
Anne Ribeiro tem 54 anos e nasceu em França. Fez mestrado em Administração Escolar no Porto e está nos Açores há quase três décadas. Regressou ao arquipélago há cerca de 20 anos para estudar o fenómeno do bullying e leciona há 15 anos na Escola Secundária da Lagoa tendo-se dedicado ao ensino do Português e Francês. Há quase duas décadas dedica-se ao desenvolvimento pessoal e ao coaching para adolescentes e jovens adultos. E é isso que a apaixona.
NC: Como é que surgiu a ideia de criar a disciplina de literacia emocional?
Surgiu sobretudo da minha experiência enquanto professora e diretora de turma. Comecei a verificar que os alunos já traziam vários desafios emocionais quando vinham para a escola e, muitas vezes, não conseguiam render em termos escolares porque as emoções não estavam assentes. Pensei: se a escola ensina Matemática e Inglês, vamos ensinar competências socioemocionais para ajudá-los a lidar com o dia a dia. No 7.º ano vão conhecer-se a si próprios; no 8.º, construir relações saudáveis; e no 9.º, começar a orientar o seu percurso de vida.
NC: Em que consiste esta disciplina?
No fundo, vai dar-lhes ferramentas para a vida. Eles vão aprender a conhecer-se, identificar gatilhos e valores, e descobrir que não há emoções boas ou más — todas têm a sua função. Se não tivéssemos medo, atravessávamos a estrada sem olhar. As aulas serão totalmente práticas, com trabalho individual e em grupo, preparando-os para a assertividade, empatia, gestão de conflitos e regulação emocional. É ensinar a saber estar consigo próprio, a vencer a procrastinação e a promover o bem-estar mental. Muitos acham que têm problemas graves, quando simplesmente não têm consciência das ferramentas que já possuem.
NC: As emoções são essenciais à nossa vida?
Completamente, aliás, sem emoções, não seríamos capazes de viver. A alegria é importante, mas a tristeza também é. O que é mau é ficar dias bloqueado na tristeza sem perceber a sua causa, que muitas vezes está ligada a perdas ou a mudanças necessárias. Pretende-se que sejam resilientes de forma muito prática, aprendendo a levar a vida de forma mais leve e feliz.
NC: A parte emocional dos jovens está pouco desenvolvida?
Muito pouco. O 7.º ano coincide com a pré-adolescência, uma fase de transição e procura de identidade. Há muita falta de autoestima e uma tendência para se compararem com o que veem nas redes sociais. Digo-lhes muitas vezes: não podem comparar os vossos bastidores com o palco dos outros. A adolescência é uma montanha-russa emocional e é vital aprenderem a dar nome ao que sentem — por exemplo, saber diferenciar se estão tristes ou frustrados.
NC: Essa descrença dos jovens vem de onde? De casa?
Os próprios adultos muitas vezes não conhecem as suas emoções e os pais fazem o melhor que podem. Na adolescência, o jovem afasta-se dos pais por necessidade de afirmação e pertença a um grupo. Além disso, o cérebro do adolescente ainda não tem o córtex pré-frontal totalmente desenvolvido, o que limita a noção de consequências. Também é preciso compreender que hoje enfrentam desafios que não existiam no passado, como a exposição às redes sociais ou a incerteza trazida pela Inteligência Artificial. Já não há carreiras para a vida inteira e eles precisam, acima de tudo, de flexibilidade.
NC: As competências socioemocionais são fundamentais para o sucesso? São fundamentais para o sucesso escolar, profissional e pessoal. Estudos em mais de 50 países mostram que alunos com formação socioemocional obtêm melhores notas. Se tentarmos ensinar um aluno que está tenso ou frustrado, ele não absorve o conhecimento. Preparar o terreno emocional melhora o ambiente escolar, reduz o bullying e previne problemas de saúde mental, agindo antes que os problemas surjam.
NC: Como é que se vai estruturar a disciplina?
A disciplina vai estruturar-se ao longo dos três anos do 3.º ciclo. É opcional, para não sobrecarregar os alunos, com uma sessão semanal de 45 minutos. Será numa sala diferente, com tapetes, pufes e almofadas no chão. No 7.º ano, o aluno é o Explorador (conhecer-se a si próprio); no 8.º ano, o Construtor de Pontes (relacionar-se com os outros); e no 9.º ano, o Navegador (orientar escolhas e tomar decisões de futuro). É uma disciplina sem testes; a avaliação é contínua e formativa, focada na evolução prática dos alunos.
NC: Quantos inscritos tem neste momento?
Neste momento tenho 35 alunos inscritos na Secundária da Lagoa, o que dará para organizar três ou quatro grupos de trabalho para este ano letivo. Fiquei muito satisfeita por ver que a apresentação inicial mexeu com eles.
NC: O que espera desta nova disciplina?
O que eu espero desta nova disciplina é, sobretudo, apoiar os jovens. Apoiar os jovens e, sobretudo, mostrar-lhes que é bom sonhar. Mas um sonho que só fica no papel é um desejo só. E então, para sonharmos, precisamos também de ter um plano. E eu quero ajudá-los também a construir esse plano. Como é que tu te vês daqui a cinco anos? É um exercício também muito forte que iremos fazer, é lógico. E, no fundo, é mostrar-lhes que a vida não é um mar de rosas, mas, simplesmente, temos que saber navegar nela. E está tudo bem se algo não está bem. Porque nós não somos robôs.

Os problemas de manutenção nas infraestruturas escolares da Região Autónoma dos Açores voltaram a estar no centro das atenções após uma visita do Grupo Parlamentar do Chega à Escola Secundária da Lagoa, na ilha de São Miguel. Segundo a força política em nota de imprensa enviada a 25 de agosto, a falta de intervenções continuadas ao longo dos anos tem vindo a degradar os edifícios escolares açorianos, obrigando os estabelecimentos a custear reparações urgentes com os seus próprios orçamentos.
Durante a deslocação ao estabelecimento de ensino lagoense, a delegação parlamentar assinalou a existência de infiltrações visíveis em salas de aula e no ginásio, cujos arranjos pontuais dependem da dotação financeira da própria escola. Sobre a situação, a deputada Olivéria Santos declarou que “o problema foi que durante anos se construíram escolas, não se pensou na manutenção e hoje estamos a pagar a fatura”, acusando as anteriores governações socialistas de falta de planeamento e apontando que a atual coligação enfrenta limitações orçamentais para responder às necessidades de conservação.
Apesar dos constrangimentos no edifício, a Escola Secundária da Lagoa prepara o arranque do próximo ano letivo com 730 alunos inscritos e com o quadro de professores e assistentes operacionais preenchido, sem contudo ter recebido reforços do contingente de 108 funcionários recentemente anunciado pelo Governo regional. A deputada frisou que o arranque deverá decorrer com tranquilidade, desde que não se registem ausências por doença.
A este propósito, a parlamentar relembrou a resposta do executivo regional a um requerimento do partido, que aponta a educação como o setor público com maior taxa de baixas médicas. Sublinhando que nem todas as ausências são indevidas, Olivéria Santos defendeu que “é uma situação que precisa de ser revista, mais bem fiscalizada, até para proteger quem está realmente doente”, advogando um reforço do controlo à semelhança do que acontece no setor privado para evitar abusos no sistema.

Pelo colorido átrio da Escola Secundária da Lagoa, na ilha de São Miguel, estão espalhadas várias estruturas tridimensionais, ou seja, impressoras 3D. Como o próprio nomes indica, imprimem objectos a três dimensões. As impressoras são silenciosas mas o barulho das vozes dos alunos abafa qualquer outro ruído.
David Rosa é o pai da impressão 3D na Secundária da Lagoa. Frase dita por colegas. Mas afinal, como começou este “bichinho”? “Foi no dia em que uma peça de um frigorífico se avariou e eles pediram um montão de dinheiro para a peça completa quando era só uma pecinha de plástico pequenina. E depois eu tinha um amigo que tinha uma impressora 3D, perguntei se era possível imprimir e fiquei completamente fascinado com a possibilidade de encontrar na internet a pecinha, de imprimir e poupei imenso dinheiro. Aquele dinheiro que era da peça do frigorífico, usei-o para comprar uma impressora 3D”, conta o docente de matemática ao Diário da Lagoa (DL).
Ou seja, é possível imprimir praticamente tudo? “É e não é, tem limitações. Plástico é plástico, plástico não dura tanto. Mas não há problema, como a impressora é minha eu posso imprimir quanto eu já quiser. Eu posso imprimir no plástico que é vendido mas eu evito porque é um plástico que vai durar para sempre no planeta. A gente evita o ABS. A gente usa o PLA”, explica David Rosa.
O docente destaca a importância deste tipo de atividades para os alunos: “quando tu consegues fazer um desenho onde metes matemática, ângulos, senos e cossenos, e tens aquele desenho feito no computador, e tens na tua mão, depois de imprimir, é o maior orgulho de uma pessoa. É que muitas vezes a gente pega a matemática, a gente faz os cálculos, a gente desenha a peça, e fica lá. Mas a seguir, mandamos imprimir, e temos a nossa mão”. E isso mesmo mostra-nos um grupo de alunos maioritariamente do 10º ano. “Aqui nós temos alguns dos constituintes de um projeto do ano passado chamado CanSat. Esta atividade consistia em elaborar um micro satélite do tamanho de uma lata de refrigerante e então depois transmitimos dados de pressão e temperatura por esta antena com a ajuda da estação de base. Finalmente tinha de aterrar em segurança no solo com a ajuda de um paraquedas”, explica ao aluno Gonçalo Martins.
Sofia Linhares, também aluna do 10º ano da mesma escola, diz que “toda a equipa participou um pouco em tudo porque a nossa equipa era muito unida. Ajudamos na construção da antena, na parte da eletrónica, na estação base”.

“ Eles aqui constroem. No meio disso tudo, além de os motivar a fazer as tarefas que eu quero, eu ainda ganho o pensamento computacional. Porque isso é a primeira parte para ensinar modelação”, conta Paula Silva, professora de Físico-Química enquanto nos mostra os mais variados objectos expostos na sua banca. “ Eu desafiei os miúdos porque não, a modelarem, criarem e imprimirem. E cá está, essa é a minha molécula de metano. O facto dos miúdos também terem contato com o objeto, aprendem e apreendem mais facilmente. Uma coisa é desenhar em 2D, outra coisa é eles perceberem como é a molécula em 3D”, exemplifica a docente mostrando o objeto criado.
“Podemos olhar aqui à volta, todos estão ligados à impressão 3D. E quando digo todos, começando pelos professores inicialmente para dar formação e depois passando para os alunos. Alunos que não só são de todos os ciclos, do secundário, do regular, mas também temos aqui muito trabalho feito pelo ensino especial. É um trabalho colaborativo em que temos vários professores que adquiriram as capacidades de usar a impressão 3D e agora aplicam em diversos cenários educativos”, explica o docente João Freitas, coordenador deste programa Erasmus.
“Nós temos aqui trabalhos feitos em barro pelos meninos, mas muitos desses trabalhos que estão aqui foram utilizados com moldes que foram feitos na impressora 3D aqui da escola”, diz Marta Brum. Para a professora “é uma forma deles socializarem e mostrarem também à comunidade aquilo que fazem. Eles vão desenvolvendo algumas competências, muitas competências aqui connosco nesse tipo de trabalhos. São meninos que não conseguem ler nem escrever, não falam, praticamente, e a gente vai tentar desenvolver atividades com eles, outras capacidades”.
A impressão 3D mostra assim que pode ser inclusiva e de fácil acesso a quem quiser aprender esta arte. “O único limite é a imaginação porque temos que imaginar que à nossa volta há todo um conjunto de objetos que antes tinham que ser comprados e neste momento nós podemos produzir na escola, inclusivamente, certos aparelhos, certas partes, componentes, quando se partem, em vez de a gente adquirir e se calhar pagar um valor bastante grande por eles, eles podem ser produzidos na escola”, defende João Freitas.
“Conseguimos produzir objetos de uma dimensão significativa. O conceito é, se eu consigo produzir pequeno, consigo produzir grande. Aliás, produzir grande é mais fácil do que produzir pequeno”, considera o docente.
E há pessoas que podem imprimir sem perceber matemática? “Sim. É possível fazer um download na internet de um objeto já feito e só tem que perceber, mete o filamento e manda imprimir. A maior parte dos meus colegas que agora falam comigo que são de impressão 3D não são de matemática, são de todas as áreas, de História, para imprimir bustos, Educação Visual, para imprimir objetos que dêem imagem de 3D, em inglês eu posso imprimir o Shakespeare e outros”, exemplifica David Rosa. No mundo da impressão 3D o céu parece mesmo ser o limite. O céu e a imaginação.

O Clube de Astronomia, Geocaching e Multimédia da Escola Secundária de Lagoa promoveu uma visita de estudo ao trilho da “Rota da Água”, localizado na Janela do Inferno, ontem, 5 de junho.
Participaram 22 alunos, de três turmas do 10º ano, dos cursos Profij (turmas: G, H e I), que foram acompanhados pelos professores Ângela Coroado, Eduarda Moniz, Luis Machado, Manuel Resendes e Mário Afonso.
De acordo com Luís Filipe Machado, coordenador do clube, em declarações ao Diário da Lagoa (DL), o objetivo da atividade passou por levar os jovens a conhecer o trilho. Os participantes fizeram também uma atividade de geocaching, conta o coordenador, bem como fazer a manutenção das caches de Geocaching do projeto “Lagoa Geotour”.
Luís Filipe Machado explica que o clube tem por hábito realizar uma visita de estudo todos os anos, no terreno, no final do ano letivo. De acordo com o professor, os alunos gostam e aderem a este tipo de atividades.