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Do Torreão da Fajã: Olá 2030, Até já 2040 – uma crónica de Ano Novo (parte II e final)

Bruno Pacheco

Para fechar esta reflexão de início de ano, vale a pena olhar para o triângulo que define a matriz da nossa identidade enquanto sociedade: capital natural (território), posicionamento estratégico e cultura. Sem estes três vértices, não há projeto coletivo possível.

Educação e sustentabilidade: a consciência de um paradigma que valoriza o capital natural e o território

Durante demasiado tempo, tratámos a sustentabilidade como um adereço que ficava bem em discursos, relatórios e fotografias institucionais. Falou-se de ambiente como setor, quando ele é condição. Falou-se de sustentabilidade como custo, quando ela é cada vez mais um ativo estratégico.

Felizmente, a última década começou a corrigir esta miopia. Hoje, quem pensa seriamente o futuro sabe que a sustentabilidade tem de fazer parte do ADN coletivo. E, se assim é, então tem de estar presente na educação, nos comportamentos cotidianos, mas também, e sobretudo, nas decisões estruturais que moldam o futuro comum.

Neste contexto, o conceito de capital natural não pode permanecer confinado a manuais e relatórios técnicos. Deve orientar políticas públicas, investimentos e prioridades estratégicas. Como tem defendido Jorge Moreira da Silva, o nature-based capital deve ser, simultaneamente, o norte e o sul do desenvolvimento.

E não nos iludamos: vivemos num território onde o capital natural não é ornamento, é estrutura. Água, biodiversidade, mar, paisagem e energia de fontes endógenas não são apenas herança, mas também vantagem competitiva. Ou deveriam ser. Nenhuma vantagem é automática. Sem consciência, conhecimento e educação, o capital natural degrada-se, banaliza-se ou é explorado sem retorno coletivo.

A próxima década exige acelerar e aprofundar esta mudança. É, por isso, crítico educar para compreender que o capital natural é tão decisivo quanto o capital financeiro ou o capital humano. Não se trata de romantizar a natureza, mas de integrá-la no raciocínio económico, político e social. Sem essa integração, continuaremos a falar de sustentabilidade enquanto a desperdiçamos.

Educação e posicionamento estratégico: a urgência de uma SWOT sem anestesia

Nenhuma região se posiciona no mundo sem se conhecer e nós nos conhecemos mal. Falta-nos memória histórica, leitura crítica do nosso percurso e coragem para olhar para o espelho sem filtros.

Para além da história, falta-nos a autoavaliação. Saber quem somos, o que fazemos e como o fazemos é condição para produzir melhor e ser mais capaz enquanto comunidade. Este exercício é desconfortável, mas inevitável e, chegados a 2026, com 2030 à porta, os Açores precisam menos de slogans e mais de verdade.

As forças são conhecidas: localização atlântica, capital natural, estabilidade institucional e coesão social. Mas também as fragilidades: baixos níveis de qualificação, dependência de transferências externas, fraca diversificação económica e reduzida incorporação de conhecimento.

E aqui está o ponto: a educação é o eixo de toda esta equação. Sem ela, as oportunidades viram miragens e as ameaças ampliam-se. A inteligência artificial, a transição energética, a economia do conhecimento e a reconfiguração das cadeias globais podem ser trampolim ou armadilha. A diferença não está no mundo, mas sim em nós. Insistir em modelos educativos do século XX é condenar-nos a um atraso permanente. Temos de aprofundar a nossa capacidade de conhecermos quem somos, de ensinar e estudar a nossa história.

É assim que importa enquadrar uma análise SWOT. Esta não é um exercício académico, mas sim um ato político de maturidade. Fingir força onde há fragilidade, ou ignorar ameaças por conforto retórico, é a forma mais rápida de chegar a 2040, repetindo diagnósticos e justificando falhanços. É crítico que se faça este exercício com seriedade e independência intelectual e sem preconceitos.

Temos de meter na cabeça, de uma vez por todas, que o mundo não começa nem acaba nos Açores. O mundo é competitivo, veloz e indiferente ao nosso tamanho. A diferença entre relevância e irrelevância estará sempre na capacidade de nos prepararmos melhor do que a nossa escala faria supor. E para isto precisamos de conhecer a nossa História.

Educação e Autonomia: aos 50 anos, a pergunta inevitável

Celebrar 50 anos de Autonomia é legítimo. É fundamental. Mas, mais importante do que celebrar, é o momento de questionar a nossa existência enquanto comunidade política. E a pergunta central não é o que fomos capazes de fazer, mas o que queremos ser. Que tipo de autonomia ambicionamos para os próximos 50 anos?

Pois, convenhamos, a autonomia não se mede apenas pelas competências estatutárias ou pelo volume orçamental. Mede-se, sobretudo, na capacidade de decidir com critério, antecipar desafios e construir soluções próprias.

Se esta afirmação parece quase uma verdade de La Palice, chegamos então a outro cerne da questão. A ausência de estímulos políticos, institucionais e sociais para termos uma sociedade mais viva e atuante, que saia do sofá e participe na esfera pública, é um sinal preocupante do caminho que estamos a escolher.

Não tenhamos dúvidas. Sem autonomia intelectual, individual e coletiva, a autonomia política esvazia-se. Sem uma educação exigente, crítica e emancipadora, a autonomia transforma-se em dependência administrada.

É, neste contexto, que podemos afirmar que a década que se inicia em breve é decisiva. Ou investimos seriamente numa educação diferente, disruptiva, capaz de formar cidadãos que pensem, criem e decidam, ou aceitaremos uma autonomia cada vez mais limitada à gestão do quotidiano. Não por imposição externa, mas por insuficiência interna. E isso não pode ser uma ambição coletiva. Não foi para isto que fizemos um percurso de 50 anos, que, em parte, teve as suas raízes em outros movimentos mais longínquos.

O futuro da Autonomia Açoriana joga-se menos nos parlamentos e mais nas salas de aula, nos laboratórios, nas oficinas, nas bibliotecas, nas empresas e, sobretudo, na capacidade coletiva de imaginar e construir um caminho próprio.

Fecho

Do Torreão da Fajã, o tempo não parece linear. Vê-se passado, presente e futuro coexistindo. Mas uma coisa é certa: o tempo não espera por quem adia decisões.

Olá 2030. Até já 2040. A diferença entre chegar lá com rumo e apenas com memória começa agora. E começa, inevitavelmente, por ambicionarmos uma educação diferente, capaz de ser, de uma vez por todas, o motor de uma verdadeira transformação social. E para isto temos de romper com o que se faz no presente.

Cessação tabágica: resolução de Ano Novo?

Maria João Pereira
Farmacêutica

O tabagismo é o principal risco evitável para inúmeras doenças e a principal causa de morte prematura. Mesmo com toda a evidência científica disponível, continua a fazer parte do estilo de vida de muitas pessoas. E porquê? Porque provoca dependência física e psicológica. Os responsáveis por essa dependência são, entre outros, a nicotina e as nitrosaminas, componentes tóxicos e cancerígenos.

O consumo de tabaco é, assim, um hábito nocivo que não só prejudica a nossa saúde em diversos aspetos – físicos, emocionais e sociais – como a saúde daqueles que nos rodeiam, uma vez que a inalação do fumo do cigarro exalado afeta também os fumadores passivos.

O tabaco é um fator de risco para inúmeras doenças, nomeadamente:

Para além disso, o consumo de tabaco provoca alterações do paladar e do olfato, tosse e dificuldade respiratória, diminuição da capacidade de oxigenação, aumento do cansaço, úlceras gástricas, envelhecimento precoce e pele seca, entre muitos outros efeitos.

No foro psicológico, o consumo de tabaco intensifica a necessidade de fumar como forma de acalmar a ansiedade, criando um ciclo de falso alívio, breve e repetidamente seguido pela vontade de fumar.

Os benefícios? São desconhecidos.

Curiosamente, por ser considerado um ato social, faz com que os fumadores se sintam integrados num grupo. Chega mesmo a ser irónico como fazer uma pausa para fumar é, muitas vezes, mais aceite do que fazer uma pausa para respirar e organizar as ideias.

Uma boa resolução de Ano Novo seria, seriamente, a cessação tabágica, que traz consigo inúmeros benefícios: maior nível de energia, melhor capacidade de oxigenação, melhoria do bem-estar geral, mais saúde e vitalidade, melhoria do sistema imunitário, recuperação do paladar e olfato e entre muitos outros.

Apesar de ser um processo exigente, existem várias estratégias para deixar de fumar: consultas de cessação tabágica, fármacos, apoio psicológico, terapia comportamental e alteração do estilo de vida. A cessação pode ser abrupta ou gradual – o mais importante é tomar a decisão e mantê-la. A ajuda médica personalizada pode ser determinante no percurso.

Uma das estratégias existentes passa por definir o dia em que vai deixar de fumar, informar as pessoas próximas e cumprir – repetindo o ciclo as vezes que forem necessárias.
The ambiente em que nos encontramos também pode facilitar ou dificultar a mudança de comportamento. Evitar espaços com fumo, locais associados ao consumo ou situações que o incentivem pode ser particularmente útil numa fase inicial.

Deixar de fumar não é uma questão de falta de força de vontade, mas sim de enfrentar uma dependência real. Cada tentativa conta, mesmo as que parecem falhar. O mais importante é não desistir de si. Com apoio, informação e tempo, é possível quebrar este ciclo e recuperar saúde, liberdade e qualidade de vida. Nunca é tarde para recomeçar. Nunca é tarde para cuidarmos da nossa saúde.

Proteger a saúde mental nas épocas festivas

Matilde Dias Pereira
Especialista em Psicologia Clínica no Hospital CUF Açores

A época natalícia é, para muitos, sinónimo de alegria, partilha e celebração. Contudo, nem todos vivem este período da mesma forma. Por diversos motivos, o Natal e o Ano Novo podem ser emocionalmente desafiantes, despertando mais tristeza, ansiedade ou solidão do que sentimentos positivos.

As festividades podem intensificar memórias dolorosas, como perdas recentes ou antigas, acentuando sentimentos e emoções como frustração ou melancolia. Para quem está em tratamento psicológico ou psiquiátrico, ou a atravessar processos de luto, este pode ser um período de grande vulnerabilidade, frequentemente associado ao desejo de isolamento.

Nestas situações, é importante que cada pessoa faça escolhas que a deixem confortável. Da mesma forma, familiares e amigos devem procurar respeitar o espaço e o ritmo de quem enfrenta maior sofrimento emocional. Sugiro, por isso, algumas estratégias que podem ajudar a promover o seu bem-estar nesta fase:

Aceite as suas emoções. As emoções funcionam como sinais internos que nos mostram o que precisa de cuidado ou mudança. Permita-se sentir tristeza, saudade ou cansaço, sem a obrigação de aparentar bem-estar apenas porque é Natal.

Procure conforto. Explore atividades de que goste e que lhe trazem tranquilidade, ou adapte tradições à sua realidade atual, trazendo um sentido pessoal às celebrações.

Invista em momentos de conexão. Pequenos gestos contam, como uma chamada, uma mensagem ou a participação em atividades de pequena escala que podem ajudar a quebrar o isolamento.

Cuide de si: O autocuidado é muito importante, como ter tempo para si, fazer exercício físico, dormir tempo suficiente, hidratar-se, fazer refeições com calma e procurar atividades que lhe sejam prazerosas. Esteja atento a sinais como alterações de sono e apetite, cansaço excessivo, choro fácil ou sentimentos de desespero e, se os identificar, procure ajuda de um profissional. Esta é uma das formas mais importantes de autocuidado, pois cuidar de si e da sua saúde mental não é egoísmo, é amor-próprio.

Para quem aprecia o Natal mas sente ansiedade nesta altura, deixo algumas estratégias úteis:

Estabeleça limites realistas. Não exija perfeição a si próprio, nem se sinta obrigado a corresponder ao que os outros esperam de si nesta quadra. Preparativos, encontros familiares, eventos sociais ou profissionais podem ser emocionalmente exigentes se não respeitar os seus limites.

Fale abertamente. Uma das formas de preservar o amor-próprio, é estabelecer limites. Seja franco e aberto com familiares e amigos, comunicando sentimentos e perspectivas (não expectativas), para evitar tensões desnecessárias.

Planeie tudo o que puder. Organize as suas compras, presentes, eventos e refeições recorrendo a listas para que não se sinta sobrecarregado e ansioso. Estabelecer limites realistas pessoalmente, socialmente e financeiramente, pode trazer-lhe muita paz.

Foque-se no presente. O futuro constrói-se nos pequenos “agoras”. Manter-se consciente do momento ajuda a gerir melhor as tarefas e a viver cada situação com presença e intenção.

Seja gentil. Acima de tudo, consigo próprio. Reconheça as suas limitações e valorize o que realmente importa.

O Natal é, acima de tudo, uma altura de paz. Permitamo-nos vivê-lo à nossa maneira, mas também permitindo aos outros as suas escolhas, sem julgamento. Quando valorizamos quem somos e o que temos, abrimos espaço para mais leveza, gratidão e serenidade nesta época especial. Feliz Natal e um Bom Ano Novo!

Concerto e brinde de ano novo no Teatro Micaelense

© TEATRO MICAELENSE

No próximo domingo, 5 de janeiro, às 17h00, o Teatro Micaelense e a Sinfonietta de Ponta Delgada dão as boas-vindas ao novo ano com um concerto festivo e intemporal, segundo nota enviada por aquele centro cultural.

Dirigida por Amâncio Cabral, a Sinfonietta vai interpretar as tradicionais valsas, polcas e marchas, características das comemorações de Ano Novo. No intervalo, o público vai ser convidado a desfrutar de um brinde no Salão Nobre, lê-se.

O concerto é apresentado em parceria com a Quadrivium – Associação Artística e os bilhetes têm um preço de 15 euros, podendo ser adquiridos na bilheteira do Teatro Micaelense ou no sitio online “bol”.

Ponta Delgada recebe o Ano Novo em festa com Diogo Piçarra

© CM PONTA DELGADA

A festa de Ano Novo em Ponta Delgada vai contar com o cantor Diogo Piçarra para animar a última noite de 2024 nas Portas da Cidade.

De acordo com nota de imprensa enviada pela autarquia de Ponta Delgada, “será uma noite para cantar e dançar ao som das músicas mais conhecidas de Diogo Piçarra, que ganhou notoriedade após vencer o programa de talentos “Ídolos”, em 2012, construindo uma carreira recheada de sucessos”.

O programa da passagem de ano em Ponta Delgada inicia-se, pelas 21h00, na Praça Gonçalo Velho Cabral, com a atuação da banda Aspegiic, seguindo-se o cantor Diogo Piçarra.

Depois de se escutar êxitos como “Verdadeiro”, “A Dónde Vas”, “Paraíso”, “Tu&Eu”, o concerto culmina com a tradicional contagem decrescente até à meia-noite, seguindo-se um espetáculo de fogo de artifício sobre a Avenida Marginal de Ponta Delgada para celebrar os primeiros 12 minutos de 2025.

O DJ Kevin Piques vai ficar responsável por animar as primeiras horas de 2025, no palco das Portas da Cidade, até às 3h00.

A Câmara Municipal de Ponta Delgada avança ainda que assinou o protocolo de cooperação com a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada na prossecução de sinergias e parcerias criadas com o objetivo de transformar a “Passagem de ano”, num evento com potencial turístico para a região.

“Este é um evento criado para todas as famílias que vivem ou visitam o concelho de Ponta Delgada. Estamos a contribuir para a dinamização cultural e desenvolvimento da economia local, promovendo um espetáculo de elevada qualidade que vai permitir juntas várias gerações para celebrar a entrada no Ano Novo”, sublinha o Presidente da autarquia de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral, no comunicado.