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“Verão europeu exige cuidados acrescidos para pessoas com fibromialgia”

Especialista alerta para o impacto das temperaturas elevadas e do esforço físico na saúde dos doentes, sublinhando a importância do equilíbrio entre lazer e repouso

Professor Doutor José Luis Arranz Gil, presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica © AGÊNCIA INCOMPARÁVEIS

Com a chegada do verão europeu e a previsão de temperaturas elevadas em vários países, especialistas recordam que a fibromialgia pode sofrer alterações significativas nesta época do ano. Embora alguns doentes refiram uma diminuição da rigidez muscular com o calor, muitos relatam um agravamento da fadiga, perturbações do sono, dores difusas e dificuldades de concentração, fatores que comprometem a qualidade de vida e a autonomia nas atividades diárias.

A Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica tem defendido uma abordagem integrada da doença, considerando que cada doente “reage de forma distinta às alterações climatéricas”.

O presidente-fundador da Academia, o Professor Doutor José Luis Arranz Gil, tem sublinhado a importância de “aprofundar o conhecimento científico sobre a fibromialgia” e de promover uma “maior compreensão por parte dos profissionais de saúde e da sociedade”, contribuindo para um “diagnóstico mais célere e um acompanhamento mais adequado”.

“Durante o verão, a manutenção da qualidade de vida passa pela adoção de medidas preventivas simples, mas essenciais. A hidratação regular, uma alimentação equilibrada rica em frutas, legumes e alimentos com elevado teor de água, bem como a redução do consumo de bebidas alcoólicas e alimentos ultra-processados, podem ajudar a minimizar o impacto do calor no organismo. A prática de exercício físico deve privilegiar as primeiras horas da manhã ou o final do dia, evitando os períodos de maior exposição solar”, explicou José Luis Arranz Gil.

Por outro lado, as festas populares, romarias, arraiais e festivais de verão, muito presentes na tradição portuguesa e noutros países europeus, representam momentos de convívio importantes para as pessoas com fibromialgia, mas exigem alguns cuidados adicionais.

“Permanecer muitas horas de pé, caminhar longas distâncias, dançar de forma prolongada ou enfrentar multidões e elevadas temperaturas pode desencadear crises dolorosas e aumentar a fadiga nos dias seguintes. O planeamento da participação nestes eventos, com pausas para descanso, utilização de calçado confortável e acesso frequente a água, pode reduzir o risco de agravamento dos sintomas”, referiu este especialista.

Ainda segundo José Luis Arranz Gil, a gestão da fibromialgia passa também pelo “equilíbrio entre atividade e repouso”. Este responsável defende que “os doentes não devem abdicar da vida social, mas sim aprender a reconhecer os limites do seu organismo, evitando esforços excessivos que possam provocar dores persistentes ou episódios de exaustão física”.

“A preservação do bem-estar emocional e das relações sociais constitui igualmente um fator importante na gestão da doença”, disse.

Nos últimos anos, a Academia Portuguesa de Fibromialgia, com sede na Covilhã, região Centro de Portugal, tem reforçado a necessidade de “sensibilizar a população para uma patologia que continua a ser pouco compreendida”. A entidade tem promovido ações de formação e divulgação junto de profissionais de saúde e da sociedade civil, defendendo uma abordagem multidisciplinar que inclua medicina, fisioterapia, psicologia, nutrição e exercício adaptado.

“A preparação para o verão deve incluir hábitos regulares de sono, proteção contra o calor intenso, alimentação fracionada ao longo do dia e uma hidratação constante, fatores que podem contribuir para reduzir episódios de dor e fadiga. Para muitos doentes, pequenas adaptações na rotina permitem desfrutar das férias, das festas populares e dos momentos de lazer com maior conforto, preservando a qualidade de vida e reduzindo o risco de percalços associados à fibromialgia”, finalizou o presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica.

Os desafios do inverno para quem vive com Fibromialgia

Diretor da Unidade de Fibromialgia e de Síndrome de Sensibilidade e Dor Crónica, pioneira em Portugal, e presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica, ambas localizadas na Covilhã, explica os desafios dos pacientes nesta época do ano

José Luis Arranz Gil salienta que, cada vez mais, estão a ser feitas pesquisas sobre a Fibromialgia © DIREITOS RESERVADOS

O inverno traz consigo temperaturas mais baixas, maior humidade e mudanças bruscas no clima, fatores que podem agravar os sintomas da Fibromialgia e de outras síndromes de sensibilidade central. Para muitos doentes, esta época do ano intensifica as dores musculares, a fadiga e a rigidez articular, tornando essencial uma atenção redobrada aos cuidados diários e o acompanhamento médico adequado.

Para compreender melhor os desafios que os doentes enfrentam no inverno e quais as melhores estratégias para minimizar o impacto desta estação na qualidade de vida dos doentes, a nossa reportagem conversou com o Prof. Doutor José Luis Arranz Gil, especialista na área, diretor da Unidade de Fibromialgia e de Síndrome de Sensibilidade e Dor Crónica, pioneira em Portugal, na Mutualista Covilhanense, e presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica, sediada na Covilhã, instituição que se dedica à investigação e apoio a estes doentes.

Nesta entrevista, abordamos os cuidados essenciais a ter no inverno, a importância do contacto regular com o médico e a influência das baixas temperaturas nos doentes com Fibromialgia nesta altura do ano.

Que cuidados as pessoas devem ter durante o inverno em relação aos sintomas da Fibromialgia?
O inverno é um período em que o clima costuma ser baixo e o frio está presente, as pessoas com Fibromialgia são muito sensíveis ao que chamamos de stress térmico, ou seja, à variação, à mudança de temperatura e, principalmente, ao frio, pois foi demonstrado e comprovado em pacientes que a maioria dos pacientes com frio piora a dor e, portanto, todos os sintomas que a acompanham, mas principalmente a dor.

Quais os sintomas mais preocupantes?
Aquelas que afetam principalmente as esferas respiratória e cardiovascular, pois as variações térmicas alteram todos os sistemas orgânicos através do sistema nervoso autónomo, mas devemos logicamente dar atenção prioritária àquelas que são mais importantes para a preservação da vida e da saúde.

Como os pacientes podem aliviar os sintomas e a dor causados pela Fibromialgia?
Seguindo os conselhos e orientações terapêuticas indicadas pelos médicos que os tratam.

Que avanços a ciência demonstrou recentemente para ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem de Fibromialgia?
A medicina avança a cada dia à medida que as pesquisas médico-biológicas continuam a abrir caminhos para melhorar a saúde das pessoas e, cada vez mais, pesquisas estão a ser feitas sobre a Fibromialgia, e recentemente temos visto um aumento nas pesquisas em terapias não farmacológicas e no estudo de terapias psicossomáticas para melhora e compreensão da doença.

Que técnicas utiliza para ajudar os pacientes que sofrem com Fibromialgia?
Na nossa Unidade de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica, na Covilhã, damos, acima de tudo, importância ao estudo e individualização das terapias que cada paciente necessita, porque, como diz o aforismo de Hipócrates: “não há doenças, mas, sim, pessoas doentes”. Mas uma parte importante do que sempre utilizamos é a Neuroestimulação Magnética Transcraniana de baixo campo que tanto nos está a dar alegria na melhoria dos pacientes.

Pacientes com Fibromialgia tendem a ter mais complicações durante o inverno ou durante o verão?
Os quatro sintomas cardinais da Fibromialgia (dor, fadiga crónica, insónia, distúrbios de memória) há sempre um quinto sintoma cardinal que está presente em todos os pacientes: Termorregulação Disfuncional, o que significa que não conseguimos atingir a termorregulação corporal adequada. Cerca de 90% sentem sensação de frio interno e apresentam sintomas. E 10% apresentam sensação interna de calor e apresentam sintomas, logicamente, quando está quente.

Por que as pessoas com Fibromialgia têm uma sensação interna de frio e outras de calor?
Por pertencermos à espécie animal, o ser humano é homeotérmico, ou seja, necessitamos manter a nossa temperatura corporal em equilíbrio e dentro de limites muito precisos, em constante regulação com o meio externo. Para manter essa homeotermia existe um regulador cerebral que é o hipotálamo e este, através do sistema nervoso vegetativo, que produz vasoconstrição ou vasodilatação periférica, mantém condições térmicas internas estáveis. Todas as pessoas com Fibromialgia e fadiga crónica apresentam como mecanismo fisiopatológico da sua doença uma disautonomia, ou seja, um desequilíbrio ou uma desadaptação do seu sistema nervoso vegetativo. O prof. Martinez-Lavin, que estudou e pesquisou a fundo o assunto, afirma que existe um estado de simpaticotonia permanente com Hipo reatividade vagal na Fibromialgia, portanto, isto quer dizer que existe uma vasoconstrição corporal, principalmente dos vasos sanguíneos periféricos (acros) que não pode ser regulada porque o sistema “vagal” não é muito ativo, então, essa vasoconstrição é o que produz a sensação de frio interno que a maioria apresenta e, por isso, pioram com o frio. Exceto, logicamente, aqueles 10% que apresentam o mecanismo oposto.

Resultados obtidos num estudo de intervenção clínica utilizando magnetoencefalografia em pacientes com fibromialgia

José Luis Arranz Gil
Médico-cirurgião

Hoje, a partir destas linhas, gostaria de partilhar com todas as pessoas afetadas com fibromialgia uma notícia muito importante, que, de alguma forma, valida cientificamente o tratamento realizado a partir da Unidade de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica que tenho a honra de ser fundador e presidir há já um ano.

No dia nove do passado mês de setembro, teve lugar na Escola Superior de Engenharia de Telecomunicações da Universidade Politécnica de Madrid a leitura de uma tese doutoral no âmbito do doutoramento em Engenharia Biomédica do neurologista madrileno Dr. Jose Maria Gomez Arguelles, diretor da primeira Unidade de Fibromialgia num Hospital Público de Espanha, o Hospital do Tajo, na cidade de Toledo.

O neurólogo espanhol Dr. Gómez Arguelles defendeu a sua tese doutoral intitulada: “Modulação da atividade oscilatória do cérebro após estimulação magnética transcraniana de baixa intensidade em doentes com fibromialgia”.

Durante 45 minutos, teve lugar uma excelente, bem documentada e argumentada defesa que descreveu os resultados obtidos num estudo de intervenção clínica utilizando magnetoencefalografia em pacientes com fibromialgia e num grupo restrito, antes e depois do tratamento com Neuroestimulação magnética Transcraniana de baixo campo.

A exposição decorreu perante um tribunal composto para o efeito por cinco importantes membros da comunidade científica universitária espanhola, dentre os quais, o diretor do Departamento de Bioengenharia da Universidade já mencionada, Professor Dr. Enrique Gómez Aguilera, catedrático de Telecomunicações da Universidade Politécnica de Madrid, que atuava como presidente do tribunal; a Professora Dra. Inmaculada Concepción Rodríguez na qualidade de secretária do mesmo e professora da faculdade de Medicina de Alcala de Henares e, como vogais, os professores Jesús Tresguerres, Catedrático Emérito de Fisiologia da Universidade Complutense de Madrid; o Prof. Dr. Juan Antonio Pareja Grande, neurólogo, diretor da Unidade de Cefaleias e Sono do Hospital Quirón Salud Madrid e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Europeia de Madrid  e o Prof. Dr. José Luis Arranz Gil, Professor de Patologia Geral da Faculdade de Medicina da Universidade de Beira Interior, na Covilhã, que é igualmente diretor da Unidade de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica na Associação de Socorros Mútuos Mutualista Covilhanense.

Após posterior deliberação à porta fechada, o tribunal decidiu conceder por unanimidade Excelente cum laude ao, agora, Doutor Jose Maria Gomez Arguelles, a quem felicitamos desde já, assim como ao seu diretor de tese, professor Dr. Ceferino Maestu Unturbe e acolhemos com agrado o seu novo título académico.

É muito importante este trabalho de investigação sobre Fibromialgia e Neuroestimulação, pois, não obstante existirem investigações e teses anteriores, como a do autor deste artigo, Professor Dr. José Luis Arranzs Gil, diretor da Unidade de Fibromialgia, que obtiveram o mesmo resultado, o mérito do Prof. Dr. Gómez Arguelles foi avançar ainda mais longe e conseguir demonstrar, através de Magnetoencefalografia Cerebral, que, após a implementação da Neuroestimulação magnética transcraniana de baixo campo, ficou objetivamente comprovada uma modificação da modulação oscilatória do cérebro, fundamentalmente a nível do córtex pré-frontal  dorsolateral cerebral esquerdo (em frequência relativa alfa) antes e depois da aplicação do tratamento. A melhora dos pacientes de forma significativa nas escalas aplicadas e a dita melhora nas escalas, assim como os resultados obtidos na imagem da encefalografia magnética cerebral, estão correlacionados.

Confirmo que a tese doutoral do Dr. Gómez Arguelles foi extraordinária, com uma abordagem bem-sucedida relativamente à hipótese de trabalho, uma metodologia de investigação corretamente apoiada por uma estatística bem conduzida e apresentada e com resultados que validaram a hipótese do autor.

Por fim, ficou evidenciado, mediante investigação com encefalografia magnética cerebral, que a técnica de Neuroestimulação Magnética Transcraniana de baixo campo que se aplica na Unidade de Fibromialgia da Mutualista Covilhanense é eficaz, tendo sido testada e aprovada cientificamente e objetivamente.

A partir destas linhas, gostaria de expressar as minhas mais sinceras felicitações ao Professor Dr. José María Gómez Arguelles e endereçar também as maiores felicitações a todos os doentes que já foram tratados na nossa unidade de Fibromialgia da Mutualista Covilhanense.

A comunidade científica continua no caminho da investigação e é esse o futuro, pois, avançamos, e estamos a fazer progressos na clarificação da origem, mecanismos da doença e tratamento adequado.

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José Luis Arranz Gil é Doutor em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Alcalá de Henares – Espanha, professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior (UBI) – Portugal, diretor e fundador da Unidade de Fibromialgia e Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica. E-mail: doctorarranzgil@gmail.com

Os Negacionistas da Fibromialgia

José Luis Arranz Gil
Médico-cirurgião

Nestes tempos históricos turbulentos em que estamos imersos, fala-se frequentemente de pessoas que não aceitam uma realidade, não obstante esta ser bastante evidente. Hoje, gostaria de escrever, neste artigo, umas breves palavras sobre uma classe especial de pessoas negacionistas: os negacionistas da fibromialgia.

Começarei, então, por recordar o ditado bíblico: “A pedra que os arquitetos rejeitaram será a minha pedra angular”, frase sábia que uso por analogia para expressar que “A doença que os médicos descartaram será o meu objetivo profissional” e constitui o meu trabalho e leimotiv académico.

Estou a tentar dizer que a fibromialgia ensinou-me muito, mas, não seria justo expressá-la desta forma porque a fibromialgia não existe a não ser a nível conceitual. Na realidade, o que há são pessoas (doentes ou pacientes) que sofrem e padecem de fibromialgia, pelo que o correto será dizer que foi através dessas pessoas que aprendi o que não está escrito em nenhum dos livros, artigos e publicações que nós, médicos, lemos e estudamos.

Um dos primeiros ensinamentos a retirar dos doentes com fibromialgia é poder diferenciar claramente a dor e o sofrimento, porque, embora estejamos habituados a saber muitas coisas sobre a dor, a sua origem, as suas formas, os seus tratamentos possíveis, os médicos (com exceção dos médicos especialistas em cuidados paliativos) sabem pouco ou nada sobre o sofrimento. Assim, para que possamos compreendê-lo, para cuidar dele, para o acompanhar, precisamos de uma sensibilidade muito especial, que não é adquirida nas faculdades e que nem todos os médicos, nem todas as pessoas possuem ou possuirão.

Os doentes relataram-me duas esferas de sofrimento, para além do sofrimento que já enfrentam devido à fibromialgia. A primeira, motivada pela incompreensão dos seus parceiros, familiares, amigos e sociedade em geral e, a segunda é a que eles qualificam como muito mais profunda e angustiante: a incompreensão e falta de sensibilidade para com o seu sofrimento por parte de alguns médicos (felizmente poucos), que deveriam compreender e tratar a doença de forma mais humana, ou seja, a incompreensão das pessoas negacionistas da fibromialgia.

É assim que muitos doentes me referem como um mantra, que muitas vezes ouvem por parte dos “discípulos de Galeno” frases, tais  como: “A fibromialgia não existe”, “Isso é uma doença de loucas e preguiçosas que não querem trabalhar”, “Não tens nada, tudo o que te afeta é psicológico e está unicamente na tua cabeça” ,”Prepare-se bem, pinte os lábios e vá para a rua dar uma volta e tudo passará”, “Quando os médicos de família não sabem o que os pacientes têm, enviam-nos para nós, reumatologistas, com o diagnóstico de fibromialgia”, “O que quer que façamos consigo se a fibromialgia não tem cura? Tem de ter a ideia de que nunca vai curar-se”.

Ao ouvir pela boca dos doentes estas declarações pejorativas, expressas literalmente tal como as ouviram, tenho-me perguntado muitas vezes o que sentiriam as pessoas que pronunciam frases tão aberrantes se tivessem uma doença grave e alguém as sentenciasse com as mesmas frases e com o mesmo desprezo e falta de humanidade? O que sentiriam? O que lhes passaria pela cabeça?

Embora o conteúdo semântico das frases proferidas seja lamentável, ainda mais lamentável é o tom altivo, desdenhoso e humilhante com que são proferidas. Uma paciente disse-me: “Doutor, não me sinto ofendida pelas palavras, sinto-me ofendida e profundamente ferida pelo tom com que são proferidas”.

Sem dúvida que aqueles que pronunciam tais “profecias” violam o juramento Hipocrático, o código Deontológico Médico em vigor e a ética mais elementar (no sentido kantiano do termo) denotando, sobretudo, uma profunda e impiedosa falta de HUMANIDADE.

Pergunto-me se não haverá hoje provas científicas suficientes para saber que a fibromialgia é uma doença e, a título de exemplo, e sem qualquer limitação, vou fornecer aos mais céticos sobre a fibromialgia algumas informações com o objetivo de os fazer pensar e mudar a sua opinião em benefício das pessoas que sofrem, a saber:

1- A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1992, na Declaração de Copenhaga, reconheceu a enfermidade como uma entidade clínica chamada “Síndrome de Fibromialgia”, tendo sido classificada com o código M79.7 no manual internacional de classificação de doenças ICD-10. Se a OMS, que deve ser o nosso guia científico e a mais alta autoridade em saúde pública, reconheceu a doença desde 1992, quem são os Negacionistas da fibromialgia para ignorar e contradizer a OMS?

2- A Associação Internacional para o Estudo da Dor (a mais alta autoridade científica mundial em matéria de dor) reconheceu a fibromialgia em 1994 com o código X33.X8a. Se esta importante autoridade a reconheceu, quem são eles para negar e ignorar o que uma sociedade científica acreditada como esta reconhece?

3- Nas pesquisas bibliográficas que podem ser realizadas no Medline e noutras bases de dados médico-científicos, encontram-se milhares e milhares de artigos que falam de trabalhos de investigação científica. Se esta é uma realidade objetiva, quem pode negá-la?

4- Existem centenas de Teses de Doutoramento realizadas sobre a fibromialgia, (incluindo a que realizou o autor destas linhas, na Universidade de Alcalá de Henares, com a classificação de Excelente com Louvor – “cum laude”) e são cada vez mais os estudantes que escrevem as suas teses de doutoramento sobre o assunto. Quem são eles para ignorar esta realidade?

5- A Sociedade Espanhola de Médicos de Clínica Geral e Familiar (SEMEG) apresenta no seu sítio web dados interessantes sobre a fibromialgia, tais como o facto de representar 5 a 8% das consultas de cuidados de saúde primários e entre 10% a 20% das consultas de reumatologia. A fibromialgia está a registar um crescimento de 27.196 novos casos por ano em Espanha, com uma taxa de incidência de 5,4 novos casos por mil habitantes por ano. Se a Sociedade, a que os médicos de família estão vinculados, reconhece e atesta a fibromialgia, porque é que ainda há pessoas (incluindo profissionais) que não acreditam nos dados objetivos fornecidos pela SEMEG?

Creio que, com estas breves, mas bem documentadas, razões, ficou claramente demonstrado que não há razão para negar a fibromialgia. A verdade é o que acabo de demonstrar, mas sempre me perguntei por que razão pessoas bem qualificados e inteligentes, com muitos anos de experiência profissional, continuam a negá-la?

A resposta a esta questão psicológica ou, se preferirem, filosófica, que acabo de colocar, não vem do pensamento de cientistas ou filósofos, vem da mão de um poeta, o poeta mais profundo juntamente com Unamuno que tivemos em Espanha, a resposta é dada por António Machado quando afirma que: “o espanhol despreza o quanto ignora”.

Esta explicação poderia ser alargada ao inglês, português, francês, alemão, italiano, suíço… de modo que, parafraseando António Machado, ouso dizer que o ser humano despreza o quanto ignora.

Em suma, poderíamos concluir que se trata de ignorância, ou, para ser mais diplomático, direi que se trata de falta de conhecimento, formação, estudo ou atualização científica. É preciso estudar mais.

Para terminar esta breve explanação sobre a atitude de todos os que não aceitam a fibromialgia, reitero o que Albert Einstein, vencedor do Prémio Nobel da Física, escreveu sabiamente: “Tudo o que o homem ignora, não existe para ele, é por isso que o universo de cada um se resume à dimensão do seu conhecimento”.

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José Luis Arranz Gil é Doutor em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Alcalá de Henares – Espanha, professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior (UBI) – Portugal,
diretor e fundador da Unidade de Fibromialgia e Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica. E-mail: doctorarranzgil@gmail.com