Log in

Embaixadora ucraniana: “Portugal é um povo muito solidário”

Em visita oficial aos Açores para reforçar laços institucionais e apoiar a comunidade local, a embaixadora da Ucrânia em Portugal partilhou o orgulho na resiliência do seu povo. Maryna Mykhailenko elogia a solidariedade e o “coração grande” dos portugueses, destacando o desejo dos ucranianos residentes no arquipélago em promover a sua cultura enquanto enfrentam as incertezas de um futuro em tempo de guerra

Maryna Mykhailenko recebeu o nosso jornal nas instalações da AIPA em Ponta Delgada © NOTÍCIAS QUE CONTAM

Recebeu-nos nas instalações da AIPA – Associação de Imigrantes dos Açores, em Ponta Delgada. Foi aqui que esteve reunida com quase duas dezenas de ucranianos que vivem na região, no passado dia 13 de maio, dia em que Maryna Mykhailenko conversou, em privado, com o Diário da Lagoa (DL).

DL: Por que veio aos Açores?
Nós realmente apreciamos o apoio português. Os portugueses, tanto ao nível do governo como dos cidadãos comuns, são muito solidários; são pessoas com um coração grande, e isso é extremamente importante neste momento desafiante. Esta visita tem três grandes objetivos. O primeiro é conhecer o vosso governo — o presidente dos Açores, o representante da República e o presidente da câmara da capital — para discutir a cooperação inter-regional. Sou uma grande entusiasta deste modelo e temos várias regiões ucranianas interessadas em estabelecer contacto com os Açores. O presidente do governo regional mostrou-se muito aberto a esta cooperação, que faremos também através do governo de Portugal.
O segundo objetivo é falar com a nossa comunidade. Portugal ofereceu o estatuto de proteção temporária e acolheu muitos ucranianos. Há cerca de 60 mil no total, sendo que 30 mil chegaram após o início da guerra em 2022. Somos a quarta maior comunidade estrangeira em Portugal, segundo a AIMA. Tentamos estar em contacto próximo com as nossas pessoas para entender os seus problemas, mas, em geral, estão muito bem integradas. O governo dos Açores indicou-nos que existem cerca de 70 ucranianos nas ilhas, mas a comunidade local estima que possam ser cerca de 200, uma vez que muitos chegaram antes e já adquiriram a cidadania portuguesa.
O terceiro foco é estabelecer e manter o contacto entre jovens. No ano passado, em parceria com a representação da Comissão Europeia, implementámos o projeto “Enlargement Camp”, que levou 20 jovens portugueses a Lviv — que era então a Capital Europeia da Juventude — para passarem quatro dias com 20 jovens ucranianos. Dois jovens dos Açores participaram e, inclusive, organizaram recentemente uma conferência sobre o tema na universidade local.

DL: Os Açores receberam vários refugiados ucranianos. Como olha para eles? Tivemos uma reunião muito dinâmica. O principal tema que levantaram foi sobre como apresentar mais a nossa cultura e organizar eventos dedicados à Ucrânia para os amigos portugueses. Discutimos projetos culturais porque há muitos músicos e artistas integrados aqui. Eles são muito ativos, querem fazer mais e pediram o apoio da Embaixada. Estamos totalmente prontos para ajudar, seja na promoção da cultura ou na organização de mostras de cinema.

DL: Como olha para a guerra no seu país?
Não foi uma escolha nossa. Somos uma nação pacífica, a Ucrânia nunca quis esta guerra, mas agora não temos outra opção senão lutar e defender a nossa soberania e a nossa escolha europeia. Esta guerra não é por territórios, não é pelo Donbass ou pela Crimeia; é sobre o nosso direito de pertencer à família europeia e ser um país democrático. Desde 2014, quando assinámos o acordo de associação com a União Europeia, iniciámos reformas profundas que continuamos a implementar, mesmo durante a guerra. Estamos prontos para negociações pacíficas e queremos uma paz sustentável e de longa duração, mas, infelizmente, não vemos até agora qualquer prontidão do lado russo para negociar seriamente.

DL: Como vê a relação entre os Estados Unidos e a Ucrânia?
Para nós, é extremamente importante ter os Estados Unidos a bordo por serem parceiros vitais. Atualmente, somos muito autónomos no desenvolvimento de drones e tecnologia semelhante, mas precisamos do apoio norte-americano no que toca a sistemas de defesa aérea. Continuamos a dialogar com eles e a demonstrar que a Ucrânia não é um obstáculo para a paz, mantendo os EUA firmes na mesa de negociações.

DL: Donald Trump acredita que a paz é iminente na Ucrânia. Acha que o presidente dos Estados Unidos é muito otimista?
Acho que a guerra pode ser travada imediatamente se o lado russo tomar essa decisão e estiver genuinamente pronto para negociar. Para ser honesta, acredito que o presidente dos Estados Unidos quer realmente esta paz e tenta fazer o seu melhor, mas, infelizmente, ainda não vemos uma preparação séria do lado russo para conversar connosco.

DL: Qual é o principal desafio de ser embaixadora em Portugal?
Em Portugal não há desafios desse género, estou muito feliz por estar colocada aqui porque os portugueses facilitam o meu trabalho pela sua enorme solidariedade. O verdadeiro desafio é ser embaixadora em tempo de guerra. Falamos de uma diplomacia que não é clássica; precisamos de dominar assuntos que vão desde o armamento até à crise energética para podermos pedir o apoio adequado aos nossos parceiros. O desafio é manter a Ucrânia no foco internacional após anos de guerra total. Portugal tem sido exemplar tanto na condenação da agressão russa como no apoio crucial à nossa integração europeia.

DL: Que preocupações os seus conterrâneos nos Açores lhe transmitiram?
Várias. Muitas pessoas estão bem integradas, mas planeiam regressar à Ucrânia assim que a guerra acabar — e nós queremos que regressem, porque as pessoas são o maior ativo de um Estado. Outras querem o apoio da embaixada para promover a nossa língua e cultura localmente. Há também a preocupação legítima sobre o que acontecerá após 2027, quando terminar o estatuto de proteção temporária. De um modo geral, estão muito satisfeitas e comovidas com o apoio, abertura e solidariedade dos cidadãos açorianos.

DL: O que espera para o futuro do seu país?
Acredito profundamente no meu país e estou muito otimista sobre o futuro da Ucrânia. O nosso povo é incrivelmente forte e resiliente. Sinto um orgulho imenso nos nossos jovens. A grande diferença entre a Ucrânia e a Rússia é a nossa estrutura social baseada na entreajuda horizontal. Vencemos a batalha de Kiev e de muitas outras cidades no início da guerra devido à consolidação da sociedade civil. Não foram apenas os militares, foi toda a população que se uniu. Continuamos unidos e prontos para lutar pelo futuro do nosso país.

“Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz”

O testemunho de quem se viu obrigado a deixar a família e os amigos para trás em busca de segurança, longe de um país em guerra. Rostyslav Hutsol partilha com o Diário da Lagoa a experiência de ter deixado a Ucrânia, sozinho, aos 17 anos, para encontrar em Portugal a estabilidade de que necessitava

Rostyslav tem atualmente 21 anos e já visitou os Açores várias vezes © DIREITOS RESERVADOS

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.

DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.

DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos?  Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.

DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda. 

DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.

DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.

DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.

DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.

DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.

DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.

DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.

DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.

DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

“Lajes das Flores está preparada para receber e apoiar quem queira investir e construir o seu futuro no concelho”

Inovação no extremo ocidental da Europa: Armando Rodrigues detalha a estratégia de Lajes das Flores para atrair investimento e gerar novas oportunidades

Armando Rodrigues, vice-presidente da Câmara Municipal da Lajes das Flores © DIREITOS RESERVADOS

Armando Rodrigues, 38 anos, gestor de profissão, com formação técnica em marketing, natural da Fajã Grande, na ilha das Flores, e residente nas Lajes das Flores, ambas nos Açores, exerce atualmente funções como vice-presidente do município de Lajes das Flores, cargo que assumiu em 2024, depois de ter atuado como vereador nas autárquicas em agosto de 2023.

Num momento em que o concelho procura reforçar a sua capacidade de atrair investimento, gerar emprego, diversificar a economia local e consolidar a sua afirmação cultural e turística no contexto regional, a autarquia tem vindo a apostar em instrumentos de apoio direto aos empreendedores, na dinamização de eventos de projeção externa, na qualificação dos serviços locais e na criação de oportunidades para fixar população jovem.

Em entrevista exclusiva à nossa reportagem, Armando Rodrigues detalhou as principais políticas municipais implementadas nas áreas do comércio, indústria, empreendedorismo, cultura, juventude, desporto, emprego e turismo, explicando de que forma Lajes das Flores tem procurado afirmar-se como um território competitivo, atrativo para investir e capaz de gerar novas oportunidades económicas e sociais num território insular situado no extremo ocidental da Europa.

DL: Quais foram os principais resultados alcançados nas áreas do comércio e da indústria no concelho de Lajes das Flores nos últimos anos, e que medidas concretas foram implementadas para atrair investimento e dinamizar o tecido empresarial local?
Nos últimos anos, o município de Lajes das Flores tem orientado a sua estratégia de desenvolvimento económico para a valorização e apoio ao microempresário, reconhecendo que o tecido empresarial da ilha, e em particular do município, é composto essencialmente por microempresários. Esta realidade tem norteado as opções políticas e os instrumentos de apoio disponibilizados à comunidade. Um dos pilares centrais desta política é o apoio consolidado aos futuros empreendedores através da Incubadora de Empresas das Lajes, estrutura que presta um serviço completo e integrado a quem pretende criar ou desenvolver o seu negócio, acompanhando os empreendedores desde a fase de conceção até à alavancagem efetiva das suas atividades. Com o objetivo de promover a fixação de empresas no concelho e tirar partido da localização estratégica do porto da ilha, o município tem investido na criação de zonas industriais, gerando condições de instalação e operação adequadas para diferentes tipologias de atividade económica. No domínio da atração de investimento, o município tem procurado construir uma rede de apoio acessível a todos os potenciais investidores, assegurando as condições necessárias para que possam concretizar os seus projetos. Em paralelo, a manutenção dos impostos municipais no valor mínimo legalmente permitido constitui uma medida deliberada e estrutural de incentivo à fixação de pessoas e empresas no território.

DL: De que forma a autarquia tem estruturado a política cultural do concelho, e que impacto têm tido as iniciativas promovidas na valorização da identidade local e na atração de visitantes?
A cultura tem sido, para este executivo, um instrumento privilegiado de abertura de horizontes, em particular para as gerações mais jovens. Tendo em conta a realidade geográfica e as limitações naturais no acesso a experiências culturais diversificadas, quando comparadas com outros territórios do país, o município de Lajes das Flores tem procurado criar oportunidades que compensem essa distância e enriqueçam o quotidiano da comunidade. A política cultural do concelho assenta igualmente num forte compromisso com a integração social, num território que acolhe residentes de várias nacionalidades. A promoção de iniciativas culturais inclusivas tem funcionado como fator de coesão, aproximando comunidades e reforçando o sentido de pertença ao lugar. Entre os exemplos mais concretos desta aposta, destaca-se a residência artística, um evento que decorre habitualmente durante as férias da Páscoa e que convoca dois formadores especializados para trabalhar, ao longo de uma semana, as diferentes expressões artísticas com as crianças da ilha. O processo culmina na apresentação de um espetáculo criado pelos próprios participantes, tornando cada edição numa experiência única de criação e partilha. Outro marco incontornável da agenda cultural municipal é a Festa do Emigrante, que chega à sua 39.ª edição com um papel cada vez mais consolidado na vida da ilha. Este evento tem permitido trazer à Ilha das Flores artistas de renome nacional e internacional, promovendo a cultura e a identidade local, mas gerando igualmente um impacto económico significativo para o concelho, ao dinamizar o comércio, o alojamento e os serviços durante o período da sua realização.

DL: Que estratégias têm sido adotadas nas áreas da juventude e do desporto para promover a fixação de jovens no concelho e incentivar estilos de vida ativos e participativos?
No domínio da juventude, o município tem desenvolvido um conjunto de iniciativas pensadas especificamente para os mais jovens, com o objetivo de lhes proporcionar experiências enriquecedoras e diversificadas. O ATL municipal constitui um dos pilares desta aposta, disponibilizando cinco oficinas abertas não apenas às crianças inscritas no serviço, mas também a outras que pretendam participar. Entre as áreas trabalhadas, destacam-se as oficinas de percussão musical, canto, pintura e gestão das emoções, todas dinamizadas semanalmente por formadores especializados. Estas atividades representam muito mais do que ocupação dos tempos livres, são momentos de descoberta, expressão e desenvolvimento pessoal num território onde o acesso a este tipo de experiências é, por natureza, mais limitado. No que respeita ao desporto, a autarquia tem apostado numa oferta variada, acessível e regular, capaz de incentivar estilos de vida ativos em diferentes faixas etárias. As caminhadas organizadas mensalmente pelo concelho promovem o contacto com a natureza e a convivência entre a comunidade, enquanto a aula gratuita de ioga, também com periodicidade mensal, coloca à disposição de todos uma prática de bem-estar sem qualquer barreira financeira. Anualmente, o torneio de voleibol de praia anima a época estival e os Jogos Desportivos Escolares reforçam o papel do desporto no percurso educativo dos jovens do concelho. Num plano de maior ambição e projeção externa, o município foi capaz de criar um dos maiores eventos de trail dos Açores: o “Farol Adventure Trail”, que, em 2027, chegará à sua quarta edição. Desenvolvido em parceria com os outros dois concelhos do Grupo Ocidental, este evento transcende a promoção de hábitos saudáveis para se afirmar também como um poderoso instrumento de promoção do destino e da ilha, com especial relevância por decorrer em abril, em plena época baixa, contribuindo assim para a diversificação e distribuição da atividade turística ao longo do ano.

DL: No domínio do empreendedorismo, que apoios ou programas têm sido disponibilizados para estimular a criação de novos negócios e que áreas identifica como prioritárias para investir em Lajes das Flores?
O empreendedorismo será, com toda a certeza, um pilar na estratégia de desenvolvimento do município de Lajes das Flores, onde temos procurado criar condições concretas e acessíveis para todos os que pretendam criar ou desenvolver um negócio no concelho. O principal instrumento de apoio é a Incubadora de Empresas das Lajes, que disponibiliza aos empreendedores não apenas espaço físico de trabalho, mas também um conjunto alargado de serviços de suporte nas áreas do marketing, da contabilidade, da gestão e de outras áreas igualmente sensíveis ao sucesso de qualquer projeto empresarial. Este acompanhamento integrado permite que os novos empresários se concentrem no desenvolvimento do seu negócio, com o apoio técnico necessário a cada etapa do processo.

A par do apoio em serviços, o município disponibiliza também apoio financeiro direto, comparticipando 50% do investimento total realizado pelos empreendedores, até um máximo de seis mil euros. Este instrumento assume particular relevância num território insular onde o acesso a capital e a financiamento tende a ser mais limitado, reduzindo o risco associado à criação de novos negócios e tornando a decisão de empreender mais sustentável. Para aqueles que se encontram ainda numa fase embrionária, com uma ideia, mas sem um projeto estruturado, o município coloca à disposição uma equipa multidisciplinar que acompanha o futuro empreendedor no processo de transformar essa ideia numa realidade empresarial viável. Este apoio permanente e personalizado demonstra o compromisso da autarquia em não deixar nenhum potencial de desenvolvimento por explorar. Lajes das Flores está, assim, preparada para receber e apoiar quem queira investir e construir o seu futuro no concelho – com estrutura, recursos e vontade de crescer em conjunto.

DL: Relativamente ao emprego, quais são hoje os principais desafios do concelho e que ações têm sido implementadas para criar oportunidades de trabalho e qualificar a população local?
O emprego é um dos domínios em que o município de Lajes das Flores tem intervindo de forma mais ativa e consistente, procurando responder aos desafios de um território insular com um mercado de trabalho naturalmente mais limitado. De forma direta, a autarquia tem sido um agente importante na criação de oportunidades de emprego, abrindo vagas em diversas áreas e promovendo estágios profissionais com uma taxa de contratação bastante positiva. Esta intervenção direta tem permitido integrar no mercado de trabalho um número significativo de pessoas, contribuindo para a estabilidade e qualificação da população local. Numa vertente mais indireta, mas igualmente estruturante, o município tem articulado as suas políticas de emprego com os instrumentos de apoio ao empreendedorismo. O apoio financeiro disponibilizado aos empreendedores inclui, como contrapartida, o compromisso de criação de pelo menos um posto de trabalho no concelho, gerando assim um efeito multiplicador que vai além do próprio projeto empresarial. Complementarmente, a criação de espaços comerciais tem atraído novas empresas ao território, que contribuem por sua vez para a geração de mais oportunidades de emprego local. O incentivo à criação de novas microempresas assume também um papel relevante neste contexto, na medida em que cada novo negócio representa, desde logo, uma oportunidade de autoemprego para o seu criador e, progressivamente, a possibilidade de gerar postos de trabalho adicionais à medida que a atividade se consolida. O conjunto destas medidas procura criar uma abordagem integrada ao emprego, que combina a intervenção direta da autarquia com o estímulo a um tecido empresarial local mais dinâmico, diversificado e capaz de criar as suas próprias oportunidades de crescimento.

DL: No setor do turismo, que ações de promoção têm sido levadas a cabo para posicionar Lajes das Flores como destino, e quais são, na sua perspetiva, as principais potencialidades ainda por explorar no concelho?
O turismo ocupa um lugar central na estratégia de desenvolvimento do concelho, não apenas pela sua dimensão própria, mas pelo efeito alavancador que exerce sobre todos os restantes setores da economia local – das pescas à agricultura, passando pelo comércio e pelos serviços. Numa ilha, é impossível dissociar as diferentes atividades económicas entre si, e uma política de turismo bem estruturada e ambiciosa é, inevitavelmente, uma política transversal a todo o território. A promoção do destino tem assentado em três momentos essenciais e complementares. O primeiro é a presença na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, a maior feira de turismo nacional -, onde o município participa em conjunto com Santa Cruz das Flores e o Corvo numa estratégia de promoção conjunta e alinhada, destacando os atributos partilhados pelo Grupo Ocidental e reforçando a identidade do arquipélago como destino de excelência. O segundo momento é o “Farol Adventure Trail”, prova de trail que acontece em abril e que traz mais de quatrocentas pessoas à ilha numa fase em que a atividade turística é ainda moderada. Para além do impacto direto em termos de visitantes, este evento é uma plataforma privilegiada de promoção do que de mais valioso o destino tem a oferecer: uma natureza única e de rara beleza. O terceiro momento é a “Festa do Emigrante”, um dos eventos mais duradouros e reconhecidos dos Açores, que marca a agenda regional e posiciona Lajes das Flores como referência cultural e de animação no arquipélago. Paralelamente a estes momentos de promoção, o município tem procurado manter uma agenda cultural ativa ao longo do ano, consciente de que a diversidade de experiências disponíveis é um fator determinante para prolongar a estadia de quem visita a ilha. Este é, aliás, um dos maiores desafios do setor: aumentar o número de noites por visita, transformando estadias curtas em experiências mais longas e economicamente mais relevantes para o conjunto da economia local. A sazonalidade é outro desafio que tem merecido atenção, tendo o município procurado incentivar a visita fora da época alta, distribuindo o fluxo turístico de forma mais equilibrada ao longo do ano. No que respeita às potencialidades ainda por explorar, o concelho tem margem de crescimento em diversas áreas, embora parte desse desenvolvimento dependa também do investimento privado, que será determinante para criar uma oferta mais diversificada, capaz de atrair diferentes perfis de visitantes e abrir novos mercados. Na minha opinião, a conjugação entre o esforço público de promoção e dinamização e a capacidade de resposta do setor privado será, em última análise, o fator decisivo para consolidar Lajes das Flores como um destino turístico de referência no contexto açoriano e nacional.

“Não poderia investir em fogo-de-artifício sabendo que havia pessoas a passar fome”

Carlos Dias, 45 anos, foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe em outubro passado. Natural da vila, com ligação a vários movimentos culturais, conhece bem a realidade da mesma. E foi sobre essa realidade que acedeu falar ao Diário da Lagoa, convicto de que poderá retribuir o apoio que recebeu

Presidente da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe salienta que é necessário “investir muito” na parte pedagógica e educativa © ACÁCIO MATEUS

DL: O que o fez aceitar o convite para concorrer à presidência da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, como independente apoiado pelo Partido Socialista?
É uma história engraçada. Como é sabido, em 2013, fui o número dois da lista encabeçada pelo atual presidente da Câmara da Ribeira Grande. Fiz o primeiro mandato e ganhei o gosto pela política. Desta vez, fui desafiado por algumas pessoas a liderar um movimento cívico e comecei a perceber o que seria necessário, os custos, etc. Recebi apoio de muitas pessoas, mas tive que parar para pensar porque, para Rabo de Peixe, um movimento cívico com todas as mudanças que acarreta, poderia não ser devidamente identificado/reconhecido pelas pessoas. Por outro lado, um movimento cívico acarreta despesas e não estava em condições de investir dinheiro do próprio bolso. Assim sendo, desisti dessa ideia.
Na interrupção letiva da Páscoa, a Lurdes Alfinete foi à minha casa e sabendo da minha vontade desafiou-me a concorrer como independente com o apoio do PS-Açores. Após ponderação em família, acabei por aceitar.

DL: E não está arrependido…
Não, mas estes primeiros meses foram particularmente difíceis porque levei para casa muitos dos problemas da população. Na primeira semana recebi muitas pessoas aflitas devido a ordens de despejo, famílias com menores a seu cargo…

DL: Mas são ordens de despejo emanadas por quem?
São pessoas que estão a ver os seus contratos de arrendamento terminar e os proprietários não querem renovar os contratos, uns porque querem vender os imóveis, outros porque estão em situações de herdeiros e querem fazer as partilhas, outros ainda pretendem investir em alojamentos locais.

DL: Esta transição de passar a figurar numa lista do PSD para outra independente com o apoio do PS… Como foi para si esta mudança e que feedback recebeu das pessoas que lhe são mais próximas?
No início, nas redes sociais, houve alguns comentários do costume. Mas tanto na primeira situação, como nesta, candidatei-me na qualidade de independente. E quando fui convidado a encabeçar a lista à Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, a única condição que coloquei foi: a lista será totalmente feita por mim. E assim foi: escolhi o número dois, nós os dois escolhemos o número três e assim sucessivamente. Aliás, se prestarem atenção, a maioria das pessoas que aceitou integrar a nossa lista já tinha constado em listas do PSD. Mas são pessoas que se reveem na nossa forma de ser e de estar, nas nossas ideias, e isso é muito importante. Para liderar uma junta de freguesia, mais importante que a questão partidária, é a proximidade com as pessoas.
E a verdade é que eu, na rua, sempre senti o apoio das pessoas. Sou um filho da terra e para além de morar e trabalhar aqui, já fui escuteiro, pertenço aos movimentos da igreja e as pessoas souberam retribuir.

DL: Obviamente que ninguém se candidata para perder, mas acreditava que era possível ganhar?
Quando me candidatei, numa fase muito inicial, o meu discurso foi de contenção. Estava a candidatar-me contra dois adversários: contra Jaime Vieira que estava a sair da junta de freguesia e era o candidato à Câmara e contra a Anália que era a número dois do Jaime Vieira e candidata à presidência da junta de freguesia. Mas à medida que fomos saindo para a rua, senti que as coisas poderiam correr bem.
Somente entre o final da primeira semana de campanha e o início da segunda é que senti que poderia não ganhar porque as pessoas deixaram de nos acompanhar na rua, não via bandeiras do PS na rua, nas janelas, não via os miúdos. Notei um afastamento das pessoas na rua, mas felizmente não foi assim nas urnas.

DL: Qual a explicação para esse afastamento súbito das pessoas?
Havia medo! As pessoas vinham ter comigo e diziam: “estou noutra lista, mas vou votar em ti”. Ou “não posso estar contigo na rua, mas vou votar em ti”. Senti, e não foram poucas, que as pessoas estavam com medo. Mais parecia uma ditadura. Senti muito isso.

DL: Olhando para trás, revendo o percurso de meses até à noite eleitoral, qual foi a sua reação quando soube que tinha ganho as eleições?
No dia das eleições… aquilo é um ambiente horrível nas secções de voto. E sem fugir à questão, gostaria muito de retirar as eleições daquele espaço. Percebo que é próximo das pessoas, mas também é próximo de cafés, de oferta de álcool, e numas eleições com esta proximidade senti alguma tensão. Quando fui levar a minha esposa para integrar as mesas de voto atiraram-me uma pedra ao carro. Depois fui levar a minha mãe a votar e nem saí do carro. Quando fui votar à tarde, fiquei numa zona mais afastada e ouvi comentários a favor, outros contra, mas senti o ambiente muito tenso. Decidi ir embora pensando que estava perdido.
Ao final do dia, quando começaram a sair os resultados, estávamos com uma vantagem de duzentos votos por mesa. E o que era uma tristeza inicial foi-se transformando numa alegria imensa. Fiquei muito feliz, mas à noite, em casa, depois de tudo, veio o peso da responsabilidade.

DL: E que junta de freguesia encontrou no primeiro dia?
Foi caricato… Combinamos vir todos juntos. Quando chegamos já tínhamos oito senhoras à porta a dizer que íamos “oferecer casas”. Isto foi um sinal daquilo que encontrei, ou seja, as pessoas estavam sedentas de uma mudança e, também, de respostas. Respostas a questões que alguém andou a espalhar.
Encontramos uma junta de freguesia com poucos recursos humanos e no presente ainda são menos. Confrontando o executivo cessante o que nos foi explicado foi que as pessoas foram convidadas a ficar, mas a maioria quis regressar à câmara, pois são funcionários camarários que estavam ao serviço da junta de freguesia. Outros, porém, estavam a fazer programas de emprego e também regressaram à câmara.
Tínhamos quatro varredores, um jardineiro e um roçador. Naquela mesma altura, e isto aconteceu, é o que é, foram colocadas seis pessoas ao abrigo de um programa ocupacional. E após o apuramento dos resultados eleitorais, essas mesmas pessoas foram chamadas à câmara e recolocadas noutros locais. Algumas delas vieram fazer força junto de nós para regressarem a Rabo de Peixe e dessas seis, quatro voltaram. Neste momento temos dois varredores, um jardineiro e um roçador.

DL: E administrativos?
No registo do quadro de pessoal a Junta de Freguesia de Rabo de Peixe chegou a ter oito pessoas. Neste momento são três.

DL: Houve algum “mau perder” na base destas mudanças?
Não sei se foi mau perder. Sei que terminamos a passagem de pastas após a hora do expediente e já não havia funcionários ao serviço. Na manhã seguinte fiz questão de voltar à junta e já não encontrei o mesmo número de funcionários. O que sei é que eles dizem que foram chamados de volta à câmara, o presidente diz que voltaram por vontade própria. Foi vingança? Não sei! O que sei é que há histórias diferentes. O que sei é que há doze anos a casa continuou cheia apesar da mudança de executivo. Desta vez não senti isso. Não sei o futuro, mas no dia que sair da junta de certeza que não irei deixá-la como a recebi.

DL: E a nível financeiro, como encontrou a Junta de Freguesia de Rabo de Peixe?
O financiamento funciona por duodécimos, ou seja, as verbas são transferidas mensalmente. No dia 5 de novembro tínhamos cêntimos para combustível e alguns euros para apoio social. As verbas foram chegando e à medida que iam entrando já tinham para onde ir. Também, por esse motivo, optamos por não investir muito nas celebrações de Natal e passagem de ano. O pouco dinheiro que tínhamos foi para apoiar famílias com alimentos.
Tomamos essa decisão porque houve responsáveis de supermercados que nos telefonavam a dizer “tens de apoiar esta família porque veio comprar pescoços de galinha para fazer a ceia de Natal”. Não poderia investir em fogo-de-artifício na passagem de ano sabendo que havia pessoas a passar fome. Sei que não vou acabar com a fome, mas com o pouco dinheiro que tínhamos colocamos algum alimento na mesa de quem precisava.
O orçamento da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe é elevado. São cerca de 800 mil euros. É muito dinheiro. Metade desse valor transita de 2025, na medida em que são verbas de contratos com o governo e a câmara que ainda não foram transferidas na totalidade.
Resumidamente: tínhamos um saldo de 300 mil euros de dívida, mas que correspondem aos valores que falta receber por parte da câmara ou do governo.

DL: A curto/médio prazo quais são as prioridades? Ou seja, o que é que é emergente acudir no imediato e o que pode aguentar mais uns tempos com um penso rápido?
A nossa grande aposta tem sido a limpeza. Só numa semana fizemos trinta e cinco transportes de lixo. Se somarmos a isso os verdes, ultrapassou os quarenta. Com os poucos recursos disponíveis, creio que demos um sinal claro do que pretendemos em termos de limpeza.
O executivo anterior candidatou a junta de freguesia ao programa Eco-Freguesias. E de acordo com o programa, à nossa entrada, estávamos num nível muito baixo e dificilmente conseguiríamos chegar ao nível 10. Não só o alcançamos, como o superamos. Atingimos os objetivos, o que significa que em pouco mais de dois meses fizemos mais do que havia sido feito nos dez anteriores. Mas não basta limpar. É preciso investir muito na parte pedagógica/educativa. Esta será uma das prioridades.
Com o apoio da Câmara da Ribeira Grande e do Governo Regional dos Açores, a habitação é outra das nossas preocupações. A Junta de Freguesia de Rabo de Peixe não tem meios para fazer rigorosamente nada no que concerne à habitação. É triste, mas é mesmo assim. Cabe-nos encaminhar, ser o rosto da população, mas só com o apoio da câmara e do governo é que poderemos apoiar as famílias.
A autarquia tem a medida dos 35 mil euros anunciada em campanha e que espero seja colocada em prática para apoio na aquisição de primeira habitação. A autarquia também pediu que ajudemos a procurar terrenos que se possam lotear, mas sem o PDM aprovado fica difícil qual o terreno a indicar porque não sabemos se terá viabilidade para construção.
Obras urgentes, e para arrancar quanto antes, é a requalificação do coreto, a resolução da questão do passo quaresmal que se arrasta há dez anos, o muro de proteção que não se percebe se está pronto ou não e dar alguma dignidade ao espaço sem esquecer as casas de banho que só pela sua localização já são polémicas porque encontram-se numa zona nobre em frente a igreja e poderiam estar noutro local; mas também por estarem em cima de uma falésia. Se estamos a retirar as moradias da orla costeira devido ao risco que apresenta, que sentido faz construir casas de banho junto à orla costeira? Tenho algumas dificuldades em perceber se aquelas casas de banho estão realmente seguras. Para além disso, aquando das mais recentes chuvadas, foi necessário fechar as casas de banho porque entrava água por tudo o que é lado. Uma construção com apenas dois anos, deficiente, que já sofreu obras de adaptação porque não tem acesso a pessoas com mobilidade reduzida.
Inicialmente, o acesso para as casas de banho de homens e mulheres era o mesmo. Numa comunidade como Rabo de Peixe, que se calhar ainda não está preparada isso, foi necessário alterar o interior para que se criassem acessos exclusivos. Conclusão: é uma obra que não oferece a dignidade que Rabo de Peixe merece.
É nossa vontade dar início ao processo de procura de um local onde se poderá instalar a Casa das Associações, um espaço que dê repostas necessárias ao nível da pernoita de romeiros, intercâmbios culturais entre filarmónicas, escuteiros, etc. E podem perguntar: mas uma vila tão grande não tem casas para arrumar romeiros? A resposta é simples: neste momento não porque as casas estão sobrelotadas, com quatro ou cinco famílias a viver no mesmo espaço.
Depois há o estacionamento que em Rabo de Peixe é o que é. A rua do Rosário é o que se sabe. Os parques estão sempre cheios e os que não enchem é porque não têm videovigilância e ninguém quer ver o seu carro vandalizado. A variante à rua do Rosário talvez seja uma solução, mas isso está nas mãos do governo regional.

Marco Furtado: “o que me move é simples: cuidar”

Em entrevista do Diário da Lagoa, Marco Furtado, presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha, na Ribeira Grande, fala do seu percurso e de como é ser detentor de um cargo público

Marco Furtado tem 46 anos e há oito que é presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha © ACÁCIO MATEUS

DL: Quem é o Marco Furtado?
Sou, antes de tudo, filho da Ribeirinha. Nasci em Ponta Delgada, na freguesia de São José, mas foi apenas o lugar onde vim ao mundo. A minha vida — todas as minhas raízes, brincadeiras e aprendizagens — está na Ribeirinha. Cresci na Rua dos Moinhos, numa rua estreita, sem saída, mas que para mim era o universo inteiro. Hoje vivo noutra rua, mas continuo no mesmo chão. Sou o mesmo Marco, com os pés assentes na terra que me fez homem. Tenho 46 anos e há oito que sou presidente da Junta. O tempo passa depressa, mas a responsabilidade não diminuiu — aumentou. Antes disso, fui um dos fundadores da Associação “Os Ribeirinhos”. Criámos o «Ribeira Fest», mas percebemos que o mais urgente não era a festa: era o silêncio dos que precisavam. A minha vida sempre foi comunitária. Nunca precisei de um cargo para me sentir útil.
Hoje sou Chefe de Serviços, presidente da Junta e da Casa do Povo, vice-presidente da Assembleia da Filarmónica da Ribeirinha do Santíssimo Salvador do Mundo, membro da direção da Associação de Pais da Escola Secundária da Ribeira Grande, vogal da ANAFRE Açores, conselheiro do Conselho de Ilha e participante em vários movimentos cívicos e partidários. Mas isso é apenas o que faço — não o que sou.
Sou filho do Faustino, das Gramas de Cima, e da Cachaça, da Ribeirinha. Cresci numa casa onde o amor se media pelo que se partilhava, não pelo que se tinha. Aos 14 anos já trabalhava na restauração. Nunca me esqueço do dia em que comprei as minhas primeiras Levi’s com o meu esforço. Enquanto outros iam para a praia, eu fazia 12 horas de trabalho. Foi assim que continuei a estudar.
Tinha o sonho de ir para a universidade e ser enfermeiro, mas abdiquei quando o meu pai entrou em reforma por invalidez. A vida ensinou-me que servir é uma vocação, não uma profissão. Trabalhei numa mercearia, depois entrei para o Casanova, onde ainda hoje estou. Subi devagar, mas sempre com dignidade. Trabalhei a servir em casamentos e como barmen que trabalha horas sem fim, aprendi a servir os outros e isto vinha de um modo natural.
Sou tolerante em muito, e firme quando é preciso. E a minha maior profissão? Ser marido e pai de três filhos. Já fui operado à coluna. Já estive quase sem andar. Mas continuo aqui, porque o que me move é simples: cuidar.

DL: Como foi a sua infância?
Foi feliz. Foi pura. Rica em experiências e pobre em excessos. Não trocava nada.
A minha família sempre foi alegre. Fiz parte do coro juvenil, dos “Cadarços”, grupo de teatro, já fiz duas romarias, brincava na rua, fazia asneiras — e recebia umas boas pancadinhas de amor da minha mãe e uns raspanetes bem merecidos do meu pai, verbais, sempre. Ele nunca me tocou. Foram esses momentos que me moldaram.
Amo profundamente o meu pai, que já partiu. Era um homem de princípios, sério, íntegro. E admiro muito a minha mãe e as minhas irmãs — mulheres de força, que até hoje são o meu porto seguro. Fomos tão felizes com tão pouco. Tínhamos sopa, pão, batata com macarrão — e calor humano. A porta da nossa casa estava sempre aberta. Literalmente: só um cortinado separava a rua do corredor. E nunca faltou comida para nós ou para quem entrasse. Era outra época, em que não era preciso trancar portas, porque os corações também estavam abertos. O meu avô paterno, que não sabia ler, dava catequese. Sabia a Bíblia de cor. Às quintas-feiras, íamos às Gramas aprender com ele. A fé e a tradição não eram conceitos — eram vida. O meu avô materno, o Mestre Alfredo “Cachaça”, herdou o apelido da avó, que vendia cachaça… e bebia mais do que vendia. São memórias que me acompanham até hoje.

DL: Qual foi o seu primeiro trabalho?
O primeiro foi com o meu avô, que era retelhador — toda a freguesia o conhecia como Mestre Alfredo Cachaça. Eu era o seu servente, com 12 anos. Ele recebia o dinheiro, dava uma parte à minha mãe e guardava o resto em frascos de café. Nas festas do Santíssimo Salvador do Mundo, abria os frascos e dividia o dinheiro pelos dias da festa. Aquilo era uma alegria que não se explica. Era uma festa dentro da festa.
Depois vieram os restaurantes, os casamentos, os turnos longos. Fui barman no Pixis, servi no Clube de Tiro, servi em casamentos e até festas de divórcio. Aos 18 anos, a vida obrigou-me a crescer depressa: o meu pai adoeceu, reformou-se por invalidez, e eu deixei o sonho da universidade.
Trabalhei na mercearia da Dona Orânia e do João Medeiros — onde aprendi que servir bem é uma arte. Aprendi também a enrolar café em papel com mestria, a lidar com nomes, e a olhar as pessoas nos olhos. Em 1998 entrei para a Casanova, onde continuo. E continuei a trabalhar em festas durante anos, sempre com respeito, esforço e propósito.

DL: Como foi chegar à presidência da Junta de Freguesia?
Foi especial. E foi natural. Já estava na Junta como tesoureiro, a convite do presidente de então. Quando chegou o momento de assumir a liderança, senti que era o caminho certo. Mas não entrei por vaidade. Entrei com alegria, sim, mas com responsabilidade, com consciência, com sentido de missão. Ser presidente não é sentar-se numa cadeira. É arregaçar as mangas. É estar ao serviço. E é isso que tenho feito.

DL: “Está sempre em campanha”. Comente.
Se estar em campanha é ouvir quem precisa, entrar nas casas das pessoas, acompanhar quem sofre, atender chamadas ao domingo, resolver o que consigo e encaminhar o que não depende de mim — então sim, estou sempre em campanha. Mas eu não lhe chamo campanha. Chamo-lhe compromisso. Chamo-lhe presença. Chamo-lhe verdade. A política, para mim, só faz sentido assim. Com alma. Com dedicação. Com amor ao próximo e ao lugar onde vivemos.

DL: Quais as maiores adversidades que enfrentou?
A maior dificuldade é querer fazer e não poder. Faltam meios, faltam leis, falta orçamento. Temos tido o apoio da Câmara Municipal da Ribeira Grande, é verdade, mas é preciso ser persistente, reivindicativo. Às vezes falta tempo. Outras vezes é preciso dizer “não”, mesmo quando custa. O caso do Multibanco é o exemplo mais claro: meses de burocracia, pessoas desesperadas, e nós sem poder resolver de imediato. Outra dor é o vandalismo. Custa ver destruído o que se construiu com sacrifício. E sim, liderar é muitas vezes solitário. Nem todas as decisões agradam mas quando são tomadas com consciência, dorme-se bem.

DL: Como encara a responsabilidade social?
Com naturalidade. Sempre esteve em mim. Desde pequeno aprendi que quem pode, ajuda. Hoje, como presidente, tenho a obrigação (e o privilégio) de continuar esse legado. Trabalho com instituições, com famílias, com a minha equipa. Não por vaidade, mas por dever. Servir também é saber dizer: “agora não posso ajudar mais, agora tem de fazer pela sua vida”. Mas nunca viramos as costas a um problema.

DL: O que ainda falta fazer na Ribeirinha?
Falta muito, e não tenho problema em dizê-lo. Mas há muito trabalho de base feito e projetos preparados: o Porto de Santa Iria, o polidesportivo, redes de água e saneamento, pavimentações, estacionamento, reabilitação da igreja, coreto, zona da ribeira, Caminho das Gramas, reforço do abastecimento de água… Eu fiz um plano para 15 a 20 anos. Nada se faz em quatro, oito ou 12. Mas é nossa obrigação pensar o futuro. Quem governa apenas para o seu mandato não é gestor, é mau político. Se continuar, darei seguimento. Se não, deixo tudo preparado para quem vier. A Ribeirinha não é de quem governa. É de quem vive nela. Um desafio é o combate às toxicodependências já temos as ideias, faltam os meios mas vamos chegar lá, já fazemos muito mas muito com pouco.

DL: O que o move a continuar?
O que me move é simples: ainda tenho mais para dar. Enquanto sentir que sou útil, estarei aqui. Quando deixar de o ser, sairei com dignidade. E move-me também preparar os jovens. Acreditar neles. Dar-lhes responsabilidade. Eu, com 14 anos, já sabia que o dinheiro era pouco, mas o amor era muito. E fui à luta. Competência não se compra, conquista-se. Este será o meu último mandato. Porque ainda acredito na política feita com alma. Porque amo a minha terra. Não amo o nome, amo a ideia de servir, de ajudar, de fazer a diferença. E enquanto puder, enquanto Deus permitir, estarei aqui: pela Ribeirinha, pela minha gente, pela minha missão.

“Temos todas as condições, como já tínhamos antes, para fazer um bom trabalho”

Após a expressiva vitória eleitoral na Lagoa, o presidente socialista destaca o orgulho e o reforço de responsabilidade face ao trabalho desenvolvido. Frederico Sousa assume que o objetivo é avançar com projetos estruturais de longo prazo, como o apoio a pequenos negócios através do “Lagoa Investe” e a criação de um modelo de mobilidade intermunicipal, caso o novo concurso regional de transportes não venha a “expurgar essa necessidade”. O autarca em entrevista ao Diário da Lagoa, sublinha ainda o compromisso com a juventude em áreas como educação, habitação e emprego

Frederico Sousa tem 48 anos e é Engeneiro Cívil de formação © ACÁCIO MATEUS

DL: Os eleitores deram-lhe a razão e o voto de confiança. Como se sente como o candidato que atingiu a melhor votação de sempre do Partido Socialista (PS) na Lagoa?
Primeiro, o orgulho naquilo que foi feito, porque também é um reflexo do percurso até à data. Se não tivesse sido de sucesso, não acredito que os lagoenses dessem o voto de confiança. O reconhecimento por todo o trabalho que foi feito, daí a questão de um voto de confiança renovado e dando um reforço na votação. É sinal de que o intenso trabalho de toda a equipa da Câmara produziu efeitos. Nós queríamos mesmo marcar um ritmo, não em termos estratégicos, mas precisamente de um trabalho distinto, para justificar uma nova energia, uma renovação. Em terceiro lugar, uma nova responsabilidade, e se calhar é essa que pesa mais, não tanto pelos números, pois não se trata de uma competição, mas acima de tudo por ser um facto que nos traz muita responsabilidade para honrar tudo aquilo com que nos comprometemos e que habituamos os lagoenses nos últimos anos.

DL: Esperava uma vitória tão expressiva?
Não estava à espera de uma vitória tão expressiva, confesso que não era relevante para o objectivo, mas nunca escondi que gostava de ter uma maioria confortável para que não fossem bloqueadas as decisões nem em sede de câmara, nem em sede de assembleia. E também, se possível, ter a maioria das freguesias porque, naturalmente, são pessoas em quem temos confiança e uma relação de proximidade, uma visão comum. Portanto, achamos que agora temos todas as condições, como já tínhamos antes, para fazer um bom trabalho, só limitados pela nossa ambição, vontade e capacidade de trabalho. E, claro, pela parte financeira, como é lógico, que não é menos importante.

DL: Em 2021 o PS apresentou cerca de 90 ações previstas para 10 anos. Com este resultado considera que se trata, afinal, de um projeto para mais do que uma década?
Eu diria que os projetos têm de ser vistos a curto, médio e a longo prazo. Se há projetos estruturados como, por exemplo, uma ampliação do Tecnoparque ou um sistema de mobilidade que seja não conjuntural mas estruturante, um projeto de habitação  — e estamos a falar de 200 a 300 habitações —, é natural que quatro anos seja curto. Agora, isso não quer dizer que de quatro em quatro anos não tenha que haver uma renovação e uma adaptação daquelas que são as linhas mestras desse projeto para que seja reavaliado.
Também acredito em ciclos mais curtos e não tenho medo nenhum de dizer isso. Um lagoense quando vota e demonstra o seu apoio, não passa necessariamente um cheque em branco e quer ver resultados, por isso é normal que também se dê uma perspetiva de planeamento estratégico. Às vezes o que falta no país é isto.

DL: A maioria do tecido empresarial na Lagoa é constituído por pequenas empresas. De que forma o “Lagoa Investe” poderá apoiar as pequenas empresas na Lagoa nos próximos tempos?
Esse é um bom exemplo de que nós temos que nos adaptar e renovar. O “Lagoa Investe” é um documento estruturante, já tem alguns anos, foi pensado para alavancar o Tecnoparque, mas entretanto foi evoluindo. Ainda recentemente, no anterior mandato, nós vimos aprovados na reunião de câmara e em discussão pública aquilo que é uma transformação do “Lagoa Investe”, que tinha a necessidade de ter eixos dedicados a pequenos empresários e empreendedores. Nesse sentido, alterámos o programa e agora vai ser possível haver um apoio para a criação de pequenos negócios, pequenas obras e aquisição de equipamentos. Será um apoio complementar àquilo que são os apoios comunitários, que estão muito mais vocacionados e planeados para grandes empreendimentos e investimentos. Portanto, estou convencido que vamos sentir alguma dinâmica nesse apoio.
Claro que temos limitações orçamentais, mas custa-me imenso que alguém que queira ser empreendedor e não o faça porque não tem capacidade financeira. Essa é uma aposta, criar condições não só de atratividade para o concelho como condições de estacionamento para os pequenos negócios e na instalação destes negócios, criar dinâmica e mobilidade. Acima de tudo, temos um pequeno instrumento, à nossa medida, que permite desbloquear aqueles primeiros passos num projeto de empreendedorismo, porque ser empreendedor também custa.

DL: Ao nível da segurança e vigilância, o que é que os lagoenses podem esperar?
Naturalmente, quando se fala de segurança, temos que considerar o reforço da capacidade operacional da própria PSP, que é uma competência nacional, e nisso somos solidários. Há sempre a necessidade, mas a verdade também seja dita, a PSP na Lagoa tem cumprido com os seus deveres e obrigações, não só no que diz respeito à manutenção da segurança e da prevenção rodoviária, mas acima de tudo na investigação criminal. A verdade é que a criminalidade tem baixado em termos percentuais, o que não quer dizer que não haja, pontualmente, problemas de insegurança, como pequenos furtos e violência doméstica, que é comum a todo o território. No caso da Lagoa, temos um índice relativamente mais alto que outros municípios que não são cidades. E eu diria que quanto maior é a cidade, quanto mais cresce, a tendência é que haja um crescimento da criminalidade, mas não de forma proporcional. Relativamente à videovigilância, já iniciamos dois processos formais. Um, na Baía de Santa Cruz, que foi indeferido. E colocámos outro formalmente, há três anos, para o Porto dos Carneiros. Ao fim de dois anos de avaliação, por parte da Comissão Nacional de Proteção de Dados e do Ministério da Administração Interna, também já nos veio o parecer favorável ao indeferimento, mas que ficou suspenso no sentido de, se houver uma alteração das circunstâncias, poder ser retomado. Ou seja, neste momento, qualquer projeto que venha a ser proposto para videovigilância tem passado por esse procedimento de consulta e aprovação. Nós já fizemos dois e não foram aprovados. O que revela que não temos um índice de criminalidade que justifique a videovigilância. Eu diria que é uma perspetiva de copo meio cheio ou copo meio vazio, mas vou encarar como copo meio cheio. Eu acho que é uma boa notícia o facto de ainda não ser possível aprovar sistemas de videovigilância. Mas estamos vigilantes se houver alguma alteração de circunstâncias ou aumento significativo de criminalidade que o justifique.

© ACÁCIO MATEUS

DL: E quanto à proposta da criação de uma Polícia Municipal?
Relativamente à Polícia Municipal, a perspetiva é diferente, não é uma questão de segurança, é uma questão de perceção de segurança e da presença no terreno, porque tem caraterísticas e funções distintas daquela que é a PSP. Portanto, cada vez mais, quando se cresce como cidade e com a introdução de novos elementos de atração e com a dinamização do espaço e comércio local, cada vez mais vai haver viaturas. O turismo e o Alojamento Local também contribuem, assim como a restauração para que haja mais viaturas. E só há três formas de ultrapassar isso. Uma é a disciplina, outra a criação de parques de estacionamentos e, depois, mais meios de mobilidade para limitar o uso do veículo automóvel. Caso contrário, vamos ter sempre um problema de disciplina de trânsito, e as novas dinâmicas, por exemplo, com as trotinetas, motociclos, viaturas de rent-car, estacionamento indevido, viaturas de emergência que precisam de ter vias desimpedidas, tudo isto são desafios que uma cidade vai ter principalmente nos próximos anos. Eu não tenho dúvidas que a disciplina é importante e se nós libertarmos a PSP dessas funções, ou pelo menos ajudarmos e complementarmos nessas funções, melhor. Já em termos de custos, primeiro não há uma urgência, depois tem de ser feita com muita coerência e responsabilidade. Desde que seja feita à nossa medida, com a dimensão útil para o município, parece-me que acaba por ser equilibrado, porque é o nosso objectivo criarmos um projeto que seja sustentável.

DL: A prometida rede de Minibus deverá avançar quando e de que forma?
Eu acho que a ideia foi disruptiva e, acima de tudo, teve um efeito positivo. Foi a primeira vez que um tema mobilizou uma discussão em mais de 80% da população dos Açores em torno de uma temática que não era abordada e que, para mim, parece importante: que é a mobilidade entre Lagoa, Ribeira Grande e Ponta Delgada.
Há um concurso público internacional que está a decorrer relativamente a uma renovação do modelo de transporte de passageiros terrestre em São Miguel, mas que nenhum dos três concelhos conhece. Já pedimos a consulta, pois não conhecemos a frequência e os processos, mas o facto é que esse problema não está resolvido.
Eu acho que, independentemente das cores partidárias, há capacidade de diálogo caso não seja possível resolver essa questão, num curto espaço de tempo, através do novo modelo de transporte de passageiros. Os três municípios têm todas as condições para se sentar, negociar e pensar num modelo alternativo.
Porque o que está aqui em causa é não só a mobilidade dentro dos três concelhos, mas igualmente uma capacidade de redução dos custos para as famílias. Há pessoas que têm um custo, não só com passes sociais, mas acima de tudo com a sua viatura, para ir para um ponto de partida. Podemos minimizar também o impacto do trânsito no próprio centro de Ponta Delgada.
Agora, o modelo pode ser discutido, se é feito através de uma empresa intermunicipal ou não e qual é a frequência, mas isso já são detalhes técnicos que, a avançar, são importantes. A boa notícia seria se realmente o novo modelo de transporte de passageiros viesse expurgar essa necessidade, ficava resolvido a nível regional, mas estamos expectantes. Eu estou sempre disponível para conversar.

DL: O que podem esperar os jovens lagoenses deste executivo?
Um empenho e um compromisso muito sério com o futuro dos jovens. E quando digo jovens, desde os adolescentes aos jovens já com uma família constituída. Desde logo, uma forte presença no âmbito da educação. Nós, se calhar, somos o município que tem uma maior relação com as nossas escolas, seja ao nível básico, integrado e até secundário. Temos uma ótima relação com todos os Conselhos Executivos e apoiamos tudo o que são iniciativas e desafios. Temos projetos disruptivos nessas escolas e depois queremos também fazer parte daquilo que é o futuro desses jovens, seja no ingresso no mercado de trabalho, atraindo novas empresas e novas oportunidades de emprego para que se fixem no concelho, como também criando condições para que possam estudar através do reforço das bolsas de estudante deslocado e de mérito, mas acima de tudo com perspetivas de futuro. E estamos a falar de habitação, mobilidade e apoio social para creches. Ninguém pensa em ter filhos se não tivermos creches e, portanto, a nossa maior responsabilidade é essa. Por outro lado, é indissociável a questão do desporto, queremos afirmar-nos com um município que é amigo do desporto, pois a prática desportiva é essencial. Portanto, educação, habitação, desporto e, acima de tudo, emprego, é o que os jovens podem esperar de nós.

DL: Que presidente deseja ser para os lagoenses em geral e que legado pretende deixar?
Eu diria que gostava que olhassem para mim, daqui a uns anos, da mesma forma que os lagoenses olham, por exemplo, para um presidente como o Eng. Luís Martins Mota.
Acima de tudo alguém que deixou uma marca, perspetivou o futuro e que foi um visionário. É o maior legado que posso deixar. Neste momento, mais do que falar, temos que honrar o voto de confiança expressivo dos lagoenses para que sintam que o seu tempo e confiança neste executivo valeram a pena. Acima de tudo que, mesmo cometendo erros, porque toda a gente comete erros, que as virtudes possam ser muito superiores aos erros e às fragilidades.

Pedro Paulo Câmara: O gosto pela leitura e a paixão pela escrita

Professor, investigador e escritor, Pedro Paulo Câmara é movido pelo gosto da leitura e pela paixão pela escrita. Natural da freguesia dos Ginetes, em São Miguel, e nascido a 9 de agosto de 1980, concilia a vida profissional com uma rotina movida por uma energia inesgotável

Pedro Paulo Câmara tem se dedicado a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues © CLIFE BOTELHO

Com partida dos Ginetes, Pedro Paulo Câmara veio ao nosso encontro na cidade da Lagoa. A disponibilidade reflete o seu compromisso com a preservação do património cultural, onde se dedica a resgatar o legado de autores esquecidos, como Armando Côrtes-Rodrigues. O escritor argumenta que é um trabalho para “fazer justiça” à história e para garantir que a memória seja preservada.
Ao Diário da Lagoa (DL) começa por revelar que o seu interesse pela leitura e escrita começou na infância, inspirado em revistas que a sua avó recebia em casa, como a Reader’s Digest, e, principalmente, num baú de papéis antigos que um dia encontrou no granel da família. Aprofundou o gosto pela escrita na adolescência e na universidade, mas só publicou o seu primeiro livro aos 31 anos, após um período que considerou essencial para o seu amadurecimento. “Não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo.”, afirma.
Através de sua tese de mestrado, Pedro Paulo Câmara dedicou-se a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues, escritor do século XX que, segundo ele, estava “garantidamente escondido”. A investigação resultou na publicação da obra Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues.
A paixão é o que impulsiona a sua intensa rotina e, ao nosso jornal, confessa que dorme poucas horas, pois o seu cérebro está sempre a criar novas ideias. Costuma organizar a cabeça durante a sua viagem de 30 quilómetros para o trabalho e no regresso a casa, que considera “altamente terapêutica”.
Influenciado pela sua dedicação ao escutismo, confessa: “Não tenho muitos medos e gosto de novos desafios”.

DL: Como se apresenta quando está fora da ilha?
Quando me perguntam de onde é que eu venho, eu digo sempre que venho dos Açores, antes de dizer de Portugal. Eu sinto que isso alimenta a magia e a curiosidade das pessoas. Sou um açoriano de corpo e alma, em permanente construção. Tenho dentro de mim a tranquilidade da lagoa das Sete Cidades e a energia da Ferraria.

DL: Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos. O amadurecimento é crucial para um escritor?
Eu acho que não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo. No meu caso, precisei de um período de amadurecimento e ainda preciso. Sou um autor em permanente construção. Se me perguntar se o meu primeiro livro é o meu melhor, claro que não é, mas foi o mais importante. Foi o que me deu a coragem de enfrentar o público e um possível “não” de um editor.

DL: Uma parte do seu trabalho centra-se na investigação de autores açorianos. Porquê?
É uma forma de fazer justiça. A única forma de sobreviver à morte é mantermo-nos vivos na memória dos outros. Autores como Armando Côrtes-Rodrigues estiveram, de facto, desaparecidos. O meu trabalho é trazer esse legado para a modernidade. Eu quis tirar a sua produção literária do obscurantismo e revelá-la ao público, como fiz com Violante Cysneiros: Obra reunida, ou, como ainda recentemente aconteceu com Armando Côrtes-Rodrigues, Obra Dramática Dispersa, que reúne textos dramáticos inéditos do autor.

DL: Já sabemos que tem uma rotina intensa. De onde vem toda essa energia?
A massa que produz tudo isso é a paixão. É a única possível. Sou profundamente apaixonado por tudo aquilo que eu faço. A única forma de eu conseguir descansar é anotando as ideias que surgem à noite, para que não fiquem a remoer na cabeça.

DL: Hoje em dia estamos ligados às novas tecnologias. De que forma afeta aquilo que é? Eu acho que tudo deve ser colocado em perspetiva. Na década de 80 e 90, o facto de não ter tecnologias não me afetou em nada. Hoje, para dar aulas, produzir livros, estar em contacto com o mundo e fazer investigação, o computador e o telemóvel são vitais. Uso-os como um aliado. Divulgo o meu trabalho através das redes sociais, que também são um bom instrumento. Tento não ser dependente, mas nem sempre é exequível. Muitas vezes, estamos de forma irrefletida a fazer scroll ou perdidos numa quantidade de reels. Lembro-me do meu primeiro telemóvel e do meu primeiro computador, mas, também, da minha máquina de escrever. A verdade é que só tive uma máquina de escrever quando fui para a universidade e o computador no segundo ano. Nos meus primeiros trabalhos do secundário usávamos decalques com papel vegetal. Atualmente, para os trabalhos do ensino básico, já se usam três mil estratégias distintas, desde um PowerPoint a um Prezi. Muitas coisas mudaram, mas gostei de ter vivido naquela altura sem estes acessos todos. Fez-me desenvolver competências importantes.

DL: E isso reflete-se na sua escrita, por exemplo?
Sim, sem margem para dúvidas. A minha escrita reflete a minha forma de ver o mundo.

DL: Escreve com caneta ou com teclado?
Prefiro escrever com caneta, num caderno, quando é prosa ou poesia. Para investigação, com muitas obras em PDF e bibliografia aberta, escrevo no teclado.

DL: Como vê a relação dos jovens com a leitura hoje em dia?
Uma grande parte dos meus alunos tem uma quase antipatia natural pela leitura e leem, apenas, as obras a que estão obrigados e que o Programa apresenta. Eu acredito que a responsabilidade de incentivar a leitura não é só da escola, mas da família. Muitas vezes, um aluno abandona a leitura porque o livro obrigatório não lhe interessa e ainda não descobriu o seu género ou o autor que o faça apaixonar pela leitura.

DL: Enquanto houver leitores há esperança? Qual a sua mensagem para quem se preocupa com a cultura?
Sim, “enquanto houver leitores, há esperança”. Os autores estão a fazer por isso e eu sou um deles.

Olivéria Santos: “Temos que insistir e trabalhar para o bem da população”

Candidata pelo Chega à Câmara da Lagoa não poupa críticas ao que considera o “abandono” do concelho. Em entrevista ao Diário da Lagoa assegura querer devolver o orgulho aos lagoenses

Olivéria Santos nasceu a 7 de maio de 1976 e é natural da Vila de Água © CLIFE BOTELHO

DL: Na entrevista que nos deu em 2024 referiu que “a Lagoa está abandonada”. Continua a pensar da mesma forma?
Sim, continuo. Eu acho que a Lagoa foi esquecida pelo Poder Local. Um concelho tão grande, no meio da ilha e com tanto potencial, poderia ser mais projetado, mais dinâmico, apoiar mais o tecido empresarial local, revitalizar-se, criar eventos-chamariz, eventos-âncora que atraiam as pessoas à Lagoa. Onde está o investimento na Lagoa nos últimos anos? Não vejo nada feito, apenas pequenas intervenções. Falta aquela obra grande que mostre que o investimento foi feito. Há pequenas iniciativas, outras que são promessas antigas, agora, com a proximidade das eleições, começam a tapar buracos e a promover inaugurações só para ficar bonito. Lembro-me, por exemplo, do Auditório Ferreira da Silva, que fazia parte de inúmeros programas eleitorais e só há dois anos foi inaugurado, e com tantas falhas. Estão a realizar eventos, mas onde está o essencial? É preciso incluir os lagoenses no seu concelho, torná-los participativos e colaborativos. Os lagoenses são muito vaidosos do que lhes pertence e, quando é bem feito, apreciam. Falta que os lagoenses voltem a ter orgulho naquilo que é seu.

DL: Então o que é que falta efetivamente nas cinco freguesias da Lagoa?
Por exemplo, falta um Mercado Agrícola. Temos imensos agricultores e muitos empresários que poderiam participar nesse mercado, e há essa vontade. Há anos que se fala nisso.
É preciso dinamizar os jovens, as nossas filarmónicas locais, criar escolas de música e apoiar os ranchos folclóricos, pois a cultura é muito importante. A cultura é sempre tratada como um parente pobre e as verbas acabam por ser apenas migalhas. Esquecem-se que, ao incentivar a cultura, estamos, se calhar, resolvendo e prevenindo muitos outros problemas no futuro, como o da droga.
Se investirmos na cultura e atrairmos esses jovens, isso vai gerar envolvimento, porque envolve também as famílias e as coletividades — como as filarmónicas, os ranchos folclóricos e os grupos de jovens.
Precisamos que haja investimento nas coletividades, nas escolas e nos ATL’s. Seria muito mais eficaz, por exemplo, investir em programas como a “Escola Segura” e em ações de formação do que, por exemplo, investir na criação de uma cooperação de bombeiros. A Lagoa está adormecida.

DL: Não concorda com a opção de um posto avançado de Bombeiros na Lagoa ou com a criação de um quartel?
A Lagoa está, no máximo, a 10 minutos de Ponta Delgada e com boa acessibilidade. Talvez o que se justifique seja um reforço já que atendem tanto Ponta Delgada quanto a Lagoa. Seria mais eficaz reforçar o quartel de Ponta Delgada com mais meios, tanto humanos quanto de equipamentos. A Lagoa já tem um compromisso e atualmente já lhes presta apoio. Creio que deveríamos partir daí e não criar algo do zero. Um quartel de bombeiros na Lagoa é uma ideia megalómana e completamente sem sentido. Temos um quartel de bombeiros em Ponta Delgada, então deveríamos focar em apoiá-lo de forma mais robusta e melhorá-lo, em vez de ter dois que, no final, podem não funcionar bem.

DL: Foram anunciadas novas habitações para a Lagoa.
Eu já não acredito nessas promessas feitas em período pré-eleitoral. A questão das casas é um caso gritante, pois o concelho tem um problema de falta de habitação, mas isso é transversal a outros concelhos.
Foram anunciados 25 milhões de euros para a Lagoa. Onde está esse dinheiro? Estava orçamentado e foi anunciado pela então presidente. Falta muita transparência, não basta apenas anunciar, pois são fundos do PRR. Temos de perceber realmente se vão ficar prontas no próximo ano. E para quem são essas casas? São para a classe média, que é quem efetivamente precisa? É irónico que o discurso do atual presidente tenha sido de que as casas são para os jovens da classe média. Ora, isso é o discurso do Chega. Só acordaram agora? O Chega já defende isso há muito tempo, pois quem essencialmente precisa de casas é a classe média. Esta nunca pediu casas de graça, mas sim, casas que pudessem pagar, com opção de compra.
O Estado não pode continuar a sustentar as pessoas, as pessoas têm de dar o seu contributo. Se querem uma casa, têm de trabalhar por ela.

DL: O Tecnoparque e a Fábrica do Álcool são temas de debate, agora também a Frente Marítima. É sinal de que o concelho está a crescer?
São investimentos que poderiam fazer a diferença na Lagoa, mas falta o grande investimento, o tal verdadeiro chamariz. Há quantos anos se fala nessa bendita fábrica? E continua lá. Quando a campanha começar, vamos voltar a falar na Fábrica e no Tecnoparque? Ações concretas, colocar as mãos à obra, é o que precisamos.
Acabam as eleições, ganha-se o poder e tudo fica arrumado na gaveta até que, quatro anos depois, volta-se a falar do mesmo. Não pode ser, não se pode desistir dos projetos. Temos que insistir e trabalhar para o bem da população, senão não faz sentido.

DL: Quer deixar uma mensagem aos lagoenses?
Peço que confiem em mim. Estou aqui, não para fazer promessas, mas porque abracei este projeto e vesti a camisola. Sou da Lagoa, fui a vida toda e adoro a Lagoa. Estou aqui para trabalhar com todos e para todos, sem excluir ninguém, e peço a vossa ajuda.
Salvar a Lagoa, limpá-la, transformá-la, colocá-la no mapa e revitalizá-la. Quero que as pessoas falem da Lagoa que a visitem para conhecer as suas belezas naturais, os restaurantes, as pessoas e as tradições. Mas para isso é preciso um trabalho que não foi feito.
Portanto, espero que as pessoas me deem essa oportunidade. Se, daqui a quatro anos, não gostarem, haverá novas eleições e poderão escolher outra opção. Mas estou aqui e assumo este compromisso com os lagoenses, e é para isso que vou trabalhar, desde que confiem em mim. Estou preparadíssima.

Coordenador do JPP Açores demonstra uma preocupação a nível regional

Carlos Augusto Furtado, Coordenador Regional do Juntos Pelo Povo (JPP) Açores, fala sobre algumas problemáticas da Lagoa e dos Açores em geral, numa entrevista ao Diário da Lagoa

Carlos Furtado tem 54 anos e é natural da freguesia de Nossa Senhora do Rosário © DL

Tem 54 anos, nasceu, cresceu e construiu vida no concelho da Lagoa, onde até hoje habita. Atualmente, Carlos Augusto Furtado é empresário, desenhador técnico de construção civil e já exerce funções na política há vários anos. Foi membro da Assembleia de Freguesia de Nossa Senhora do Rosário e assumiu funções como vereador da Câmara Municipal de Lagoa entre 2009 e 2013 e entre 2017 e 2020. Fez parte do PSD, função que deixa quando se torna o primeiro presidente do Chega Açores, cargo que desempenhou durante 17 meses, entre 2020 e 2021. Na mesma altura, foi eleito deputado da Assembleia Regional e é no final deste mandado que aceita o convite para integrar o lançamento do Juntos Pelo Povo (JPP) nos Açores, cuja integração considera ser um “começar de novo” na sua vida. O lagoense não quis adiantar se é candidato à Câmara Municipal de Lagoa nas próximas autárquicas.

DL: Quais têm sido as preocupações principais do JPP para a Lagoa?
Na minha passagem pela Assembleia Regional aprendi muita coisa que, por força do facto de ter nascido, sido criado, estudado, casado, vivido e trabalhado sempre na Lagoa, sempre tive o meu foco neste concelho. Mas, quando assumi a condição de deputado regional, percebi que há mais vida para além da Lagoa e que há dificuldades noutras geografias dos Açores que também merecem ser atendidas. Quando aceitei integrar este projeto do lançamento dos primeiros passos do JPP nos Açores, tive de começar a pensar numa dimensão de território regional e, neste momento, identifico que há problemas na Lagoa para resolver, como há problemas em todos os Açores. Há ilhas tão mais desprotegidas na nossa região do que o território da Lagoa. Há ilhas que não têm um hospital e há ilhas onde arranjar um médico é mais difícil, porque não têm um hospital da CUF nem mesmo se pagarem.  Nas Flores e no Corvo, corremos o risco de ficarmos presos lá durante dias, porque o tempo às vezes não ajuda. Em ilhas como a Graciosa, um dos problemas é uma população que está a envelhecer a passos largos, sem perspetivas futuras e os pais não têm argumentos para convencer os seus filhos a lá ficarem. A Lagoa preocupa-me muito e sempre me preocupou, mas agora, enquanto Coordenador Regional do JPP, estou a pensar nos Açores em termos dos meus compromissos e obrigações com os cidadãos numa dimensão que não pode ser só a geografia da Lagoa.

DL: O que considera que ainda falta resolver nas cinco freguesias do concelho?
Muita coisa. A habitação é dos principais problemas que a Lagoa enfrenta porque, pela geografia do concelho, há muitas pessoas que querem fixar residência na cidade de Lagoa. E, neste momento, o problema dos locais é receber os “imigrantes” que querem viver aqui, neste caso, os de Vila Franca, do Nordeste e outros que perceberam a utilidade e a mais-valia que é estar aqui num cruzamento dos seis concelhos mais importantes da região, visto que a Lagoa fica a uma distância quase igual de Vila Franca, da Ribeira Grande e de Ponta Delgada. A dimensão desses três concelhos, a somar à da Lagoa, tem uma importância no contexto regional muito grande e as pessoas percebem isso. Consequentemente, os terrenos começam a ficar muito caros e as soluções de habitação não têm surgido de forma nenhuma à proporção daquilo que são as solicitações. Vejo com boa expectativa o facto de o Plano Diretor Municipal estar em fase de revisão e de quase concretização. Isto é muito importante porque vai disponibilizar outros espaços de construção no concelho, mas materializar isso exige muita atenção, muita perspicácia e muito foco. A Lagoa dos 15 mil habitantes fixos vai sofrer dinâmicas nos próximos tempos. 

DL: O Tecnoparque continua a crescer. Para onde e como se pode desenvolver a cidade naquela zona?
O Tecnoparque continua a crescer, sim, mas quero dizer que a construção dos edifícios de habitação que está lá a ser feita deve alguma coisa a mim. Eu era Vereador da Câmara Municipal de Lagoa pela segunda vez, quando alertei para a necessidade de voltar a promover aquele espaço, enquanto espaço habitacional, numa altura em que a construção estava a voltar a ter dinâmicas após a crise de 2008, quando a construção civil fraquejou bastante. Em 2017 tomei posse e percebi que era a altura certa para colocar os lotes a vender. Cheguei também a referir que aquele era o sítio certo para fazer um hotel, e hoje já temos lá um. Hoje digo isso com orgulho e acho que o concelho vai ter de crescer noutras partes, também.

DL: Concorda com a opção de um posto avançado na Lagoa ou defende a criação de uma associação de bombeiros? Porquê?
É muito fácil pensar com o coração, mas explicar o coração numa folha de Excel é muito difícil. Um quartel de bombeiros na Lagoa não pode ser encarado com o princípio de “todos os concelhos têm um quartel de bombeiros, logo a Lagoa também tem que ter um”. É bonito falar disto desta forma, mas convenhamos, o custo de uma ambulância apenas, incluindo os dois bombeiros que têm de estar dentro dela 24 horas por dia, sem encargos sociais, só neste aspecto, estamos a falar de cerca de 170 mil euros por ano, para não falar de outras despesas e imprevistos. Ou seja, eu sou defensor de um quartel ou de uma delegação de bombeiros na Lagoa, sim, desde que haja enquadramento financeiro para tal.

DL: Considera que se fez progressos no que diz respeito ao futuro da Fábrica do Álcool com a auscultação pública?
Tenho receio que não. O espaço da Fábrica do Álcool tem de ser visto com mais pragmatismo. Não podemos entrar em utopias, porque não há dinheiro para elas, pela razão que lhe apresentei na pergunta anterior.

DL: Quer deixar uma mensagem aos lagoenses?
Quero. A mensagem que quero deixar é que esta terra precisa da disponibilidade de todos. Ninguém está desculpado em não participar, seja nas coletividades de índole cultural, desportivo ou religioso, seja na ação política. Os tempos que vêm convocam todos a participar.  Essa é a convicção que tenho e é nesse espírito que faço política. Eu tinha o gosto que as pessoas pensassem mais desta forma, porque o problema dos outros, não é só dos outros, também nos toca um pouco a nós e isto deve ser pensado assim.

Empresária quer levar cultura organizacional da “felicidade” aos Açores

Sónia Crisóstomo é empresária e líder da Ponte 360 © DIREITOS RESERVADOS

Durante décadas, ambientes corporativos em diferentes partes do mundo estiveram marcados por frases que desmotivavam e desencorajavam a inovação, como a clássica e limitadora “você não é pago para pensar”. Hoje, num cenário empresarial cada vez mais global e exigente, surge uma nova consciência: a de que o bem-estar e a felicidade no trabalho não são apenas conceitos inspiradores, mas fatores determinantes para a produtividade, o engajamento e o sucesso das organizações.

Sónia Crisóstomo, empresária e líder da Ponte 360, é uma das vozes mais influentes nesse novo paradigma. Especialista em Felicidade Organizacional, Inteligência Emocional e Gestão Humanizada, esta profissional tem vindo a traçar um percurso internacional sólido, com destaque para a sua atuação em Portugal e no Brasil. Tem hoje nos planos desembarcar nos Açores, onde pretende auxiliar na construção de lideranças conscientes e estratégias de bem-estar corporativo adaptadas à realidade local. Com formação em Psicologia Positiva pelo Wholebeing Institute e Coach em Happiness and Well-being pela World Happiness Academy, Sónia traz consigo uma abordagem prática e culturalmente sensível, resultado da sua vivência em ambos os lados do Atlântico.

“A minha visão de futuro para os Açores é ambiciosa e profundamente comprometida com a valorização humana e o desenvolvimento sustentável”, disse Sónia.

Nesta entrevista, abordamos o seu percurso, os maiores desafios das empresas na construção de ambientes de trabalho felizes e a ponte afetiva e profissional que tem construído entre Brasil, Portugal e os Açores, região pela qual manifesta um profundo compromisso com o desenvolvimento humano e sustentável. Através de escuta ativa, formação emocional e uma liderança mais empática, esta profissional defende que é possível transformar o ambiente laboral num espaço de crescimento, conexão e realização.

DL: A felicidade no trabalho é hoje reconhecida como um pilar estratégico para o sucesso das organizações. De que forma a sua experiência internacional moldou a sua abordagem nesta área?
A minha vivência profissional permitiu-me acompanhar, ao longo dos anos, uma verdadeira revolução silenciosa nas relações de trabalho. Iniciei a minha carreira numa época em que o modelo de liderança predominante era autoritário, verticalizado e baseado no medo. Era o tempo dos “chefes”, e não dos líderes. Era comum ouvir frases como “você não é pago para pensar” — uma mentalidade que sufocava a criatividade, desestimulava a autonomia e limitava o desenvolvimento humano dentro das empresas. Essa mentalidade era reflexo de uma cultura mais ampla, presente inclusive nos lares e nas escolas, onde o diálogo era escasso e a hierarquia rígida. Felizmente, com o tempo, compreendi que liderar era muito mais sobre inspirar e escutar do que sobre comandar. Passei a adotar um estilo de gestão centrado nas pessoas, e os resultados começaram a aparecer naturalmente: equipas mais engajadas, entregas com mais qualidade e equipas coesas, movidas pelo sentimento de pertença e pela valorização de suas singularidades. A minha trajetória passou por diferentes regiões do Brasil, cada uma com a sua própria cultura e forma de trabalhar — do calor humano do Norte ao pragmatismo do Sul. Essa diversidade deu-me uma base rica para lidar com diferentes perfis, expetativas e modos de pensar. Mais tarde, a minha atuação em empresas israelenses trouxe novos aprendizados: a convivência com culturas mais secas, pragmáticas e diretas exigiu de mim uma ampliação do olhar e da escuta. Mesmo em ambientes mais austeros, sempre procurei preservar espaços de leveza — como o hábito de tomar um café juntos antes do expediente ou almoçar em grupo. Pequenos gestos, mas com grande impacto no clima organizacional. Com isso, compreendi que a felicidade no trabalho não é fruto de grandes eventos ou discursos motivacionais, mas da construção quotidiana de vínculos verdadeiros, respeito mútuo e equilíbrio entre vida pessoal e profissional — independentemente do país ou cultura em que se esteja.

DL: O que a motivou a apostar na expansão do seu trabalho para o mercado dos Açores? Há alguma característica especial nas empresas açorianas que a tenha atraído?
O meu trabalho como mentora em wellbeing e felicidade parte de uma convicção profunda: todos nós temos o direito de viver com plenitude, sentido e bem-estar. No entanto, nem sempre sabemos como alcançar esse estado, principalmente quando estamos presos a crenças culturais ou geracionais que nos limitam. Ao chegar a Portugal continental, percebi que havia um grande espaço para esse tipo de trabalho, não apenas nas grandes cidades, mas especialmente em regiões como os Açores, onde a beleza natural, a conexão comunitária e o estilo de vida mais equilibrado oferecem uma base propícia para iniciativas voltadas à felicidade. Vejo nos Açores não apenas um território de oportunidades, mas também um solo fértil para a construção de projetos transformadores — tanto para empresas quanto para pessoas. Há algo muito autêntico nas relações açorianas: um sentimento de proximidade, pertença e respeito pelas tradições, que pode — e deve — ser um diferencial na construção de ambientes de trabalho saudáveis. Ao mesmo tempo, é importante trazer ferramentas modernas, baseadas na psicologia positiva, na neurociência e nas melhores práticas internacionais de gestão de pessoas, para que as empresas locais possam prosperar sem perder sua essência. A minha motivação é essa: unir o que há de mais avançado no campo da felicidade corporativa com a riqueza cultural e humana dos Açores, criando experiências verdadeiramente transformadoras.

DL: Trabalhou em vários países e contextos culturais distintos. Quais foram as principais lições que trouxe dessas experiências para aplicar em Portugal?
A convivência com diferentes culturas ensinou-me, antes de tudo, a importância da humildade e da escuta ativa. Ao chegar num novo país, não se pode agir como quem carrega respostas prontas ou fórmulas universais. É preciso reconhecer que cada lugar possui a sua própria história, os seus códigos, as suas dores e as suas riquezas. Portanto, o primeiro passo é observar, aprender e respeitar. Gosto de dizer que se trata de um “rapport cultural” — uma conexão que se estabelece quando priorizamos o entendimento do outro antes mesmo de expressar nossas próprias ideias. Essa escuta sensível não se restringe às interações interpessoais, mas se estende às estruturas legais, fiscais, administrativas e sobretudo às práticas de gestão de pessoas. O que funciona em um contexto pode ser ineficaz — ou até invasivo — em outro. Um bom exemplo disso está na forma de comunicar. O brasileiro é naturalmente expansivo, caloroso e informal. Costuma abraçar, tocar, chamar pelo nome com facilidade, como se estivesse diante de um amigo de infância. O português, por outro lado, tende a ser mais formal, contido e respeitoso do espaço do outro. Essa diferença pode gerar ruídos se não for compreendida com empatia. O que às vezes é percebido como frieza ou distância, é na verdade uma forma distinta — e legítima — de se relacionar. A lição que trago é clara: para criar conexões verdadeiras, é preciso abandonar o julgamento e praticar a curiosidade genuína. Quando isso acontece, somos capazes de construir pontes e não muros — e é exatamente essa Ponte que venho construindo entre o Brasil e Portugal, com especial carinho pelos Açores.

DL: Que estratégias específicas pretende implementar nos Açores para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e felizes?
Antes de propor qualquer solução, é essencial compreender que o bem-estar nas organizações não pode ser tratado com uma abordagem padronizada. Cada empresa possui a sua identidade, a sua cultura interna, o seu histórico e os seus desafios únicos. Por isso, o primeiro passo da minha atuação é sempre o diagnóstico — um mapeamento profundo das condições psicossociais que afetam o ambiente de trabalho. Nos Açores, pretendo implementar uma jornada personalizada, com etapas bem definidas: iniciaremos com escuta ativa e diagnóstico organizacional, seguido de sensibilização das lideranças, formações voltadas à inteligência emocional, comunicação não-violenta, cultura do feedback, empatia, gestão do stress e saúde mental. Outro ponto central será a promoção de políticas de flexibilidade, liberdade com responsabilidade e rituais de pertença. Não se trata apenas de oferecer benefícios pontuais, mas de transformar a cultura organizacional em um ecossistema que favoreça o florescimento humano. Também acredito fortemente na valorização da liderança como alavanca de transformação. Líderes preparados emocionalmente, com repertório e sensibilidade, são capazes de multiplicar o bem-estar nas suas equipas. Nos Açores, quero ajudar empresas a formar essas lideranças conscientes, empáticas e alinhadas com os valores do século XXI.

DL: A nível internacional, pode partilhar algum exemplo de boas práticas de promoção da felicidade laboral que gostaria de replicar nos Açores?
Sim, há muitas boas práticas internacionais que podem ser adaptadas com sensibilidade à realidade açoriana. Um exemplo que considero muito pertinente é a abordagem ao modelo híbrido de trabalho no cenário pós-pandemia. Empresas no exterior que melhor se adaptaram ao retorno gradual ao escritório investiram fortemente na formação de lideranças para lidar com a complexidade das novas dinâmicas — seja no trabalho remoto, híbrido ou presencial. Perceberam que o desafio não era apenas logístico, mas relacional e emocional: como manter o vínculo, o senso de propósito e a coesão da equipe sem a presença física constante? A resposta passou por treinar gestores em escuta ativa, empatia digital, gestão por confiança e não por controlo, e, sobretudo, clareza de comunicação. Outro exemplo vem das empresas nórdicas, que priorizam jornadas mais curtas, pausas programadas, rituais de reconhecimento e momentos de silêncio — isso mesmo, o silêncio como prática de autorregulação e foco. São estratégias simples, mas profundamente eficazes para melhorar o clima, reduzir o stresse e aumentar a produtividade. Acredito que muitas dessas práticas podem ser integradas nos Açores, respeitando a cultura local e fortalecendo aquilo que a região já tem de melhor: a sua conexão humana, a sua tranquilidade e o seu senso de comunidade.

DL: De acordo com a sua experiência, quais são os maiores obstáculos que as empresas enfrentam na construção de ambientes felizes? Como se podem ultrapassar?
O maior obstáculo, sem dúvida, é a falta de entendimento estratégico sobre o que é a felicidade no trabalho e o seu impacto direto nos resultados das empresas. Ainda existe uma visão reducionista de que investir em bem-estar é uma “gentileza corporativa”, um luxo dispensável ou uma despesa sem retorno mensurável. Isso é um equívoco. Estudos robustos na área da psicologia positiva, neurociência e gestão de pessoas já comprovaram que ambientes emocionalmente saudáveis reduzem significativamente o absenteísmo, aumentam a produtividade, melhoram a retenção de talentos e impactam positivamente nos indicadores financeiros. Outro obstáculo está na comunicação interna deficiente. Muitas empresas tentam implementar programas de bem-estar sem antes preparar suas lideranças para sustentar essas iniciativas com coerência e consistência. Sem líderes preparados, qualquer ação se torna pontual e pouco eficaz. Nos últimos anos, especialmente após a pandemia da covid-19, notei também uma crescente dificuldade de adaptação por parte das equipas. O isolamento social deixou marcas profundas: lacunas nas habilidades sociais, inseguranças emocionais, confusão sobre hierarquias e resistência a mudanças. Isso exige das empresas uma nova abordagem — mais humana, acolhedora e paciente. A solução está na educação corporativa continuada, na escuta real das equipes e na construção de uma cultura onde o bem-estar não seja um projeto isolado, mas parte do DNA da organização.

DL: Acha que o conceito de felicidade no trabalho é compreendido da mesma forma nos Açores, em Portugal continental e nos países onde já trabalhou?
Cada contexto cultural traz uma lente diferente para o conceito de felicidade no trabalho. Nos Açores, percebo uma particularidade encantadora: há um forte senso de comunidade, uma convivência mais próxima entre as pessoas e uma valorização natural do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal — algo que, em grandes centros urbanos, precisa ser constantemente lembrado e treinado. Enquanto que, em países como Israel ou nos grandes centros do Brasil, a felicidade no trabalho muitas vezes é associada a reconhecimento profissional, autonomia e crescimento rápido, nos Açores vejo que a busca por qualidade de vida, segurança emocional e bem-estar familiar ocupa um lugar central. Essa diferença de perspetiva é uma oportunidade maravilhosa. Porque significa que os Açores já possuem, culturalmente, uma base que favorece a implantação de políticas de felicidade organizacional. O que falta, em muitos casos, é apenas dar nome a isso, criar indicadores, estruturar processos e capacitar lideranças para sustentar essa cultura de forma intencional e estratégica.

DL: Que impacto espera ter nos Açores nos próximos anos e quais são os seus planos futuros para o desenvolvimento desta área na região?
A minha visão de futuro para os Açores é ambiciosa e profundamente comprometida com a valorização humana e o desenvolvimento sustentável. Quero contribuir para que os Açores sejam reconhecidos não apenas por sua beleza natural — que é extraordinária —, mas também por sua excelência em qualidade de vida no trabalho e inovação em bem-estar corporativo. Acredito que os Açores têm potencial para se tornarem um modelo europeu de gestão humanizada, atraindo não apenas turistas, mas também investidores, empreendedores e talentos interessados em viver e trabalhar em um ambiente que favoreça o florescimento humano. Para isso, por meio da Ponte 360, empresa que lidero, estou a desenvolver programas de mentoria para empresas, formações em liderança positiva, projetos de intercâmbio empresarial entre Brasil e Açores e apoio à abertura de negócios na região. Junto a parceiros locais, oferecemos suporte jurídico, fiscal e de gestão para empresários brasileiros e de outras nacionalidades que desejam se estabelecer nos Açores — não apenas como um passo estratégico de internacionalização, mas como um reencontro com uma forma mais humana e feliz de viver e empreender. Mais do que trazer conhecimento, desejo plantar sementes. E acredito que os Açores estão prontos para florescer.