
Beatriz Moreira da Silva
E se nunca déssemos as mãos,
entrelaçar os dedos no calor;
E se fôssemos só nós,
perdidos nos ponteiros do relógio.
E o tempo que nos passa pela sombra,
não daríamos conta;
Nem saberíamos os arrepios de perto,
que com o toque desaparece.
E se déssemos só uma mão,
ao primeiro embale caíamos no chão;
Um de nós firme embora o impulso,
outro deitado destruído no fundo do poço.
E se déssemos as duas mãos,
devagarinho de mansinho entrelaçadas;
Firmes d’hirtas e inderrubáveis;
seríamos a construção mais bonita e sólida de um simples para sempre.

Beatriz Moreira da Silva
Eu não pertenço aqui,
não reconheço caras ou feições de figurinos anfitriões;
Não conheço a instância da conexão,
alheia de quem sorri na imersão do aceitável.
Sob reflexo d’basalto,
nem reconheço os caminhos;
Talvez nunca tenha concebido direções,
mediante a necessidade constante de não tirar os olhos do chão.
Eu não pertenço ao limite,
do permissível e d’outrora aceitável;
Nem sei onde pertenço,
apenas consinto o que penso.
Eu nunca sei onde vou,
apenas sei como aqui estou;
D’leme ao d’vento,
Sei quem eu sou.

Beatriz Moreira da Silva
A nossa conversa interna, que se produz de dentro para fora. A que nos deixa no
zumbido, relembrando-nos constantemente de que não nos podemos perder de vista.
Ninguém quer se perder de vista!
O corpo pede calma, silêncio, contemplação, enquanto a alma grita por urgências,
objetivos, propósitos. E se nos quisermos perder? E se quisermos ultrapassar as
margens do suposto? Ninguém se ofende pelo apego! Ninguém se reencontra sem se
perder nos seus medos! Ninguém!
E que necessidade temporal é essa de não se falar? É uma descrença e despreocupação
aparentemente compartilhada sob um molde.
O desassossego só termina quando chegar o abraço da oportunidade. Não é a
oportunidade! É o lance que daremos sobre ela, na primeira pessoa do singular.
Ecoarão certezas irrefutáveis que antagonizam o ensurdecedor e a calma.
A autenticidade será sempre recompensada com a leveza que, por si só, desentrelaça
tempestades, furacões ou tornados, e creio que se puxarmos o fio do nó, ofegante de
explicação, de suspiro pendente do desenrolar do que nos entope a alma, faz-se magia.
É urgente ser intenso em tudo o que se toca, em tudo o que se faz. É urgente renovar
a esperança de que o que é para ser teu, assim o será!