
Padre André Furtado
Irmãos e irmãs,
hoje iniciamos o Tríduo Pascal, os três dias mais sagrados da nossa fé. A liturgia desta Quinta-feira Santa leva-nos ao Cenáculo, à última Ceia de Jesus com os seus discípulos. É uma noite de entrega, de amor profundo, de lições que nos devem transformar. Celebramos três realidades fundamentais: A instituição da Eucaristia – o alimento da nossa fé; O nascimento do sacerdócio ministerial – ao serviço do povo de Deus; E o mandamento novo do amor, vivido no gesto humilde do lava-pés.
O Evangelho segundo São João não descreve a consagração do pão e do vinho como os outros evangelistas. Em vez disso, mostra-nos um gesto inesperado: Jesus ajoelha-se e lava os pés dos discípulos.
Um gesto simples, mas profundamente revolucionário. O Mestre faz-se servo. Aquele que é Senhor de tudo, torna-se escravo de todos. Lava os pés dos seus amigos, até mesmo de Judas, que o iria trair.
E depois diz: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.”
Um gesto para o nosso tempo
Este gesto de Jesus fala diretamente à realidade do mundo em que vivemos. Um mundo marcado por divisões, conflitos, individualismo, indiferença, orgulho e vaidades.
Vivemos numa sociedade em que lavar os pés dos outros parece absurdo. Muitos querem subir, dominar, aparecer… mas poucos querem servir.
Jesus, porém, ensina-nos que a grandeza está em abaixar-se. A Eucaristia que Ele nos deixa nesta noite não é apenas um rito bonito: é vida doada, amor que se torna pão, serviço que se torna concreto.
São Paulo recorda-nos: “Sempre que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.” Ou seja: cada Missa é um envio. Somos enviados a continuar o que celebramos.
De nada serve comungar o Corpo de Cristo se não reconhecemos Cristo no irmão. A Eucaristia que não nos leva ao perdão, ao cuidado, ao compromisso com os mais frágeis… não cumpre o seu verdadeiro fim.
No mundo de hoje, Jesus continua a perguntar-nos: “Estás disposto a lavar os pés da humanidade ferida?”: Daquele vizinho que te irrita… Do pobre que pediste que fosse “trabalhar” em vez de estender a mão… Do imigrante desprezado, do doente esquecido, do familiar com quem cortaste relações…
Hoje também é o dia do sacerdócio. Mas o modelo de sacerdote que Jesus nos mostra não é um homem distante, mas alguém que se aproxima, que serve, que ama com humildade.
E isso aplica-se a todos nós. Porque, pelo nosso Batismo, todos participamos deste sacerdócio do serviço. Todos somos chamados a ser Eucaristia para o mundo.
Meus irmãos e irmãs, Jesus amou até ao fim. Não até onde dava jeito. Não até ser traído. Até ao fim.
E este amor é o que salva o mundo.
Peçamos hoje a graça de: voltarmos ao essencial da nossa fé; de deixarmos de lado divisões, orgulhos, medos e desconfianças; de nos tornarmos comunidades e famílias mais unidas, sociedades mais fraternas, capazes de amar como Jesus amou.
Que nesta Ceia do Senhor, Ele nos ensine a: comungar com o coração cheio; servir com humildade; amar com verdade.
Amém.