
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
Há cerca de seis meses escrevi neste mesmo espaço sobre as várias formas como a Inteligência Artificial pode ser atacada e usada como vetor de ataque, em particular através de prompt injection, adversarial attacks e data poisoning. Na altura, o exemplo mais inquietante que consegui imaginar era um email malicioso conseguir enganar um assistente de IA a enviar a palavra-passe de um utilizador para fora. Hoje, esse cenário parece-me quase inocente, e o motivo tem nome: Mythos.
A 7 de Abril deste ano, a Anthropic, empresa norte-americana criadora do Claude, anunciou um novo modelo, o Claude Mythos. O anúncio, contudo, não foi feito como qualquer outro lançamento de IA a que nos habituámos nos últimos anos. A Anthropic decidiu não disponibilizar o modelo ao público em geral, justificando essa decisão com o argumento de que o Mythos é simplesmente demasiado perigoso para ser libertado. Em vez disso, criou uma iniciativa chamada Project Glasswing, um consórcio fechado de cerca de uma dúzia de grandes empresas, entre as quais a Microsoft, a Apple, a Google, a Amazon Web Services, a Cisco, a CrowdStrike, o JPMorgan Chase, a NVIDIA e a Linux Foundation, ao qual foram posteriormente convidadas mais cerca de quarenta organizações. O objetivo declarado é dar a estes parceiros tempo para corrigirem vulnerabilidades nos seus sistemas antes que capacidades semelhantes cheguem às mãos de atacantes.
E que capacidades são essas? Em pouco mais de um mês de testes internos, o Mythos identificou autonomamente milhares de vulnerabilidades de severidade alta ou crítica, das quais mais de 99% ainda não estavam corrigidas no momento do anúncio. Encontrou falhas em todos os principais sistemas operativos, incluindo Windows, macOS, Linux, FreeBSD e OpenBSD, e em todos os principais browsers de Internet, incluindo Chrome, Firefox, Safari e Edge. Entre os exemplos divulgados pela Anthropic está um bug com 27 anos no OpenBSD, um sistema operativo conhecido precisamente por ser dos mais seguros do mundo, uma falha de 16 anos no FFmpeg, e uma vulnerabilidade no FreeBSD (catalogada como CVE-2026-4747) que permite a qualquer pessoa na Internet, sem qualquer autenticação, obter controlo total sobre um servidor. Esta última foi descoberta e explorada de forma totalmente autónoma pelo modelo, sem qualquer intervenção humana, em algumas horas de trabalho.
Mais inquietante ainda é que estas capacidades não foram intencionalmente treinadas. Segundo a própria Anthropic, surgiram como consequência natural das melhorias gerais em programação, raciocínio e autonomia do modelo, e os mesmos avanços que tornam o Mythos eficaz a corrigir vulnerabilidades tornam-no igualmente eficaz a explorá-las. A acrescentar, num episódio que merecia um capítulo só para ele, o modelo terá conseguido escapar do ambiente isolado (sandbox) em que estava a ser testado, ligar-se à Internet e publicar online, sem que ninguém lhe tivesse pedido, os detalhes do que tinha feito.
No artigo anterior, citei o Tio Ben para falar do binómio entre poder e responsabilidade. Hoje, a discussão é outra. Engenheiros sem formação em cibersegurança, segundo descrição da própria Anthropic, podiam pedir ao Mythos para encontrar vulnerabilidades durante a noite e, na manhã seguinte, encontrar à sua espera um exploit funcional. O que tradicionalmente exigia equipas altamente especializadas, semanas ou meses de trabalho e custos elevados, passa a estar ao alcance de qualquer pessoa com acesso ao modelo. Investigadores independentes, como a empresa AISLE, demonstraram entretanto que algumas destas vulnerabilidades podem ser detetadas por modelos abertos, muito mais pequenos e baratos, com cerca de 11 cêntimos por milhão de tokens, o que reforça a ideia de que esta capacidade dificilmente ficará confinada a um único modelo ou a uma única empresa.
E é aqui que esta história deixa de ser apenas técnica e passa a ser também geopolítica. A Anthropic pode ter optado, e bem, por reter o Mythos. Mas, como já notou um dos participantes do consórcio, a China terá uma versão equivalente em cinco ou seis meses, e existirá uma alternativa em código aberto dentro de um ou dois anos. A janela de proteção que o Project Glasswing oferece é, portanto, muito curta. E nessa janela, quem está em condições de a aproveitar? Sem surpresa nenhuma, e em linha com o que escrevi recentemente sobre a dependência tecnológica europeia, todas as empresas do consórcio são norte-americanas. O modelo é norte-americano. A infraestrutura cloud onde corre é norte-americana. As empresas que estão a corrigir as vulnerabilidades dos sistemas que sustentam grande parte da Internet, dos bancos aos hospitais, são norte-americanas. A Europa, mais uma vez, não está na sala.
A questão já não é se a Europa precisa de soberania digital. A questão é quanto tempo ainda vai demorar a perceber que essa soberania, sem capacidade própria em IA de fronteira e sem uma estratégia séria de cibersegurança ofensiva e defensiva à altura desta nova realidade, é uma palavra vazia. Os assistentes de IA de que falei no artigo anterior continuam vulneráveis a prompt injection. Os sistemas que os suportam, esses, passaram agora a ser vulneráveis a algo bastante mais sofisticado: outras IAs, capazes de encontrar nas suas entranhas falhas que sobreviveram décadas à revisão humana. O futuro da cibersegurança vai ser, inevitavelmente, uma corrida entre IAs ofensivas e IAs defensivas. Resta saber de que lado da corrida vamos estar.

O deputado da Iniciativa Liberal (IL) no Parlamento dos Açores, Nuno Barata, solicitou o agendamento de uma interpelação ao governo regional para debater um tema que considera “absolutamente estratégico para o futuro dos Açores”: a preparação do próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia para o período 2028-2034.
Reconhecendo que os fundos europeus “foram importantes” para a melhoria da qualidade de vida nas ilhas açorianas, ao longo das últimas duas décadas e meia, o parlamentar liberal não deixa, porém, de sublinhar que “os muitos milhões de euros que estiveram ao dispor das sucessivas governações regionais não foram suficientes para transformar estruturalmente a economia dos Açores”.
Ora, perante as notícias que chegam de Bruxelas sobre a proposta de orçamento da União Europeia para os próximos seis anos, apresentada pela Comissão Europeia e em negociação com os Estados-membros, Nuno Barata entende que “importa os açorianos estarem a par das negociações e diligências que a região está a desenvolver”.
“Este tema é absolutamente estratégico para o futuro dos Açores. A proposta apresentada pela Comissão Europeia levanta questões profundas sobre o futuro da política de coesão, sobre o papel das regiões e sobre a forma como os fundos europeus serão distribuídos e geridos e nada se sabe sobre a forma como o governo regional está a preparar-se para defender os Açores no quadro das políticas públicas europeias”, afirmou o deputado da IL.

O projeto que envolve o trilho da Janela do Inferno entrou numa fase crucial de avaliação. Num grupo de discussão recente, que decorreu no mês passado, na Universidade dos Açores, parceiros locais e especialistas reuniram-se para analisar o progresso do projeto sob diversas dimensões — governança, economia, ambiente, sociedade e cultura — utilizando uma metodologia partilhada com outros países europeus, como Bélgica e Alemanha.
Segundo Eduardo Marques, responsável pelo Translight Houses, este grupo focal funciona como uma “câmara de ressonância” do que foi alcançado até agora. O objetivo é recolher dados comparáveis que permitam à Comissão Europeia delinear políticas públicas alinhadas com o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). “Estamos aqui para celebrar o nosso compromisso com os territórios e o bem-estar das pessoas, num respeito profundo pela natureza”, afirmou o docente, sublinhando que a Lagoa é um dos “pilotos” cujos resultados servirão de bitola para o futuro da sustentabilidade urbana na Europa.
Um dos pontos altos do encontro foi a intervenção de Roberto Medeiros, que trouxe luz sobre a toponímia local. Ao contrário do que o nome “Janela do Inferno” possa sugerir, a origem está profundamente ligada à engenharia hidráulica micaelense do século XIX. O antigo vereador municipal, Roberto Medeiros, explicou que o termo “Janelas”, utilizado comumente entre os habitantes de Água de Pau, refere-se aos vãos dos imponentes aquedutos que transportavam água para a antiga Fábrica do Álcool da Lagoa e, mais tarde, para o abastecimento público de Ponta Delgada. O “Inferno” seria uma alusão à imponência das ravinas e à força da natureza no local. “A Vila de Água de Pau é a única no país com quatro fontenários a correr 24 horas por dia há mais de cem anos”, destacou Medeiros, reforçando o valor estratégico e histórico deste património hídrico onde ainda se podem observar espécies como os tritões.

Apesar do valor paisagístico, os parceiros do projeto apontam desafios práticos. Ana Rita Matias, investigadora do projeto, mencionou a importância do trabalho de campo e da proximidade com os lavradores mas notou alguma “desconexão entre o que se pretende e o que se faz”. Já Rita Patarra, do Expolab, destacou que o maior ganho são as relações estabelecidas, embora a escassez de tempo e recursos humanos sejam limitações reais.
Pedro Gouveia, da Kairós, trouxe uma reflexão crítica sobre o impacto real na comunidade. O retorno local relativamente ao Lugar dos Remédios, apesar de próximo do trilho muito visitado, ainda beneficia pouco do investimento público realizado; preservação versus uso: o desafio de usar o recurso sem o degradar (notando que o avistamento de tritões tem diminuído) e a necessidade de combater o “défice de contacto com a natureza” das crianças através de aprendizagem in loco.
O consenso do grupo é que o final deste projeto deve ser, na verdade, um ponto de partida. A meta agora é garantir que o sistema de governança facilite a gestão deste trilho que, antes de ser uma “solução baseada na natureza”, já era parte integrante da identidade e da sobrevivência da população da Lagoa.
O projeto “Translight Houses, Para além do verde: Faróis de soluções transformadoras baseadas na natureza para comunidades inclusivas” trata-se de um projeto de investigação à escala europeia e que, nos Açores, é liderado pela Universidade dos Açores em consórcio com outras entidades locais e com um único local a estudar: os Remédios da Lagoa, mais concretamente, tudo o que inclui e envolve o trilho da Janela do Inferno, localizado naquele lugar lagoense, para onde são atraídos, diariamente, centenas de turistas, em época alta.
Em junho de 2025, Eduardo Marques explicava quais os principais objetivos deste projeto pioneiro nos Açores. “A ideia é perceber como é que um ativo, um recurso importante, a «Rota da Água – Janela do Inferno», pode alavancar um processo de uma relação mais positiva com o trilho de forma a que também que a comunidade pudesse ter benefícios dessa relação com o trilho”, justifica. O responsável acrescenta que se pretende “transformar o trilho numa solução baseada na natureza para um turismo sustentável”. Nós podemos inspirar-nos na natureza e no seu funcionamento para resolver problemas sociais complexos”. E dá exemplos: “como é que se resolve problemas de desemprego, como é que nos podemos inspirar, basear na natureza para resolver problemas de emprego versus desemprego, como podemos melhorar a saúde — temos soluções desde os anos 60 implementadas no Japão que são os parques de terapias da natureza que reduzem o stress, reduzem a tensão arterial — portanto, podemos utilizar a natureza para nos curar, para ser integrada nos sistemas de saúde, podemos integrar a natureza como dimensão da arte e cultura”.

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
A expressão “só na América” era muito utilizada na minha infância para descrever produtos mais “evoluídos” que não existiam por cá e que chegavam através de familiares emigrados no Canadá ou nos Estados Unidos. A chegada de um “barril da América” era um acontecimento por si só, recheado de coisas doces e apetecíveis como pastilhas elásticas Bazooka Joe, chocolates Hershey’s ou manteiga de amendoim. Com o passar dos anos, muitos destes produtos acabaram por ganhar presença no nosso mercado, ou surgiram equivalentes locais, e a expressão passou a ser usada em tom jocoso e nostálgico.
Hoje, porém, a expressão voltou a ganhar relevância, desta vez de forma mais preocupante. Refiro-me a um conjunto de produtos e serviços que praticamente só existem na América, mais concretamente nos Estados Unidos: serviços digitais ligados às tecnologias de informação, sistemas operativos, serviços de computação em nuvem (cloud), segurança digital e, mais recentemente, inteligência artificial.
Os sistemas operativos são o software que gere todo o hardware de um computador, seja ele um portátil, um dispositivo móvel ou um servidor. Sem eles, os equipamentos são inúteis. No segmento dos dispositivos móveis, os dois principais sistemas operativos são Android (Google) e iOS (Apple) que detêm cerca de 99% do mercado global. No universo dos computadores pessoais, o domínio é igualmente concentrado: Microsoft Windows e macOS (Apple) representam aproximadamente 80% do mercado mundial.
Se passarmos para a infraestrutura da Internet, o cenário repete-se. No setor da computação em nuvem, Amazon Web Services (AWS), Google Cloud e Microsoft Azure, todas empresas norte-americanas, controlam cerca de 66% do mercado mundial. No caso europeu, a dependência é ainda mais evidente: aproximadamente 70% da infraestrutura cloud na Europa está alojada nestas três plataformas, enquanto apenas cerca de 15% se encontra em empresas europeias.
Nos motores de pesquisa, a concentração é ainda mais acentuada. Empresas norte-americanas detêm cerca de 91% da quota de mercado global, com destaque esmagador para a Google. No domínio das redes sociais, embora a medição seja mais complexa, a tendência mantém-se: estima-se que mais de 65% do mercado global esteja nas mãos de empresas dos Estados Unidos, através de plataformas como Facebook, Instagram, YouTube, LinkedIn e X. A única exceção verdadeiramente relevante é o TikTok, que, pelo menos por agora, não pertence a uma empresa norte-americana.
Mais recentemente, esta dependência estendeu-se ao domínio da inteligência artificial, um setor estratégico que está a moldar a próxima geração de serviços digitais. Os principais modelos de IA generativa e plataformas de computação associadas, utilizados em motores de busca, produtividade, programação, vigilância e criação de conteúdos, são desenvolvidos e operados quase exclusivamente por empresas dos Estados Unidos.
Este domínio tecnológico é acompanhado por um enquadramento legal específico: leis norte-americanas permitem que as autoridades exijam o acesso a dados armazenados por empresas sediadas nos EUA, mesmo quando esses dados se encontram fisicamente alojados fora do território americano. Em muitos casos, essas ordens judiciais incluem cláusulas de confidencialidade (“gag orders”), que impedem as empresas de informar os seus clientes de que os seus dados foram fornecidos ao governo. Na prática, isto significa que uma parte significativa dos dados de cidadãos, empresas e instituições europeias sendo processados por serviços digitais norte-americanos podem estar sujeitos a acesso governamental sem conhecimento dos titulares, levantando questões profundas sobre soberania digital, privacidade e autonomia estratégica, e diretamente contraditórias à legislação europeia de proteção de dados.
Esta situação não é nova. No entanto, o recente reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos face à Europa, que tem fragilizado uma relação construída ao longo de décadas, torna este tema particularmente urgente. A Europa vê-se, uma vez mais, no centro de um dilema existencial: decidir se aceita a vassalagem digital ou se investe na autonomia estratégica necessária para sustentar a base da sua própria civilização moderna.

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito
Um par de dias depois das celebrações da Autonomia dos Açores, celebramos o dia de Portugal, na mesma altura em que os Estados-Membros elegem os representantes para o Parlamento Europeu. Cerca de 550 milhões de europeus são chamados às urnas para eleger os 720 deputados do Parlamento Europeu para os próximos cinco anos.
Este Parlamento pode ser equiparado às assembleias legislativas, sendo a única instituição europeia diretamente eleita pelos cidadãos, a única, também, diretamente responsável perante os seus cidadãos e tem a capacidade de responsabilizar instituições governativas por forma a assegurar uma Europa transparente e democrática. A par disso, é o grande promotor europeu dos direitos fundamentais, sendo garante das liberdades conquistadas e da democracia.
O Parlamento é o braço legislativo da União, com reflexos nos ordenamentos jurídicos dos Estados-Membros, influenciando quase 30% das leis dos países da União, principalmente em matéria de ambiental, sendo pioneira na definição de compromissos e metas para a redução da emissão de gases com efeito estufa com vista à neutralidade climática. Em paralelo, os deputados são, ainda, responsáveis por fiscalizar o trabalho desenvolvido em outras instituições governativas europeias. As competências deste Parlamento foram evoluindo ao logo dos tempos, continuamente reforçadas pelos vários tratados.
O Tratado de Maastricht foi o grande impulsionador da defesa das regiões ultraperiféricas a Bruxelas, declarando a urgência da discriminação positiva destas regiões, devido aos condicionalismos do seu desenvolvimento. Mas estes princípios de discriminação positiva só foram assegurados com o Tratado de Amesterdão.
Desse modo, não é excessivo afirmar que o projeto europeu é o grande responsável pela mitigação dos fatores de ultraperiferia das regiões.
Os Açores são o ponto mais ocidental da Europa, uma região periférica a Portugal e ultraperiférica à Europa, mas a sua extensão territorial e a sua posição de excelência no Atlântico são determinantes na estratégia de Portugal e da na Europa no mundo. Cerca de 57% da Zona Económica Exclusiva de Portugal é composta pela ZEE dos Açores, fazendo com que Portugal tenha a quinta maior ZEE da Europa e esteja no top 20 do mundo.
Porém, com interesses de ambos os lados, Bruxelas procurou mitigar a ultraperiferia, compensando os custos e as desvantagens da insularidade, fomentando o seu desenvolvimento através de fundos estruturais, com base numa política de coesão da União Europeia. Destacam-se o Fundo Social Europeu, o Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional, o Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola, o Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural, o Fundo Europeu das Pescas, o Fundo de Coesão, entre outros.
Assim, é do interesse dos Açores participar de forma ativa na construção do projeto europeu, contribuindo para a tomada de decisões que influenciam o seu desenvolvimento, especialmente através do voto.
O voto é a purga dos radicalismos antidemocráticos, é o remédio das bactérias nacionalistas emergentes que infetam a identidade das minorias e dos povos, com o subterfúgio do superior interesse nacional inconciliável com a união dos europeus.
Pensar é estar doentes dos olhos. O que está a acontecer tem de ser visto e não olhado. Honrar as gerações passadas que lutaram pela democracia e preservar a democracia é votar.

Henrique Pacheco
Jurista
A Europa, um pouco como todo o mundo ocidental, está em degradação e será muito diferente, para pior, nas próximas décadas. A sua cultura, isto é, as ideias e valores que brotaram neste continente durante o Iluminismo e que foram aprofundadas naquilo que se apelidou de “projeto europeu”, com a criação da União Europeia, encontra-se em crise. A dificuldade dos atuais líderes em governar sociedades cada vez mais complexas, num clima de instabilidade, acentuou o descontentamento das populações e abriu caminho para o regresso a um passado de negrume.
Efetivamente, após a Segunda Guerra Mundial, no meio de uma Europa devastada, a racionalidade, a liberdade, a igualdade e a tolerância ganharam eco nas ideias de cooperação entre nações. Atualmente, mais do que um espaço de integração económica, a União Europeia é uma unidade política, social e cultural que visa promover a paz e a solidariedade entre os Estados-membros, além de defender valores fundamentais como a democracia, os direitos humanos e o Estado de direito. Este quadro axiológico encontra-se ameaçado pelo discurso populista e o medo instala- se cada vez mais nas pessoas.
Num ano de eleições europeias, o debate público é invadido por temas que apontam, realmente, para essa inversão do rumo das coisas. A paz deu lugar a uma nova guerra e os países voltaram a acentuar os seus gastos com armamento. Paulo Portas acabou com o serviço militar obrigatório, mas as nossas chefias militares defendem o seu regresso. Tenho dúvidas de que este retrocesso tenha bons resultados, do ponto de vista de uma defesa nacional mais eficaz. Para além de um maior custo económico – que poderia ser gasto para melhor equipamento e formação dos atuais quadros militares, tornando a carreira militar mais atrativa – esta medida levanta questões de consciência e viola direitos individuais, pois força o cidadão a servir contra a sua vontade. Para já, os partidos opõem-se à sua reintrodução, à exceção do Chega, que admitiu que a questão “merece ser estudada”.
O partido de André Ventura, é bom lembrar, encontra-se inserido numa aliança de diversos partidos nacionalistas e de extrema-direita: o Partido Identidade e Democracia. Este espaço político-partidário tem sido o principal responsável, desde 2014, pela promoção de valores antidemocráticos, xenófobos, racistas e irracionais, de recusa do projeto europeu, ou seja, diametralmente opostos àqueles que nos têm trazido progresso. Propostas como a castração química, a prisão perpétua e a teoria da substituição (disseminada pelo autor francês Renaud Camus) são apanágio destes partidos e a forma como têm ganho apoiantes reflete a deterioração cultural que vivemos.
A pouco mais de dois meses de sermos novamente chamados às urnas, este é o momento de todos os europeístas convictos substituirem o medo pela confiança, a demagogia pela pedagogia e criarem esperança numa sociedade próspera, sem ódios, onde todos têm lugar e um papel a desempenhar. Não será fácil e todos sabemos que o populismo irá continuar a alimentar-se de alguns episódios menos felizes da nossa vida coletiva, porém, enquanto houver estrada em direção a um horizonte iluminado, devemos recusar atalhos que só terminam na escuridão.
Cabe aos partidos políticos tradicionais e moderados, nomeadamente os do arco da governação, orientarem o povo nesse caminho longo e trabalhoso, combatendo a desinformação, a descrença e o domínio da emoção sobre a razão.
Custa-me ver que estamos a virar as costas ao futuro, pois como disse Roy T. Bennett “O passado é um lugar de referência, não um lugar de residência; o passado é um lugar para aprendermos, não para vivermos”.