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Hábitos simples, fígado mais forte

Suzana Calretas
Coordenadora do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado
SPMI – Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

O fígado é um dos órgãos mais importantes do corpo humano, desempenhando centenas de funções essenciais à vida. A nível mundial as doenças do fígado representam um problema muito relevante de saúde publica, afetando milhões de pessoas e contribuindo para uma taxa de mortalidade elevada. Em Portugal o panorama não é muito diferente.

Durante décadas, o consumo excessivo de álcool e as hepatites virais foram as principais causas de doença hepática; continuam a sê-lo. No entanto, nos últimos anos tem emergido de forma clara uma nova realidade: atualmente um terço da população adulta vive com uma condição chamada doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica, tradicionalmente conhecida como fígado gordo não alcoólico (esteatose é o termo médico que define a presença de gordura no fígado). Existem várias causas possíveis, embora as mais frequentes sejam o excesso de peso, a diabetes, a hipertensão, o colesterol e/ou os triglicerídeos elevados, sendo o consumo de álcool um fator que por si só provoca esteatose e por outro lado agrava a doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica.

E ter um fígado gordo ou esteatose hepática, não é inócuo. Esta doença, muito ligada ao estilo de vida contemporâneo, pode permanecer silenciosa durante anos.  A esteatose pode evoluir com o aparecimento inflamação (esteatohepatite), cicatrizes no fígado (fibrose) que, não sendo atempadamente diagnosticada e tratada pode evoluir para cirrose e até cancro do fígado.

O diagnóstico passa pela realização de uma história clínica que identifique os fatores de risco; análises (que numa fase inicial podem ser perfeitamente normais) e exames de imagem, como a ecografia abdominal e a elastografia hepática; só excecionalmente pode ser necessária a realização de uma biopsia hepática.

Se atentarmos às causas desta doença, facilmente se conclui que ter uma alimentação equilibrada, com menos açúcar, menos ultraprocessados e menos excesso calórico; praticar regularmente exercício físico; controlar o peso e evitar o consumo de álcool são medidas concretas que ajudam a prevenir e melhorar ou reverter uma doença já instituída. Há ainda outros cuidados que têm toda a relevância: controlar a diabetes, a dislipidemia e a hipertensão não protege só o coração, mas também o fígado. Cumprir a medicação prescrita, evitar drogas, não usar medicamentos ou suplementos sem necessidade e manter comportamentos sexuais seguros são outras formas de reduzir riscos e a agressão hepática.

A propósito do Dia Mundial do Fígado que se celebra no dia 19 de Abril, e cujo lema é “Hábitos simples, fígado mais forte” importa por isso relembrar: muitas das doenças hepáticas estão ligadas a hábitos do dia a dia, e pequenas escolhas diárias, implementadas de forma consistente, podem fazer toda a diferença.

Esteatose hepática: Um alerta à saúde

Vera Costa Santos
Especialista em Gastrenterologia
Hospital CUF Açores

A esteatose hepática, conhecida como fígado gordo, corresponde à acumulação de gordura no fígado. Já a doença hepática estetatósica associada a disfunção metabólica (previamente conhecida como  fígado gordo não alcoólico), refere-se à presença de esteatose hepática em doentes com fatores de risco cardiometabólicos (como diabetes e obesidade) e surge na ausência de outras causas para a acumulação de gordura no fígado, como o consumo significativo de álcool. Atualmente, é a doença hepática crónica mais frequente.

Por norma, a esteatose hepática não provoca sintomas, sendo diagnosticada através da realização de exames de imagem, como a ecografia. Inicialmente, as análises podem ser normais. Apenas quando a esteatose provoca inflamação do fígado (esteatohepatite) é que os parâmetros hepáticos se mostram alterados, sendo nesta fase que aumenta o risco de progressão para fibrose, cirrose e cancro do fígado.

Quando se deteta esteatose hepática num exame de imagem, é importante investigar a sua causa e realizar exames para avaliar a presença de fibrose hepática. Por outro lado, na população de risco (com diabetes, obesidade ou com alterações nas análises do fígado), deve ser feito o rastreio da esteatose e a avaliação da fibrose.

A presença de fibrose no fígado pode ser estimada, numa fase inicial, através de sistemas de pontuação (scores) nas análises feitas ao sangue, seguindo-se, muitas vezes, da realização de uma elastografia hepática transitória (FibroScan). O Fibroscan é um teste simples, rápido e indolor, semelhante a uma ecografia, que avalia a existência de fibrose ou, em casos mais graves, cirrose hepática. Esta avaliação é muito importante, pois permite determinar o risco de complicações, definir o tipo de acompanhamento e a necessidade de tratamento.

Importa reter que o álcool provoca alterações hepáticas muito semelhantes às encontradas na doença hepática esteatósica metabólica, pelo que é importante excluir, pela história clínica, o consumo excessivo de álcool.

A melhor forma de prevenir a doença hepática esteatósica metabólica e as suas complicações passa pela escolha de uma dieta saudável e pela prática de exercício físico regular, reduzindo assim a prevalência da diabetes mellitus, da obesidade, da dislipidemia e da hipertensão.

Uma vez diagnosticada a doença hepática, importa garantir o seu acompanhamento e controlo das doenças cardiometabólicas associadas. Perder entre 5% a 10% do peso corporal ajuda a reduzir a gordura no fígado e a diminuir o risco de inflamação e fibrose. Em pessoas com diabetes, poderão ser prescritos medicamentos para controlar o açúcar no sangue. Já em casos de obesidade, entre outras terapêuticas, pode ser considerada uma abordagem endoscópica ou cirúrgica para perda de peso. 

Quando a doença hepática evolui para cirrose, poderão ser necessários fármacos para reduzir ou tratar as suas complicações. Em casos mais graves, poderá estar indicado o transplante hepático.

O controlo de fatores de risco e o acompanhamento da doença hepática são fundamentais para evitar a sua progressão para cirrose ou cancro. 

Cuide do seu fígado, mantenha hábitos de vida saudáveis e um seguimento  médico regular.