
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Por opção própria, ponderada e pensada, vou sair da Lagoa, minha terra, para ir trabalhar e viver noutra zona do país, já a partir de agosto, o que implicará, suponho, um afastamento inevitável.
A decisão de não ficar, de ir, de procurar outros horizontes, de alargar horizontes profissionais e geográficos, surge bem no meio de um contexto de particular relevância – o mundo está a mudar de forma perigosa, sem dúvida, e novos desafios são exigidos a cada ser humano e, no fundo, a cada profissional.
Dediquei, posso dizê-lo, grande parte da minha vida até hoje a divulgar, a partilhar as gentes, os contextos e a história desta terra, que agora me vê partir, sempre num espírito de profunda humildade e de superação constante – exemplos são os meus livros e contributos para a historiografia local. O meu mais recente contributo, para além da já publicada Trilogia «Filhos e Servos», e de um mapeamento de lagoenses notáveis, é o Livro de Ouro do Poder Local Democrático.
Foi na Lagoa que me fiz poesia – e que, na poesia, me tornei poeta.
Foi ainda na Lagoa que ganhei a minha primeira namorada; foi na Lagoa que aprendi a jogar à bola e a andar de bicicleta, a esfolar os joelhos no chão, bem me lembro, entre a Rua Augusto Manuel de Freitas e a Rua Eduardo Gago Machado de Faria e Maia, sempre com o incentivo e o «puxão» do meu Avô António.
Foi na Lagoa, entre memórias boas e más, que me formei, primeiro como cidadão, depois como estudante de mérito na Secundária: na Escola Básica Integrada de Lagoa, sou do tempo da educadora do pré-escolar «São», a primeira professora que tive, aquela que se pronuncia apenas com uma sílaba – «São» – chegando-se, depois, ao primeiro ano, entre medos e ansiedades e ataques de pânico diversos, onde tive a gentil professora Rosa, depois a competente professora Marisa e, por fim, a humana e empática professora Ana Margarida Rocha. Não me posso esquecer do Professor de Educação Física na EBI de Lagoa – o notável professor Gilberto.
Na primária, embora sejam ténues e vagas as memórias, ganhei os meus primeiros melhores amigos: o Rodrigo Correia foi um deles, entre outros; e, no fundo, foi na Primária que convivi com os meus três sempre presentes amigos imaginários até ao seu desaparecimento súbito.
A gratidão é a memória do coração.
Do ensino preparatório, lembro-me, na Escola do Fischer, a saudosa e mulher de rigor e de princípios, a competente e muito humana professora de Matemática, e minha antiga vizinha e Diretora de Turma, Leopoldina Trindade.
Lembro-me de outros tantos docentes que muito prezo: entre o professor Silveira, ao ilustre professor Vítor Simas, de Educação Física, na Escola Secundária, à professora Beatriz, de Português, na Secundária também, lembro ainda a professora Lúcia Ventura – de Matemática Aplicada às Ciências Sociais.
Tive imensos bons professores, competentes professores e educadores, e sou-lhes grato pela pessoa que sou, pelo ser humano, formado, que sou – eu, hoje, também sou professor, educador, ou gostaria, nesse sentido, de ser um – um como vós todos.
Na Universidade dos Açores, durante a Licenciatura, cruzei-me com mentes absolutamente excêntricas e extraordinárias: o Doutor Eduardo Jorge Moreira da Silva, de Introdução ao Estudo da Cultura, entre outros tantos, foi um dos que, para o bem e para o mal, mais me marcou – citando, neste caso, docentes como Maria do Céu Fraga ou Leonor Sampaio Silva, entre outros.
Da Lagoa, levo também amizades, entre outros amores e desamores.
Levo o meu grande amigo João Vítor Ponte, lagoense, organizador de eventos por excelência, e competente e formado comunicador; levo, no coração, a minha amiga Cátia, bem como outros tantos amigos – levo, sem dúvida alguma, o Clife Botelho, ex-diretor do jornal local, e o Diário da Lagoa, jornal local; levo o Norberto Silveira e, mais do que isso, levo a paciência que tantos e tão poucos tiveram para comigo: ao senhor José Carlos Almeida, que sempre que me vê cumprimenta, ao senhor Lauriano Teixeira, ao senhor Fernando Jorge, aos amigos e amigas, aos jovens e jovens com quem me cruzei; às associações locais que fundei e dirigi, e onde conheci imensas pessoas. O meu muito obrigado a todos eles e a todas elas por tanto.
Foi também na Lagoa que aprendi a conduzir e onde tirei a carta de condução – e, a isso, devo muito às lições de condução do Senhor Jaime.
Levo as marchas de Santo António, em particular os «Amigos do Rosário», e, no fundo, levo as pessoas que me salvaram de um poço bem fundo – como é exemplo o Padre Nuno Maiato, que, numa altura de absoluta escuridão, fez-se Luz em mim e no meu Caminho.
Com uma saudade imensa, mesmo ainda que não tenha partido, levo pessoas, gentes, levo olhares, levo corações. Levo, acima de tudo, memórias boas e boas memórias. De coração cheio, e com a gratidão a saltitar cá dentro, digo, a todos, a quem muito devo, muito obrigado.

Entre os dias 7 e 14 de abril, o jornalista e escritor luso-brasileiro Ígor Lopes vai estar presente no arquipélago açoriano para apresentar a sua mais recente obra. Trata-se da segunda edição, revista e ampliada, de: “Somos Açores – Um Arquipélago Vivo pelas Ações das Casas dos Açores no Brasil”, que será lançado em três cenários distintos: Corvo, Flores e Ponta Delgada. Escrito no formato livro-reportagem, o livro oferece uma visão única sobre como as ilhas dos Açores são retratadas e mantidas vivas além-mar, com especial destaque para o papel das Casas dos Açores em vários Estados do Brasil, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Maranhão, Bahia, São Paulo, Espírito Santo e Santa Catarina. A novidade desta edição é a inclusão das informações, após entrevistas, da Casa dos Açores de Minas Gerais, recentemente criada.
Este projeto literário foi apoiado pelo Governo Regional dos Açores, através da Direção Regional das Comunidades, e editado pela Amazon.
“Somos Açores – Um Arquipélago Vivo pelas Ações das Casas dos Açores no Brasil”, segunda edição, revista e ampliada, conta com José Andrade, diretor Regional das Comunidades, e Adélio Amaro, escritor e responsável pela BibliRuralis, como prefacistas. Também José Manuel Bolieiro, presidente do governo regional dos Açores, participa com uma mensagem aos açordescendentes. Daniel Evangelho Gonçalves, historiador, assina o posfácio, por sua vez, a jornalista Paula Machado, da RDP Internacional, é autora de um texto sobre o escritor luso-brasileiro.
Ao longo de 138 páginas estão entrevistas aos presidentes das Casas dos Açores no Brasil, num período entre 2022 e 2026, com o intuito de revelar os contornos que levaram à criação dessas entidades açorianas no maior país da América do Sul. É também examinado o importante trabalho dessas instituições que, há décadas, preservam e promovem a cultura açoriana no Brasil, fortalecendo os laços históricos e culturais entre o arquipélago e a nação irmã de Portugal. Ao ler este livro, mergulhamos na rica história dessas casas, explorando as suas ações e contribuições para fortalecer os laços culturais entre os açorianos e os seus descendentes em solo brasileiro.
“A ideia é que seja um livro vivo, dinâmico, que ganhe novas páginas sempre que o movimento associativo açoriano no Brasil se desenvolve e crie raízes. Por outro lado, mantemos uma memória da criação de cada entidade, com os seus contornos, desafios e ações”, explicou Ígor Lopes
A apresentação de “Somos Açores – Um Arquipélago Vivo pelas Ações das Casas dos Açores no Brasil”, segundo edição revista e ampliada, estará integrada no âmbito do IV Fórum das Migrações 2026, organizado pelo Governo Açoriano.
Por desejo do autor, esta nova edição será apresentada nas ilhas do Corvo e das Flores, ambas pertencentes ao Grupo Ocidental do arquipélago, caracterizando-se pelo seu isolamento, beleza natural, paisagens vulcânicas exuberantes e uma forte ligação ao oceano. Enquanto o Corvo é a menor e mais isolada, marcada pela simplicidade, as Flores destacam-se pela abundância de água e vegetação.
“Por essas razões, decidi levar a visão dos brasileiros e açordescendentes às duas ilhas. Estou feliz por poder, primeiro, conhecer essas duas comunidades e, depois, levar cultura e um pouco de luso-brasilidade, com sabor a Açores, aos corvinos e florenses”, sublinhou Ígor Lopes.
A agenda está organizada da seguinte maneira:
08/04 – Corvo – Salão Nobre da Câmara Municipal do Corvo – 18h30 – Apresentação: Dr. José Andrade, Diretor Regional das Comunidades – Governo dos Açores;
09/04 – Flores – Salão Nobre da Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores – 18h30 – Apresentação: Dr. José Andrade, Diretor Regional das Comunidades – Governo dos Açores;
13/04 – Ponta Delgada – Livraria Letras Lavadas – 18h – Apresentação: Dra. Andrea Moniz DeSouza – Presidente da Associação dos Emigrantes Açorianos (AEA).
A primeira edição deste livro passou por diversas ilhas açorianas e pelo Brasil. Esta nova edição teve um pré-lançamento junto da comunidade açoriana e açordescendente no Uruguai e na Argentina, nos últimos dias.
Segundo o autor, “ao escrever “Somos Açores”, senti-me com uma grande responsabilidade de dar voz à resiliência da cultura açoriana longe do seu território de origem”.
“As Casas dos Açores no Brasil são guardiãs de uma identidade coletiva que sobrevive ao tempo e à distância. Espero que este livro inspire um novo olhar sobre a importância dessa preservação cultural. “Somos Açores” faz o caminho inverso de “Açores em Cores”. Este último, lançado em diversas cidades, procurou mostrar o arquipélago para o mundo, com foco também nos lusodescendentes. Agora, “Somos Açores” cruza o oceano saindo do Brasil para desembarcar nos Açores com boas novas. Sim, a açorianidade está viva em outras muitas paragens”, afirmou Ígor Lopes.

O município do Nordeste promoveu um evento cultural de comemoração dos cinquenta anos de carreira literária do escritor João de Melo e de lançamento de uma obra editada pela autarquia e da autoria de Mafalda Vicente. Sob o título “As paisagens não existem sozinhas”, inspirado numa frase do livro “Açores: o segredo das ilhas”, do escritor João de Melo, foram dois dias dedicados à literatura, ao território e à paisagem.
Para a celebração das bodas de ouro da carreira literária do escritor João de Melo, natural do Nordeste, freguesia da Achadinha, vários convidados partilharam as suas experiências de trabalho baseadas na obra do autor, havendo ainda uma apresentação focada nos livros que compõem a vasta carreira literária do escritor.
Teresa Viveiros foi uma das convidadas com a apresentação do seu projeto “A mala pedagógica: João de Melo, de menino a escritor”, inspirado na história de vida de João de Melo, assim como Bárbara Mesquita, que foi ao Nordeste exprimir como as palavras de João de Melo a tocaram e ajudaram a desenvolver a sua tese de doutoramento sobre as paisagens da vinha da ilha de Santa Maria.
Zeca Medeiros, que em 2002 adaptou para televisão o romance “Gente Feliz Com Lágrimas”, retratando o drama de uma família açoriana marcada pela emigração e pelas feridas do passado, e de Urbano Bettencourt, amigo de longa data de João de Melo, com uma apresentação sobre os cinquenta anos de carreira literária do escritor João de Melo, também marcaram presença.
O evento cultural prosseguiu no sábado, com a apresentação do livro editado pela Câmara do Nordeste e da autoria de Mafalda Vicente, “Cronologias do Nordeste, Abordagem histórica e cronológica à evolução territorial do concelho”.
O vice-presidente da Câmara do Nordeste, Marco Mourão, destacou o valor da obra de Mafalda Vicente para a bibliografia do concelho do Nordeste e salientou o empenho e o brio que a autora, arquiteta na autarquia há vários anos, depositou neste livro e no trabalho que executa no município.
O escritor João de Melo, autor do prefácio, fez a apresentação da obra, e vários outros convidados integraram um debate, nesta mesma sessão, sobre “Paisagem, território e identidade: obstáculos e desafios da história local”.
Fizeram parte do painel, Nuno Costa, presidente da secção regional da Ordem dos Arquitetos, João Pedro Regalado, professor da Geografia na EBS do Nordeste, o escritor João de Melo, Mafalda Vicente, arquiteta na Câmara do Nordeste, Bárbara Mesquita, investigadora em Geografia Humana, e Rui monteiro, arquiteto paisagista.

Com partida dos Ginetes, Pedro Paulo Câmara veio ao nosso encontro na cidade da Lagoa. A disponibilidade reflete o seu compromisso com a preservação do património cultural, onde se dedica a resgatar o legado de autores esquecidos, como Armando Côrtes-Rodrigues. O escritor argumenta que é um trabalho para “fazer justiça” à história e para garantir que a memória seja preservada.
Ao Diário da Lagoa (DL) começa por revelar que o seu interesse pela leitura e escrita começou na infância, inspirado em revistas que a sua avó recebia em casa, como a Reader’s Digest, e, principalmente, num baú de papéis antigos que um dia encontrou no granel da família. Aprofundou o gosto pela escrita na adolescência e na universidade, mas só publicou o seu primeiro livro aos 31 anos, após um período que considerou essencial para o seu amadurecimento. “Não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo.”, afirma.
Através de sua tese de mestrado, Pedro Paulo Câmara dedicou-se a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues, escritor do século XX que, segundo ele, estava “garantidamente escondido”. A investigação resultou na publicação da obra Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues.
A paixão é o que impulsiona a sua intensa rotina e, ao nosso jornal, confessa que dorme poucas horas, pois o seu cérebro está sempre a criar novas ideias. Costuma organizar a cabeça durante a sua viagem de 30 quilómetros para o trabalho e no regresso a casa, que considera “altamente terapêutica”.
Influenciado pela sua dedicação ao escutismo, confessa: “Não tenho muitos medos e gosto de novos desafios”.
DL: Como se apresenta quando está fora da ilha?
Quando me perguntam de onde é que eu venho, eu digo sempre que venho dos Açores, antes de dizer de Portugal. Eu sinto que isso alimenta a magia e a curiosidade das pessoas. Sou um açoriano de corpo e alma, em permanente construção. Tenho dentro de mim a tranquilidade da lagoa das Sete Cidades e a energia da Ferraria.
DL: Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos. O amadurecimento é crucial para um escritor?
Eu acho que não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo. No meu caso, precisei de um período de amadurecimento e ainda preciso. Sou um autor em permanente construção. Se me perguntar se o meu primeiro livro é o meu melhor, claro que não é, mas foi o mais importante. Foi o que me deu a coragem de enfrentar o público e um possível “não” de um editor.
DL: Uma parte do seu trabalho centra-se na investigação de autores açorianos. Porquê?
É uma forma de fazer justiça. A única forma de sobreviver à morte é mantermo-nos vivos na memória dos outros. Autores como Armando Côrtes-Rodrigues estiveram, de facto, desaparecidos. O meu trabalho é trazer esse legado para a modernidade. Eu quis tirar a sua produção literária do obscurantismo e revelá-la ao público, como fiz com Violante Cysneiros: Obra reunida, ou, como ainda recentemente aconteceu com Armando Côrtes-Rodrigues, Obra Dramática Dispersa, que reúne textos dramáticos inéditos do autor.
DL: Já sabemos que tem uma rotina intensa. De onde vem toda essa energia?
A massa que produz tudo isso é a paixão. É a única possível. Sou profundamente apaixonado por tudo aquilo que eu faço. A única forma de eu conseguir descansar é anotando as ideias que surgem à noite, para que não fiquem a remoer na cabeça.
DL: Hoje em dia estamos ligados às novas tecnologias. De que forma afeta aquilo que é? Eu acho que tudo deve ser colocado em perspetiva. Na década de 80 e 90, o facto de não ter tecnologias não me afetou em nada. Hoje, para dar aulas, produzir livros, estar em contacto com o mundo e fazer investigação, o computador e o telemóvel são vitais. Uso-os como um aliado. Divulgo o meu trabalho através das redes sociais, que também são um bom instrumento. Tento não ser dependente, mas nem sempre é exequível. Muitas vezes, estamos de forma irrefletida a fazer scroll ou perdidos numa quantidade de reels. Lembro-me do meu primeiro telemóvel e do meu primeiro computador, mas, também, da minha máquina de escrever. A verdade é que só tive uma máquina de escrever quando fui para a universidade e o computador no segundo ano. Nos meus primeiros trabalhos do secundário usávamos decalques com papel vegetal. Atualmente, para os trabalhos do ensino básico, já se usam três mil estratégias distintas, desde um PowerPoint a um Prezi. Muitas coisas mudaram, mas gostei de ter vivido naquela altura sem estes acessos todos. Fez-me desenvolver competências importantes.
DL: E isso reflete-se na sua escrita, por exemplo?
Sim, sem margem para dúvidas. A minha escrita reflete a minha forma de ver o mundo.
DL: Escreve com caneta ou com teclado?
Prefiro escrever com caneta, num caderno, quando é prosa ou poesia. Para investigação, com muitas obras em PDF e bibliografia aberta, escrevo no teclado.
DL: Como vê a relação dos jovens com a leitura hoje em dia?
Uma grande parte dos meus alunos tem uma quase antipatia natural pela leitura e leem, apenas, as obras a que estão obrigados e que o Programa apresenta. Eu acredito que a responsabilidade de incentivar a leitura não é só da escola, mas da família. Muitas vezes, um aluno abandona a leitura porque o livro obrigatório não lhe interessa e ainda não descobriu o seu género ou o autor que o faça apaixonar pela leitura.
DL: Enquanto houver leitores há esperança? Qual a sua mensagem para quem se preocupa com a cultura?
Sim, “enquanto houver leitores, há esperança”. Os autores estão a fazer por isso e eu sou um deles.

«O meu amigo Henrique Levy é um camoniano, um dos melhores poetas e romancistas da nossa atualidade, um editor exímio, que tem viabilizado a existência e a continuidade, com um rigoroso critério de seleção, à publicação de uma poesia de qualidade. Estuda imenso, pois de outra forma não é possível escrever bem. É educadíssimo, utópico, objetor de consciência. Seria incapaz de pegar numa arma. Um irmão na minha vida. Temos uma cumplicidade imensa que até no silêncio comunica.»
ÂNGELA DE ALMEIDA
DL: É um camoniano. De onde vem a paixão por Camões?
Camões, para mim, é uma pessoa de família. É um poeta que faz parte do meu quotidiano. Não há nenhum dia em que, antes de adormecer, não leia, como uma oração, um soneto de Camões. É alguém com quem convivo diariamente. Muitas vezes, dou por mim a ter de gerir pequenos dramas interiores e questiono-me: Que resposta daria Camões a uma situação análoga? Depois, adapto o pensamento do poeta à nossa época, e geralmente encontro uma via ponderada para a resolução de situações que a vida, de quem pensa e se põe em causa, lhe vai exigindo. A poesia de Luís de Camões apresenta uma identificação tão grande com a Humanidade, que facilmente, nela nos revemos. Camões foi um homem extraordinário, cheio de valores e um grande estudioso. Um homem muito interessado pela cultura clássica mas, essencialmente, um humanista. É isso que eu procuro ser: um humanista, e como Camões, um homem do mundo.
Luís de Camões é, sem dúvida, o melhor poeta da literatura ocidental. A sua poesia é sempre atual, por isso é que nos revemos naquela leitura onde nos encontramos e procuramos ensinamentos para as nossas vidas. É para isso que viemos ao mundo: para chegarmos de uma maneira e partirmos muito melhor do que chegámos. Essencialmente, para melhorarmos a capacidade de amar as pessoas com as quais nos cruzamos.
DL: Foi professor em Lisboa. Sentiu-se mais professor ou estudioso?
Durante vinte e quatro anos dei aulas no Curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Ajudei a formar dezenas de jornalistas. Ministrei as disciplinas de Gramática da Comunicação, Língua e Cultura Portuguesas e Escrita Criativa. Foram anos muito importantes para a minha formação, pois convivi com excecionais mestres e alunos que me levaram a estudar várias matérias. Investiguei e estudei muito para depois refletir, partilhar e discutir com os alunos as conclusões a que tinha chegado. Nesse sentido, devo aos meus alunos ter apurado o espírito de investigador e mantido a constante curiosidade que me tem levado à busca de conhecimento. A minha base de estudo é a linguística. Estudei linguística para melhor entender a organização do pensamento humano, as diversas culturas e religiões, e, por conseguinte a literatura e as restantes artes.
DL: Nasceu em Lisboa, mas tem nacionalidade cabo-verdiana. A ligação Cabo Verde, Lisboa e Açores, como é que acontece?
Sou um autor cabo-verdiano. Não me identifico como autor português. A minha identidade e forma de sentir o mundo estão muito mais próximas da cultura caboverdiana. Faço parte dos dois milhões de caboverdianos que vivem em todos os cantos do mundo. Somos uma Nação que não cabe no seu território. Ser caboverdiano foi um dos melhores legados que o meu pai me deixou. Os meus avós eram caboverdianos e meu pai nasceu em Cabo Verde. Só a minha geração é que não, porque o meu pai veio estudar para Lisboa, casou, fez vida e ficou.
A minha opção por viver nos Açores tem exatamente o propósito de tentar perceber aquilo que se pode fazer pelos territórios insulares que formam a Macaronésia. Eu acho que falta cumprir a Macaronésia e, no futuro, o tempo vai dar-me razão. A autonomia que a República concede aos Açores e à Madeira não ajuda ao desenvolvimento destes arquipélagos. Os povos que habitam os arquipélagos que compõem a Macaronésia exigem que se desenvolvam laços de identidade cultural, política e social. Repare como estes quatro arquipélagos vivem de costas voltadas: os açorianos desconhecem a realidade caboverdiana, madeirense e das Canárias. Com a Madeira, Canárias e Cabo Verde passa-se a mesma coisa. O desenvolvimento harmonioso destas regiões e de Cabo Verde, como país, não pode deixar de passar por um profundo intercâmbio cultural, económico e político. O futuro da Humanidade são os oceanos, por essa razão os Açores e todos os restantes três arquipélagos da Macaronésia vão ser espaços importantíssimos para o desenvolvimento dos povos que os habitam.
No caso dos Açores, a República domina as leis que dizem respeito às águas territoriais destas nove ilhas no meio do oceano, mas, em troca de tamanha riqueza, envia parcas esmolas. Na verdade, o povo destas ilhas há 500 anos que é autónomo, no sentido em que esgravatou a vida com as mãos e sobreviveu a todas as intempéries. É um povo heróico! Por vezes, nem sequer pensamos nisto, mas se percebermos a situação geográfica destes nove grãos de terra espalhados no Atlântico, neste momento com cerca de 241 mil almas, somos levados a deduzir que se trata de gente extraordinária cujos antepassados foram igualmente admiráveis. Só um povo heróico sobreviveria a tantas dificuldades geográficas e a uma organização social baseada na exploração de quase todos por um ínfimo número de senhores terratenentes. Foi, também, esta resiliência dos açorianos que me cativou muito e que me levou a fixar na ilha de São Miguel.

DL: Como decide fixar-se nos Açores?
Desde 1989, que vinha, todos os anos, passar férias nos Açores. Quando tive oportunidade de voltar a assentar arraiais noutro lugar, escolhi estas ilhas.
Os Açores são o lugar onde quero morrer. Sou um cabo-verdiano que se sente açoriano. E repare que eu não lhe digo “que me sinto português”. Para mim, Portugal foi o país onde nasci, mas que sempre me acolheu como um imigrante. Como todos os humanos, também eu pertenço ao mundo. E assim é que está bem, não devia haver fronteiras. Como é possível existirem pessoas que consideram outras como ilegais? Não há sobre a Terra quem possa ser ilegal. Como humanista, tenho pautado a minha vida a lutar pelos direitos de todas as pessoas a uma existência com dignidade. Amando e compreendendo todas as vivências específicas das várias culturas existentes nos cinco continentes. Partindo sempre do princípio que cultura não são só manifestações artísticas. Interessa-me muito a cultura popular. Perceber como é que as pessoas organizam o seu pensamento. Estudar as suas línguas. Com e como cozinham. As tradições que pretendem deixar às gerações vindouras. Como ocupam o espaço. A forma escolhida para se organizarem socialmente. A relação que mantêm com as divindades… Pois tudo isto, também, é cultura.
DL: Vivemos numa altura em que se fala de falta de apoio à Cultura e se diz que a cultura está em crise. Como vê a situação atual?
Quando se fala de apoio à cultura, o que eu penso, imediatamente, é na falta de apoio para que as pessoas tenham melhores condições de vida. Apoiar a cultura é governar no sentido de dar dignidade humana a cada um dos cidadãos açorianos. Tudo fazer para combater a forma miserável como vive, ainda, o açoriano, cinquenta anos depois de uma Revolução Popular. Em cinquenta anos somos a região do país com mais abandono escolar. O acesso à saúde é cada vez mais difícil e desigual. Satisfazer as necessidades básicas das populações é dar-lhes a oportunidade de poderem ser agentes de cultura. As pessoas precisam de estar bem para se encontrarem com elas próprias e terem disponibilidade para se interessarem por bens culturais. E depois, se houver unidade, se as pessoas se juntarem umas às outras, apercebem-se imediatamente, da sua força. Que está nas suas mãos pôr cobro a desmandos e injustiças que impedem o progresso da sociedade açoriana como um todo.
Nos Açores, por exemplo, o que é o culto do Espírito Santo senão um processo que cumpre a função de mostrar desejo pela verdadeira igualdade em busca da sabedoria? Não há nada mais maravilhoso na cultura açoriana do que o culto do Divino Espírito Santo.
DL: Criou uma editora em 2020, a única nos Açores exclusivamente de poesia. Como surgiu esse desafio?
A editora N9na-Poesia inaugurou-se com a edição do livro A Sibylla – Versos Philosophicos, de Marianna Belmira de Andrade, uma jorgense que, em 1884, escreveu e editou um épico, absolutamente superior, com 1250 versos. A obra foi votada ao esquecimento pela generalidade da crítica, o eco dos seus versos, apesar de indiscutível qualidade, não chegou ao continente português, e esbarrou na indiferença da maioria dos literatos açorianos. É um poema extraordinário escrito pela mais singular voz da poesia açoriana, mas até ser por mim editada, Marianna foi votada ao silêncio e ao esquecimento, próprios de uma sociedade misógina que tende a silenciar o feminino. Nesse épico Marianna Belmira de Andrade reprova a sociedade terra-tenente açoriana, a Igreja Católica e a instituição monárquica, responsabilizando-as pelo atraso do país, da pobreza e das desigualdades sociais. A autora revolta-se contra a condição das mulheres e o papel doméstico para que são relegadas, sendo-lhes negado o direito à instrução, o acesso à cultura, bem como o desempenho de qualquer função social relevante. É num contexto social em que vigora ainda um conservadorismo feroz que emerge a voz de Marianna Belmira de Andrade votada durante séculos não só ao isolamento geográfico, mas também ao arcaísmo sócio-cultural da condição de mulher em geral e da insular em particular.
Em A Sibylla, a autora afirma-se feminista, anticlerical e ecologista – é algo de uma novidade extraordinária. Fascinado com o achado, resolvi estudar a autora e editar a obra, tendo-a dotado de 163 notas. Como não encontrei editora interessada na publicação deste livro, decidi criar a N9na-Poesia, como uma editora dedicada exclusivamente à poesia de grande qualidade. É, por isso, graças à obra poética de Marianna Belmira de Andrade e ao apoio da Nova Gráfica, na pessoa de Ernesto Resendes, que temos, nos Açores uma editora dedicada exclusivamente à poesia.
DL: Em declarações à RTP Açores, quando ganhou o Prémio Literário Natália Correia, disse: “eu não sei respirar sem escrever”. Continua a sentir o mesmo?
Com certeza. Escrever é como respirar. Escrevo todos os dias. Levanto-me cerca das três e meia da manhã, antes das quatro já estou a escrever até por volta das oito. É um ritual diário. Geralmente, não volto a escrever. Aproveito o resto do dia para ler, investigar, pensar, nadar na piscina da Lagoa, conhecer a realidade da vida das pessoas e conviver com os amigos; mas não para escrever. Deito-me cedo e como não tenho necessidade de dormir muito, os meus dias são longos e muito diversificados. Escrevo entre as quatro e as oito horas da manhã, pois, o mundo, a essa hora, não nos pede nada. Há um silêncio absoluto e muito bonito. Porque é um silêncio de esperança. Anuncia-se um novo dia. Depois começam os sons próprios do despertar da Natureza; o alegre chilrear dos pássaros e o cantar dos galos. Tenho doze gatos, a essa hora, ainda estão todos a dormir. Há, em casa, uma tranquilidade que me é necessária. Muitas vezes, quando o dia começa a nascer, saio de casa para me despedir da Lua que se põe de um lado e receber o Sol que nasce do outro. Este ritual dura de cinco a dez minutos. Normalmente, acompanhado de uma chávena de café, sento-me num banco de pedra e faço orações que lanço ao novo dia.
DL: Quando venceu a segunda edição do Prémio Literário em 2022, disse também que saberia, dentro de dois ou três anos, se o prémio teria importância. Valeu a pena?
Para mim, foi uma honra o romance Vinte e Sete Cartas de Artemísia ter sido agraciado com o Prémio Natália Correia. Lembro-me de ter pensado: a partir de hoje tenho a responsabilidade moral de ir ao encontro da confiança que em mim foi depositada, ao ver um romance, de que sou autor, ser distinguido com o Prémio Literário que transporta o nome de uma das nossas maiores poetisas e pensadoras. Apesar de não estar preocupado em ter visibilidade como autor, é gratificante ver um certo reconhecimento público, depois de tantos anos dedicados à literatura e à cultura. A atribuição deste importante Prémio não teve grande visibilidade na Região nem na República. Pelo contrário, foi amplamente divulgado em Cabo Verde, em Macau e até no Egipto através da Rádio Cairo que me entrevistou.
Não tenho como objetivo, cativar o leitor da atualidade. O leitor que idealizo não é meu contemporâneo. Escrevo para a memória futura dos povos.
Em 2023 publiquei Bento de Góis: uma longa caminhada na Ásia Central. Três meses depois, este romance entrou no Plano Nacional de Leitura, mas, pasme-se, não faz parte no Plano Regional de Leitura. Não podemos esquecer que Bento de Goes é o maior herói açoriano; não há nenhum outro que se lhe compare. A maior parte das vezes, os responsáveis políticos açorianos maltratam as mais notáveis figuras da História e da Cultura dos Açores. Insultam os açorianos, silenciando os seus heróis e poetas. Por incúria, ou ignorância, enaltecem, o que nos chega de fora. Como exemplo, basta referir Antero de Quental há anos silenciado pela academia, pois não há vontade política de homenagear e divulgar a obra de Antero, por ser um autor, tal como Natália Correia e muitos outros, que nos obriga a pensar e depois de confrontados com a realidade, ter mais consciência social e política para exigir a alteração do estado de coisas.
Manter o povo na ignorância continua a ser o desígnio dos governos da Região, pois sabem que um povo informado e culto nunca elegeria governos incapazes.

DL: Envolve-se com as suas personagens?
Sim, muito. E isso pode ser devastador. Por essa razão, enquanto estou a escrever ficção, socorro-me, em simultâneo, da escrita da poesia que me permite reorganizar emocionalmente. Penso que o escritor, o ficcionista, o artista – se quiserem – é alguém que passa por diferentes formas de humor. Há momentos de enorme exaltação e outros em que se fecha sobre si mesmo. Normalmente, estou sempre em grande exaltação. Só me sinto abatido quando o destino das personagens da história que estou a contar é brutal. Por exemplo: neste momento, encontro-me a escrever um romance que me obrigou a estudar, profundamente, o quotidiano dos presos políticos no Tarrafal, tendo de ler mais de 100 testemunhos de presos dessa colónia penal, em Cabo Verde. Cheguei a pensar desistir de escrever este romance, mas percebi que, por mais doloroso que fosse, para poder fazer um trabalho credível, tinha de conhecer o depoimento de todos os homens que, abnegadamente, entregaram as suas vidas para que os portugueses pudessem alcançar a liberdade e os povos colonizados por Portugal conhecessem a autodeterminação.
DL: Hoje em dia, sabemos o que é a liberdade? Cumpriu-se Abril?
Essa pergunta não é fácil. De qualquer modo vou tentar responder. Há certamente, diferentes conceitos de liberdade. Enquanto os trabalhadores anseiam por um tipo de liberdade que lhes permita exigir melhores salários e condições de trabalho, os donos das fábricas e os proprietários das terras anseiam pela liberdade de poderem aumentar os lucros e por conseguinte terem mais poder para oprimirem quem trabalha. Ainda há os que lutam por outros diferentes tipos de liberdade… Pôr o voto numa urna não é um exercício de liberdade, a maior parte das vezes, não passa de uma forma de legitimar regimes que se recusam a governar para o progresso dos povos, tendo antes o objetivo de manter um poder que oprime esse mesmo povo. Poderia dar dezenas de exemplos. Repare: a um trabalhador açoriano, o salário não lhe chega. Não se trata de um desempregado; é um pai ou mãe de família cujo ordenado não é suficiente para fazer face às despesas do quotidiano. Assim, temos muitos trabalhadores na miséria e a depender de ajuda alimentar, ou de outras, para poder sobreviver. É necessário que as pessoas tenham esta consciência, que tenham uma consciência de classe, porque só assim é que podem lutar por uma vida melhor e por justiça social, ou então, vamos continuar, nos próximos 50 anos, com os mesmos problemas sociais de hoje.

DL: É um homem de Fé?
Com certeza. Mas em quem? Em quê? Sou um homem de fé no Sublime, no Mistério, naquilo que não entendo e que não confronto. Mas não a fé no dogma criado por humanos. Nunca confronto o mistério; não saberia viver sem ele. Por exemplo: o mistério da transfiguração de Cristo, para mim, tem de ser mantido como algo que a ciência não poderá nunca explicar. Para muitos depende da Fé, para mim é uma questão estética. Procuro sempre sentido para a vida em coisas misteriosas. Não procuro respostas para os assuntos encobertos pela poesia, pela filosofia, pela teologia que encaro como os grandes mistérios da Humidade. Costumo dizer que Deus é como um amigo imaginário com quem aprendemos a comunicar com quem partilhamos os nossos problemas. E quando crescemos, transportamos esse mesmo amigo, da infância para a fase adulta, criando com Deus uma relação de quase chantagem: prometemos isto, se nos der aquilo. Se me der saúde, pagarei com uma rota de joelhos, à volta de um santuário. Não seria muito mais bonito fazer uma promessa a Nossa Senhora ou ao Senhor Santo Cristo, e o pagamento dessa promessa ser recitar poemas em voz alta no recinto de Fátima ou no Largo de São Francisco? Essas entidades, certamente que ficariam muito mais satisfeitas, muito mais consoladas do que se o pagamento das promessas for com sofrimento e muita dor. Deus é alegria e libertação. Não O devemos presentear com dor e sofrimento! Também já fiz promessas. Com certeza que sim, sou humano como os outros e tenho Fé. Mas tudo o que prometi fazer foi exatamente ler poesia: entrar num templo, independentemente da religião, e, em voz baixa, meditando, ler poemas perante o silêncio, aí encontrado. Tenho a certeza de que esta troca, para a divindade, é muito mais exaltante. Porque todos os deuses foram criados na medida da necessidade da Humanidade e não pretendem ser veículos de sofrimento, mas de libertação, sabedoria e compaixão.
DL: É a ideia de que Deus é amor numa espécie de energia feminina?
Sim. O Espírito Santo é isso mesmo. Uma energia feminina e criadora que pretende libertar o Homem de todo o género de opressão.

Quem sou eu?
Sou um exagero ambulante. Como pessoa, sou o caos organizado pelo amor, uma tempestade que se acalma quando encontra um olhar sincero. Como escritor, sou a tentativa de transformar esse caos em palavras que respirem, que gritem, que amem. Escrevo porque só assim me sinto inteiro. Há quem viva a vida a tentar sobreviver; eu escrevo para tentar viver melhor. A minha escrita é um reflexo do que sou: imperfeito, apaixonado, intenso. Quero que cada palavra minha faça alguém sentir, mesmo que seja raiva, porque pior do que sentir algo é não sentir nada.
O que o Benjamin me ensinou?
Ensinou-me que o amor não precisa de explicação. Que ser pai é desaprender a viver sozinho, porque, a partir do momento em que nasce um filho, já não existimos apenas para nós. Ele ensinou-me que a vida é feita de detalhes pequenos que, no fundo, são enormes. Que um sorriso pode salvar um dia inteiro. Que um abraço pode ser casa. Que o tempo passa depressa demais e que estar presente é a única forma de realmente viver. Com ele aprendi a amar de forma incondicional, a aceitar que o erro faz parte do crescimento e que amar alguém é desejar que seja sempre maior do que nós.
Como surgiu a escrita?
Surgiu como tudo o que é inevitável: sem aviso. Eu era um miúdo que se encantava pelas palavras, que descobria na literatura uma forma de fugir e, ao mesmo tempo, de me encontrar. Sempre escrevi para tentar compreender a vida, para tentar organizar o caos dentro de mim. Inspiro-me na vida, que é o maior livro já escrito. Nos olhares que se cruzam sem se verem. Nos amores que nascem sem se entenderem. Nas dores que ninguém vê, mas que estão lá. Escrevo porque, se não escrevesse, sentiria que não estava a viver por completo.
Como lido com críticas?
Mal, como qualquer ser humano. Dói sempre saber que alguém não gostou do que escrevemos, porque cada palavra que coloco no papel vem de mim. Mas aprendi que as opiniões são como os ventos: algumas ajudam a navegar, outras apenas fazem barulho. Nem todas merecem ser escutadas. Algumas são construtivas e ajudam-me a crescer; outras são apenas ódio disfarçado. Não posso escrever para agradar a todos, porque, se o fizesse, deixaria de escrever para mim. E a única forma de ser verdadeiro é escrever sem medo, aceitando que nunca vamos ser unânimes – e ainda bem.
Sobre “O Hospital de Alfaces”
É um livro sobre o que nos salva. Sobre o absurdo e o essencial. Sobre o que parece estranho, mas é profundamente humano. É uma viagem ao improvável, mas que, no fundo, é muito mais real do que parece. Fala de um hospital onde a cura acontece de formas inesperadas, onde a esperança se veste de surpresa. Foi um dos livros que mais me desafiaram a escrever, porque me obrigou a questionar tudo aquilo que damos por garantido. No fundo, é um livro sobre o que significa realmente estar vivo – e o que estamos dispostos a fazer para continuar a estar.
Ser escritor é ser intenso
Sempre. Porque escrever é arrancar o coração e colocá-lo em cada palavra. Sem intensidade, a escrita é um corpo sem alma. Ser escritor é viver em extremos: ou se sente tudo, ou não se sente nada. Escrevo com todas as células do meu corpo, porque não sei fazer de outra forma. Cada texto é um mergulho sem saber se há água. Cada livro é um grito que espero que alguém escute. Escrever é sentir tudo ao mesmo tempo e tentar transformar isso em algo que faça sentido. É loucura, é amor, é necessidade. Ser escritor é ser vivo em dobro.
O efeito dos meus livros nas pessoas
Saber que um livro meu aproxima pessoas é um dos maiores presentes que posso receber. A escrita é um abraço em forma de palavras. É uma ponte entre quem lê e quem sente. Saber que “Prometo Falhar” serviu para fortalecer a vossa amizade enche-me de gratidão. A literatura tem esse poder incrível: faz-nos sentir menos sozinhos. E, no fundo, todos escrevemos – e lemos – para isso: para nos encontrarmos no outro. Obrigado por partilhares essa história comigo.
Os meus emojis para si.
Porque palavras às vezes são demasiado pequenas. Um emoji pode ser um afago, um “estou aqui”. E estou. Mesmo sem saber quem és, soube que as palavras precisavam de um toque extra, de um sinal silencioso de que eram para ti. Porque escrever não é apenas colocar palavras no mundo – é fazer com que alguém se sinta visto. E se, de alguma forma, esses emojis foram um empurrão, fico feliz. Talvez a literatura seja isso: um conjunto de pequenos empurrões na direção certa.
A nova geração e a escrita
Escrevem como vivem: intensamente, com urgência, com sangue. E isso é maravilhoso. A literatura precisa sempre de novas feridas e novas curas. Vejo uma geração que já não tem medo de se expor, que não quer apenas contar histórias, mas senti-las. Isso faz-me acreditar que a escrita nunca vai morrer, porque enquanto houver quem queira transformar dor em arte, a literatura continuará a respirar. Cada época tem os seus escritores, e cada escritor tem o seu tempo. O importante é continuar a escrever, a arriscar, a encontrar novas formas de fazer com que as palavras nos salvem.
O meu futuro
Continuar a escrever. Continuar a amar. Continuar a falhar. Porque é falhando que prometo continuar. O futuro, para mim, é um livro que ainda não escrevi. Sei que quero continuar a ser alguém que acredita no poder das palavras, que não tem medo de errar, que vive com intensidade. Quero escrever histórias que façam alguém sentir-se menos sozinho, que sirvam de abrigo, de espelho, de impulso. Não sei onde estarei amanhã, mas sei que estarei sempre onde a escrita me levar. Enquanto houver algo para contar, eu estarei aqui.
Poderia descrever um tanto sobre o Pedro, ou poderia ser só mais um Pedro, mas nunca será um resumo. O Pedro, além de escritor e orador, foi dos muito poucos que me deu conforto na escrita e, só por isso, tem todo o meu respeito e admiração.
A humanidade que é escassa em muitos, transborda no Pedro.
Obrigada Pedro.

Júlio Tavares Oliveira
Muitas vezes, ouvimos falar de relações positivas, ou menos positivas, e de como essas relações, por facto bem assente, contribuem, bastante, para a nossa «cura interior» como parte intrínseca desse mesmo processo. Também é facto definido que as nossas relações, quando envolvem pessoas diferentes (e somos todos, todos, todos diferentes), podem – ou não – envolver e desenvolver traumas consigo, o que, de si, explica, também o nosso comportamento – ou o comportamento que teremos – com outros seres humanos também eles diferentes e especiais à sua maneira.
Pára e pensa comigo, agora: estás rodeado ou rodeada por que tipo de pessoas neste preciso momento? Que tipo de «vibe» ou energia emanam elas mesmas? Será que chocam, ou não, contigo? A quem tiveste a tendência de te ligar ao longo dos anos e como te afetaram, emocional e comportamentalmente, essas ligações? E quem era mais próximo a ti quando passaste por um acontecimento traumático significativo na tua vida?
Um trauma é um ponto sem retorno, sempre, garanto-te: não voltas ao que eras antes. Não voltas ao teu estado original. Mas, aí, também há que entender – e tu tens de perceber bem isso – que as coisas que te aconteceram, na infância, na adolescência, a semana passada, e que te magoaram profundamente, não são, não foram, não serão culpa tua. Tu não tens culpa de teres nascido, como digo, nas circunstâncias em que foste trazida ao mundo como criança; nem tiveste culpa – enquanto gente humana – de alguém ter, a dado momento, decidido fazer-te mal – ou de teres estado, enquanto homem ou mulher, ou criança, no sítio errado à hora errada.
O trauma – qualquer trauma – não é uma culpa ou uma responsabilidade tua.
Perceber isso é extremamente importante para podermos, enfim, caminhar firmes sobre os nossos próprios pés, seguros.
Quando finalmente entendermos que não somos, invariavelmente, responsáveis pelos nossos traumas – de infância ou da nossa adolescência – seremos capazes, mais capazes, de iniciar e de contemplar a nossa própria cura interior. Éramos, afinal, apenas crianças – apenas adolescentes – tão capazes de entender o mundo como de soletrar sílaba a sílaba devagarinho – ou de fazer contas de somar e de subtrair, apenas, e com enorme dificuldade matemática. Quem éramos nós, senão apenas – e só – meras crianças incapazes, indefesas, inofensivas cujo infortúnio bateu à porta?
Quando tirarmos o fardo existencial dos nossos ombros seremos, autenticamente, mais capazes de viver e, também, de estar vivos – o trauma, repito, não é culpa tua. É, daí, importante substituir «crenças negativas» por uma «afirmação positiva» nas nossas vidas, e convicções, tal como: «Fiz o melhor que podia e agora estou bem e em segurança».
Pensa comigo: ninguém pode mudar o seu passado. Mas podes escolher fazer do teu futuro um lugar melhor – e mais leve.

A noite clara de lua cheia iluminou o serão cultural no Centro de Atividades Culturais do Nordeste para a apresentação do livro “Longos versos longos”, do documentário “A infância é eterna num escritor” e, ainda, em jeito de surpresa, a entrega por parte de João de Melo do seu mais recente livro, “Lisboa”, obra que será apresentada em junho, na feira do livro da capital portuguesa.
Foram cerca de duas horas de cultura genuína e singela que cativaram os presentes. Ao seu jeito, João de Melo abordou temas que dizem muito aos açorianos, detendo-lhes a atenção pela excelência do seu discurso e por ser um escritor cujas características, entre as quais a simplicidade, agrada a todos.
Desde logo, a entrega do livro “Lisboa”, cuja apresentação oficial apenas acontecerá dentro de alguns dias, e que já se encontra patente no edifício da biblioteca municipal do Nordeste.
Recebido por Marco Mourão, vice-presidente da Câmara Municipal do Nordeste, João de Melo foi acompanhado numa visita às novas instalações do espaço, na qual se encontra uma estante dedicada ao escritor com todas as obras por ele publicadas, às quais agora se junta “Lisboa”.
“Este último livro surge como pagamento da dívida à cidade onde vivo e vivi a maior parte da minha vida, como sendo a cidade da razão, porque a emotiva continua a ser de ilhéu”, explicou o escritor.
Antes disso, participou na sessão cultural organizada pelo município, de apresentação pública do testemunho audiovisual de um dos escritores mais aclamados da literatura atual, conduzido pela professora Susana Goulart Costa, da Universidade dos Açores.
A sugestão de recolher o testemunho partiu da professora e foi acolhido pelo município, tendo sido gravado na casa onde viveu o escritor, na freguesia da Achadinha, no qual João de Melo dá a conhecer ao público as experiências de vida que moldaram as suas obras, sendo composto de uma segunda parte cuja data de exibição será oportunamente anunciada e que será feita na Casa João de Melo.
O documentário “A infância é eterna num escritor”, serviu de inspiração para que o município do Nordeste convidasse outros dois escritores a juntarem-se a João de Melo noutro momento cultural da sessão, designadamente, a professora Paula de Sousa Lima e João Pedro Porto, para um debate à volta das vivências pessoais na produção literária.
A sessão foi aberta pelo presidente da autarquia, António Miguel Soares, que salientou a “grande aposta que a autarquia tem feito na divulgação da Casa João de Melo, atraindo várias iniciativas de artistas, estudantes e grupos locais, que encontram naquele espaço um local onde podem apresentar trabalhos, estudar, ler, conviver e conhecer um pouco da história e cultura do Nordeste, da Achadinha e do escritor João de Melo”.