
Rita Caetano, 33 anos, nasceu e reside em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Começou como maquilhadora profissional há aproximadamente 11 anos, sendo uma apaixonada pelo mundo da cosmética teve a oportunidade de trabalhar em duas lojas da área. Desde cedo que sempre se sentiu ligada à criatividade artística.
Ao Diário da Lagoa, conta que adora viajar e partilhar as suas aventuras nas redes sociais. E foi assim, aos 15 anos de idade, que ganhou popularidade nas redes sociais pela forma irreverente de se vestir e pelos penteados criativos. Com os seus seguidores partilha um pouco de tudo, desde dicas de maquilhagem ao seu dia a dia, pois salienta que sente que as pessoas gostam de a acompanhar, não só pelo que mostra do seu trabalho, mas por ser uma pessoa “sem filtros e terra à terra”.
DL: Como foi a sua adolescência?
A minha adolescência foi maravilhosa e voltaria a vivê-la sem alterações. Aos 15 anos com mais acesso à internet, comecei a conhecer o mundo além do que estava habituada. Através de plataformas como MySpace e Deviantart, conheci muitas pessoas com estilos alternativos que me fascinaram. Foi aí que comecei aos poucos a construir o meu próprio estilo, inspirando-me nas pessoas que seguia. Assim surgiu a “Sugarpie”, um nickname que adotei na altura. Ganhei popularidade não só em São Miguel, devido à forma como me vestia, que chamava muito a atenção e não era comum, mas também pelo mundo inteiro. Cheguei a receber presentes e cartas de seguidores do México e dos Estados Unidos da América (EUA). Como em São Miguel não havia grande oferta de roupa e acessórios que se adequassem ao meu estilo, aos 16 anos comecei a criar os meus próprios acessórios. Desde laços para o cabelo como bijuteria criada à mão com fimo. Fizeram sucesso, cheguei a ter uma loja online e, inclusive, vendi algumas peças para os EUA. Mas nem tudo foi um mar de rosas. As pessoas em São Miguel não estavam habituadas, por isso era olhada de lado e gozada. Na escola sofri bullying. Era massacrada verbalmente, cheguei a ser, inclusive, insultada por um grupo de rapazes à frente dos meus pais.
Também recebia muitas mensagens anónimas nas redes sociais a insultar-me e cheguei a ser ameaçada. Mas nunca tive vergonha, nem desisti do meu estilo. Os meus pais sempre me apoiaram, nunca me impediram de ser quem eu era. Chegaram a comentar: “se ela não for assim, não é a minha Rita”. Portanto, graças à minha adolescência menos fácil, tornei-me resiliente e dificilmente algo me afeta. Desde cedo interiorizei que não devo deixar de ser quem sou, só porque não agrado.
DL: Como se desenrolou o seu percurso?
Quando terminei o curso de Artes, no Ensino Secundário, aos 18 anos, tive que escolher uma licenciatura, porque é esse o percurso de um estudante ou, pelo menos, aquilo a que a sociedade nos obriga. Os meus pais nunca me pressionaram a seguir um percurso académico, mas eu, não sabia em concreto o que queria fazer, por isso fui para universidade. Uma coisa eu tinha a certeza, queria viver em Lisboa e continuar a estar relacionada com as artes. Fui para o IADE – Instituto de Arte e Decoração, em Lisboa, seguir Design mas, pouco antes de terminar o primeiro ano, desisti. Não me estava a identificar com o curso, nem me imaginava a fazer o que estava a aprender, profissionalmente. Portanto, comecei a trabalhar. Na altura, com 18 anos, tive o meu primeiro trabalho na Bijou Brigitte, no Colombo. Entretanto decidi tirar o curso de cabeleireira porque era uma área que sempre me interessou. Tirei também um curso de maquilhagem na Make Up School em Lisboa. Na secundária, era eu quem cortava o cabelo aos meus amigos e quem pintava o meu próprio cabelo na altura da Sugarpie. Passados três anos a viver sozinha em Lisboa, a trabalhar e estudar em simultâneo, acabei por perceber que Lisboa não era para mim. Os meus dias começavam na escola às 10h00 mas como trabalhava só finalizavam à meia noite. É uma cidade desgastante, stressante, em que cada minuto é precioso e comecei a sentir falta da tranquilidade da minha ilha, de estar perto da minha família. Decidi regressar.

DL: Como é ser Pro Makeup Artist em São Miguel? Foi difícil conquistar clientes?
Quando comecei a ser maquilhadora, há 11 anos atrás, não havia muita concorrência. Penso que era eu e mais três que tinham serviço de maquilhagem. Comecei por divulgar as maquilhagens que fazia em mim mesma. Como já era conhecida, a procura pelo meu trabalho foi fluindo naturalmente e a procura foi aumentando. Há alguns anos que tenho os meses de verão, por serem a época alta de casamentos, completamente cheios.
DL: Como se sente a maquilhar?
Quando me maquilho, é como se entrasse noutra dimensão. É a minha terapia. Fico em silêncio absoluto, onde sou só eu e a maquilhagem. Muitas vezes sou a minha própria tela para criar maquilhagens mais elaboradas e artísticas, nem me apercebo das horas a passar. É extremamente relaxante.
Quando estou com as minhas clientes, normalmente trabalho com timings, por isso tenho que ter mais controle no tempo, mantendo sempre a tranquilidade. Confesso que não sou muito comunicativa enquanto faço o meu trabalho. Fico extremamente concentrada, quase como se estivesse no meu mundo, acompanhada da maquilhagem e da minha tela que a cliente se torna. Apesar de todo o processo, o mais gratificante é sem dúvida apreciar o momento em que a cliente vê o resultado final. Maquilhar vai muito além da estética, sinto-me realizada ao ver como, com apenas algumas técnicas, consigo devolver a confiança que estava adormecida numa mulher. Há clientes que chegam até mim tímidas, inseguras, com a autoestima silenciosa e através da minha arte, consigo devolver-lhes um sorriso solto, um olhar confiante e uma postura mais erguida. Maquilhar é um trabalho técnico, mas é também a minha forma de empoderar, de cuidar. E é também um ato de empatia.
DL: Fale-nos do seu pai e da sua decisão de assumir a profissão dele.
É um cliché dizer isto, mas foi o melhor pai que algum filho pode ter. Foi uma pessoa extraordinária, a melhor pessoa que alguma vez conheci. Não é por ser o meu pai, mas foi de facto uma pessoa do bem, as qualidades do meu pai eram muitas. O seu único defeito foi não ter sido um pouco mais “egoísta” e ter desfrutado mais da vida. Ele era extremamente focado no seu trabalho, no seu negócio que, inicialmente era uma marcenaria e que já era negócio de família. Mas há 25 anos decidiu transformá-la numa casa de chaves.
Falar do meu pai, é falar de um verdadeiro exemplo de resiliência, de trabalho e humildade. Começou o negócio das chaves sem qualquer formação na área, apenas com vontade de aprender, muita força de vontade e com a sua lista das páginas amarelas embarcou para Lisboa e foi em busca de fornecedores. Hoje, com muito esforço e anos de sacrifício, considero que se tornou a pessoa mais reconhecida da ilha no ramo das chaves. Ver como ele construiu tudo com as próprias mãos, enfrentando dificuldades e sem nunca desistir, é uma das minhas maiores fontes de orgulho e inspiração. É um exemplo que levo comigo todos os dias, tanto no meu percurso pessoal como profissional.
Posso dizer que o meu pai dedicou toda a sua vida a trabalhar arduamente, pois começava às 6h00 da manhã e muitas vezes terminava às 21h00 para que nada faltasse à família que construiu.
A decisão de trabalhar na loja do meu pai foi, por isso, honestamente, algo que até hoje não consigo explicar completamente. Foi há cerca de dois anos, num dia em que estava em casa, num daqueles dias mais introspetivos. De repente, senti uma espécie de impulso e algo dentro de mim impeliu-me, com clareza, que era hora de ir trabalhar com o meu pai e dar continuidade ao negócio. Aprender tudo com ele para, mais tarde, poder gozar a sua reforma em paz. Nunca me tinha passado pela cabeça a ideia de trabalhar na loja dele. Na altura estava bem na minha carreira, era responsável de loja, gostava muito do meu trabalho. Mas senti que tinha que seguir aquele impulso, mesmo sem compreender porquê. Foi algo que bateu tão forte dentro de mim, que em momento algum duvidei se era o que realmente queria ou não. Várias pessoas à minha volta, inclusive o meu namorado, avisaram-me para repensar a minha decisão, pois sabiam que a loja do meu pai nada tinha que ver comigo.
E em outubro de 2024, após esperar dois anos, comecei a trabalhar com o meu pai quando ele renovou e ampliou a sua loja. E nesse mesmo mês o meu pai foi diagnosticado com cancro. Ainda tive oportunidade de trabalhar e aprender ao lado do meu pai algumas semanas, mas a sua doença agravou-se rapidamente. Quatro meses depois, já em fevereiro de 2025, ele faleceu.
Hoje acredito, profundamente, que aquele impulso foi um presente. Foi a vida a dar-me oportunidade de aprender com ele e dar continuidade ao que ele sempre fez. Foi uma decisão estranha, sim, mas hoje vejo-a como uma das mais importantes e com maior sentido na minha vida. O meu pai partiu em paz, com o seu sonho realizado: a sua nova loja, com um espaço mais amplo, renovado e moderno e com os seus filhos encaminhados a dar continuidade ao seu negócio.

DL: Ficou algo por dizer?
Felizmente, tive a oportunidade de me despedir do meu pai. Nos seus últimos dois dias de vida, ele perdeu a consciência e foi aí que caí em mim. Percebi que o meu pai iria partir muito em breve. Tive aquele momento só nosso, onde pude dizer-lhe tudo o que me ia no coração. Por isso, não sinto que tenha ficado algo por dizer. Falei-lhe com amor, gratidão e com paz. Se há algo que o meu coração ainda deseja, é que ele pudesse ver-me agora, a trabalhar no negócio que ele construiu com tanto esforço. Desejava que ele fosse o meu mestre, que me guiasse e transmitisse todo o seu conhecimento. Tenho tanto para aprender e queria tanto poder fazê-lo ao lado dele. Ainda assim, sinto consolo em saber que o meu pai partiu em paz, em casa e rodeado pela nossa família, envolvido em amor até ao seu último suspiro.
DL: Como consegue conciliar ambas as profissões?
Conciliar ambas as profissões é sem dúvida um desafio, mas também um privilégio. Trabalho durante a semana, a tempo inteiro na loja do meu pai e tenho os fins de semana, em teoria, como folgas. Digo em teoria porque, como maquilhadora, muitos dos meus fins de semana acabam por ficar preenchidos. Faço-o com muito gosto porque é uma paixão que me acompanha há anos. Quando surgem serviços de maquilhagem durante a semana, tenho a sorte de poder contar com o apoio do meu irmão e do meu companheiro, que seguram a loja, para que eu possa dedicar-me também a essa vertente criativa da minha vida. Sou grata por ter essa flexibilidade, algo que nos meus empregos anteriores devido aos horários por turnos era extremamente difícil e desgastante. Claro que há dias que chego ao fim exausta, mas também de coração cheio. Faço o que mais amo, com liberdade e apoio da minha família e do meu companheiro, e isso vale tudo.

DL: Além das viagens, do talento, da transparência e resiliência, o que pretende para o seu futuro?
Não sou uma pessoa que faça grandes planos. Vivo o presente com consciência e gratidão, isso basta-me. Sou feliz com tudo o que tenho, sinto-me realizada. Claro que sou responsável e cautelosa, mas tento ao máximo aproveitar o momento. A vida ensinou-me que o amanhã é incerto, por isso escolho dar o meu melhor hoje, vivendo com alegria, paz e honestidade. Se o futuro trouxer o que tenho exatamente agora, com saúde e amor à volta, com os que mais amo a viverem bem, então já será mais que suficiente. Mais do que conquistar, eu quero continuar a me sentir inteira e a viver com leveza e propósito.