
No final dos anos sessenta, o meu avô João passou uma temporada em New Bedford. Foi a forma que o seu sobrinho Jánin encontrou para retribuir a hospitalidade que, anos antes, o seu tio lhe oferecera em sua casa.
Sabendo dos constrangimentos que ele enfrentava por causa da surdez progressiva num ouvido, o Jánin levou-o a um conceituado otorrinolaringologista de Boston. Foi ali que o médico, com uma pistola que parecia saída de um laboratório futurista, lhe devolveu o som. Uma simples picada, seguida da colocação de um catéter minúsculo, que mantinha aberto o caminho recém-criado para a audição.
Durante dias, o meu avô viveu em êxtase. Dizia sentir-se leve, rejuvenescido, a ouvir tudo e todos — até a gargalhada de um melro negro que regressava ao ninho na árvore ao fundo do jardim.
Mas, de regresso a São Miguel, o paraíso começou a esbater-se. Poucos meses depois, voltámos a vê-lo com o semblante triste, resmungando quando lhe dizíamos que o si bemol que ele acreditava arrancar do violoncelo nos soava a lá natural. Os ensaios do trio Lima — contratado para casamentos e festas pela ilha — eram interrompidos por breves explosões de impaciência, sempre que lhe chamávamos a atenção para as frequentes desafinações. Nessas alturas, pousava o arco na estante, encostava o violoncelo, levantava-se devagar e desaparecia para ir tirar umas boas fumaças do seu fiel Santa Justa sem filtro.
Um dia, depois de dar uma aula de violino ao filho de um médico, o meu pai expôs-lhe o problema do meu avô. Sentia-se à vontade com o Dr. Ângelo Flecha Ançã, licenciado por Coimbra em 1950, otorrinolaringologista no IPO de Lisboa e com estágios em Nova Iorque, Boston e Vancouver. O médico concordou em recebê-lo poucos dias depois.
No seu consultório da Rua do Valverde, perto da igreja matriz de Ponta Delgada, o Dr. Ançã observou longamente o meu avô. Depois, levantou-se, abriu um móvel, retirou uma caixa e pousou-a sobre a secretária. Abriu-a e mostrou o tal instrumento mágico, igual ou semelhante àquele que, em Boston, lhe devolvera a audição.
— Trouxe-o o ano passado dos Estados Unidos. Testei-o lá várias vezes, mas está por estrear aqui nos Açores — disse o médico.
— Então, Sr. Doutor, faça o favor de fazer como o seu colega de Boston — pediu o meu avô.
E assim a operação repetiu-se. O sorriso regressou-lhe ao rosto. E os sons do violoncelo, do violão ou da flauta voltaram a fluir mais límpidos, mais livres, como se a música tivesse finalmente reencontrado o caminho de volta até ele.
Este episódio consolidou a amizade que já unia o meu pai ao otorrinolaringologista. Durou, porém, pouco tempo. O Dr. Ançã, nascido em Beja a 5 de setembro de 1923, faleceria a 18 de maio de 1971, contando apenas 47 anos de idade. Confirmei, recentemente, que o consultório do Dr. Ançã mantém todos os instrumentos de ORL guardados em expositores, tipo museu, e que o mesmo consultório mantém atividade médica pela filha na especialidade de Psiquiatria.

Miguel S. Albergaria
Professor na Escola Secundária de Lagoa
Em época de IV Revolução Industrial – com a introdução da IA, especialmente quando em convergência com a robótica, a IoT, as bioengenharias e as nanotecnologias nas nossas práticas sociais – em vista de mantermos algum controlo do processo a favor da maioria de nós (idealmente, de todos), temos de o acompanhar compreensivamente. Um tipo de raciocínio de que dispomos para o efeito é o da analogia com inovações tecnológicas anteriores. É certo que a força destas inferências naquele caso não será grande, uma vez que a força de uma analogia varia inversamente com o grau de novidade do termo em causa, e a IA capaz de aprendizagem é uma boa candidata ao título de maior novidade tecnológica desde as pedras lascadas. Mas, para evitar a volatilidade das especulações concetuais, não temos muito melhor do que esse tipo de inferências.
Recorrerei, assim, ao caso da substituição do sistema tradicional de ordenha e maneio do gado nos Açores, assente na energia humana e animal, por um sistema mecanizado (v. “The design of sociotechnical systems and the mechanization of the Azorean milking system”, in ResearchGate). Para apontar dois episódios desse caso que me parecem ilustrativos de outros dois aspetos de como estas inovações, efetivamente, ocorrem.

Um é o relato do atual dirigente de uma das associações de lavradores açorianos do seu primeiro encontro com as máquinas de ordenha móveis, que ainda caracterizam o sistema de ordenha mecanizada no arquipélago.
Era ele jovem, e ajudava um amigo na ordenha manual da manada do pai deste outro rapaz. Esse lavrador fora hospitalizado, mas ainda assim manteve a introdução de uma máquina de ordenha na sua lavoura, que contratualizara com a empresa fornecedora do equipamento. Chegaram então os técnicos com a máquina à pastagem onde se encontravam os dois rapazes, em plena ordenha. Explicaram o modo de operacionalização desse sistema técnico, porventura também o seu funcionamento, e os rapazes, no dizer do atual engenheiro e dirigente associativo, perceberam quase nada. Um dos técnicos achou que o melhor seria fazerem uma demonstração prática. Mal ligou o aparelho, as vacas fugiram espalhando-se pela pastagem. Os rapazes levaram a tarde toda a reuni-las. (Anoto que uma descarga de adrenalina inibe a descida do leite para os canais no úbere, a ordenha não há de ter sido grande coisa nessa tarde.) Enfim, a habituação dos animais levou dias, necessitando de muita paciência dos dois novos operadores da máquina.
Ou seja, nem sempre os agentes da inovação tecnológica são os seus promotores – o lavrador estava no hospital, e os rapazes não estavam preparados para aquela inovação – de forma que o processo se pode tornar descontínuo ou segmentado. Os técnicos talvez saibam tudo sobre a máquina que lhes diz respeito, e alguma coisa sobre comunicação com os eventuais operadores, mas se lhes faltar a perceção de que, além da mesa de design e da oficina, outros elementos podem condicionar a inovação tecnológica efetiva, podem não antecipar a possibilidade de eventos como a reação das vacas ao som da máquina. De qualquer forma, tudo acabou bem? Pois acabou, mas graças a uma competência pessoal (soft skill) que nem teria sido relevada previamente pelos técnicos na sua comunicação, e que só contingentemente era possuída pelos dois inesperados recetores do equipamento: a paciência – em relação àqueles esquecidos terceiros elementos do sistema sócio-técnico-animal.
Moral da história: conceber ou planear será útil, ou até necessário para a inovação tecnológica, mas não é suficiente para esta última.
O âmbito do outro episódio é hoje especialmente caro na academia, mas fora dela também não o deveremos desconsiderar: a questão de género neste tipo de processos.
Um dos obstáculos à inovação acima referida era a excessiva fragmentação da propriedade rural e a diminuta dimensão dos respetivos blocos. A este respeito, um técnico de um instituto público envolvido na promoção do emparcelamento rural açoriano, desde meados da década de 1980, contou-me o protocolo retórico que, informalmente, acabara por ser desenvolvido e implementado nesse instituto:
1.º passo: durante a semana, ir à pastagem e apresentar os procedimentos de emparcelamento ao lavrador, ao que este, se não negasse logo, diria ter de pensar. Neste caso – 2.º passo: à saída, como quem se lembra de um pormenor secundário, dizer-lhe que seria sempre precisa a assinatura da esposa, pelo que se lhe pedia licença, a ele marido, para ir falar também com ela. Dada a deferência, a resposta tenderia a ser afirmativa. 3.º passo, então o decisivo: numa hora em que fosse provável que o homem não estivesse em casa, ir explicar detalhadamente a proposta à senhora. Ela concordaria ou não. Se concordasse, o 4.º passo seria ir à pastagem, uns dias depois, receber a aceitação do lavrador.
Contei este episódio numa recente conferência internacional sobre história rural, pois diversos investigadores se tinham manifestado interessados no trator como símbolo do poder masculino etc. Imediatamente, uma austríaca com investigação creio que no mundo rural polaco e um belga que apresentara uma comunicação precisamente sobre a múltipla simbologia do trator apontaram traços equivalentes a esse episódio micaelense. E um suíço, que antes assinalara que a tratorização fora feita no seu país sob o lema da poupança das crianças e mulheres ao trabalho físico nos campos, libertando-os para a escola, e para o cuidado da casa de família precisamente quando a máquina compensaria a menor força física média das mulheres, reconheceu que, todavia, a contabilidade das explorações agrícolas, e assim boa parte das decisões de gestão, continuara a ser feita maioritariamente pelas mulheres.
O que retiro de episódios como estes é que, bastas vezes, o que é masculino será a expressão pública do poder, mas isto não se identifica necessariamente com o exercício do poder decisório. A relação ternária ‘homem – artefacto tecnológico ou plano técnico – mulher’ pode ser diferenciada não apenas pela diferença entre as relações binárias que comporta (homem-artefacto, artefacto-mulher, mulher-homem), mas ainda por uma multiplicação de níveis dessas relações além daquele que é manifesto. Não sendo límpido quem ou o quê decide exatamente sobre o quê.
Em suma, faz sentido usar uma palavra como “realidade”, para designar algo mais complexo e fluido do que a limpidez das lestas palavras com que se lhe quer dar forma.

A infância tem um tempo próprio, feito de rituais simples, de cheiros a açúcar acabado de pesar e de passos miúdos a ecoar em escadas de madeira. É desse tempo que guardo a memória da minha irmãzinha Lina — a nossa Lina Manuela — levada cedo demais, aos 38 anos, há já 26. Mas há infâncias que não morrem. Ficam suspensas, intactas, como se ainda descessem as escadas aos saltinhos.
Tínhamos um cãozinho chamado Tim, nome roubado às aventuras de Enid Blyton, cujos livros eu lia e colecionava com devoção. Depois passava-os ao Duarte e à Lina, mais pequenos, para que também viajassem por aqueles mundos de mistério e coragem. Assim crescíamos: entre páginas folheadas com cuidado e latidos felizes no quintal.
As nossas brincadeiras começavam — e quase sempre acabavam — na mercearia do nosso pai, a lendária “A Cova da Onça”. Ali aprendemos a ser gente. Eu fazia de caixeiro de balcão; o Duarte enchia saquinhos de meio quilo e de quilo de açúcar com uma concentração de homem feito; e a Lina era a cliente, entrando e saindo com a seriedade divertida de quem representa um papel importante.
Antes de irmos para a rua — fosse para os quintais dos amigos, fosse para o nosso — passávamos sempre pela mercearia para tomar a bênção ao nosso pai. Era um gesto antigo, aprendido desde que começámos a falar, desde que percebemos que éramos gente deste mundo. De manhã e à noite. Todos os dias. Sem falhar.

A vida girava em torno daquela porta aberta para a rua, naquela vila que não tem comparação: Água de Pau. Ali conheci o mundo rural, o povo e as suas histórias, as vozes que se cruzavam ao balcão, as mãos calejadas do trabalho, os silêncios cheios de significado e de resignação antiga. É dessa seiva viva que nascem os meus livros, Antes Que A Memória Se Apague – Crónicas de Água de Pau, volumes I e II, e o III que verá a luz neste ano de 2026. Porque há terras onde, se as pessoas não querem — ou não sabem — contar a sua história, a própria terra a conta por elas. Basta caminhar pelas suas ruas e as perguntas e as respostas caem em catadupa. Em cada rua há um fontanário que ora une duas artérias, ora as divide ao meio; em cada porta há um artesão ou uma tecedeira, um mestre de alguma — ou de toda — a obra: da carpintaria, da pedra, da pintura; um antigo caiador de cal branca nas fachadas, um sapateiro de sola gasta, um moleiro de farinha no ar, um padeiro de madrugada acesa.

E as alcunhas — essas metáforas vivas da identidade popular, esses vocábulos que são património oral — Urbano Escorrega, Zé Vira-o-Bolo, Mané Arranca-Tocas, Zé-Bela-Areia, Serafim Gaiafo, António Pim-de-Leite, Laracha, Virgínio Arrepiado, Guilherme Cadela, Zé Borges Carranca, Zé Elias Pinguinha, Zé dos Pulinhos… nomes que são já narrativas inteiras, pequenas crónicas ditas de boca em boca, onde a palavra levanta reputações ou as derruba, emociona corações ou fere suscetibilidades. Porque numa terra assim, a palavra é património: pesa, constrói, eterniza. E, ainda assim, há uma diferença essencial quando essa palavra nasce da inocência.

Foi ali, num desses dias iguais a tantos outros, que a magia da palavra se revelou. A Lina teria sete ou oito anos. Desce as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão de madeira que ligava a casa à “Cova da Onça”. Vai direita ao nosso pai para lhe pedir a bênção. Ele conversava com um antigo amigo do Liceu de Ponta Delgada. Aproxima-se, beija-lhe a mão e a face — como mandava o ritual — e, depois de observar atentamente o senhor que o acompanhava, dispara com a frontalidade luminosa da infância:
– O senhor tem um nariz tão comprido, não tem?
O meu pai ficou visivelmente incomodado. O amigo, porém, manteve a serenidade:
– Não… isso então é que não tenho!
A Lina, intrigada, insiste:
– Ah, não tem?
– Não, querida. Estás a confundir tudo. Eu não tenho o nariz comprido. O que eu tenho é a cara recuada!
– Ãhn!!
E ficou por ali. Não percebeu, mas também não se demorou. Virou costas e foi a correr para o quintal, onde o Tim a esperava para mais uma aventura.
E é aqui que o título ganha corpo e verdade. A palavra pode ferir quando nasce do orgulho, pode derrubar quando nasce da malícia, pode emocionar quando nasce do amor — mas, na boca de uma criança, ela não pesa, não calcula, não mede consequências. Ela é pura. É espelho. É verdade sem intenção de magoar.
A Lina não quis ferir. Apenas viu e disse. E nessa simplicidade reside a magia. A inocência não conhece diplomacias; conhece apenas o mundo tal como o enxerga.
Hoje, ao recordar a sua partida em março de 2000, e a do nosso pai em março de 1982, percebo que as palavras permanecem. São elas que levantam a memória, que impedem que o tempo derrube o que fomos.
E enquanto houver palavra — e memória — a Lina continuará a descer as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão, pronta a dizer ao mundo, sem filtros e sem medo, aquilo que vê.
Porque, sim:
A palavra levanta ou derruba, emociona ou fere — mas da boca duma criança, tem magia.

A lenda de São Valentim nasceu do amor proibido.
Conta-se que, no Império Romano, os jovens soldados eram proibidos de ter parceira, por se acreditar que o amor diminuía a sua performance bélica. Valentim, sendo frade — e frade numa época em que amar era também um ato de desobediência — discordou e celebrou inúmeros casamentos em segredo.
Já se sabe que ninguém apaga a chama do amor.
Mas também se sabe que, ao longo da história, ela surge quase sempre acompanhada de dramas, cenas e mártires.
Talvez por isso Valentim tenha ficado associado à valentia.
Porque o amor não é para todos.
É só para quem aguenta.
É precisamente por isso que este artigo começou por se chamar A Fórmula do Amor e acabou por falar, na prática, de relacionamentos amorosos. A diferença está na distância entre a química idealizada do início e a prática quotidiana partilhada. Se a primeira exigia valentia, a segunda exige, com certeza, criatividade — e outras coisas mais — que são o mote desta formulação.
Vamos, então, dar início à escrita do problema.
Ao formular o problema — digo, o do amor, melhor dizendo, o das relações amorosas — resta determinar se ele é solucionável, indeterminado ou impossível.
A questão que se coloca é simples apenas na aparência: o que estaríamos dispostos a aceitar como solução?
Considere-se uma relação amorosa como um sistema instável, sujeito a variações constantes e a fatores externos inesperados, como cansaço acumulado, decisões financeiras tomadas “em boa fé” ou discussões recorrentes sobre quem deixou a luz da casa de banho acesa.
Para efeitos práticos, adotam-se as seguintes variáveis:
C — Cuidado
T — Tempo
S — Escuta
E — Ego
Parte-se do princípio de que uma relação não se sustenta na intensidade do início, mas na repetição. Não é o jantar romântico ocasional que garante continuidade, mas o cuidado diário — como perguntar “como correu o teu dia?” e não desaparecer a meio da resposta para ir ver o telemóvel.
Na ausência de cuidado, o sistema começa a falhar, mesmo quando tudo parece bem nas fotografias.
Nenhuma relação se mantém sem tempo.
Tempo real, não apenas partilhado no mesmo sofá enquanto cada um vê uma série diferente.
É aqui que surgem dilemas clássicos: ver a série juntos ou avançar “só um episódio”, jantar fora ou pedir comida, ir dormir cedo ou prolongar a conversa que começou por nada e acabou em tudo. O tempo só conta quando há presença.
Define-se escuta como a capacidade de ouvir sem interromper, corrigir ou preparar mentalmente a resposta.
Muitos conflitos conjugais não resultam do tema em si — seja a loiça por lavar ou o tom de uma mensagem — mas da sensação persistente de não estar a ser ouvido.
Introduz-se o ego como variável instável e expansiva.
Ao contrário das restantes, o ego não soma: ocupa espaço.
Manifesta-se na necessidade de ter razão, na dificuldade em pedir desculpa ou na convicção de que “não era preciso avisar” antes de uma decisão importante. Em excesso, o ego consome energia que faria falta ao resto do sistema.
Não é preciso gostar de matemática para compreender: quanto mais cuidado, tempo e escuta, maior a relação. Quanto maior o ego, menor o resultado.
Os relacionamentos não se resolvem.
Ajustam-se.
Duram mais quando há energia disponível, manutenção regular e a capacidade de trocar as pilhas antes de tudo se desligar — de preferência antes da próxima discussão sobre o ar condicionado.
Talvez por isso seja curioso que, ainda hoje, em contexto profissional, se continue a perguntar se alguém pensa engravidar nos próximos tempos ou se está numa relação, como se isso fosse um indicador de desempenho.
Talvez a pergunta relevante fosse outra.
Mais simples.
Mais honesta.
És feliz na tua relação?
Ou, pelo menos, tens uma relação estável?
Porque relações estáveis — afetivas, emocionais, humanas — não retiram energia ao trabalho. Pelo contrário: dão-lhe base, foco e continuidade. E talvez seja tempo de perceber que a maturidade emocional não é um risco profissional, mas um ativo silencioso.

A história recente do concelho da Lagoa constrói-se tanto no seu território como além-Atlântico, através da sua diáspora organizada nos Estados Unidos da América. Os lagoenses emigrados na Nova Inglaterra têm desempenhado, ao longo de décadas, um papel determinante na preservação da identidade cultural, na promoção do concelho e no fortalecimento das relações institucionais entre a Lagoa e as comunidades norte-americanas.
Um dos momentos fundadores desta relação ocorreu a 11 de abril de 1990, quando Halsey Herroshof, administrador do concelho de Bristol, Rhode Island, se deslocou à Lagoa para assinar o protocolo de geminação com o Presidente da Câmara Municipal, Eng.º Luís Alberto Martins Mota. Durante essa visita oficial, Halsey Herroshof e o seu assistente ficaram hospedados na Caloura, na Vila de Água de Pau, em casa do Vice-Presidente da Câmara, Roberto Medeiros, num gesto simbólico de hospitalidade e proximidade institucional.
No âmbito desta geminação realizaram-se diversas visitas e iniciativas culturais no concelho da Lagoa, nomeadamente à Cerâmica Vieira e aos museus da Tanoaria, do Alambique, da Tenda do Ferreiro-Ferrador, da Cestaria e da Tecelagem. O administrador de Bristol participou ainda, juntamente com os autarcas lagoenses, na Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, e em atividades culturais com o Grupo de Teatro e de Folclore Jovem Pauense.
Em julho de 1990, o Presidente e o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Eng.º Luís Martins Mota e Roberto Medeiros, deslocaram-se aos EUA para participar, na vila irmã de Bristol, na histórica Parada do 4th of July, comemoração maior da Independência dos Estados Unidos. Estas deslocações e receções oficiais motivaram os imigrantes lagoenses radicados na Nova Inglaterra a organizarem-se, sentindo a necessidade de criar uma estrutura representativa que dignificasse o concelho e a comunidade emigrante no país que os acolheu. Esse objetivo viria a concretizar-se em 1996, com a criação da Associação dos Amigos da Lagoa da Nova Inglaterra, também conhecida como “União do Concelho da Lagoa”.
Presidida inicialmente por José Francisco Pires, natural do Rosário, e mais tarde por Maria Tomásia, da Ribeira Chã, a associação assumiu-se como uma verdadeira ligação entre o Município da Lagoa e a sua diáspora, acolhendo autarcas, empresários, filarmónicas, ranchos folclóricos, grupos corais, artesãos e promovendo intercâmbios culturais e escolares. Destacou-se igualmente a valorização de tradições identitárias, como a arte do presépio lagoense, cuja produção remonta a 1862.
Um dos símbolos mais marcantes desta cooperação foi a inauguração, a 10 de junho de 1997, do “Mosaico Park”, em Bristol, uma praça em pedra basalto, executada em calçada portuguesa, desenhada pelo artista imigrante José Manuel Soares, antigo funcionário da Cerâmica Vieira. Para a sua concretização, a Câmara Municipal de Lagoa enviou o calceteiro João Luís Cabral, que executou exemplarmente o trabalho no cruzamento da Frank com a Wood Street, num projecto coordenado por Roberto Medeiros, pela Lagoa, e Frederico Pacheco, pela Bristol Town Hall.
Ao longo dos anos realizaram-se vários convívios dos Amigos da Lagoa, com a presença de autarcas e empresários do concelho. O último teve lugar em 2009, quando, a propósito de um pedido de apoio para o novo carrilhão de sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Roberto Medeiros mobilizou a comunidade emigrante, resultando na oferta de 16 000 euros pelo empresário James de Melo, de New Bedford, cujo nome ficou perpetuado na torre da igreja.
Após esse período, a atividade da associação entrou em pausa. Contudo, a 17 de janeiro de 2026, surgiu um novo impulso para a sua retoma, com uma nova direção e uma visão estratégica renovada. José António Pires foi indicado como novo presidente, reunindo já mais de uma dúzia de imigrantes lagoenses e outros a serem mobilizados.
José António Pires, David Loureiro, Maria Tomasia, John Ferreira, José Amaral (Amaral Buses), Fernando Benevides (Portugalia Marketplace) e outros lagoenses e amigos comunitários, continuaram desde 2010 até a atualidade a dar apoio a Roberto Medeiros, que após a sua atividade autárquica assinou protocolos de colaboração, no dia 5 de novembro de 2009, no Salão Nobre da New Bedford City Hall, com 54 instituições luso e americanas, continuando assim a realizar por iniciativa própria intercâmbios culturais e escolares entre escolas, professores e grupos de cantares que o acompanharam dos Açores e da Lagoa aos EUA.
Dito isto, o objetivo desta nova fase é claro: unir de forma estruturada o Município da Lagoa, a diáspora organizada nos EUA e as sete cidades irmãs — Bristol, Dartmouth, New Bedford, Fall River, Rehoboth, Taunton e Fairhaven — promovendo cooperação institucional, cultural e comunitária. Pretende-se, nesse âmbito, convidar uma delegação oficial da Câmara Municipal de Lagoa, liderada pelo seu Presidente, Frederico Sousa, para o próximo Convívio dos Amigos da Lagoa e para um novo ciclo de iniciativas conjuntas.
Com esta retoma, os Amigos da Lagoa reafirmam-se como uma ponte viva entre continentes, honrando o passado, reforçando o presente e projetando o futuro do concelho no espaço internacional.
Importa ainda recordar que Roberto Medeiros, graças ao patrocínio da família de Fernando Benevides, mantém desde 2014 uma ação cultural contínua e de elevado valor identitário nos Estados Unidos, promovendo a arte bonecreira e a tradição secular dos Presépios da Lagoa. Esta iniciativa concretiza-se através das exposições anuais “Vilas Presépios”, realizadas no estabelecimento Portugalia Marketplace, na cidade de Fall River, reunindo centenas de figuras em barro moldadas por bonecreiros lagoenses, com especial destaque para António Morais, de quem foi adquirida a maior coleção de bonecos por si criados. Estes eventos tornaram-se uma referência cultural junto das comunidades lagoenses e luso-americanas, afirmando a Lagoa como território de património artístico vivo. Neste percurso, os lagoenses José António Pires, Teresa Baganha e David Loureiro têm sido verdadeiros baluartes no apoio logístico e comunitário, contribuindo de forma decisiva para a concretização dos projetos coordenados por Roberto Medeiros e para a contínua valorização da identidade lagoense além-fronteiras.

Havia um tempo em que o mar não era apenas horizonte: era vizinho, confidente, mestre silencioso. Nas nossas ilhas, cada onda contava uma história, cada rocha guardava memórias de mãos que sabiam tocar o mundo sem o quebrar. Antes que os dias corressem apressados como correm hoje, havia homens e mulheres que acordavam com o sussurro do Atlântico e adormeciam com o sal impregnado na pele. Para as famílias dos pescadores do porto da Caloura, o mar não era paisagem; era vida, ofício, poesia.
Entre essas atividades, uma cintilava pela delicadeza do gesto: a apanha do musgo, ou das algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras, como se fossem cartas do tempo. Era um trabalho de paciência e precisão, feito ao compasso das marés, com conhecimento transmitido de geração em geração. Quem o praticava sabia decifrar o mar como quem lê um livro antigo: as correntes, as marés, o cheiro do vento, cada detalhe era lição.
Em São Miguel, os mergulhadores-de-polvos e os pescadores mais velhos — aqueles que já não navegavam para o largo nos barcos de boca aberta da Caloura, de Água de Pau ou do Porto dos Carneiros, no Rosário da Lagoa — encontravam no musgo uma ligação silenciosa ao oceano e, ao mesmo tempo, um sustento para as famílias. O musgo era colhido com cuidado, levado para terra e estendido ao sol, formando mantas ou tapetes que secavam lentamente, absorvendo a luz e a memória do mar.
Havia uma empresa que comprava todo o musgo ou algas marinhas apanhadas nos Açores durante o período de colheita. Como o «musgo» era muito rico em nutrientes, tinha vários destinos, sendo o principal o fabrico de medicamentos. A empresa Pereira e Pereira, pertencente ao Grupo Bensaúde — atualmente dono do Centro Comercial Parque Atlântico e do Hiper Continente, em Ponta Delgada — recolhia todo o musgo apanhado na ilha de São Miguel pelos mergulhadores e pescadores mais idosos. Depois, exportava-o para a produção de medicamentos, perfumes e até complementos alimentares. No Continente, por contraste, o musgo era usado para fertilizar os campos agrícolas, prática que nunca se implementou nos Açores. No arquipélago, durante mais de 400 anos, os agricultores utilizavam tremoceiros, faveiras e molheiros para fertilizar as suas terras, até à chegada dos fertilizantes químicos.
Nos anos 60, 70 e 80, este ritual era visível nas ruas de Água de Pau: moto-triciclos carregados de sacas desciam e subiam ruas como a Portela, o Cerco, a Galera e os Ferreiros, espalhando tapetes de musgo sobre calçadas e passeios. Homens como o o Ti António Xonina, o Ti Manuel Madeira, o Morreira, o Zé “vira-o-bolo”, o Subica ou o Zé da Glória Giganta trabalhavam com mãos calejadas, mas delicadas, espalhando vida e história. Para muitos aposentados e famílias numerosas, esta atividade era um complemento económico modesto, mas vital — cada tapete estendido era um poema silencioso de sobrevivência e engenho, cada saco transportado, uma ponte entre o homem e o oceano.
Na Caloura, quando ia aos banhos com familiares e amigos, dizia-se que o mar tinha preferência por Ti António Xonina. Talvez porque ele falava pouco, talvez porque sabia ouvir. Ajoelhava-se, colhia o musgo como quem recolhe memórias líquidas, e enchia o saco de serapilheira sem pressas, como se cada fio esverdeado escuro guardasse um segredo. Quando o vento soprava, parecia que as algas chamavam por ele, sussurrando histórias de marés antigas.
A costa sul transformava-se em cenário vivo: sombras inclinadas, o brilho molhado das pedras, o marulhar ritmado das ondas. Era quase uma coreografia, uma dança antiga entre o mar e aqueles que dele dependiam. Depois vinha a tarde, e o musgo estendia-se ao sol como roupa lavada, libertando um cheiro de sal, vento e esperança.
Hoje, tudo isso pertence à memória. O mar continua imenso, igual a si mesmo, mas a apanha do musgo desapareceu. Já não há mãos a decifrar as marés, nem rostos a contemplar o reflexo da vida no musgo. Restam apenas fotografias antigas, onde o sol, o mar e as pessoas parecem conspirar para eternizar um mundo perdido. Recordar é um ato de ternura e respeito: é lembrar que fomos capazes de viver em harmonia com o oceano, e que essa harmonia é um património que não se pode esquecer.
O que antes era paciência e cuidado transformou-se numa invasão. As praias açorianas, incluindo a Caloura em Água de Pau, são hoje invadidas por toneladas de algas Sargassum. O mar devolve-nos esta massa vegetal, densa e implacável, como se quisesse dizer que a natureza se cansa da exploração. O acesso à água é dificultado, o prazer de estar à beira-mar é roubado, e os municípios enfrentam encargos enormes para retirar o excesso.
Estas algas provêm do Mar dos Sargaços, vasto Atlântico central, mas não são apenas mensageiras do mar: são sinal de desequilíbrio. Nutrientes excessivos provenientes de fertilizantes industriais, produção intensiva de gado, desflorestação e erosão do solo transformam o oceano numa máquina que gera vida e caos em simultâneo. Onde antes se lia o mar com olhos atentos, hoje o mar lê-nos e responde com invasão.
O contraste é brutal: antigamente, mãos humanas recolhiam o musgo com reverência; hoje, o mar devolve-nos invasões que ninguém pediu. A riqueza que antes era partilhada entre comunidades agora é explorada por interesses distantes, e a natureza paga o preço da ganância. O oceano, que outrora ensinava, alerta-nos agora: o seu silêncio já não esconde a degradação e o desequilíbrio.
Recordar não é nostalgia: é aprender. O musgo colhido com paciência, as mãos calejadas e delicadas, os rostos iluminados pelo sol e pelo mar são património vivo da nossa identidade. Se quisermos proteger o futuro, precisamos de ouvir o oceano, respeitar o equilíbrio e recordar o que ele nos deu. Antigamente, o homem lia o mar; hoje, o mar lê o homem e mostra-lhe as consequências da sua cegueira.
E talvez, se aprendermos a olhar de novo, possamos ainda transformar a invasão em aviso, a memória em sabedoria, e o oceano em parceiro, como foi sempre.

Roberto Medeiros
Na década de 1960, Água de Pau viveu uma ferida aberta — uma perda lenta, mas profunda, que marcou para sempre a história da vila. Famílias inteiras partiram em direção ao desconhecido. Eram mais de mil pessoas. Só da rua dos Ferreiros — a antiga artéria de pedra gasta pelas gerações — saíram mais de 300. A velha pedreira, antes cheia de vozes e vidas, ficou em silêncio. Casa sim, casa não, ficou vazia. As janelas cerraram-se, os cortinados deixaram de esvoaçar com o vento do Sul, e os passos nas calçadas tornaram-se mais raros.
Os que saíram procuravam mais do que uma nova vida: procuravam futuro para os filhos. Deixaram para trás os campos férteis do Valongo, da Amoreirinha, da Terra-de-Reis e da Caloura — terras que, durante séculos, sustentaram a vila. Braços que regavam, cavavam, ceifavam e colhiam, partiram. E com eles, partiu também o coração da comunidade.

Era a necessidade que os empurrava. A escassez de trabalho, os salários miseráveis, e a certeza de que, ficando, os filhos teriam um destino igual ou pior. Partiam com fé no peito e saudade nos olhos. Deixavam pais e mães, irmãos, vizinhos, as festas de Nossa Senhora dos Anjos e do Espírito Santo e o toque do sino da igreja matriz que ecoava pela vila toda até às terras da Eira na Amoreirinha.
Curiosamente, a emigração não foi aleatória. Os da rua dos Ferreiros criaram raízes em New Bedford, nos EUA, e em Montreal, no Canadá. Como se quisessem reconstruir, tijolo a tijolo, a sua rua noutro lugar do mundo. Já os das ruas da Arrochela, da Travessa da Natividade e do Valverde de Cima, encontraram em Bristol, Rhode Island, um novo lar. Levavam a fé consigo — e isso vê-se nas festas religiosas organizadas pela diáspora, onde trajes tradicionais, danças, folclore e imagens santas ainda hoje são reverenciados como se estivessem na própria vila.
Na fotografia acima, uma família posa em trajes de romaria e devoção. As crianças sorriem, mas os olhos dos adultos trazem o peso da memória. A mulher mais velha segura uma imagem sagrada — talvez de Nossa Senhora dos Anjos ou do Senhor Santo Cristo dos Milagres. É o retrato vivo da ponte entre a terra que se deixou e a fé que se levou. A emigração não foi apenas um movimento de pessoas — foi uma travessia cultural, emocional e espiritual.
Água de Pau perdeu muito com a emigração. Perdeu braços que lavravam a terra e rostos que davam vida às festas e às ruas. Mas ganhou também uma diáspora orgulhosa, que nunca se esqueceu de onde veio. Que transmitiu aos filhos o sotaque dos Açores, as receitas da avó, o respeito pelo trabalho e a fé enraizada. Que fez questão de continuar a celebrar os impérios, as filarmónicas, os cortejos e a língua — mesmo do outro lado do oceano.
Hoje, os filhos desses emigrantes já são americanos ou canadianos de nascimento. Mas dentro deles vive Água de Pau. Vive nos nomes que ainda sabem pronunciar, nas músicas que ainda sabem cantar, nos sonhos dos pais e dos avós que um dia cruzaram o Atlântico para que eles pudessem ter mais do que aquilo que a terra lhes permitia.
Foi a coragem de partir que garantiu a continuidade da memória.

Há histórias que resistem ao tempo. E há regressos que não precisam de mapa, porque o coração conhece cada beco, cada ribeira, cada pedra onde se brincou em criança. Assim foi o regresso de Victor e João Porto à sua terra natal — Água de Pau, vila ainda de alma rural, de caminhos terrosos e memórias que permanecem intactas, mesmo passados 49 anos de ausência.
Foi no Beco do Saco, junto à rua do Cura, que estes dois irmãos nasceram. Em 1966, partiram com os pais e a irmã rumo à América, como tantos outros açorianos da sua geração. Victor tinha 10 anos. João, apenas 8. A infância ficou-lhes gravada na memória, como uma fotografia antiga guardada numa gaveta da alma.
Durante quase meio século, nunca mais regressaram aos Açores. Até que, em outubro de 2014, integrados numa comitiva de emigrantes de Dartmouth, a ilha chamou por eles — e eles responderam com um regresso carregado de emoção.
Ao entrarem em Água de Pau, mal passaram pela Praça da República (ou como se diz por brincadeira, “a nossa Times Square”), pediram logo para virar depressa na rua da Carreira. Queriam ver a casa onde nasceram, tocar nas paredes que guardaram os primeiros anos da sua vida. Levei-os até lá — mesmo em contramão — e vi-os emocionarem-se ao tocar nas pedras da velha casa.
Foi um reencontro com o tempo e com a verdade das raízes.
Depois, caminhámos juntos pelas ruas que a memória não deixou apagar. No Largo de Santiago, agora sem a ribeira aberta nem lavadeiras, evocaram as festas de 15 de agosto, os bailaricos e os piqueniques, os dias de melancia e risos. Perguntaram-me pelo velho “Crockett”, lembraram-se dos marrecos na água e das brincadeiras com os amigos de infância.
Fomos ao Pico do Monte Santo, onde se vê toda a vila de uma vez só. E ali ficaram por instantes, em silêncio, a contemplar aquilo que nunca verdadeiramente deixaram: a sua terra.
Na Caloura, o João lembrou-se de, em pequeno, ter ido de barco com o pai até ao Ilhéu da Vila, durante a festa da Senhora das Dores. Memórias que voltaram à tona como se tivessem sido vividas ontem.
Ao cruzarem-se com algumas pessoas mais idosas, o espanto e o reconhecimento foram mútuos: todos se lembravam dos pais. E esse pequeno gesto de memória partilhada, esse fio que liga gerações, deu-lhes uma alegria difícil de descrever.
“Parece que nunca saímos daqui”, disseram-me. E eu percebi: realmente, nunca saíram.
A tarde foi passando e, com ela, o sentimento claro de que esta visita não seria a última. “Temos de voltar com a família toda. Eles precisam de conhecer isto, de sentir isto.”
E antes de regressarem à comitiva, visitámos ainda uma plantação de ananases e o Convento do Senhor Santo Cristo, símbolos maiores da ilha que continua a fazer ponte entre o passado e o presente.
Despedi-me deles com um abraço, sabendo que levavam Água de Pau no peito como bandeira. Vão regressar à América, sim, mas transformados em verdadeiros embaixadores da terra que os viu nascer.
Porque há lugares que nunca se esquecem.
Porque há raízes que, mesmo à distância, continuam a crescer.
E porque, como bem disseram no final do dia, entre sorrisos cheios de saudade:
“Água de Pau desbanca!”

Roberto Medeiros
Não sei quantas mais histórias irei ainda contar sobre as gentes da minha terra. Mas uma certeza me assiste: “Antes Que A Minha Memória Se Apague”, deixarei o que vivi, ouvi e vi inscrito nas páginas dos meus quatro livros — dois dos quais já viram a luz do prelo. Nesta crónica, trago ao papel mais uma memória viva, costurada de saudade, terra e gratidão. Uma memória que fala de dois rostos — um presente, outro já ausente — que carregam consigo a alma laboriosa de Água de Pau.

Foi ao revisitar esta antiga fotografia de agricultores da nossa vila — homens e mulheres da lavoura, sacho na mão, suor no rosto — que se reacendeu em mim a lembrança. Naquela imagem, captada na chamada “Terra de Reis”, lugar de entrada pelo Boqueirão e ladeado pelos históricos Jardim das Murtas, Lourinhos e Junqueiras, via-se o esforço de gerações inteiras. Ali, entre rostos jovens e experientes, saltou-me à memória um nome. O pai daquele jovem, que viria a ser o maior agricultor-camponês que esta vila conheceu.
Mas para chegar a ele, preciso recuar aos anos 80.
Naquele tempo, eu e a minha esposa Maria saíamos de casa, no Cinzeiro, ainda antes da aurora. O céu ainda não se desenhava em cores, quando cruzámos caminho com um homem e uma criança. Ambos levavam o sacho ao ombro e barrete na cabeça. A curiosidade levou-nos a perguntar para onde iam tão cedo. A resposta do pai foi simples e cheia de sentido: “Antes de ir para a escola, o meu filho vai-me ajudar a sachar um pedaço de vinha.”
Era um pequeno terreno, por trás da nossa casa, na subida para o Cinzeiro de Cima. A imagem daquele menino, determinado, orgulhoso do seu papel na tarefa familiar, ficou-me marcada na alma. Havia ali mais do que obediência: havia consciência, missão e pertença.
Passaram-se os anos. O pai — homem de respeito, conhecido como mourinho do trabalho e bom-sacho, título honroso da nossa vila — partiu cedo, deixando filhos pequenos, mas já moldados para a vida. Quanto ao menino do Cinzeiro? Fez-se homem. E não apenas homem, mas o maior agricultor da nossa vila, e um dos mais produtivos da ilha de São Miguel.
É, hoje, agricultor de profissão e de paixão. Sabe da terra como poucos: semeia com ciência, colhe com arte, enfrenta pragas, lê os ventos e as chuvas. Alimenta cooperativas, sustenta famílias, honra o campo. Explora dezenas de moios de terra — e um moio, não esqueçamos, representa sessenta alqueires de terra lavrável. O seu sucesso é espelho da nossa fertilidade e da riqueza das terras de Água de Pau, comparável apenas às planícies de Santana, na Ribeira Grande.
Pediu-me, no entanto, que não escrevesse o seu nome. E respeito-o. Porque nesta terra, infelizmente, ainda há quem castigue o mérito com inveja. Mas a grandeza de um homem vê-se pelo que planta — e pelo que deixa depois de colher.
E se dele falo em silêncio, dela falo em voz alta. Isabel Sachola. Nome de mulher, mas símbolo de força bruta e coragem meiga. Era da antiga Rua das Escaninhas — hoje Rua do Foral Novo — e dizia-se dela que cavava como nenhum homem conseguia acompanhar.
Num certo dia, quando contratara alguns rapazes da Praça da República para cavar um terreno junto aos secadouros de tabaco da Fábrica Estrela, os homens não aguentaram o seu ritmo. Um dos genros foi, então, pedir ao meu pai que lhe deixasse ir falar aos homens que estavam com a sogra na terra. “A sogra não os pode tratar como escravos”, dissera-lhe um dos homens. Mas a verdade é que a Ti Isabel apenas exigia uma coisa: que a acompanhassem… se pudessem.
Usava calças de homem, empunhava o sacho com firmeza, impunha-se no campo como igual — ou superior — aos homens da vila. Era temida no trabalho, mas adorada em casa. Mulher de fibra e de ternura, símbolo de uma geração que viveu da terra e com ela se fez respeitar.
A Vila de Água de Pau foi feita de gente assim: trabalhadores, valentes, resistentes. Gente que não cede à preguiça nem à maledicência. Gente que honra a terra como quem honra os seus. Estes dois nomes — o de hoje e o de ontem — representam o que de melhor temos: dignidade no trabalho, orgulho nas origens e amor pelo que se faz.
É por eles — e por todos os que neles se revêm — que escrevo.
Antes que a minha memória se apague.
E que as memórias da nossa terra se percam no esquecimento dos que não souberem olhar para trás para seguir em frente.

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador
Ao leitor habituado às minhas atualizações dos Caracteres, de Teofrasto, começo por pedir desculpa, porque, no presente número do Diário da Lagoa, comemorativo do seu 11.º aniversário, me permiti um “desvio”. No espetro das temáticas que dão corpo a esta nova edição, acolhi com muito bom grado o convite e sugestão do Sr. Diretor do DL, a quem agradeço, e decidi refletir sobre a leitura. Alguns pensarão – e até dirão –, “olha, mais do mesmo!…” Seja mais do mesmo ou não, a verdade é que ler é, ainda no meu entender, um dos melhores remédios para um número significativo de maleitas. Daí o título “Ler?! Isso (não) é para mim!”, que me permite uma explanação dúplice, procedimento que promove e estimula, espero que seguramente, a reflexão junto dos leitores.
“Ler?! Isso NÃO é para mim!” Quantas vezes já não ouvimos esta expressão? Quantos dos nossos alunos não a dizem, sem pruridos e convictos de que de facto o ato de ler não lhes traz quaisquer benefícios? Dispenso-me de dar a resposta, pois é do conhecimento de todos. O que temos vindo a assistir nas últimas três décadas, no que se refere ao uso e abuso das novas tecnologias, constitui, pelo menos na minha ótica, a causa primeira para que ouçamos amiúde que “isso de ler não é para mim…” O que tem substituído essa prática? As consolas, os videogames, as redes sociais, os telemóveis, a falta de atenção de pais e encarregados de educação, a ausência de hábitos de estudo e de interesses num futuro que não deve depender exclusivamente do universo da informática. Na verdade, entrar no quarto de uma criança, adolescente ou jovem adulto, nos dias de hoje, já não significa ver a cama do tipo de estúdio, com duas prateleiras com livros, já não é o mesmo que ver, num canto ao lado da janela, uma secretária ou escrivaninha com caderno e mais livros… Significa, isso sim, ver uns pufes bem almofadados diante de um mega ecrã, a que se juntam comandos de jogos; significa ver candeeiros que emitem jogos de luz que em pouco são saudáveis ao bem-estar ocular do miúdo ou da miúda. Perante esse cenário, é, portanto, perfeitamente aceitável e normal, ouvirmos, com convicção, “Ler?! Isso NÃO é para mim!”
É óbvio que, mesmo neste mundo dominado pelos avanços tecnológicos, que também nos são benéficos, alguém me diga para não ser mais um Velho do Restelo, que há e-books, que também se pode ler e escrever em gadgets sem papel, que muitos livros já foram e continuam a passar para a tela do cinema e, quase de imediato, para as plataformas de streaming, logo, para quê comprar livros? Para quê ter estantes em casa para livros? Mais duas questões cujas respostas estão na ponta da língua. Reconheço as potencialidades dos e-books e outras ‘coisas’ afins, mas deixo mais uma questão: por que razão os mais novos continuam a não ler? Não se trata, então, do meio através do qual se oferece a leitura, trata-se da falta de estímulo, da falta de exemplo… Os resultados da ausência de hábitos de leitura revelam-se prejudiciais, disso não tenhamos dúvidas. Quem diz que “Ler?! Isso NÃO é para mim!” é alguém que, normalmente, não se expressa bem, não escreve bem, não fala bem, não pensa bem… E ainda nos queixamos do estado em que se encontram certos estados democráticos?
“Ler?! Isso É para mim!”, afirmo-o aqui, sem medos e sem vergonhas. Essa prática, para muitos “da era dos dinossauros”, dá-me muitíssimo prazer, muito conhecimento, muita vontade de falar, de escrever e de partilhar com os outros, sejam eles alunos, sejam eles amigos, sejam eles colegas, sejam eles quem forem. Isso de ler é, na realidade, uma das minhas atividades favoritas e, neste sentido, tenho de deixar registados vários agradecimentos: o primeiro vai para os meus pais, que sempre me permitiram ler, sempre me incutiram o hábito de ir à biblioteca pública, nunca me tiraram os livros que eu tinha nas estantes do meu quarto, partilhado com o meu irmão que veio a seguir a mim, para pôr no seu lugar bibelots, medalhas e carrinhos em miniatura. O segundo vai para a minha irmã mais velha; era com quem eu ia à biblioteca, era com quem eu dividia as leituras, era com quem eu competia pelo número maior de livros lidos. O terceiro – e talvez o mais importante – vai para as minhas professoras e os meus professores, a começar pela minha professora do ensino primário.
Por isso, quando não há em casa quem possa ou consiga oferecer o fabuloso hábito de pegar num livro impresso e lê-lo, a tarefa fica nas mãos – e no exemplo – de quem ensina. Como poderão os alunos da atualidade gostar de ler, se lhes são apresentados tantos instrumentos, com letras, imagens e cores, através de PowerPoint? Através de quadros interativos? Como terão vontade de ler alunos a quem se diz “não é preciso leres o livro, lê antes o resumo”? Como desenvolverão competências e capacidades diversas – o aclamados skills – os alunos com quem os professores não partilham livros e experiências de leitura? As respostas a estas questões, deixo à responsabilidade dos meus leitores, aqueles que dedicaram uns minutos do seu tempo a LER(-me)! A eles, o meu bem-haja!

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador
À semelhança da maioria dos caracteres teofrásticos sobre os quais temos escrito, o desmazelado, tal como desenhado pelo autor grego do século IV a.C., encontra correspondências no tipo humano em que reconhecemos, na atualidade, os traços de desmazelo. A abrir o décimo nono carácter, Teofrasto define, como normalmente o faz, o conceito é tico sobre o qual discorre e, neste sentido, o desmazelo é “a falta de higiene pessoal suscetível de causar nojo” (Char. 19.1.). Ainda hoje se tem a ideia de que o desmazelado é aquele indivíduo que exibe descuido e desleixo higiénicos por via da própria aparência, o que desperta no(s) outro(s) certa repugnância.
Contudo, talvez por questões que se prendem com a evolução sociolinguística, tende-se a usar mais os termos desleixado ou descuidado para designar aquele que manifesta negligência higiénica; a palavra “desmazelado” parece comportar um carga semântica um tanto quanto insultuosa, enquanto os vocábulos “desleixado” ou “descuidado” se inscrevem no rol do que é “politicamente correto” dizer-se acerca de alguém. Frases como “Olha, aquele tipo é um desmazelado, acho-o tão nojento; vê só aquela roupa, a barba por aparar, os ténios sujos e rotos” ou “Repara na sicrana… aquele cabelinho não sente a frescura da água tem alguns dias… E o vestido todo amarrotado, que feio lhe fica!”, observações que tomaríamos por vulgares maledicências no nosso quotidiano, comportam um tom claramente ofensivo, a que se alia amiúde aquele olhar de reprovação de quem as proferiu.
Se optarmos por exclamações em que, no lugar de “desmazelado”, surjam os termos “desleixado” ou “descuidado”, fica-se com a consciência (mais) tranquila, porque, na verdade, são adjetivos que se usam até em contextos que nada têm que ver – pelo menos explicitamente – com a falta de higiene, como o mundo da moda ou o universo da estética, do bom (ou mau) gosto… “Fulano tem um look desleixado, fica-lhe bem, dá-lhe aquele ar de bad-boy” e “As nuances descuidadas do novo look de beltrana? Giras, não?” soam bem melhor do que “Fulano tem um aspeto desmazelado” ou “As nuances desmazeladas do novo penteado de beltrana?”…
No retrato de Teofrasto, ao desmazelado estão igualmente associadas características muito próximas do que hoje concebemos como sendo doenças ou patologias que não são resultado direto da falta de higiene. O autor grego refere, por exemplo, que o desmazelado “anda carregado de lepra ou de eczema” (Char. 19.2.), “se lhe aparecem chagas nas pernas ou golpes nos dedos, é menino para, por falta de cuidados, os deixar infetar” (Char. 19.3.), situações que, sob a perspetiva do indivíduo contemporâneo, não são necessariamente típicas de alguém desmazelado.
Noutros casos, porém, as considerações do autor dos Caracteres são muito atuais. Tanto para ele como para nós, é desmazelado quem tem as “unhas pretas” (Char. 19.2), entenda-se de esterco e não pintadas com verniz preto, quem “tem as axilas carregadas de vermes” (Char. 19.4), o mesmo é dizer suadas e malcheirosas, quem, “depois de beber, um copo, arrota e não se lava antes de ir para a cama com a mulher” (Char. 19.5), cenários por de mais desagradáveis e nojentos. Nestas circunstâncias, não há dúvidas de que a significação de “desmazelado” reenvia para a sua primeira e mais antiga aceção: a falta de higiene. Quantas vezes não nos deparamos com empregados de mesa a servir-nos com as unhas mal higienizadas? Ou com as marcas da transpiração axilar tão evidentes que desenham uma mancha de cor de esterco na camisa branca que vestem há dias e que tresanda a testosterona? Até que ponto se pode falar em desmazelo involuntário, quando experimentamos e vivenciamos episódios como os referidos nessas duas interrogações? Em contexto de trabalho – e ainda por cima tratando-se da restauração – a higiene é imperiosa! Assiste-se, assim, a um manifesto desmazelo por vontade própria, pois quem o evidencia tem a obrigação (profissional) de não o fazer.
Por outro lado, há exemplos que mostram como é – também e infelizmente – possível ser-se desmazelado por razões involuntárias. Voltemos o nosso olhar para aqueles que, por falta de autonomia e orientação, são entregues ao desmazelo e forçados a exibi-lo. São as crianças e os adolescentes que, por ausência de cuidados parentais (só pode!), ficam dias sem tomar banho e se apresentam na escola com um aspeto “sujinho”. Daí os piolhos e as lêndeas ou outras situações mais graves, como a sarna, que não ficaram no século passado; são casos em que o desmazelo tem implicações que ultrapassam o domínio pessoal e/ou individual e resultam, ironicamente, da neglicência dos adultos. São também as pessoas deficientes que, de igual modo, evidenciam não um desmazelo voluntário, mas o desmazelo que vem do cuidador que, este sim, parece não se importar que alguém dele dependente aparente nojice e desperte repugnância.
Por tudo isso, resta-nos relembrar que, do mesmo modo que somos o que comemos, como se diz popularmente, também mostramos aos olhos dos outros – e a nós próprios diante do espelho – o resultado dos cuidados de higiene (ou a falta deles) que temos connosco; é, pois, a imagem exterior que condiciona, em boa medida, o nosso nível de desmazelo.