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“Estava doente e foste visitar-me”

Padre André Furtado

“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.

Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.

Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.

Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.

Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.

E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.

Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.

Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.

Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.

Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.

Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.

Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.

Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).

Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.

O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.

Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.

“Não existe Deus da guerra”: bispo de Angra recorda lição de Jesus na Semana Santa

D. Armando Esteves Domingues retoma ideia central do papa Francisco de que qualquer violência desenvolvida em nome de Deus é uma traição porque Ele “entra sempre no coração dos inocentes”

© IGREJA AÇORES/CR

O bispo de Angra afirmou, na alocução que fez na Celebração da Paixão do Senhor, na Sé de Angra, que qualquer instrumentalização de Deus para justificar a guerra ou a violência é um “ultraje” e uma “traição blasfema”, recuperando uma ideia repetida pelo Papa Francisco.

Na celebração, também conhecida como Hora Santa por marcar a hora da morte de Jesus, D. Armando Esteves Domingues afirmou que a verdadeira “grandeza e autoridade” residem em servir e proteger a vida, e não em dominar ou destruir.

Na cruz, Cristo entra “na solidão dos inocentes e transforma o desespero em oração”, afirmou destacando que este é “o critério ético maior daqueles a quem se confia a autoridade e o poder nas decisões que têm a ver com todos”.

A instrumentalização de Deus para justificar a guerra, a violência ou a imposição “é uma negação radical e definitiva da sua lição”.

“Não existe Deus da guerra e qualquer violência em nome Dele é um ultraje contra Deus, é uma traição blasfema a Deus”, enfatizou numa alocução muito centrada na necessidade da paz.

“Rezemos pela paz e por quem decide. Façamo-lo unidos ao clamor dos povos feridos, dos jovens enviados para matar e morrer, das mães e pais que enterram filhos, das crianças mortas e feridas”, pediu o bispo de Angra.

O prelado recordou  que “mesmo entre ruínas e lágrimas, há sinais de Ressurreição: gestos de proteção, corredores humanitários, voluntários, padres, médicos, famílias que acolhem, comunidades que partilham, pessoas que arriscam a paz, homens e mulheres que escolhem salvar em vez de destruir”.

Sublinhou, por isso,  que a hora da crucificação de Jesus é também a hora central da história da humanidade e da nossa própria história.

“É a hora em que, sofrendo livremente na cruz uma morte cruel, Jesus nos diz duas coisas: em primeiro lugar, diz-nos quem é Deus, o Pai, disposto a seguir o filho até ali, até ao alto da cruz, para demonstrar que Ele é todo e só amor e perdão; em segundo lugar, diz que o segredo da justiça, da paz e da fraternidade é dar a vida”, explicou.

“A cruz de Jesus não nos autoriza a colocar Deus no banco dos réus e a perguntar diante do sofrimento: ‘Onde está Deus?’. Ela convida-nos antes a perguntar: onde estamos nós diante do sofrimento, nosso e dos inocentes, e o que fazemos para não acrescentar mais sofrimento e mais morte à morte?” acrescentou, terminando com um apelo à oração pela paz.

No contexto do Ano Jubilar Franciscano, pelos 800 anos da morte de São Francisco, D. Armando Esteves Domingues recordou a oração do santo, pedindo que cada um se torne instrumento de paz, levando amor onde há ódio, perdão onde há ofensa, esperança onde há desespero e luz onde há trevas.

Na sexta feira a coleta da celebração reverteu a favor da Terra Santa. Num contexto de guerra persistente no Médio Oriente, o Dicastério para as Igrejas Orientais renovou o apelo anual à ajuda, convidando à oração intensa pela paz, especialmente após incidentes que ameaçaram a celebração pascal na região.

“As armas continuam a disparar, as pessoas continuam a morrer”, recordou o cardeal Claudio Gugerotti, destacando o sofrimento silencioso das populações locais e o impacto na presença cristã, ameaçada pela instabilidade e pelo radicalismo religioso.

Os fundos recolhidos destinam-se a apoiar projetos em Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Líbano e Egito, incluindo distribuição de alimentos, medicamentos, manutenção de escolas, bolsas de estudo e habitação social.

“Cristo ressuscitou! Aleluia!”

Padre André Furtado

Meus queridos irmãos e irmãs,

Esta é a noite mais santa, mais luminosa, mais cheia de esperança de todo o ano! Esta é a noite em que o impossível aconteceu: Cristo venceu a morte! Esta é a noite em que a luz rompeu a escuridão, a vida triunfou sobre o túmulo, e a alegria brotou do silêncio da cruz.
Cristo ressuscitou! Aleluia!

Depois do silêncio pesado da Sexta-feira, depois da dor do Sábado da espera, chega o Domingo antecipado na esperança desta Vigília. A pedra foi removida. O túmulo está vazio. Onde está, ó morte, a tua vitória? O nosso Deus não ficou preso na morte. 

ELE VIVE! E COM ELE, NASCE UMA NOVA HUMANIDADE.

O que celebramos hoje não é apenas um momento bonito da nossa fé, é o seu coração palpitante. A ressurreição não é só um final feliz – é um novo começo, uma página em branco repleta de promessas. Deus surpreende-nos, mais uma vez, com a sua criatividade divina: transforma a cruz em trono, a morte em passagem, o túmulo em berço de vida nova!

Nesta noite, começámos no escuro. A Igreja mergulhada em silêncio, como o mundo sem Deus. Mas eis que se acende o fogo novo! A chama da esperança! A luz entra na igreja com o círio pascal – Cristo, luz do mundo – e nós, pouco a pouco, vamo-nos acendendo uns aos outros. Que imagem tão bela da fé! A luz de Cristo não se guarda – partilha-se, multiplica-se, espalha-se!

Hoje ouvimos a grande história da salvação: Deus nunca desistiu de nós. Nunca! Desde o início da criação, passando pelos patriarcas, pelos profetas, pelos vales e desertos da história… o amor de Deus foi sempre mais forte do que o nosso pecado.
E culmina nesta noite: Jesus Cristo entrega-se totalmente e, com Ele, recebemos o dom da vida eterna!

Mas atenção, irmãos: a ressurreição não é uma recordação do passado, é um convite para o presente. Há quem viva como se Cristo ainda estivesse no túmulo. Há quem ande preso ao medo, ao ressentimento, à tristeza, à culpa. Mas esta noite diz-nos que não estamos sozinhos! A luz venceu. A esperança tem a última palavra.

Hoje somos chamados a levar esta luz ao mundo! A mostrar que vale a pena viver com fé, com amor, com coragem. A testemunhar que a morte não manda em nós. Que a rotina não nos adormece. Que a última palavra é sempre de Deus – e a Sua palavra é Vida!

Queridos irmãos e irmãs, nesta noite renovamos o nosso batismo, recordamos que morremos com Cristo para ressuscitar com Ele. Deixemos para trás a vida velha, o egoísmo, a indiferença, a tristeza. Hoje começa uma nova vida! Uma vida com Cristo, em Cristo, por Cristo. Que esta noite nos transforme! Que a alegria da ressurreição penetre no mais fundo do nosso ser. Que as nossas feridas se deixem tocar pela luz do Ressuscitado. Que saiamos daqui com o coração a arder e os lábios a proclamar: 

Cristo vive! Cristo ressuscitou! Aleluia! Aleluia!

Uma Santa e Feliz Páscoa.

Rezai por mim.

Amou-os até ao fim

Padre André Furtado

Irmãos e irmãs,

hoje iniciamos o Tríduo Pascal, os três dias mais sagrados da nossa fé. A liturgia desta Quinta-feira Santa leva-nos ao Cenáculo, à última Ceia de Jesus com os seus discípulos. É uma noite de entrega, de amor profundo, de lições que nos devem transformar. Celebramos três realidades fundamentais: A instituição da Eucaristia – o alimento da nossa fé; O nascimento do sacerdócio ministerial – ao serviço do povo de Deus; E o mandamento novo do amor, vivido no gesto humilde do lava-pés.

Amou-os até ao fim

O Evangelho segundo São João não descreve a consagração do pão e do vinho como os outros evangelistas. Em vez disso, mostra-nos um gesto inesperado: Jesus ajoelha-se e lava os pés dos discípulos.

Um gesto simples, mas profundamente revolucionário. O Mestre faz-se servo. Aquele que é Senhor de tudo, torna-se escravo de todos. Lava os pés dos seus amigos, até mesmo de Judas, que o iria trair.

E depois diz: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.”

Um gesto para o nosso tempo

Este gesto de Jesus fala diretamente à realidade do mundo em que vivemos. Um mundo marcado por divisões, conflitos, individualismo, indiferença, orgulho e vaidades.

Vivemos numa sociedade em que lavar os pés dos outros parece absurdo. Muitos querem subir, dominar, aparecer… mas poucos querem servir.

Jesus, porém, ensina-nos que a grandeza está em abaixar-se. A Eucaristia que Ele nos deixa nesta noite não é apenas um rito bonito: é vida doada, amor que se torna pão, serviço que se torna concreto.

Comungar e servir: duas faces da mesma fé

São Paulo recorda-nos: “Sempre que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.” Ou seja: cada Missa é um envio. Somos enviados a continuar o que celebramos.

De nada serve comungar o Corpo de Cristo se não reconhecemos Cristo no irmão. A Eucaristia que não nos leva ao perdão, ao cuidado, ao compromisso com os mais frágeis… não cumpre o seu verdadeiro fim.

No mundo de hoje, Jesus continua a perguntar-nos: “Estás disposto a lavar os pés da humanidade ferida?”:  Daquele vizinho que te irrita… Do pobre que pediste que fosse “trabalhar” em vez de estender a mão… Do imigrante desprezado, do doente esquecido, do familiar com quem cortaste relações…

Sacerdócio: serviço, não privilégio

Hoje também é o dia do sacerdócio. Mas o modelo de sacerdote que Jesus nos mostra não é um homem distante, mas alguém que se aproxima, que serve, que ama com humildade.

E isso aplica-se a todos nós. Porque, pelo nosso Batismo, todos participamos deste sacerdócio do serviço. Todos somos chamados a ser Eucaristia para o mundo.

Amar até ao fim

Meus irmãos e irmãs, Jesus amou até ao fim. Não até onde dava jeito. Não até ser traído. Até ao fim.

E este amor é o que salva o mundo.

Peçamos hoje a graça de: voltarmos ao essencial da nossa fé; de deixarmos de lado divisões, orgulhos, medos e desconfianças; de nos tornarmos comunidades e famílias mais unidas, sociedades mais fraternas, capazes de amar como Jesus amou.

Que nesta Ceia do Senhor, Ele nos ensine a: comungar com o coração cheio; servir com humildade; amar com verdade.

Amém.

“Hossana, hossana ao Filho de Davi!”

Padre André Furtado

Hoje damos início à semana maior na vida do cristão: a Semana Santa. Hoje, com fé, recordamos a entrada de Jesus em Jerusalém. O povo estendia mantos e ramos, aclamando: “Hossana ao Filho de Davi!” Mas é o mesmo povo que gritará: “Crucifica-o!” Como é frágil a esperança baseada em triunfos humanos! Como é inconstante o coração humano quando não se ancora no amor verdadeiro!

No Evangelho da Paixão contrastam-se dois tipos de esperança: a esperança superficial — a dos homens que esperavam ver milagres fáceis, soluções rápidas, gestos espetaculares, uma vida facilitada (tão presente nos dias de hoje) — e a esperança silenciosa e fiel de José de Arimateia, que aguardava o Reino de Deus com humildade e coragem, oferecendo até o seu túmulo a Jesus.

Diante da Cruz, as falsas esperanças caem por terra, e só permanece a esperança que nasce do amor. Cristo não desceu da Cruz. Não Se salvou a Si mesmo para provar o Seu poder. Permaneceu firme, por amor a nós. Mostra-nos que a verdadeira esperança não evita a cruz — passa por ela e transforma-a. Por isso, a esperança verdadeira é aquela que se purifica na dor, se fortalece no sofrimento e se ancora no Coração trespassado de Jesus.

A narrativa da Paixão apresenta-nos um Cristo sereno, compassivo, que perdoa até mesmo na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Jesus não perde a Sua identidade, mesmo diante da dor e da injustiça. Ensina-nos a permanecermos fiéis, mansos, humildes e firmes no amor, mesmo nas situações mais difíceis.

E há personagens na Paixão que também nos interpelam:

• Pedro, que O nega por medo, mas depois chora amargamente;

• Pilatos, que reconhece a inocência de Jesus, mas lava as mãos;

• Simão de Cirene, que ajuda a carregar a cruz;

• As mulheres de Jerusalém, que choram por Ele;

• O bom ladrão, que, na última hora, se entrega à misericórdia de Deus.

Todos nós estamos ali. A Paixão não é apenas um relato antigo: é o espelho da nossa atual humanidade.

Na vida, experimentamos continuamente tudo isto: momentos de exaltação e alegria, e outros de prostração e desalento. Por vezes, parecem predominar estes últimos.

Mas é então que intervém o ânimo da fé e a palavra de Jesus, que o sustenta: “Coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33). Sim, a esperança é impossível de apagar, porque constitui a força que une o divino e o humano, a elevação do homem até Deus e a familiaridade de Deus com a pessoa.

Olhamos para o nosso mundo e parece que só vemos o mal em estado puro: atrocidades, destruição de vidas e da natureza. Sem a esperança, o cenário é sombrio. O relato da Paixão do Senhor parece continuar a reescrever-se na história da humanidade: condenação de inocentes, prepotência dos poderosos, banalização ou normalização do mal, indiferença de tantos, o aparente silêncio de Deus, atentados contínuos contra a vida humana… Tudo parece condenar e fazer desaparecer a esperança, levando-nos à desistência. E muitas vezes o nosso silêncio, em situações que deveríamos condenar e contrariar, é uma arma que mata.

Mas não! Basta de vivermos constantemente agarrados às esperanças mundanas, que nos fazem procurar a Deus apenas quando o mundo nos cai aos pés. Ancoremo-nos na esperança que não se apaga: este Deus que está presente em todos os momentos da nossa vida. Não façamos de Deus um deus ocasional.

Ancoremo-nos na esperança que não se apaga. Ela é:

– a virtude das mulheres e dos homens que fazem projetos e participam na Criação,

– que sonham e plantam a novidade da graça;

– o estímulo para meter mãos à obra e transformar os rastos de destruição numa primavera de vida;

– o garante de que, da cruz ensanguentada, surgirão raios de luz, da ressurreição e vida nova que nenhum túmulo poderá encarcerar.

Ela, de facto, anima a fé nos tempos humanos e fortalece a caridade.

Na Cruz, tudo ganha novo sentido:

O medo transforma-se em confiança;

A escuridão, em luz;

A derrota, em vitória;

A morte, em vida.

Do alto da Cruz, Jesus diz a cada um de nós: “Hoje estarás comigo no Paraíso.”

É esta promessa que sustenta a nossa fé, mesmo quando tudo parece perdido. Porque quem espera em Cristo Crucificado nunca está só. Quem Se entrega a Ele encontra força, mesmo na fraqueza.

Por isso, irmãos: “ancoremo-nos e esperancemo-nos” — nas palavras, nos gestos, nas dores e nas alegrias.

A cruz é dura, mas a Páscoa vem!

Tal como a primavera chega depois do inverno, a alegria virá depois da cruz.

Pás-coa

© D.R.

Jesus morreu para nos salvar! Porquê? – perguntou o mais novo dos meus sobrinhos! Realmente fiquei a pensar. Respondi então: Jesus morreu por amor aos Homens; para que o seu exemplo ecoasse nos corações humanos e todos aprendessem que só amando e ajudando os outros podem ter a felicidade na Terra e nos Céus.

Num diálogo a pergunta é fundamental e sempre mais importante. A resposta é relativa, mas para nós, cristãos, é sempre Jesus Cristo.

A Páscoa é a paz que procura tocar este mundo conturbado.
A Páscoa é a vida que ecoa em direção dos corações desumanizados.
A Ressurreição de Jesus é a maior prova da Misericórdia de Deus.

A Páscoa é dom de Deus, porque Jesus sendo um de nós, saiu de si mesmo, apresentou-se livre, sem mancha diante de Deus, para dar a sua vida pela Humanidade. Por isso a Misericórdia surpreende a vingança. Deus não deixa o ser humano largado à destruição. Para Ele não há causas perdidas.

O drama da humanidade é o drama do Amor e da Misericórdia, porque, por um lado, é muito difícil perdoar e, por outro lado, não somos capazes de garantir a vida daqueles que amamos.

Exemplificando: um pai pode fazer tudo por um filho; contudo não pode é garantir a sua vida para sempre. Só Deus é que pode dar-nos a VIDA. Só Deus é o garante dela e essa é para sempre.

Parece que Jesus está na Cruz, mas realmente não está lá.
Parece que Jesus não está no Sacrário, mas verdadeiramente Ele está lá.

Podemos concluir que:
1. A Ressurreição de Jesus é a vitória da Misericórdia.
2. A Ressurreição de Jesus é o triunfo da Vida sobre a Morte.
3. A Ressurreição de Jesus é o sucesso do Bem sobre o Mal.
4. Jesus Cristo é a melhor oferta de Deus para a Humanidade.
5. Jesus Cristo é o presente de Deus que nos leva à Vida Plena.
6. Jesus Cristo salva sempre e para sempre, quando o ser humano assim o quer.
7. Deus é infinitamente paciente e usa a força terapêutica do tempo para se deixar conquistar.
8. A passagem pela cruz como não pode ser evitada, só pode encontrar sentido no Amor.
9. Deus está sempre à nossa espera e abre os seus braços para nos acolher.
10. É infinito o seu Amor e sua Misericórdia.

CRISTO RESSUSCITOU! ALELUIA! ALELUIA!

A Páscoa: caminho de vida e de esperança

© D.R.

Passados os dias da quaresma, onde durante 40 dias nos fomos preparando, deixando atitudes, gestos e palavras que não nos dignificam mas que apenas nos diminuem enquanto seres humanos e cristãos, eis que ressoa bem alto o anuncio da Páscoa do Senhor: O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia, aleluia.

A Páscoa, centro de todo o ano e da vida cristã, é a festa da vida que faz brotar, em cada um, a alegria de quem é salvo por um Amor Maior. Este amor é demonstrado na maior prova que pode existir: Jesus deu a vida por nós.

Compadecemo-nos muito com a Sua Paixão e Morte. De facto, são episódios do caminho de Jesus ao encontro de cada um, são passos que Ele dá por amor de nós, que nos faz querer estar presentes. Tal como acontece quando morre um familiar e amigo. Marcamos presença na última despedida.

A vida não fica na Sexta-feira Santa, com a morte de Jesus. A Páscoa é vida. Nela celebramos a vitória da vida sobre a morte. Nela Jesus dá a sua vida humana, para que nós tenhamos a vida divina. Por Jesus, com Jesus e em Jesus, a vida não termina com o desaparecimento dos nossos corpos mortais. Para quem crê “a vida não acaba, apenas se transforma”. Passamos a estar com Deus e em Deus.

Jesus está vivo! É o que ressoa na Páscoa. Esta vida também simbolizada pelo comércio dos ovos e dos coelhos, tem o seu centro numa Cruz vazia, sinal da vida doada que brota do Amor generoso de Deus.

Desta vida nova, brota no coração de cada crente a esperança, em particular dos mais desprotegidos e dos que sofrem, que existe algo mais para além do sofrimento, da doença, das guerras e do abandono. Como nos diz o Papa Francisco “No meio das múltiplas dificuldades que estamos a atravessar, nunca esqueçamos que fomos curados pelas chagas de Cristo (cf. 1 Ped 2, 24). À luz do Ressuscitado, os nossos sofrimentos são transfigurados. Onde havia morte, agora há vida; onde havia luto, agora há consolação. Ao abraçar a Cruz, Jesus deu sentido aos nossos sofrimentos. E, agora, rezemos para que os efeitos benéficos daquela cura se espalhem por todo o mundo.”

Sem a ressurreição a Igreja nada mais é que uma multinacional e a fé um regulamento interno, que orienta as ações de cada cristão. Sem a ressurreição cada cristão é um repetidor oco de coisas passadas e de Jesus histórico que já não transforma a nossa vida nem nos convence a viver o Seu mandato: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu vos fiz, vós façais também” (Jo 13,15).

A todos desejo uma feliz e santa Páscoa, do Senhor vivo e ressuscitado.

A vida que vence a morte

© D.R.

“A morte e a vida travaram um admirável combate: depois de morto, vive e reina o Autor da vida.” Assim canta um hino litúrgico da Páscoa, a festa maior do calendário cristão e aquela que mais vai ao âmago da nossa fé. De uma vez só tratamos da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus.

Albert Camus, em o Homem Revoltado, afirmava que Cristo resolveu dois problemas principais: o mal e a morte, dois problemas tão evidentes no nosso pequeno grande mundo. Por isso, a Páscoa que nos preparamos para celebrar, não é uma coisa de 20 séculos mas algo muito presente no nosso quotidiano.

A entrada de Jesus em Jerusalém, vindo de Betânia, assinala o ínicio do caminho de Jesus até à Cruz, momento alto do tempo que vamos viver até domingo.

Jesus chega a Jerusalém sentado num jumento, um burro, que nem cavalo é, aclamado como um rei e de, repente todos aqueles que faziam parte do grupo dos mais importantes começaram a ficar incomodados com este rei que dizia coisas que os punha em causa, a eles e às estruturas e costumes que representavam. Arranjar pretexto para o mandarem prender era tudo o que mais queriam e não seria difícil porque tinham poder, poder que nunca ou raramente transformaram em serviço. E na cidade, as vozes corriam tão velozes quanto naqueles tempos as redes funcionavam: de um lado estavam todos os que se entusiasmavam com Jesus, que fazia o bem por onde passava, como nos lembra o evangelista. Do outro, os que lhe queriam mal por inveja e ciúme do amor que dele e dos seus gestos transbordavam.

A história é sempre a mesma. Ou quase sempre. Esta, apenas é diferente no essencial: a confiança e o amor.

Enquanto os rumores circulavam, Jesus reuniu os seus e antecipando um último gesto, que queria que se perpetuasse para sempre, juntou-os à mesa lugar de toda a intimidade de uma família ou de gente que se quer bem; mas antes lavou-lhes os pés, num ato de humildade que ainda hoje é motivo de escândalo. O rei, viajava num jumento e lavava os pés aos discípulos, para que eles, tal como Ele lhes fez, o fizessem também a outros. É por demais evidente que os senhores do tempo não gostaram da inversão de valores e arranjaram maneira de o prender e de o silenciar, embora nem sequer os que pugnavam pela justiça dos homens encontrassem nele culpa. Diante das injúrias e das calúnias nunca levantou a voz nem foi sobranceiro. Aceitou tudo porque sabia que o seu reino não era deste mundo. E quando foi condenado, carregou a cruz diante daqueles que o tinham aclamado e agora o apedrejavam com palavras e impropérios. No caminho, até ao calvário, cruzou-se com várias pessoas, algumas delas que se compadeceram; outras ficaram indiferentes e outras houve que o ajudaram a levantar-se. A força maior que o acompanhava era a confiança no Pai, mesmo quando lhe pediu para afastar de si o cálice amargo de uma espécie de derrota, que Ele que se fez humano por amor aos homens experimentou ou quando deitou gritou aquele pensamento lancinante de abandono dirigido certeiramente ao Pai: “porque me abandonaste?”.

Foram apenas momentos, como a nossa fé é feita de momentos que juntos fazem um todo, um caminho de dúvidas e de contradições; de zangas e de amuos; de infidelidades e traições, mas sabendo que o amor Dele é sempre maior.

É esta confiança que alimenta a vida cristã; é ela que nos devolve a esperança porque nos sentimos muito amados por Deus. E, esta sexta-feira, a mais santa de todas, quando olharmos para a cruz e descobrimos nela este amor maior que é muito mais do que um aconchego ou um consolo, perceberemos que também nós temos a suprema graça de poder servir, de poder amar e de poder partilhar a nossa e as cruzes dos que nos são próximos levando-lhes esta esperança.

A Páscoa é isto. Hoje e sempre. A vitória da cruz, não como sofrimento mas como lugar de amor.

Não nos cansemos de chorar, de rir e de amar.

Santa Páscoa para todos.