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José Andrade defende Açores como eixo estratégico da diáspora

© AGÊNCIA INCOMPARÁVEIS

O diretor regional das Comunidades, José Andrade, defendeu o papel estratégico do arquipélago na ligação histórica entre Portugal e as comunidades portuguesas da América do Norte e do Sul, sublinhando o contributo singular da emigração açoriana para a projeção internacional da identidade portuguesa e para a preservação da açorianidade, da portugalidade e da lusofonia junto das novas gerações da diáspora.

Em declarações exclusivas à nossa reportagem, no âmbito da iniciativa “Portugal Nação Global”, realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, José Andrade começou por sublinhar que o envolvimento dos Açores neste fórum era “obrigatório” tendo em conta o peso histórico e identitário da emigração açoriana na construção das comunidades portuguesas além-fronteiras.

“Eu diria que era obrigatório assegurar a presença dos Açores neste primeiro fórum Portugal Nação Global”, afirmou. O responsável recordou que, em várias geografias da América do Norte, a presença portuguesa está profundamente associada à identidade açoriana, uma realidade que, na sua visão, representa simultaneamente motivo de orgulho e responsabilidade institucional.

“Se estivermos a falar da América do Norte, nos Estados Unidos, no Canadá, na Bermuda, Portugal escreve-se com a palavra Açores”, sustentou. José Andrade destacou que grande parte das comunidades portuguesas presentes em regiões como a Califórnia, a Nova Inglaterra, a província do Quebec, o Ontário ou as Bermudas são constituídas essencialmente por açorianos ou descendentes de açorianos, uma realidade que, segundo defende, obriga a região a assumir um papel ativo na preservação dessa herança.

“Para nós é um orgulho, mas é também uma responsabilidade não apenas assegurarmos a açorianidade, mas também a portugalidade e, em alguns casos, até a lusofonia”, afirmou.

Além da dimensão simbólica e comunitária, José Andrade sublinhou que os Açores marcaram presença no fórum com uma representação institucional alargada, envolvendo diferentes áreas estratégicas do governo regional.

A história de Outsidah: o rapper de Água de Pau que usa a criatividade como motor das músicas que escreve e produz

Viveu entre Água de Pau e as Bermudas. “The Emigrant” é o seu mais recente tema inspirado na sua vivência. Viajámos com o artista pelo seu próprio mundo

Ruben Almeida tem 30 anos e assume que fazer rap é a sua grande paixão © CLIFE BOTELHO

A música, mais propriamente, o rap, ou hip-hop, está-lhe no sangue. Desde cedo que, Ruben Almeida, 30 anos, conhecido como Outsidah, se fundiu com as notas musicais sem contudo, nunca ter tido formação musical: “neste álbum que vai surgir em abril, eu tentei fazer uma coisa diferente, misturar o rap, o hip-hop, com a visão do fado e não perdendo a própria essência, transmitir a minha mensagem, a minha história, tudo o que eu sofro, tudo o que eu já vivi, tudo o que eu vivo, as minhas perspetivas diferentes” conta ao Diário da Lagoa (DL).

É a partir do seu “home studio”, estúdio em casa, no seu quarto, que escreve, compõe e cria as suas músicas. A mais recente, “The Emigrant”, mistura hip-hop com a sonoridade do fado, um género bem português. “Pensei mais nas minhas raízes. Os meus pais emigraram para a Bermuda quando eu tinha um ano e tal. E tive a vivência durante dez anos lá fora, na Bermuda. Eu sinto-me mais que obrigado a fazer algum tema neste sentido. Para a nossa comunidade dar valor aos emigrantes que se sacrificaram por terem saído da sua terra natal, para procurarem melhores condições de vida fora. Tentei dar valor e uma voz a essas pessoas”, destaca Ruben Almeida.

Natural da vila de Água de Pau, na ilha de São Miguel, é aqui que vive e cria a maior parte das suas músicas. “Já lancei um álbum de três faixas, um EP [Extended Play] com 10 e vou lançar mais um álbum agora para abril, com mais três faixas. Anteriormente eu lancei também um EP com quatro a cinco faixas e estou a persistir ainda”, diz.

O videoclipe do mais recente tema de Outsidah, “The Emigrant”, foi todo gravado em Água de Pau e Água D´Alto. “Eu tinha uma visão e disse assim, ok, na música eu já dei a entender o que é que eu quero trazer, mas também no vídeo, no visual, eu também quero transmitir as minhas raízes e de onde eu sou”. No videoclipe Ruben canta a música que ele próprio escreveu e compôs e conta com a ajuda de alguns figurantes especiais: os avós: “está a minha avó, está o meu avô, está a minha avó do lado materno também, então é ainda mais íntimo. Eles gostaram da experiência, gostaram do conceito e também do vídeo final”, assegura.

“E o que é que eles te dizem, encorajam-te a seguir a música?”, perguntámos. 

“Sim, eles já sabem que eu faço isso há algum tempo, tanto do lado materno, quanto do lado paterno, e gostam. Sempre que tenho algumas novidades, gosto de lhes mostrar, tanto à minha família mais chegada, aos meus pais, como à família que está na América e no Canadá”, conta Ruben Almeida ao DL.

Outsidah explica que ter sido emigrante não foi fácil. “A adaptação a uma cultura diferente foi difícil, vivi a minha infância toda lá fora. O diálogo era diferente, falava diferente, vestia e agia de outra maneira, então foi um bocado difícil” e conta que quando regressou a Água de Pau, demorou “ainda uns dois anos para conseguir fazer parte da comunidade”.

“Viver isto e não viver disto”

Ruben sublinha que nas suas músicas tenta “dar voz” a quem não a tem © CLIFE BOTELHO

Ruben é técnico de vendas e faz da música a sua grande paixão. Reconhece a importância de ter vivido nas Bermudas mas garante que não sente saudades deste território ultramarino do Reino Unido, no Atlântico Norte. “Acabou por dar-me o inglês perfeito que eu consigo transmitir na música”, admite.

Nas suas músicas, Outsidah fala sobretudo do que já passou: “eu sofri de bullying durante dois anos, tentei e consegui colocar todas as minhas tristezas, angústias na escrita, no papel, transformando-as em poesia e em rap, e até hoje, tenho 30 anos, vou fazer 31, ainda estou a persistir e a ser consistente neste assunto”, garante. 

“Se nós não tivermos paixão por aquilo que fazemos, isso se torna uma obrigação, e quando se torna uma obrigação, não vai ter o mesmo efeito. Como disse o meu amigo André Saudade noutra entrevista, o objetivo é ‘viver isto e não viver disto’”, assegura, referindo-se à música.

Com a sua música, Ruben tenta “dar voz” a quem não a tem: “não espero retorno, mas sim transmitir a minha mensagem, algo que eu tento sempre dar às pessoas que já passaram pelo mesmo, ou que passam por outras histórias similares, e não têm voz”. 

Outsidah faz da criatividade o motor de toda a sua criação musical. “Gosto sempre de explorar e expandir os meus horizontes. Tanto na escrita, quanto na forma de cantar vai ser sempre diferente para mim. Cada música tem a sua própria personalidade. Mas, claro, não perco a essência e eu falo sempre sobre a minha vivência”, garante.

Em abril, lança o seu novo álbum chamado “Roots”, que significa raízes. Sobre onde encontra inspiração para escrever e compor, Ruben diz que consegue “assentar as ideias, quando está tudo mais tranquilo, sem ninguém .Eu gosto muito de ir para perto do mar, porque transmite mais tranquilidade”. Mas também diz que “a inspiração pode surgir em qualquer lugar ou hora”. “Posso ter inspiração através de uma interação com um amigo, uma interação com uma pessoa de fora, ou quem não conheço. Pode depender de uma viagem que fiz ou de uma discussão antiga. Coisas que já passei ou que gostava de passar. Ou mesmo aleatórias. Sobretudo, foco-me no que eu vivo, o resto vem em ‘EgoTrip’”, uma espécie de “viagem do ego”.

Apesar de ser uma viagem muito dele, Ruben Almeida faz questão de sublinhar o apoio dos amigos durante todo o processo de concretização das suas músicas. “Consigo manter a minha criatividade ativa, falando com as pessoas certas. Tanto com o André Saudade, o Bruno Cabral, o Rafael Tavares, o Luís Coutinho. Tenho um amigo de infância, o Guilherme Pacheco que também me ajudou na mixagem e masterização”. Todos contam.

E porquê “Outsidah”? “Porque senti-me um forasteiro”, responde. “Ainda te sentes como um outsider?” quisemos saber. “Eu já me encaro como um insider”, conclui, a rir.