
Aos 53 anos, Francisco Dutra, natural da ilha do Pico, tem se mostrado atento à propagação do consumo de drogas no arquipélago. Hoje, preside à Associação de Paintball dos Açores, entidade que promove não só este desporto, mas a interação familiar, o convívio, a inclusão e, com maior foco, o combate ao consumo de drogas, ao fazer com que os jovens da região vivenciem a disciplina promovida pelo desporto.
Dinamizador do projeto “Diga não à DROGA… Sim ao Paintball”, Francisco tem obtido sucesso ao promover eventos e torneios em diversas zonas, muitos deles gratuitos, possibilitando a participação dos jovens de todas as classes sociais, além de apostar num formato de pagamento para que alguns dos jovens possam “lucrar” algum dinheiro ao auxiliar nos trabalhos da associação durante os jogos.
Toda esta movimentação tem explicação, também, no passado de Francisco, já que esteve no exército, chegando a Sargento.
“O exército ajuda-nos a abrir os olhos em vários parâmetros. Um deles é a disciplina, acordar cedo, fazer a barba, lavar a roupa, passar a ferro. E uma coisa importante que é o espírito de equipa, que nós chamamos de espírito de corpo, uma missão para ser cumprida pelo grupo todo”, comenta Francisco que encontrou no desporto, através do Paintball, mais motivos para afirmar a importância do trabalho sem individualismos. Francisco recorda que a prática do Paintball “começou como uma brincadeira”.
“Não tinha nada para fazer aqui em São Miguel ao fim de semana. O meu filho tinha, na altura, cerca de nove anos”, confirma, enquanto explica que notava que as equipas de futebol contavam com atletas e não abriam espaço para pessoas acima do peso. Assim, o Paintball tornou-se numa forma de inclusão. Momento em que Francisco pôde incentivar o seu filho a participar ao seu lado numa prática desportiva que trazia a mesma adrenalina dos jogos de “combate”, semelhante aos simulados em computador.
“É um desporto que eu gosto, pois não é material de guerra, são apenas marcadores e o meu filho também gostava disso, porque tinha aqueles jogos no computador e passou da internet para realidade”, acrescenta Francisco, que acredita que a experiência “ajuda a desenvolver o espírito do ser humano física, psicológica e socialmente”. Além de manter o indivíduo na vida real, fora dos computadores.
“Vai ter que interagir em equipa, falar com pessoas, mesmo que não gostes daquela pessoa que está na tua equipa, tens que comunicar com ela, porque o objetivo é ganhar e conseguir conquistar a bandeira, conquistar aquela missão”, frisou Francisco, que recorda que qualquer faixa etária pode participar nos torneios.
Para alcançar este público, que se depara com “falta de tempo”, porque argumenta “já estou a jogar futebol”, para esquivar-se da prática do Paintball, a Associação de Paintball dos Açores tem divulgado as suas ações também junto das escolas.
“A primeira fase começou por nós e as escolas a oferecerem o nosso serviço, a nossa prestação. Porque o objetivo também não é só falar em droga, é também apresentar o Paintball como desporto. Neste momento, já temos escolas que entram em contacto connosco”, revela Francisco, que contou ainda que esse trabalho nas escolas passa por perceber as minúcias existentes, as condições de trabalho, se há ginásio disponível ou não, entre outros fatores.
Durante uma demonstração inicial nas escolas, é apresentada a vertente teórica, a segurança, o espírito de corpo e, depois, segue-se a prática. Como resultado, algumas pessoas mostram interesse em seguir no Paintball, como árbitros e monitores. Através dessa interação, Francisco garante que o desporto ajuda muitos jovens a afastarem-se das drogas. Por esta razão, há todo um trabalho, com a ajuda de profissionais vindos de Lisboa, para aumentar a oferta de formações e sessões.
A associação conta hoje com mais de mil sócios, sendo que 90% dos associados não pagam a cota. Apesar do número reduzido de pagantes, Francisco “não consegue dizer não” a um jovem que queira jogar, mas que não tem condições de pagar as cotas, “porque o objetivo da sessão é criar massa humana”.
Com data ainda por agendar, a associação está a preparar um torneio aberto à população no Campo de Jogos da Covoada, de entrada gratuita, com o apoio de um patrocinador da ilha do Pico, além da junta de freguesia local. O convívio vai permitir ainda a angariação de fundos para a associação.
“Sinto que este espírito de família se está a perder no arquipélago e nota-se mais nas ilhas mais distantes”, atestou.
Hoje, existem comissões e clubes em outras zonas que trabalham a promoção da prática do Paintball, com o apoio das juntas de freguesia e da própria associação, sempre com o olhar na proteção e desenvolvimento dos jovens do arquipélago.
Sobre o futuro, Francisco espera que os clubes “consigam ser independentes”, porém realça que “nunca vamos perder a ligação, pois a associação estará sempre presente”. Francisco recorda, por fim, que já investiu muito dinheiro em todo esse processo, tendo já criado comissões que viabilizam essas ações, com o apoio das Juntas de Freguesia.
“Estou otimista. Quem trabalha por gosto não cansa”, finaliza Francisco Dutra.