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Açores: A Face Oculta da Privação Material e Social Severa

Álvaro Borges

São João Paulo II, na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), alertava já no início do século XXI:
 
«Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se? E o cenário da pobreza poderá ampliar-se indefinidamente, se às antigas pobrezas acrescentarmos as novas que frequentemente atingem mesmo os ambientes e categorias dotadas de recursos económicos, mas sujeitos ao desespero da falta de sentido, à tentação da droga, à solidão na velhice ou na doença, à marginalização ou à discriminação social. […]»
 
Estas palavras, escritas há mais de duas décadas, continuam infelizmente atuais e interpelam-nos de forma particular quando analisamos a realidade social dos Açores.
 
Tendo em conta o mais recente relatório Portugal, Balanço Social 2025, de Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, João Fanha, Miguel Fonseca e Francisco Tavares, da Nova School of Business and Economics, publicado em 2026, verifica-se que a taxa de risco de pobreza, após transferências sociais, mede a proporção da população que vive com rendimentos abaixo do limiar de pobreza.
 
Em 2025, no território nacional, 15,4% das pessoas encontravam-se em risco de pobreza, uma redução de 1,2 pontos percentuais face ao ano anterior. Portugal conta, assim, com cerca de 1 milhão e 660 mil pessoas em situação de pobreza.
 
O relatório destaca igualmente o aumento nominal, isto é, sem ter em conta o efeito da inflação, das pensões de velhice, invalidez e sobrevivência desde 2017, com especial destaque para as pensões de velhice, cujo valor médio mensal atingiu os 669 euros em 2025.
 
Segundo dados do Eurostat, considera-se que uma pessoa está em situação de privação material e social quando não tem acesso a cinco ou mais dos treze elementos essenciais ao bem-estar e à participação plena na sociedade. 
Quando não tem acesso a sete ou mais, considera-se que está em situação de privação material e social severa.
 
Esta avaliação tem por base as seguintes dimensões:
  1. Capacidade para pagar uma semana de férias por ano fora de casa;
  2. Capacidade para suportar uma despesa imprevista sem recorrer a empréstimos;
  3. Capacidade para manter a habitação adequadamente aquecida;
  4. Ausência de atrasos no pagamento da renda, prestação da casa, contas de serviços ou outros empréstimos;
  5. Disponibilidade de automóvel;
  6. Capacidade para consumir uma refeição com carne, peixe ou equivalente vegetariano de dois em dois dias;
  7. Capacidade para substituir mobiliário usado;
  8. Capacidade para substituir roupa usada por roupa nova;
  9. Capacidade para possuir dois pares de sapatos adequados;
  10. Possibilidade de estar com amigos ou familiares pelo menos uma vez por mês;
  11. Possibilidade de participar regularmente em atividades de lazer;
  12. Capacidade para gastar semanalmente uma pequena quantia consigo próprio;
  13. Acesso à internet para uso pessoal em casa.
As taxas de privação material e social e de privação material e social severa diminuíram entre 2023 e 2025.
 
Em 2025, a taxa de privação material e social em Portugal foi de 10,2%, menos 0,9 pontos percentuais do que em 2024. 
 
Contudo, quando olhamos para a realidade regional, os dados revelam um desafio particularmente exigente para os Açores.
 
As regiões que registaram as maiores taxas de privação material e social em 2024 foram a Região Autónoma dos Açores, com 17,4%, e a Região Autónoma da Madeira, com 15,1%.
 
Isto significa que, nos Açores, quase uma em cada cinco pessoas vivia em situação de privação material e social. 
 
Mais preocupante ainda, a taxa de privação material e social severa atingia os 8,2%, o valor mais elevado do país, praticamente o dobro da média nacional.
 
A realidade habitacional evidencia igualmente dificuldades profundas. Em 2024, 48% das famílias açorianas viviam em habitações com telhados, paredes, janelas ou pavimentos permeáveis à água ou apodrecidos. Em termos simples, uma em cada duas famílias açorianas enfrentava problemas graves nas condições da sua habitação.
 
Também ao nível da alimentação os indicadores são extremamente preocupantes. 
 
Nos Açores, 13,4% das pessoas não tinham capacidade para adquirir alimentos necessários à preparação de refeições completas e saudáveis, registando-se novamente a percentagem mais elevada do país.
 
O artigo 25.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que:
 
“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento (…)” Não podemos ficar alheios àquilo que deveria ser um direito universal.
 
Reconhecemos que os Açores fizeram progressos importantes ao longo das últimas décadas. Contudo, estes dados recordam-nos que o desenvolvimento não pode ser medido apenas por indicadores económicos. Deve ser medido, acima de tudo, pela capacidade de garantir a cada pessoa uma vida digna e pelo respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem.
 
Estamos a caminhar, paulatinamente, no sentido certo, mas é necessário fazer mais. Estamos perante um desafio político, social e moral. O verdadeiro desígnio da nossa Autonomia deve ser garantir a todas as pessoas a dignidade inalienável da pessoa humana, tantas vezes violada. 
 
Enquanto houver um açoriano privado das condições mínimas para viver com dignidade, a nossa missão coletiva permanecerá inacabada.

“Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz”

O testemunho de quem se viu obrigado a deixar a família e os amigos para trás em busca de segurança, longe de um país em guerra. Rostyslav Hutsol partilha com o Diário da Lagoa a experiência de ter deixado a Ucrânia, sozinho, aos 17 anos, para encontrar em Portugal a estabilidade de que necessitava

Rostyslav tem atualmente 21 anos e já visitou os Açores várias vezes © DIREITOS RESERVADOS

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.

DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.

DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos?  Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.

DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda. 

DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.

DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.

DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.

DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.

DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.

DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.

DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.

DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.

DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

Uma guerra com fim à vista ou fantasia?

Álvaro Borges

Os Estados Unidos da América e Israel lançaram mão de uma intervenção em território iraniano, configurando uma flagrante violação grosseira do Direito Internacional.

Os objetivos da guerra, que foram variando para Donald Trump ao longo dos dias, não foram alcançados. Assistimos a uma “trégua” de duas semanas de guerra. Será esta pausa uma ilusão?

Em junho de 2025, Trump declarou que os EUA tinham obliterado as principais instalações nucleares do Irão e que dificilmente a República Islâmica teria condições de construir armas nucleares. Hoje, é claro para todos que o programa nuclear foi atrasado, mas nunca eliminado. Julgamos que o Irão tem capacidade suficiente para construir centrifugadoras de enriquecimento de urânio, cuja localização se desconhece. Procurar ou resgatar cerca de 440 quilos de urânio enriquecido através de forças especiais terrestres israelo-americanas é entrar num terreno complexo, irrealista e desfasado da realidade. Desta forma, é extremamente difícil que o eixo EUA-Israel consiga somente através da força aérea sonegar este objetivo nuclear do Irão.

Além disso, a eliminação e a degradação total do programa de mísseis balísticos do Irão foi outro objetivo fundamental para os EUA. Trump tem afirmado que cerca de 90% dos mísseis e lançadores do Irão foram eliminados, e que drones e fábricas estão muito reduzidos. Apesar de reconhecermos que houve danos operacionais significativos, nomeadamente em instalações de produção e locais de armazenamento, erradicar o conhecimento técnico e científico é navegar numa fantasia. Entendemos que a indústria iraniana está em posição, embora com forte limitação e degradação grave, de voltar a longo prazo à sua capacidade de produzir o seu arsenal, visto que estes mísseis balísticos não são importados.

Quanto ao grande objetivo de eliminar a marinha e a força aérea do Irão, em boa verdade os Estados Unidos e Israel detêm superioridade aérea nos céus do Irão, mas não detêm a exclusividade desse espaço aéreo. Exemplo disso foi o incidente do abate de um avião F15 americano pelas forças iranianas. Este objetivo é talvez aquele que os EUA e Israel alcançaram.

A mudança de regime iraniano não funcionou. O impacto que teve em segmentos da sociedade não resultou, embora tenha eliminado grande parte de estruturas militares de topo. O supremo líder do Irão foi morto e substituído pelo seu filho Mojtaba Khamenei.

Donald Trump, na sua retórica e ultimato para que o Irão abrisse o estreito de Ormuz ou “toda uma civilização morreria”, conseguiu uma trégua de duas semanas profundamente ambígua.

Entretanto, apesar de uma trégua periclitante alcançada, e dos ataques de Israel ao Líbano contra o grupo Hezbollah, podemos ver que o estreito de Ormuz continua sob forte influência iraniana e fechado ainda em grande parte à navegação. As últimas informações apontam que o Irão poderá permitir a passagem de um máximo de 15 embarcações por dia através do estreito de Ormuz, segundo a agência de notícias estatal russa TASS, citando uma fonte iraniana não identificada, tal a ser verdade “é uma gota no meio do oceano” Ainda assim, e embora ainda não confirmado, o Irão poderá querer impor uma taxa de passagem no estreito.

Entretanto, o grande ponto de tensão continua a ser o estreito de Ormuz. A circulação do petróleo mundial permanece condicionada, com profundas restrições, limites de passagem e possíveis taxas impostas pelo Irão. Um corredor vital transformado num instrumento político e económico com uma enorme pressão permanente.

Quais foram afinal as vantagens desta intervenção? A leitura imediata aponta-nos para um cenário ambíguo: um golpe estratégico para Donald Trump. Um estreito antes aberto, agora instável e intermitente. Mercados em convulsão. E uma sensação crescente de que o controlo da situação é mais frágil do que parecia.

Resta-nos as conversações entre os intervenientes. Que não haja colapso. Não podemos prever o que sairá destas conversações, que têm o Paquistão como um dos maiores ativos para o fim do conflito e a reabertura do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20 % de todo o petróleo do mundo.

Temos muitas dúvidas sobre a exequibilidade destas conversações, uma trégua frágil e periclitante. 

Será que o ego de Benjamin Netanyahu e Donald Trump não vai prevalecer? Temos muitas dúvidas. 

A única certeza é que quem sofre com isto tudo são as pessoas, os mais frágeis, os inocentes.