
O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, defendeu esta manhã a urgência de uma comunicação ética e profundamente humanizada. O alerta surge num contexto de crescente preocupação com os perigos da desinformação e o uso descontrolado da inteligência artificial no espaço público.
Num encontro com profissionais da comunicação social, realizado no Centro Pastoral Pio XII e partilhado em nota de imprensa pela Diocese de Angra, o prelado assinalou antecipadamente o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A efeméride celebra-se no próximo domingo, 17 de maio, sob o mote “Preservar vozes e rostos humanos”.
Durante a sua intervenção, o bispo diocesano destacou que, num tempo de incerteza, a responsabilidade dos profissionais do setor é fundamental para a promoção da dignidade humana. “Os jornalistas são fundamentais porque fazem uma interpretação autêntica da realidade”, afirmou D. Armando Esteves Domingues.
O prelado reiterou que o papel do jornalismo é, hoje mais do que nunca, um serviço público de literacia mediática. Esta missão torna-se crucial perante a crescente dificuldade que os cidadãos enfrentam em distinguir a verdade nos canais digitais e nas redes sociais.
Demonstrando preocupação com o aumento dos discursos de ódio e a polarização, o Bispo de Angra lamentou a falta de “protagonistas responsáveis” que atuem como descodificadores da verdade. Para D. Armando, a sociedade atual parece ainda incapaz de concretizar valores essenciais como a fraternidade.

Para o prelado, a tecnologia não deve ser absolutizada nem substituir o discernimento humano. “Não se pode confundir o homem com as ferramentas, nem permitir que estas o substituam”, sublinhou, apelando a que a comunicação promova o encontro e a esperança em vez de ser usada para condenar.
D. Armando apontou ainda o modelo cristão da encarnação como o exemplo máximo de uma mensagem que se faz proximidade e pessoa. O bispo desafiou os presentes a combaterem a velocidade impessoal da informação através do rigor e da valorização da presença humana.
O evento contou também com o contributo do jornalista Osvaldo Cabral, antigo diretor da RTP Açores. O profissional traçou um percurso histórico sobre a visão dos últimos seis pontificados acerca do progresso tecnológico e o seu impacto na sociedade.
Osvaldo Cabral recordou o conceito de Internet como o “Novo Areópago”, cunhado por João Paulo II em 2002. Contrastou esta visão com os alertas recentes do Papa Leão XIV sobre as “bolhas digitais” e a dependência de algoritmos que moldam relações artificiais e isoladas.
Segundo a análise do jornalista, a Igreja tem procurado humanizar as invenções técnicas, vendo os meios de comunicação como espaços estratégicos de diálogo. Esta visão converge com os objetivos do jornalismo de proximidade, focado na clareza e no compromisso com os mais frágeis.

A ilha de São Miguel prepara-se para acolher, a partir de amanhã, 18 de abril, a primeira visita pastoral de D. Armando Esteves Domingues desde o início do seu episcopado. O périplo arranca na ouvidoria de Vila Franca do Campo e prolonga-se até ao dia 26 de abril, marcando um momento que a Igreja local classifica como histórico. Sob o lema “Bendito o que vem em nome do Senhor”, a iniciativa pretende ser, acima de tudo, um espaço de comunhão e renovação espiritual para a comunidade cristã vilafranquense. Segundo nota de imprensa enviada pela Ouvidoria de Vila Franca do Campo, a agenda do bispo de Angra será intensa e descentralizada, com passagens previstas pelas paróquias de Água d’Alto, São Pedro, Ponta Garça e Matriz, incluindo contactos diretos com escolas, associações, movimentos de leigos e visitas a doentes.
O padre José Borges, ouvidor local, destaca a importância deste encontro que rompe com o protocolo institucional para se focar nas pessoas. “Não é apenas uma formalidade do calendário; é, acima de tudo, um encontro de família”, sublinha o sacerdote, descrevendo D. Armando Esteves Domingues como “um pastor com cheiro a ovelhas”, cuja presença reforça o sentimento de que a comunidade não caminha isolada. Para o responsável, a visita é uma oportunidade para o prelado conhecer de perto a realidade de uma ouvidoria que já trabalha há vários anos numa dinâmica de cooperação entre paróquias, facilitando a implementação das orientações diocesanas e o caminho sinodal proposto pelo Papa Francisco.
Contudo, a visita pastoral será também um momento de reflexão sobre as fragilidades que afetam a prática religiosa na região. Entre os temas que a ouvidoria pretende levar ao diálogo com o bispo figuram a diminuição da participação ativa dos fiéis e a premente escassez de vocações sacerdotais. O padre José Borges alerta ainda para a crescente sobrecarga do clero, notando que “hoje, um padre assume várias paróquias, com as mesmas exigências de sempre”, o que obriga a um olhar mais atento sobre a saúde e o bem-estar dos sacerdotes. Apesar destes desafios, a estrutura pastoral de Vila Franca do Campo mantém o otimismo, sustentando que a fé da população permanece viva, ainda que confrontada com as exigências de uma vida quotidiana mais complexa.
A preparação deste evento mobilizou conselhos pastorais e equipas de formação, culminando numa assembleia eclesial que reforçou o papel dos leigos na Igreja. O programa inclui momentos de particular simbolismo, como encontros com jovens e escuteiros, a celebração de crismas e a denominada “Festa da Fé”. O encerramento oficial da visita pastoral terá lugar no dia 26 de abril, na Igreja Matriz de Vila Franca do Campo, com uma celebração eucarística que deverá reunir representantes de todas as comunidades da ouvidoria. Conforme sintetiza o padre José Borges, o objetivo final desta passagem de D. Armando Esteves Domingues pela localidade é claro: “Queremos construir juntos um caminho de fraternidade e futuro”.

O bispo de Angra afirmou, na alocução que fez na Celebração da Paixão do Senhor, na Sé de Angra, que qualquer instrumentalização de Deus para justificar a guerra ou a violência é um “ultraje” e uma “traição blasfema”, recuperando uma ideia repetida pelo Papa Francisco.
Na celebração, também conhecida como Hora Santa por marcar a hora da morte de Jesus, D. Armando Esteves Domingues afirmou que a verdadeira “grandeza e autoridade” residem em servir e proteger a vida, e não em dominar ou destruir.
Na cruz, Cristo entra “na solidão dos inocentes e transforma o desespero em oração”, afirmou destacando que este é “o critério ético maior daqueles a quem se confia a autoridade e o poder nas decisões que têm a ver com todos”.
A instrumentalização de Deus para justificar a guerra, a violência ou a imposição “é uma negação radical e definitiva da sua lição”.
“Não existe Deus da guerra e qualquer violência em nome Dele é um ultraje contra Deus, é uma traição blasfema a Deus”, enfatizou numa alocução muito centrada na necessidade da paz.
“Rezemos pela paz e por quem decide. Façamo-lo unidos ao clamor dos povos feridos, dos jovens enviados para matar e morrer, das mães e pais que enterram filhos, das crianças mortas e feridas”, pediu o bispo de Angra.
O prelado recordou que “mesmo entre ruínas e lágrimas, há sinais de Ressurreição: gestos de proteção, corredores humanitários, voluntários, padres, médicos, famílias que acolhem, comunidades que partilham, pessoas que arriscam a paz, homens e mulheres que escolhem salvar em vez de destruir”.
Sublinhou, por isso, que a hora da crucificação de Jesus é também a hora central da história da humanidade e da nossa própria história.
“É a hora em que, sofrendo livremente na cruz uma morte cruel, Jesus nos diz duas coisas: em primeiro lugar, diz-nos quem é Deus, o Pai, disposto a seguir o filho até ali, até ao alto da cruz, para demonstrar que Ele é todo e só amor e perdão; em segundo lugar, diz que o segredo da justiça, da paz e da fraternidade é dar a vida”, explicou.
“A cruz de Jesus não nos autoriza a colocar Deus no banco dos réus e a perguntar diante do sofrimento: ‘Onde está Deus?’. Ela convida-nos antes a perguntar: onde estamos nós diante do sofrimento, nosso e dos inocentes, e o que fazemos para não acrescentar mais sofrimento e mais morte à morte?” acrescentou, terminando com um apelo à oração pela paz.
No contexto do Ano Jubilar Franciscano, pelos 800 anos da morte de São Francisco, D. Armando Esteves Domingues recordou a oração do santo, pedindo que cada um se torne instrumento de paz, levando amor onde há ódio, perdão onde há ofensa, esperança onde há desespero e luz onde há trevas.
Na sexta feira a coleta da celebração reverteu a favor da Terra Santa. Num contexto de guerra persistente no Médio Oriente, o Dicastério para as Igrejas Orientais renovou o apelo anual à ajuda, convidando à oração intensa pela paz, especialmente após incidentes que ameaçaram a celebração pascal na região.
“As armas continuam a disparar, as pessoas continuam a morrer”, recordou o cardeal Claudio Gugerotti, destacando o sofrimento silencioso das populações locais e o impacto na presença cristã, ameaçada pela instabilidade e pelo radicalismo religioso.
Os fundos recolhidos destinam-se a apoiar projetos em Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Líbano e Egito, incluindo distribuição de alimentos, medicamentos, manutenção de escolas, bolsas de estudo e habitação social.

“O serviço aos pobres é o maior desafio colocado aos discípulos.” A afirmação do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, abriu um encontro promovido pelo Serviço Diocesano da Pastoral Social “Dilexi te- o amor para com os pobres” onde o apelo à urgência da ação dos cristãos foi uma constante. Sublinhando a necessidade de disponibilidade total, o prelado deixou um apelo claro para que ninguém falte na assistência ao irmão, sobretudo na resposta às necessidades concretas dos mais vulneráveis.
Num retrato detalhado da situação nos Açores, a presidente do Conselho Ecomómico e Social dos Açores, Piedade Lalanda, rejeitou uma leitura fatalista da pobreza lembrando que “se trata de um problema estrutural” que deve ser “atacado nas causas” de forma a inverter a tendência dos anos em que “poucos alimentaram a pobreza de muitos”.
A socióloga, que já foi responsável por este serviço da Igreja, destacou indicadores preocupantes, relativos aos Açores.
“Temos uma das mais elevadas taxas de baixa escolaridade do país”, associada à iliteracia e ao abandono escolar precoce. Apesar de medidas como a rede Valorizar, alertou que “mitiga o problema, mas estruturalmente não o resolve”, existindo ainda “um número de jovens que sai do sistema educativo sem a escolaridade obrigatória”.
A pobreza, disse, atinge de forma particularmente dura as famílias.
“Em 2024, incide sobretudo nas famílias monoparentais, com 87,3%”, referiu, acrescentando o paradoxo de os Açores serem uma região “católica” com “a taxa de divórcio mais alta do país”. Também as famílias com crianças enfrentam maior risco, num contexto agravado pela precariedade laboral: “Não se pode pedir a pessoas com instabilidade laboral que tenham filhos”.
Outro dado marcante é o número de trabalhadores pobres: “Temos mais de 11 mil trabalhadores cujos salários não suportam as dificuldades do dia a dia”. A isto juntam-se problemas de habitação, como a sobrelotação, que “pode ser um subproduto do turismo”, e desigualdades de género, com “as mulheres, sobretudo em idades mais avançadas, mais atingidas pela pobreza”.
Apesar de a taxa de risco de pobreza se situar nos 17,3%, Piedade Lalanda alertou: “Se não existissem apoios sociais, seria de 40%”, evidenciando a fragilidade estrutural da sociedade.

Num plano mais pastoral e teológico, o padre José Júlio Rocha aprofundou o significado da pobreza no cristianismo, distinguindo “a pobreza como escolha e modelo de vida” da “pobreza imposta”. A partir da enciclícia Dilexi Te, do papa leão XIV, recordou que “Jesus foi as duas coisas”, nascendo “numa manjedoura porque não havia lugar para ele”, foi migrante e refugiado e viveu sem “onde reclinar a cabeça”.
O sacerdote foi crítico em relação à evolução histórica da Igreja: “Com a ideia de poder, a Igreja deixou de dar testemunho e começou a impor a fé… e perdeu os pobres”. Defendeu que a instituição enfrenta hoje um desafio profundo: “A Igreja precisa de uma conversão estrutural e não está preparada para o fazer”.
Questionando diretamente os presentes, lançou um desafio incómodo: “Estaremos disponíveis para acolher o pobre que está no campo de São Francisco, que rouba para se drogar, e encontrar nele o altar sagrado? Não estamos”. Para o sacerdote, a mudança passa por recentrar prioridades: “A Igreja é toda pastoral social” e deve “debruçar-se sobre os pobres em vez de dar prioridade a outras pastorais, detidas em ritos”.
Também criticou uma visão assistencialista: “O pobre não pode ser objeto da minha esmola”, defendendo uma relação de igualdade e comunhão.
“Quando o pobre for o altar da Igreja e não o barroco ou o incenso, então estaremos no caminho”, afirmou depois de ter alertado para o perigo de um “cristianismo aburguesado” e “por vezes muito afastado das realidades mais duras e periféricas” da sociedade.
Já, no período de debate, Piedade Lalanda retomou esta ideia, reconhecendo que “a Igreja que dava primazia aos mais ricos existiu e continua a existir”, mas alertou: “Isso não combate a pobreza”. Defendeu uma mudança de atitude transversal: “Se um empresário, um professor, um enfermeiro agir de forma diferente, então podemos iluminar o presente”.
A necessidade de uma ação concreta e humanizada foi outro ponto forte, lembrando-se que a prática da compaixão deve ser uma prioridade na pastoral social da Igreja.
“O que dói na dor é não ter um ombro para chorar… a nossa indiferença carrega mais”, rematou o padre José Júlio Rocha.
Durante este encontro, Verónica Rego do Instituto de Segurança Social dos Açores, teve ainda tempo de elencar as linhas mestras da ação social desenvolvida pelo poder público.
No encerramento, Aldina Gamboa, diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social, deixou uma mensagem de esperança e compromisso coletivo: “A vossa presença é um sinal de primavera… que deste encontro brote uma vida nova para a pastoral social”. E concluiu com um apelo direto: “Saibamos estender a mão e abrir o coração… o mundo está a precisar de afeto, e ele não deve impedir-nos de intervir”.

A ouvidoria de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, recebe entre os dias 19 e 26 de abril, a visita pastoral do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues. A iniciativa, que envolve paróquias, movimentos e instituições locais, é encarada pela comunidade vilafranquense como um momento de renovação espiritual e de reforço da comunhão eclesial. Segundo notícia da agência Igreja Açores, a preparação tem decorrido ao longo dos últimos meses através de encontros com os conselhos pastorais e económicos, com o objetivo de envolver todos os agentes neste processo de receção ao prelado.
Para o ouvidor, padre José Borges, esta visita transcende a formalidade do calendário episcopal. “Não se trata apenas de um ato administrativo ou de uma formalidade do calendário episcopal. Acima de tudo, é um encontro de família”, afirma o sacerdote, sublinhando que o propósito é permitir uma proximidade real entre o Bispo e os fiéis. A vinda do prelado acontece num contexto de caminho sinodal, onde D. Armando Esteves Domingues é reconhecido pela sua “grande capacidade de proximidade e uma escuta muito atenta”, características que o padre José Borges considera fundamentais para a missão da Igreja junto das populações.
Um dos eixos centrais desta visita é o aprofundamento do sacramento do batismo, inserido na caminhada para os 500 anos da Diocese de Angra. O ouvidor recorda que “é no batismo que começa o ser cristão”, esperando que esta passagem do Bispo ajude a reavivar essa identidade em cada fiel. Carlos Vieira, coordenador do Conselho Pastoral da ouvidoria, reforça que o programa incluirá visitas às instituições e forças vivas de cada freguesia, procurando também analisar desafios como a participação nas celebrações. Em paralelo, destaca o dinamismo de espaços como o Santuário de Nossa Senhora da Paz, que se tem afirmado como um centro de espiritualidade e acolhimento para peregrinos na região.

A ouvidoria de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, acolheu no centro paroquial da matriz, a primeira assembleia eclesial destinada a preparar a visita pastoral do bispo de Angra, agendada para o período de 19 a 26 de abril. O encontro foi realizado em parceria com a equipa sinodal diocesana e reuniu representantes de paróquias, movimentos e serviços locais. O objetivo central passou por sensibilizar a comunidade para este momento de “graça”, como descreveu o ouvidor de Vila Franca, padre José Borges, sublinhando a importância de reavivar o compromisso cristão a partir do batismo.
Durante a sessão, o padre José Borges destacou que o percurso da Igreja deve ser feito com a participação ativa de todos, sem exceções. “Todos são importantes: os que estão dentro, os que estão mais afastados, os que chegam e os que estão envolvidos nos sacramentos”, afirmou o sacerdote, defendendo um maior protagonismo dos leigos que vivem a sua fé no quotidiano, desde as famílias às fábricas. Para o ouvidor, a continuidade e a vitalidade das paróquias dependem de pessoas que “não apenas mostram que foram batizadas, mas que vivem o seu batismo” nos mais diversos contextos sociais da ilha.

O encontro dividiu-se entre a reflexão teórica sobre documentos do sínodo e um momento prático de “conversação no espírito”, onde se debateram os obstáculos à participação comunitária. De acordo com a equipa sinodal, embora existam estruturas de colaboração, ainda persiste um compromisso reduzido por parte dos leigos em algumas áreas. O coordenador da equipa, padre José Júlio Rocha, reforçou a visão de uma Igreja menos clerical e mais próxima das pessoas, onde o sacerdote atua como um pastor que caminha junto ao povo. “O que queremos é promover uma igreja aberta ao espírito, que caminha junta na sua diversidade”, concluiu o responsável, sintetizando o espírito de renovação que se pretende para a diocese.

Ainda antes do nascer do sol, quando a madrugada guarda o silêncio que amplia o som de cada passo, a Romaria da Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, em Ponta Delgada, começou a contornar as estradas. Entre quase meio milhar de peregrinos, cruzam-se histórias que ajudam a perceber o sentido profundo de um caminho que, este ano, fez paragem no miradouro do Pisão, perto da Ribeira Chã, concelho da Lagoa, num lembrete de que a romaria nunca acaba, pois somos peregrinos a vida inteira.
Patrícia Varão e a filha Maria João, de 11 anos, são presenças assíduas. A filha segue na frente, como uma das “meninas da Cruz”. A mãe, mais atrás, confessa com orgulho: “Desde que me lembro, venho sempre nesta romaria”. Embora pertençam à paróquia de Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa, sentem-se em casa. Para Patrícia, a romaria é “um retiro, um parar dos afazeres para ter um tempo só para nós, com Deus… um tempo de introspeção e reflexão”.
Na correria dos dias, onde tudo parece urgente, a romaria por contraste oferece silêncio, oração e disponibilidade interior. É nesse espaço que muitos dizem reencontrar Deus.
Ao longo do percurso, os participantes foram convidados a viver dinâmicas espirituais. Este ano, cada romeiro recebeu uma pedra acompanhada de um poema na primeira paragem de descanso. “As pedras estão no caminho. Guardemo-las todas porque podemos construir um castelo”, explicou uma das dinamizadoras no Centro Pastoral Pio XII. O grupo de cerca de 500 peregrinos — composto na sua maioria por mulheres, mas também por homens e muitos jovens — acolheu a metáfora: cada pedra representa os desafios e momentos de crescimento. “Que cada pedra seja a descoberta de um dom; que sejamos capazes de perceber onde nos encaixamos, pois grãos de areia constroem uma linda praia”, acrescentou.

Para o pároco Fernando Teixeira, esta romaria é uma imagem viva da Igreja em movimento. Embora já não caminhe fisicamente, faz-se presente pelo espírito. “Aproveitem a caminhada, fortaleçam-se e, no regresso às vossas comunidades, sejam fermento. Ajudem a transformar a vossa paróquia, sejam amigos”, desafiou o sacerdote, num “caderno de encargos” para uma jornada que culminou com a Eucaristia ao pôr do sol.
O padre Norberto Brum, dinamizador destas romarias quaresmais, sublinhou que a caminhada ganha um significado particular no percurso pastoral da diocese: “Procuramos renovar esta graça batismal e reafirmar o dom de sermos filhos de Deus e termos um Deus que caminha connosco”.
A iniciativa rompe também com o modelo tradicional de romarias exclusivamente masculinas ou femininas. “É uma romaria diferente por ter homens e mulheres; é uma forma de sentirmos esta Igreja como comunidade e povo que se renova dia a dia”, esclareceu o sacerdote.
Entre as novidades deste ano esteve a dinâmica do vaso partido. Durante a celebração do perdão, um vaso foi quebrado para representar a fragilidade da vida humana, e cada participante depositou ali as suas intenções. No final, os fragmentos foram simbolicamente integrados num vaso novo. “É a nossa vida, muitas vezes fragmentada, que se transforma. É essa mudança que Deus opera em nós”, descreveu o padre Norberto.
Antes da partida, também o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, deixou uma mensagem centrada na persistência: “Quanto mais caminhamos, mais longe vamos… é triste o cristão que para. Quanto mais caminhardes, mais O encontrareis”.

Para a Irmã Hirondina Mendes, da Congregação de São José de Cluny, a experiência foi uma revelação. “É um momento de interiorizar a fé e partilhar os nossos sofrimentos com os de Cristo e da humanidade. Há uma sede de Deus nesta humanidade e é interessante ver tanta gente a procurar essa fonte verdadeira”, afirmou, impressionada com a emoção partilhada pelo grupo.
Bárbara Ramos, natural de Trás-os-Montes e estudante de Medicina, viveu a romaria pela primeira vez. “É desafiante e sinto uma grande irmandade. Esta diferença geracional é uma novidade para mim”, contou a jovem, que vive atualmente um processo de redescoberta espiritual e de aproximação à Igreja.

Organizada pela Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, esta sexta edição da romaria comunitária, sob o tema “Batizados na Esperança”, integra-se no caminho rumo aos 500 anos da Diocese de Angra.
Mais do que os números ou os quilómetros, os peregrinos demonstram que o que fica desta jornada é o que acontece no interior de cada um. Entre pedras simbólicas, silêncio e partilhas, cada passo recordou uma verdade fundamental: por vezes, é preciso caminhar devagar para reencontrar o essencial.

Foram 317 as mulheres que este sábado, 7 de março, participaram na romaria feminina da Vila de Rabo de Peixe até ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Num dia marcado pela oração, as peregrinas concluíram o percurso diante da imagem do Senhor, onde escutaram uma oração, ainda no exterior, e um apelo à continuidade do compromisso cristão lançado pelo padre Marco Luciano.
“Não nos esqueçamos, como refletíamos esta manhã: o Senhor espera-nos sempre de braços abertos a todos, a todos. Por isso, lá nos vamos encontrando na Eucaristia, na celebração dos Sacramentos e na Igreja do Senhor Bom Jesus, que continua a acolher a todos e a todas”, afirmou o sacerdote que acompanhou as romeiras, acrescentando o convite: “Encontramo-nos lá no dia 20, para rezarmos o terço”.
O pároco aproveitou a ocasião para institucionalizar um novo momento de união: “Todos os meses, na última sexta-feira, vamos passar a encontrar-nos. Marquem na agenda: será um dia de festa com o Senhor, um dia importante para que as romeiras se juntem na celebração da Eucaristia e levemos sempre Jesus no nosso coração para nossas casas”.
Para o padre Marco Luciano — que orientou, juntamente com o Bispo de Angra, um momento de adoração diante do Santíssimo —, este encontro mensal servirá para levar “o alimento que todos nós precisamos para continuar a labuta, para continuar a vida de casa e lidar com os problemas do dia a dia”.
Com diferentes idades e histórias de vida, as mulheres caminharam em espírito de penitência e gratidão, num gesto que tem vindo a afirmar-se como um momento marcante de espiritualidade comunitária. A caminhada culminou num momento de reflexão diante do Santuário, onde foi proclamada a oração ao Senhor Santo Cristo.
“Senhor, abençoa estas mulheres que hoje caminharam até aqui. Abençoa as suas casas, as suas famílias, os seus filhos; que nunca lhes falte a esperança e a coragem”, pediu o sacerdote, finalizando com o desejo de que a romaria não seja apenas um caminho físico, mas um “compromisso espiritual do dia a dia”.

O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, presidiu no passado dia 16 de novembro, a uma missa na igreja Matriz, em Santa Cruz, para comemorar os 40 anos da Ouvidoria da Lagoa, coincidindo com o Dia Mundial dos Pobres.
Na sua intervenção, o Bispo incentivou a comunidade a ir além da simples manutenção das tradições, pedindo coragem para encarar os desafios de hoje, ajudar os mais vulneráveis e colaborar de forma mais ampla. O prelado destacou também que a pobreza é fundamental na missão da Igreja, afirmando que os mais pobres estão no centro de todo o trabalho pastoral. Citando referências da Igreja, reforçou que a pobreza não é apenas uma questão social, mas sim “uma questão familiar”. Sublinhou que a falta de apoio espiritual é a pior forma de discriminação contra os pobres, defendendo que eles devem ser vistos individualmente, “olhos nos olhos”.
“A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”, disse.
O bispo alertou ainda para a proliferação de falsos profetas que exploram medos e conflitos, pedindo discernimento num tempo onde importa escolher “evangelho ou ideologia, integração ou exclusão, amor ou indiferença”. E recordou que, no Evangelho, cada tragédia anunciada é acompanhada por um ponto de viragem: “Tudo muda sempre que cuido de um pedacinho da minha terra e das suas feridas”.
O prelado advertiu para o fascínio contemporâneo por tecnologias, conquistas humanas e figuras de sucesso, lembrando, porém, a sua transitoriedade: “Só o homem, imagem de Deus, é eterno. É melhor que tudo desmorone, incluindo as igrejas mais bonitas, do que desmorone um único homem”.

No âmbito do atual ano pastoral, o Bispo de Angra desafiou os presentes a refletirem sobre a coerência do seu testemunho de fé, tanto nas celebrações como no apoio direto aos pobres. Perguntou se as paróquias estavam preparadas para caminhos mais participativos e para incluir quem está à margem, tanto a nível social como espiritual.
Ao felicitar a Ouvidoria, o Bispo destacou o papel da paróquia como um local de convívio e comunhão. Reforçou a importância dos leigos na missão da Igreja, dizendo que são eles que devem levar a mensagem do Evangelho para os seus locais de trabalho, para a política, a economia e para o mundo digital. Anunciou ainda que os Conselhos Pastorais passarão a ser obrigatórios em todas as paróquias e que a formação deve continuar para além da catequese e da confirmação.
O Bispo terminou a homilia com uma nota de esperança, afirmando que o futuro não é o caos, mas sim “o abraço definitivo do amor” de Deus.
A Ouvidoria da Lagoa, criada em 1984, engloba sete paróquias e, segundo a agência Igreja Açores, é uma das ouvidorias da diocese que regista “grandes bolsas de pobreza”.

O bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, esteve em Vila Franca do Campo no passado dia 10 de novembro a celebrar a eucaristia na ermida da Senhora da Paz e anunciou que a ermida de Nossa Senhora da Paz vai ser elevada a santuário mariano a 1 de janeiro de 2025, Dia Mundial da Paz e de Santa Maria Mãe de Deus. Vila Franca vai, assim, ser lugar do primeiro santuário mariano localizado na ilha de São Miguel.
Antes da Missa Solene da celebração das festividades em honra de Nossa Senhora da Paz, o bispo explicou o porquê da elevação da ermida a santuário.
“Este é um lugar onde já acorrem, há centenas de anos, peregrinos. Há aqui também em torno uma história, com o início da ermida. É um ambiente que, naturalmente, chama pessoas e acolhe. Entretanto, a comunidade, há largos anos, foi sensibilizando para a ermida ser declarada santuário”, disse D. Armando Domingues.
De acordo com o bispo, “toda a diocese abraça esta ideia, sobretudo, também, porque é profético”, realçando o simbolismo deste futuro santuário “num momento de tantas convulsões entre povos, com tantas guerras e manifestações de ódio, que se parecem enraizar mais, gostaríamos que este fosse um lugar de oração, em que a pessoa também se encontre com a serenidade, a tranquilidade e a harmonia da natureza. Esta harmonia entre a fé e a Criação, e que aí também ganhe forças e possa levar sementes de paz para o mundo”.
Já durante a eucaristia, no sermão, o bispo de Angra realçou igualmente a consciência ambiental do novo santuário: “que aqui nasça um santuário respeitador do ambiente, sustentável do ponto de vista ambiental de modo a que seja visível essa preocupação de harmonia entre Deus e o homem com respeito pela natureza”, disse D. Armando Esteves Domingues.
Na 47.ª Sessão plenária do Conselho Presbiteral da Diocese de Angra, que decorreu de 15 a 18 de abril, na ilha Terceira, foi proposta, votada e aprovada a elevação da ermida da Senhora da Paz a santuário.
A Senhora da Paz é, atualmente, um dos locais mais importantes de culto religioso dos Açores, levando milhares de crentes ao seu encontro.