Liberdade e prosperidade para todos e todas. Numa operação especial, que poderia ser de Vladimir ou Kim, mas foi antes promovida pelo companheiro de carreira ditatorial, Donald, a polícia política do ditador avançou para Minneapolis e disparou, a sangue-frio e sem motivo evidente, contra uma mãe de família.

Bem sei que, ao lerem estas linhas, reconhecerão a factualidade das mesmas, sem que seja preciso que as elenque, novamente. Mas, importa chamar os bois pelos nomes, e os fascistas pelos crimes. O que se passa nos Estados Unidos, com uma crescente e gritante impunidade, é fascismo na sua forma mais pura, decalcada do projeto primeiramente preparado por eles, e agora executado pelos seus lacaios.

Regressemos a uns meses atrás, quando o Projeto 2025 começou a ser implementado, com alguma vergonha e pudor, cavalgando a onda de violência que se foi levantando, incentivada pelas redes sociais, contratadas pelos financiadores de Trump. Por essa altura, o caminho ainda era feito entre pessoas com alguma fibra moral, e lacaios sem compaixão. Havia meios termos. Aparente esperança, para as pessoas que nunca leram livros de história, ou pensaram para lá do seu pequeno mundo.

Só que Trump está muito velho. Literalmente a cair de podre, em alguns momentos das últimas semanas. E os sanguinários que escolheu para o seu gabinete sentem o sangue na água. Estão prontos para tomar o poder, e assegurar a conquista que lhes falta fazer. Não a do país, mas a da alma da Nação, que morrerá debaixo de um manto de corrupção e ganância, muito comum a estes regimes.

Ninguém inventou a roda. Nos últimos dias, o que cresceu foi apenas a falta de vergonha, potenciada pela conquista da Venezuela, numa invasão dedicada à manipulação do resto do mundo, que parece ter resultado, até certo ponto, com a conivência do regime que Maduro alimentou até à sua morte política.

Assim, voltamos ao presente, para recordar as principais personagens deste círculo do Inferno de Dante. Na Casa Branca, Karoline Leavitt e Stephen Miller, próximos do ditador, e com o ouvido dele à sua disposição. Ela é a manipuladora principal da comunicação oficial, com menos de trinta anos e uma já vasta carreira de mentiras, sustentada numa aparente e total falta de moralidade. Ele, é um monstrengo, que ao que tudo indica já nasceu assim, sanguinário e cheio de vontade de conquistar o seu próprio país.

Leavitt foi literalmente instrumentalizada por homens mais velhos, que a rodeiam há muito tempo, e que a guiaram até ao pódio da comunicação de Trump, onde ela papagueia o que é necessário, e mente a olhos vistos. O grande truque do fascismo é dizer que o azul é, na verdade, verde. E os seus apoiantes acreditarem. É esse o trabalho dela. Miller, por sua vez, é o arquiteto da destruição da paz social, que propositadamente provoca os americanos para gerar uma onda de caos inevitável, e invocar, assim, a sua polícia política para resolver o assunto aos tiros.

A juntarem-se a esses inenarráveis seres, temos de falar de Kristi Noem. A tal ICE, de que ouvimos falar, e que é a verdadeira força fascista dos americanos, na atualidade, é comandada por Noem, uma mulher desprezível, capaz das maiores mentiras para promover o discurso oficial do partido e destruir o seu próprio país. Foram esses os atores que se juntaram, com o apoio de bastidores de muitos outros, para tentar, uma vez mais, lançar a guerra civil nos Estados Unidos. Desta vez, deram mais um passo para lá da linha vermelha. A polícia política assassinou uma mulher, a sangue-frio, e devidamente filmado. A transmissão do evento, provocou o caos no país, que se revoltou contra Trump e os seus cães-de-fila. É o que eles querem. A guerra final. E possivelmente vão conseguir.

Quem morreu foi Renee Good, uma mulher de trinta e sete anos, mãe de filhos, poetisa, apaixonada por livros e pela vida. Quem a conhece, diz que nunca foi particularmente ativista, mas que se preocupava cada vez mais com o que se passava no país. Ressentia-se por viver num estado ditatorial, coisa que é perfeitamente compreensível. Foi assassinada, pouco depois de ter deixado o filho de seis anos na escola, quando observava uma das operações de destruição social promovidas pela ICE, de forma pacífica, e sem envolvimento direto na mesma.

Noem diz que é mentira. Que a inocente era afinal uma terrorista. Miller defende o assassinato. Sublinha que a América é uma Nação de força, onde manda quem tem a arma maior. E Leavitt escreve os discursos do seu paizinho Donald, apelando a que o eleitorado acredite na mentira, e veja em Renee Good uma inimiga mortal.

Karolinne Leavitt está grávida, ao que parece. Mas nem por isso se compadeceu com o assassinato de uma mãe de filhos. É essa a verdadeira face do decadente império que se vai destruindo a si próprio. É esse o resultado de séculos de desinformação e ignorância generalizada. Os Estados Unidos não são a Alemanha de Hitler. Estão mais próximos do Império Romano, que ao cair levou consigo as suas gentes, deixando apenas ruínas e estátuas para trás. De Roma, resta apenas a história da sua sanguinária existência. Dos Estados Unidos, esperemos que nada reste, quando isto terminar. É duro, mas é necessário. Renee Good, se ainda estivesse viva, imagino que conseguisse compreender.

O triste fado da cultura

Alexandra Manes

Daqui a um mês e pouco inicia, formalmente, o ano da Capital Portuguesa da Cultura na cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Uma missão, construída a muitas mãos, e que começou por ser parte de nove ilhas, que se desejaram como nove bairros. Uma perspetiva de futuro para a cultura regional, onde aquela cidade um dia poderia ter sido o farol que esta Região desesperadamente precisa.

E depois, nada. Após a derrota no processo europeu, o prémio de consolação anunciado, referente à distinção nacional, parece que foi varrido para debaixo do tapete. Durante anos, Ponta Delgada adormeceu culturalmente, entregue apenas a festas e concertos de periferia para agradar às disformes massas de turistas que se passeiam pelas suas ruas, lado a lado com as centenas de pessoas que padecem de problemas graves de inclusão social, sem dinheiro para comer, quanto mais para alugar um T0. Em vez de capital, portuguesa ou açoriana, Ponta Delgada tornou-se um exemplo a ter em conta quando pensamos num povo que não recebe cultura. O seu município não fez o seu trabalho. Por isso, e por outras coisas, deveria ter perdido nas urnas.

Não perdeu. Nascimento Cabral regressou, vitorioso, agora com o poder consolidado, concentrando os poderes no senhor presidente, Ponta Delgada prepara-se para ser, de facto, a Capital Portuguesa da Cultura? Veremos.

Para já, o que sabemos é que, alegadamente, há muitas forças a mexerem-se internamente, com muitas vontades e jogos de bastidores. Do que é sabido e do que alegadamente se passa, não vale de muito aqui falar, porque são frases ditas, que não se escrevem com medo de serem vistoriadas por alguma inspeção minimamente decente. Poderia mencionar um suposto apartamento de luxo, ou perguntar por eventuais regalias do comissariado, mas isso até teria possível perdão e desculpa se houvesse um programa para podermos trabalhar. Afinal, o que parece haver, é uma equipa selecionada para fazer negociatas, entre grupos escolhidos a dedo, sem igualdade de oportunidades ou sequer vontade de tentar parecer que é coisa justa. De nove bairros, a Capital da Cultura passou a nove pessoas, mais coisa, menos coisa.

2026 será o ano da Autonomia. Até morrer, não se celebrará outra efeméride tão redonda, em torno desse conceito, que fez dos Açores aquilo que hoje são, para o bem e para o mal. Algumas organizações, cá e lá, preparam programas de trabalho para celebrar a Autonomia. Espera-se que venham mais conferências e debates sobre o futuro, o que é perfeitamente compreensível e meritório. Só que estamos a fugir com o rabo à principal seringa, a meu ver. A Autonomia esgota-se no centralismo. E é de centralismo que foi feita a casa da Capital Portuguesa da Cultura, abandonando à sua sorte o resto do arquipélago, da Ribeira Grande a Santa Cruz das Flores, de Vila do Corvo à Horta, de Angra do Heroísmo a Velas. Das Lajes do Pico à Povoação. Só restou Ponta Delgada.

O que não seria grave, novamente digo. Porque, em teoria, para os Açores a Autonomia permite construir uma estrutura de trabalho, que ao longo dos anos se convencionou chamar de Direção Regional da Cultura ou dos Assuntos Culturais, consoante a poesia mais ou menos inspirada de quem a dirigiu. A gravidade prende-se com a análise dos últimos anos, verificando-se então que não há direção regional a funcionar desde o tempo de Nuno Ribeiro Lopes, último diretor regional que deixou trabalho feito, gostando-se mais, ou gostando-se menos. O arquiteto Ribeiro Lopes foi o último a trabalhar, verdadeiramente, o Regime Jurídico de Apoio às Atividades Culturais. Foi o responsável por definir estratégias para a leitura, para o audiovisual, para o património baleeiro, para a arqueologia e para museus e bibliotecas. Os que se seguiram, ainda foram cavalgando parte do seu legado, até que a coisa acabou por se ir esgotando, no final do oceano de ideias por ele deixado. Assumo que faria uma vénia ao Governo ou a um movimento social que reivindicasse o seu regresso, pela salvação da Cultura.

Restaram pessoas por ele valorizadas em cargos técnicos. E esperou-se que a Cultura fosse sobreviver. Dessas pessoas, já não encontramos vestígio palpável. Enquanto escrevo estas linhas, o cargo de diretora regional está ausente. A diretora de serviços, temo que esteja ocupada a tirar uma formação com os bombeiros regionais, para poder apagar os fogos todos que se multiplicaram na operacionalização da famosa plataforma dos apoios, que nunca funcionou. Graças às mudanças na orgânica, já não há mais chefias intermédias de primeiro grau. E no segundo grau, também só há um chefe de divisão, que vai dando sinal de vida, aparecendo nas fotos dos projetos da Universidade dos Açores e da Associação Portuguesa de Museologia.

Voltando a PDL26, há um documento essencial e que parece passar despercebido à sociedade açoriana: o protocolo assinado, a 18 de outubro, entre o Governo da Spinumviva, retalhado por dois ministérios, uma secretaria e uma câmara mal-amanhada, não chega nem perto de 5 milhões, e está dependente de competência que não se reconhece nas partes interessadas. Esse mesmo documento prevê uma fiscalização interna, com total transparência para conhecimento da sociedade que deveria beneficiar deste evento. O que é certo é que já há um requerimento do Partido Socialista, datado de 21 de outubro, com perguntas objetivas acerca da transparência financeira, da transparência da programação e custos associados e da fiscalização contratual. E eu junto-me a essas vozes, perguntando uma vez mais: Quais os critérios definidos para a nomeação da senhora Comissária? Quem nomeou? Qual o valor total de vencimentos, deslocações, alojamento, alimentação e ajudas de custo para a senhora comissária e para a sua taskforce, no orçamento total de Ponta Delgada – Capital Portuguesa da Cultura de 2026?

A transparência não pode ser só uma palavra usada para promover determinados umbigos, porque assim, a cultura está irremediavelmente perdida. Se ainda por cá estivesse o Almada Negreiros, que diria ele disto tudo? Talvez que morra a cultura, morra, pim!

Os outros são eles

Alexandra Manes

Quem nasceu ou viveu em Portugal, durante um curto período, já se deparou com referências a tachos, com bastante regularidade. Não me refiro a questões de culinária. Falo de tachos, no sentido metafórico, tantas vezes aproveitado pela classe política, mas também por outras profissões que flutuam em torno do ato de maldizer do nosso país.

Ainda que não se conheça a verdadeira origem da expressão, de acordo com especialistas em linguística, a verdade é que a mesma está associada à ideia de ter um trabalho bem pago e sem chatices, onde uma pessoa possa usufruir de regalias sem sofrer as consequências das suas falhas. Onde tenha capacidade para ter um tacho maior de comida, portanto. No caso da política, a ideia aplica-se, em geral, a pessoas com poucas competências, que são nomeadas para cargos de grande remuneração, onde vão ter poder, boas remunerações (comparadas com o salário mínimo e médio praticados) e fazer pouco ou nada.

De certeza que ao ler o parágrafo anterior, reconheceram uma antiga chefia, ou atual deputado regional, na forma como imaginaram o tacho de comida mal distribuído que para aqui vai. Mas o propósito de hoje não é procurar bodes expiatórios, nem burros cansados de canadas, na nossa pequena realidade insular. O meu objetivo é claro, e não é mais do que alertar para o que vai acontecer, agora que terminaram estas eleições, e já começaram as campanhas para as próximas: as acusações de tachos continuarão.

Há um movimento na nossa classe política, que não é exclusivo de partido algum, mas que se apegou a uma determinada linguagem de populismo sem dignidade, onde o tacho dos outros é bandeira dos que se querem apelidar de pessoas de bem. Transportando estratégias dos Estados Unidos, que por sua vez se limitaram a ir beber aos velhos conceitos de estadistas como Sun Tzu, sendo que estes movimentos constroem uma narrativa em torno de uma guerra cultural, onde um dos lados vem para salvar a pátria e o outro só existe para se aproveitar da mesma.

Eles são os bons. Os outros são os maus. Assim o foi durante todas as últimas campanhas. Assim será agora, com as presidenciais, pessoalizando ainda mais a questão, porque todos e todas sabemos que o cargo de presidente se transformou num lugar de homem só, pelas desastrosas ações de Marcelo, que se aproveitou do ainda mais desastroso Coelho para tomar a presidência sem apoio partidário. O populismo é, atualmente, a principal força política a nível mundial. Algum dele, suportado pela extrema-direita, mas também muito dele utilizado ao centro, por alegados moderados, como forma de sobreviver no crescente pântano de ideias ensopadas.

Esta história dos outros que são maus e dos bons que são os que fazem a campanha decente, fez-me regressar umas décadas atrás, e recordar um filme da sempre brilhante Nicole Kidman, que tinha esse previdente nome de «Os Outros».

No filme de suspense, em muito parecido com a nossa realidade, a atriz habitava numa casa que parecia estar assombrada por forças capazes de lhe fazer mal. Em todas as esquinas, ela e as suas crianças deparavam-se com adversários imaginários, que ali estavam para destruir o seu quotidiano. Esses “outros” tornaram-se seres fantasmagóricos, de tudo capazes para conquistar o maior tacho de comida. E ela, que só queria um espaço para si, e para os seus.

Até que, perto do final da película, percebemos que era Nicole Kidman e a sua prole que eram, na verdade, “os outros”, assombrando a verdade com as suas ilusões, incapazes de admitir que eram capazes do mal que viam nos olhos de quem tinham medo.

Assim é com os tais tachos. Durante anos, forças do mais redutor populismo apregoaram o combate ao tacho. Campanha, atrás de campanha. Vídeo viral, com burros, padres e outras tristezas que só não são cómicas por serem trágicas. Dizem-se salvadores e comandantes de um novo país e de um mundo melhor. E tudo isso para quê? Para serem eles os próximos a ter tachos para distribuir? O que se encontra em cada esquina dos novos partidos populistas é uma necessidade constante de derrubar o poder vigente, em que vale tudo para terem a colher de pau, o “salazar” e o tacho na mão. Quando lá chegam, não se encontra outra via, que não seja a de distribuir cargos por pessoas que demonstram menos competência, sempre de forma pior que as anteriores administrações.

É assim que encontramos a realidade do Governo Regional, onde pastas como a Cultura entraram em decadência absoluta, e onde qualquer funcionário público que seja imparcial irá admitir que a qualidade das chefias piorou a olhos vistos, nos últimos anos. E assim se vê também nos partidos que gritam mudança e falam mal dos outros. Deixo-vos um excerto do livro de Miguel Carvalho, que pode ser bastante elucidador:

«Em nenhum caso, poderia, em consciência, “perder a minha virgindade política”, com tão baixas e tristes companhias, justificou. Muito menos, continuava, ser obstáculo a “ambições políticas mesquinhas” e “carreirismos” de “desempregados políticos”. Os “tachos”, “poleiros” e cargos para que fora convidado, ironizou, “ficariam, certamente, ainda mais bem entregues ao Rato Mickey, ao Pateta, à Minnie e, se algum ainda sobrasse, à Theodora do filme Oz: The Great and Powerfull.”»

O excerto contém parte de um email apresentado por Jorge Castela, um dos fundadores do partido de André Ventura, que foi o primeiro ideólogo daquele grupo contra os tais “outros”. A parte que cito enquadra a sua suposta carta de demissão, onde acusa tudo e todos de serem apenas uma cambada de perseguidores de tachos, iguais aos “outros”. Castela é insuspeito de ser boa pessoa, mas também é um dos que melhor conheceu os bastidores do movimento populista que agora toma o nosso país. O que quer isso dizer? É só fazerem as contas.

Portugal, tal como o resto do mundo, está entregue aos tachos e aos que os perseguem. Pelo menos assim nos querem vender um conjunto de falsidades e meias-verdades que procuram acabar com os poucos pilares da democracia que ainda nos sobram. Os “outros”, na verdade são os que concorrem e ganham com ideias de ódios e desprezo, onde vale tudo e mais um burro para convencer o eleitorado. Os outros, são eles mesmo. E os tachos onde comem, já são maiores do que as cozinhas dos que votaram neles.

Certo é que, à altura que redijo estas linhas, os resultados eleitorais, nos Açores, estão fechados e bastante claros. Infelizmente, vejo a manutenção do executivo autárquico, na Praia da Vitória. Por outro lado, em Angra do Heroísmo, Fátima Amorim foi a grande vencedora, com uma vitória indiscutível. Santa Cruz das Flores foi uma surpresa, onde a candidatura independente, liderada por Elisabete Noia, ganhou.

Entretanto, aquilo de que se arrogavam algumas candidaturas, na ilha Terceira, não se concretizou. Afinal, as urnas deram a resposta e não elegeram nenhum candidato do chega, às Câmaras Municipais de Angra do Heroísmo e da Praia da Vitória, e esta terá sido a maior vitória do povo, nos órgãos que nos são mais próximos.

Quanto aos comentários feitos à minha pessoa, relativos a egocentrismo, capacidade e força, bastará analisar os resultados eleitorais autárquicos, desde 2005 até ao dia de hoje. Termino, citando um ditado de São Jorge, que consta do Cancioneiro dos Açores, que diz o seguinte: “Quem serra por baixo, cai-lhe farelo nos olhos”.

Amigos, amigos, autonomias à parte

Alexandra Manes

Terça-feira, dois de setembro de dois mil e vinte e cinco. Paulo Simões, deputado eleito pelo PSD e Presidente da Comissão de Economia, toma a palavra, em reunião, para ler uma missiva vinda de Lisboa. Por momentos, somos transportados/as para o tempo dos Descobrimentos, quando chegavam cartas dos monarcas da Metrópole para anunciar novidades às pessoas da província insular, lá longe no meio do mar.

Simões lê o comunicado de Miguel Pinto Luz, outro do longo leque de ministros que Luís Montenegro parece ter escolhido propositadamente como exemplos do que não fazer, nem ser, quando se brada pela meritocracia. O senhor Ministro das Infraestruturas fez saber, por interposta pessoa, que não se faria ouvir em Comissão, para qual havia sido convidado pelo povo açoriano, através das suas e dos seus deputados. Fez saber que não o faz, porque não quer ferir o princípio da imparcialidade política. Afinal de contas, onde é que já se viu um Ministro a ser político? E parcial? Só nos desenhos animados, certamente.

Miguel Pinto Luz anunciou que não vai responder às questões preparadas pela Comissão, referentes a assuntos relacionados com a avaliação do atual modelo de transportes marítimos e abastecimentos locais.

Para as pessoas mais distraídas, o que se passa remete-nos para uma realidade que beira o abismo. Estamos perante uma falta crónica e sucessiva de resposta adequada às necessidades de abastecimento das empresas locais. Nem mesmo o centralismo escapa, porque é também em São Miguel que a coisa se tem sentido com particular ardor. A responsabilidade é, evidentemente, uma questão a abordar com o Terreiro do Paço, porque é de lá que deveriam emanar as diretrizes e estratégias necessárias para manter a sacrossanta coesão territorial. Mas, isso só serve quando lhes interessa, claro está. O senhor Ministro escudou-se e apelou à compreensão e ao respeito pela separação de poderes e governos.

Num ápice, Miguel Pinto Luz transformou-se num acérrimo defensor da importância da Autonomia! Será o governo de Montenegro tão transformista quanto o de Bolieiro?

Importa recordar que Miguel Pinto da Luz só engana quem se deixa enganar. Já se esqueceram da sua breve passagem, pelos Açores, enquanto candidato à liderança do PSD, em 2019, onde mostrou uma profunda preocupação com a Universidade dos Açores e com o défice de financiamento da instituição, acusando o, então, Governo da República de “não querer dar resposta a este problema tão gritante”, acrescentando que “Uma universidade com estas características, tripolar, numa região ultraperiférica, tem desafios que nós temos de olhar e tratar de forma diferente. Não podemos tratar igual aquilo que é diferente e por isso temos de ter abordagens diferentes.”. O seu partido é Governo e o que fez pela Universidade dos Açores? Adoptou um modelo de financiamento que prejudica aquela que era uma instituição com a qual tinha tanta preocupação…

Voltando à atualidade, certo é que, quando lhe deu jeito o mesmo Ministro não se lembrou da imparcialidade, nem coisa parecida, e, em sede da mesma Comissão, foi ouvido acerca do Subsídio Social de Mobilidade – após ter introduzido um teto de 600 euros de custo elegível máximo, sendo que as pessoas passaram a suportar o valor acima desse teto (além dos 134 euros) – presenteando a província com umas declarações plenas de colonialismo encapotado. A separação de poderes, à época, devia estar de férias.

Recordem-se que Miguel Pinto Luz é do mesmo partido que Paulo Simões representa e que José Manuel Boliero lidera, nos Açores. Recordem-se, também, que vivemos tempos de plenitude alaranjada, com todos os órgãos de soberania democrática a serem comandados pelo mesmo partido, sendo que em alguns casos está auxiliado por outros menores. Portugal é totalmente governado pelo PSD e, no entanto, o PSD não se entende consigo mesmo.

Assim vai a história das finanças regionais e da conferência de líderes que Montenegro quer muito, muito, muito fazer, com Bolieiro e Albuquerque. O Luís, lá em Lisboa, quando não está ocupado a esconder imóveis da Entidade para a Transparência, passa uma parte dos seus dias a arranjar maneira de não falar com os senhores das ilhas. Será, talvez, um amante da história de Portugal, que deseja voltar ao tempo em que o monarca falava em Lisboa e as orelhas baixavam nos Açores. Mesmo que, para o efeito, seja preciso abandonar os colegas cor-de-laranja.

Esses desentendimentos e centralismos arrogantes persistem também noutros casos.

Vejam-se as declarações da presidente da Praia da Vitória, que acordou do adormecimento veraneante para se lembrar que tinha campanha eleitoral para fazer este ano. Vânia Ferreira questionou a administração da RTP, ao saber que a mesma tinha decidido deixar a delegação da RTP/Açores, na ilha Terceira, sem qualquer tipo de segurança, e de portas fechadas ao público.

Há algum tempo que assistimos a um processo de destruição dos nossos canais de comunicação social públicos. Montenegro, e os amiguinhos neoliberais, retomaram os esforços do padrinho Passos, para acabar com o projeto até ao final do mandato. E esse trabalho de desossar o esqueleto da Rádio e Televisão de Portugal vai ter consequências, desde logo para nós, aqui tão longe.

Fartaram-se os senhores das gravatas de fazer propaganda e publicidade, engrandecendo a RTP/Açores por ter 50 anos de existência, em 2025. Vídeos e mensagens institucionais que vieram do país inteiro. O que não veio foi uma visão para salvar o barco e tapar os buracos. Em vez disso, vieram mais cortes. Até ao corte final, que chegará um dia.

O que Vânia e Paulo não nos disseram, mas deviam ter dito, é que as atitudes de Luís Montenegro, Miguel Pinto Luz ou da administração da RTP também são culpa sua. O PSD está a parasitar os Açores e a promover e consolidar o colonialismo e o centralismo que sempre afetou as nossas ilhas. E se o PSD não quer saber dos seus, quanto mais quererá dos pobres coitados que se dignarem a falar contra eles.

Este é o futuro da Região. Um conjunto de nove ilhas onde autonomia é palavrão, e subserviência é recompensada com desprezo. Para o ano há festa para celebrar um aniversário redondo. Alguém que se lembre de falar disto, antes que seja a última efeméride a celebrar.

O Ministério da Artificial Inteligência

Alexandra Manes

Fernando Alexandre, atual Ministro da Educação, Ciência e Inovação, bem como detentor de nome de artista de música pimba que vem atuar nas festas de Verão da freguesia, apresentou uma vasta proposta de reformas do sistema pedagógico português, tendo por base aquilo que apelidou como sendo uma visão unificadora do aparelho público.

Não é novidade para o eleitorado do nosso país a realidade de se votar num partido, ou coligação, e depois verificar que quando chegam ao poder o que estava no seu programa não é para cumprir. Há uns programas sombra que estão sempre guardados na gaveta, prontos a entrar em ação, se por acaso forem eleitos. O que se imprime e coloca disponível para o público raramente corresponde à intenção dos grandes partidos. E do partido do veneno, pior ainda, mas isso será matéria para outro dia.

Em relação às mudanças do senhor Ministro, imaginamos um gabinete cheio de adjuntos e secretários-gerais a abanar a cabeça em concordância, mesmo que muitos não percebam o que foi dito e será feito, enquanto outros sabem, mas também reconhecem a necessidade de manter o cargo e o estilo de vida a ele associado. Essa é também uma realidade bem conhecida, já retratada em muitas narrativas de ficção, que só pecam por serem demasiado meigas com a verdade. O senhor Ministro quando fala, é para cumprir, mesmo que seja para fazer mal às gentes. A palavra do chefe é dura, mas é a palavra do chefe.

Assim verificamos a nefasta extinção em curso de uma série de gabinetes e projetos estatais com resultados positivos para o país, em nome do dinheiro e da ideologia neoliberal que governa os corredores do poder. Foram várias as vozes que de imediato se levantaram em defesa de duas das instituições que correm o risco de desaparecer: o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares.

Profissionais do arquivismo e da educação continuam a apelar ao coração de um governo que não quer saber, em defesa de um direito básico da Humanidade, que agora surge mais ameaçado do que nunca. Ler é uma necessidade que deveria ser elementar, porque é nas palavras que encontramos o conhecimento necessário para escapar ao obscurantismo do populismo.

Vivemos tempos desesperantes nesse sentido. Cada vez se lê menos, e quando se lê, os nossos cérebros estão atrofiados pela sensação de modernidade das redes sociais, formatados para manchetes e soundbytes, quase que incapazes de ir mais longe do que a rede de desinformação que reina entre nós. Para combater essa crescente ignorância, em muito semelhante aos tempos de Salazar e dos seus capangas, precisamos de mais leitura e mais acesso à mesma. Precisamos de um plano que nos indique caminhos, e sinalize obras de referência, capazes de educar os mais novos e promover o seu crescimento sustentável. Era isso que fazia o tal plano nacional, mais coisa, menos coisa, e que agora está em vias de poder desaparecer, se o senhor Ministro não acordar bem-disposto.

Quanto à rede de bibliotecas, a situação é ainda pior. O trabalho existente, obtém sucesso comprovado, com indicadores que demonstram um maior sucesso a nível de resultados escolares, bem como de literacia, nos espaços que contam com bibliotecas adequadas, geridas por profissionais devidamente capacitadas para o efeito. Retirar o acesso a essas ferramentas será colocar novos entraves ao futuro e às nossas crianças, abrindo a porta a uma maior facilidade de consulta de outras soluções, tais como a famigerada Inteligência Artificial. Não nego a importância que pode vir a ter.

Mas verifico, tal como qualquer pessoa com dois dedos de testa, que o uso de aplicações que fazem a leitura por nós, pensam em nosso lugar, e depois apresentam propostas de resposta, pode vir a ser profundamente maligno.

A Inteligência Artificial é manipulável, como Elon Musk já demonstrou. E é também uma fonte de controlo de massas. Retirar a leitura do nosso circuito de livre pensamento é abrir as portas à conquista de uma nova sociedade onde questionar o poder vigente não só será

proibido, como nem sequer será imaginado, porque as crianças perderão o poder de imaginar. Não imagino realidade mais triste do que essa.

Não que a atual seja particularmente melhor. Vão começando a sair os resultados do acesso ao ensino superior, e o que verificamos é desastroso, no sentido de começar a corroer o democrático corredor do conhecimento. Cada vez menos alunos com situações familiares financeiramente instáveis conseguem aceder a essas oportunidades.

As promessas de Montenegro, referentes à devolução do dinheiro das propinas, parece que ainda estão por cumprir. As instituições periféricas, como a nossa Universidade dos Açores, estão votadas ao abandono, com taxas de incorporação bastante fracas, que vão levar ao encerramento inevitável de alguns cursos, e ao afunilamento do pensamento e da forma de o aplicar.

Estes cenários parecem impossíveis de acontecer, mas já estão em curso. Os ministros do Luís dos fogos e maus vinhos dizem-nos que nada vai mudar. Que extinguiram a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, só que as competências da mesma permanecem. Despediram as equipas que gerem o plano nacional de leitura e a rede de bibliotecas escolares, mas ficará tudo na mesma. Atiram-nos areia para os olhos.

Sabemos que a realidade nunca é assim. Quando nos retiram algo, raramente fazem por nos devolver, e mesmo que o façam, nunca volta de forma igual. Montenegro quis ver-se livre de chefias incómodas. E para isso, quem vai sofrer são as crianças, adolescentes e jovens.

Para além de que a procissão ainda vai no adro. Qualquer dia, alguém se vai lembrar de reconstruir uma mocidade à moda portuguesa. Marquem estas palavras. Ou façam por elas não se concretizarem.