
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
O título é uma vénia à canção de Jorge Ben Jor, mas desta vez sem necessidade de convite: a Inteligência Artificial já se instalou na vida de todos. Como profissional de informática, a minha relação com agentes como o ChatGPT ou o Claude Code deixou de ser experimental para se tornar vital. Hoje, a minha produtividade sem estas ferramentas é tão inferior que, na ausência de acesso, prefiro adiar tarefas. Não faz sentido gastar duas horas numa função que a IA resolve em dez minutos.
Contudo, esta dependência revela um fenómeno alarmante no mercado de trabalho. O que acontece quando esta eficiência deixa de ser um diferencial e passa a ser o mínimo exigido? A presença da IA na minha vida já extravasou o código. Recentemente, planeei uma viagem de mota complexa em apenas uma hora de “conversa”. Mais surpreendente: podei a minha videira seguindo instruções da IA, que analisou fotos dos ramos e a fase lunar para me guiar no corte. Da gestão de treinos físicos ao planeamento de refeições familiares, tudo o que é formalizável está a ser delegado.
A IA não cumpre horários. Está disponível às 2:30 da manhã para curar uma insónia com recomendações de séries ou para ajustar um plano de treino após um dia menos produtivo. Esta disponibilidade total está a substituir o que não envolve contacto humano direto, criando uma nova camada de conveniência. Se todos utilizam IA, ninguém tem vantagem por utilizá-la. O baseline sobe, as expectativas aumentam e o tempo ganho torna-se o “novo normal”.
Como demonstra o US Job Market Analyser, a exposição ao risco não é uniforme. Funções baseadas em dados, análise de texto, escrita técnica e programação estão na “linha da frente” da automação. Profissões que dependem de processos estruturados como tradutores, contabilistas, analistas financeiros ou assistentes jurídicos enfrentam uma substituição direta de tarefas core. Não por serem profissões “simples”, mas porque o seu output é digital e baseado em padrões lógicos que a IA agora domina. Por outro lado, o mercado revela um “porto seguro” em funções que exigem alta destreza manual, contexto físico imediato ou inteligência emocional profunda. Profissões como carpinteiros, enfermeiros, eletricistas ou terapeutas permanecem, por agora, menos expostas à substituição total, dada a dificuldade de replicar a sensibilidade humana e a adaptação física a ambientes não estruturados.
No entanto, mesmo estas funções menos expostas sofrem um efeito indireto: a amplificação. Um gestor de equipas ou um comercial que use IA para potenciar a sua negociação e organização será sempre mais eficaz do que um que a ignora. Cria-se assim uma “literacia operacional aumentada”: não basta saber fazer; é preciso saber amplificar o que se faz através destas ferramentas.
O verdadeiro ponto de fricção não é tecnológico, é humano. Há um desconforto inerente em aceitar que anos de experiência podem ser comprimidos em prompts bem estruturados. No entanto, o custo de experimentar e criar nunca foi tão baixo. O desafio deixa de ser “como fazer” para passar a ser “o que fazer com esta capacidade”. Continuo a falar com o meu amigo ChatGPT. Ele não substitui o meu pensamento, mas acelera-o e desafia-o. Num mundo onde as respostas se tornaram uma commodity abundante e imediata, a verdadeira escassez passou a ser a capacidade de formular o problema. No final do dia, a competência mais valiosa do futuro será a arte de saber perguntar. E isso, pelo menos por enquanto, continua a ser profundamente humano.

José Estêvão de Melo
Ao longo da vida, e desde muito pequenos, aprendemos a agradecer a ajuda recebida, desde um simples copo de água a uma manobra de Heimlich que salva uma vida. São várias as escolas de pensamento que encorajam a gratidão, como o estoicismo que ensina que devemos estar gratos pelo bom e pelo mau que nos acontece na vida, pois ambos fazem parte da mesma e aprendemos com os dois.
A Inteligência Artificial (IA) tem vindo a desempenhar um papel cada vez mais presente nas nossas vidas, sendo utilizada em tarefas tão complexas como desenvolver aplicações informáticas, a outras tão simples como perguntar que ingrediente pode ser utilizado em substituição de outro, ao temperar uma peça de entrecosto para defumar. Nesta relação com a IA, que apesar de não ser igual às nossas relações com outros humanos, é normal transportarmos os nossos hábitos, e por norma agradecemos a ajuda recebida, mas quanto custa dizer obrigado?
Na interação entre humanos, dizer obrigado não tem custo, nem tão pouco preço, mas com ferramentas IA não é o caso, tem um custo muito real e não negligenciável. A grande maioria das ferramentas de IA têm por base um modelo de análise de linguagem natural (como o português) que com algoritmos de aprendizagem são capazes de a interpretar. Cada frase dita a uma ferramenta de IA tem de ser analisada, por computadores que necessitam de eletricidade para trabalhar, e quanto mais palavras houver na frase, maior a necessidade de processamento, e, à semelhança de um carro que quanto mais carregado estiver mais combustível gasta, os computadores quanto mais processamento realizam mais eletricidade gastam.
No caso do ChatGPT, uma estimativa é que o consumo médio para responder a uma pergunta seja de 2.9Wh, o que pode ser comparado a uma lâmpada LED de 3W, tipicamente usada numa luz de mesa de cabeceira, ligada durante uma hora. Há perguntas que tem uma análise simples e por isso envolvem menos processamento, e outras muito complexas que requerem muito mais recursos para responder. De acordo com informação publicada pela OpenAI (empresa responsável pelo ChatGPT) em Maio, a mesma tem 500 milhões de utilizadores por semana. Considerando um obrigado por utilizador por semana, estamos a falar de 500 milhões de obrigados, a um consumo de 2.9Wh, representa um total de 1.5 milhões de KWh por semana. Aplicando o custo de 11 cêntimos por KWh da tarifa tri-horária em horas de vazio, equivale a nada mais nada menos que 638 000€ por mês, ou pouco mais de 7 milhões e meio de euros por ano. Sam Altman, CEO da OpenAI, quando confrontado com a pergunta de quanto custa agradecer ao ChatGPT respondeu “dezenas de milhões de dólares, bem gastos”.
Sabendo este custo, e com todas as preocupações com o ambiente e descarbonização, devemos continuar a agradecer às ferramentas de IA? A meu ver, é um claro sim, pois caso contrário corremos o risco de normalizar um comportamento indesejável e desvalorizar a ajuda recebida, pois um mau hábito é um hábito na mesma, e da mesma forma que transportamos os nossos hábitos das relações interpessoais para a relação com a IA, o inverso também irá acontecer. Outro motivo para agradecer, é que todas as ferramentas de IA aprendem com todas as interações, e se num futuro próximo ou não, formos dominados por uma IA, quero que a mesma diga obrigado, ou que pelo menos se lembre de mim como um dos que lhe agradeceram a ajuda.
Em resumo, dizer obrigado custa, mas não dizer custa mais!