
Sara Sousa Oliveira
Diretora do Diário da Lagoa
Liderei o Diário da Lagoa durante 18 quentes meses de pandemia. Foram meses duros, difíceis e inigualáveis, como todos nós nos recordamos, e sublinho que escrevi três adjetivos similares seguidos, propositadamente. Anos depois, volto agora a assumir as funções de diretora deste jornal num contexto global bem diferente mas com o mesmo sentido de missão e responsabilidade. Não é uma missão fácil, liderar um jornal, já o afirmei no passado. Mas também é bom voltar a sentir de perto o pulso do papel. E, nesta nova fase, seguimos renovados: o lema “Notícias que contam” ganha mais destaque, porque de facto, é de notícias que contam que se faz o Diário da Lagoa.
Numa redação pequena, todas as ajudas contam: a contribuição consciente dos leitores que decidem ajudar, assinando o jornal e pedindo para o receber em casa, a escrita dos cronistas que decidem abraçar a causa, e a vontade de nos ler dos nossos leitores que, mês após mês, procuram a nova edição do Diário da Lagoa nos lugares por onde o deixamos, na Lagoa e fora dela. É desta matéria que somos feitos: de pluralidade, resiliência e ação. Não nos deixamos levar pelo imediatismo do acontecimento mas antes pela sua profundidade e proximidade com o açoriano comum. Levar “histórias que contam” às pessoas, a quem efetivamente pára para nos ler, contando-as, mostrando-as e na melhor das hipóteses, podendo ter o privilégio de tornar as suas vidas melhores, se isso for possível.
A Lagoa está no centro da ilha, mas o centro da ilha não é a Lagoa. Por isso, histórias de cá e de lá são bem-vindas. Todos queremos saber quem é, o que se passa e o que traz quem nos é próximo, mas até a proximidade é relativa, no mundo global em que vivemos. Não temos todos de mostrar o mesmo, nem todos de ir atrás do mesmo. Gostamos de fazer diferente. E é isso que vamos continuar a fazer. Darei, por isso, o meu melhor para que continuemos a despertar a vontade de ler em quem nos procura.

O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, defendeu esta manhã a urgência de uma comunicação ética e profundamente humanizada. O alerta surge num contexto de crescente preocupação com os perigos da desinformação e o uso descontrolado da inteligência artificial no espaço público.
Num encontro com profissionais da comunicação social, realizado no Centro Pastoral Pio XII e partilhado em nota de imprensa pela Diocese de Angra, o prelado assinalou antecipadamente o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A efeméride celebra-se no próximo domingo, 17 de maio, sob o mote “Preservar vozes e rostos humanos”.
Durante a sua intervenção, o bispo diocesano destacou que, num tempo de incerteza, a responsabilidade dos profissionais do setor é fundamental para a promoção da dignidade humana. “Os jornalistas são fundamentais porque fazem uma interpretação autêntica da realidade”, afirmou D. Armando Esteves Domingues.
O prelado reiterou que o papel do jornalismo é, hoje mais do que nunca, um serviço público de literacia mediática. Esta missão torna-se crucial perante a crescente dificuldade que os cidadãos enfrentam em distinguir a verdade nos canais digitais e nas redes sociais.
Demonstrando preocupação com o aumento dos discursos de ódio e a polarização, o Bispo de Angra lamentou a falta de “protagonistas responsáveis” que atuem como descodificadores da verdade. Para D. Armando, a sociedade atual parece ainda incapaz de concretizar valores essenciais como a fraternidade.

Para o prelado, a tecnologia não deve ser absolutizada nem substituir o discernimento humano. “Não se pode confundir o homem com as ferramentas, nem permitir que estas o substituam”, sublinhou, apelando a que a comunicação promova o encontro e a esperança em vez de ser usada para condenar.
D. Armando apontou ainda o modelo cristão da encarnação como o exemplo máximo de uma mensagem que se faz proximidade e pessoa. O bispo desafiou os presentes a combaterem a velocidade impessoal da informação através do rigor e da valorização da presença humana.
O evento contou também com o contributo do jornalista Osvaldo Cabral, antigo diretor da RTP Açores. O profissional traçou um percurso histórico sobre a visão dos últimos seis pontificados acerca do progresso tecnológico e o seu impacto na sociedade.
Osvaldo Cabral recordou o conceito de Internet como o “Novo Areópago”, cunhado por João Paulo II em 2002. Contrastou esta visão com os alertas recentes do Papa Leão XIV sobre as “bolhas digitais” e a dependência de algoritmos que moldam relações artificiais e isoladas.
Segundo a análise do jornalista, a Igreja tem procurado humanizar as invenções técnicas, vendo os meios de comunicação como espaços estratégicos de diálogo. Esta visão converge com os objetivos do jornalismo de proximidade, focado na clareza e no compromisso com os mais frágeis.

No âmbito das celebrações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, assinalado a 3 de maio, o Governo regional dos Açores sublinhou a relevância do jornalismo profissional como pilar da democracia e da cidadania. Sob o lema da UNESCO para 2026, “Moldar um Futuro de Paz”, a tutela defendeu que a existência de órgãos de comunicação social independentes é essencial para enfrentar desafios atuais, como a manipulação de informação e a proliferação de notícias falsas.
Em nota enviada à redação, o secretário regional Paulo Estêvão apontou o novo Sistema de Incentivos aos Media Privados (SIM) como uma ferramenta central na estratégia do executivo. Segundo o governante, esta medida resultou num aumento do apoio financeiro destinado à capacitação, transição digital e sustentabilidade das empresas do setor, visando assegurar o pluralismo informativo perante a concorrência das grandes plataformas digitais e redes sociais.
O “Plano para os Media Açorianos” inclui ainda uma aposta na formação contínua, desenvolvida em parceria com o CENJOR e o Sindicato dos Jornalistas. Estão a ser promovidas ações de qualificação em áreas como a Inteligência Artificial, procurando preparar os profissionais das várias ilhas e da diáspora para as novas exigências tecnológicas. Além da vertente formativa, a tutela destacou o lançamento da revista “Açorianidade” como um instrumento para reforçar a ligação com as comunidades emigradas, numa fase em que a região se prepara também para acompanhar desenvolvimentos no setor aeroespacial em Santa Maria.

Gualter Furtado
Economista
A Faculdade de Economia e Gestão e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores promoveram recentemente, na UAc, uma conferência sobre “Os Desafios do Jornalismo”, que coincidiu com o encerramento da pós-graduação em Economia para os Media, justamente promovida pelas duas Faculdades em conjunto.
Como referiu, na ocasião da conferência, o Presidente da Faculdade de Economia e Gestão, o Prof. Doutor João Teixeira, esta pós-graduação foi destinada a jornalistas, tendo como objetivo fornecer conhecimentos e ferramentas que os ajudassem na sua profissão, quando tratam notícias e trabalhos relacionados com temas económicos. Tratou-se de uma iniciativa louvável, sobretudo numa Região em que os OCS se debatem com muitas carências, desafios e redações pequenas, impossibilitadas de contratar jornalistas especialistas, pelo custo que representam e, por vezes, pela sua inexistência no mercado.
A propósito desta iniciativa, recordo que o Departamento de Economia e Gestão da UAc, nos anos 80 do século passado, celebrou uma parceria com o Açoriano Oriental, que permitiu a realização de um conjunto de conferências sobre temas que, na altura, eram relevantes, como as Arroteias do Pico, Porto Oceânico da Praia da Vitória e a criação de Parques Industriais como instrumento de nascimento de empresas e aumento da produção industrial, eventos enquadrados nos 150 anos do jornal. Paralelamente, possibilitou a publicação de um Suplemento de Economia e Gestão, com a direção do então Presidente do Departamento de Economia e Gestão (DEG), o Professor Doutor José Manuel Monteiro da Silva, e sob a minha coordenação e execução, aliás, fui eu que em outubro de 1984 assinei o primeiro Editorial.

Esta parceria foi celebrada com o então Diretor do Açoriano Oriental, o Senhor Gustavo Moura. Os colaboradores deste suplemento eram docentes do DEG, e os temas tratados abordavam a política económica, o desenvolvimento económico, a gestão orçamental e financeira, a contabilidade, a fiscalidade, os transportes e as acessibilidades. Na gráfica do Açoriano Oriental, o saudoso Professor Andrade sempre nos ajudou na composição deste suplemento, que, na altura, foi pioneiro e representou uma abertura da Universidade à sociedade civil açoriana.
O suplemento terminou quando alguns de nós fomos trabalhar para o setor privado, e os colegas que continuaram na Universidade tiveram de dedicar mais tempo às suas carreiras universitárias, algumas desenvolvidas no estrangeiro, em programas de doutoramento. Este Suplemento de Economia e Gestão pode ser consultado na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (anos de 1984 e 1985), que tem depositados todos os jornais micaelenses.
Uma outra iniciativa na área do jornalismo económico, já neste século, foi o Correio Económico, um suplemento do Correio dos Açores. Este suplemento atingiu centenas de números, era publicado à sexta-feira, tinha como coordenadores o Dr. Luís Guilherme Pacheco e o Dr. Óscar Rocha e, como colaboradores regulares, muitos profissionais ligados à Universidade dos Açores, inclusivamente alguns que já tinham participado no Suplemento de Economia e Finanças. Contou também com muitos economistas e gestores sem ligação à Universidade dos Açores, mas com grande envolvimento na sociedade e economia dos Açores, o que possibilitava ao Correio Económico ter várias secções, que iam da consultoria até à informação sobre os negócios que se faziam nos Açores. Para além disso, promoveu várias iniciativas sobre a importância e o peso que alguns gestores tinham nas empresas e na própria economia açoriana. Foi, de facto, um marco importante no jornalismo económico dos Açores.
Finalmente, uma nota para referir que o jornalismo em geral nos Açores sempre teve uma grande expressão, sendo que alguns dos títulos publicados nos Açores são centenários, como o Açoriano Oriental, que ostenta no seu historial a designação de ser “o mais antigo jornal português”. Paralelamente, existe uma prática de publicação de dezenas de pequenos jornais de paróquias, Casas do Povo, associações cívicas e sociais, sindicatos, etc., verdadeiramente notável.
Não é por acaso que tivemos e temos jornalistas, nos jornais e na televisão, que ocuparam e ocupam cargos de direção a nível nacional, como são os casos de Mário Mesquita, Bettencourt Resendes, Padre António Rego e José Eduardo Moniz.

Beatriz Moreira da Silva
Tenho 32 anos. Vivi 12 em Portugal Continental. Por motivos de força maior regressei aos Açores. Trabalhei em alguns locais, contratos de curta duração e, até mesmo, na ausência deles.
Colaborei por livre e espontânea vontade com jornais, incluindo o Diário da Lagoa. Foi a única “entidade” capaz de me formar, guiar e dar oportunidade. Consegui a minha carteira profissional de colaboradora de informação. É certo que foi fruto do meu trabalho, mas só foi possível pelas pessoas que o suportam. Suportam com trabalho, com dedicação, com inúmeras privações de sono. A verdade é que as notícias surgem sempre e, cada vez mais, o jornal ganha destaque, alcança objetivos e mantém-se firme, única e exclusivamente por quem o gere e pelos seus colaboradores.
Há dez anos, em Castelo Branco, escrevi um livro infantojuvenil intitulado Uma Família Açoriana. Editado em 2025 e lançado no mesmo ano. Contou com a apresentação do Clife Botelho e da Marta Ferreira – julgo que não necessitam de apresentações.
Engraçado! Trata-se de parte da nossa história enquanto açorianos e da Saudade. A adesão foi maioritariamente pela sala cheia no lançamento. Questiono-me onde andam os pais? – mas este assunto já são outros quinhentos.
Dei algumas entrevistas de leves aparições – pelo menos chegou ao continente.
O discurso parece oscilar, mas com propósito – “A menina trabalha aqui? Mas não tinha escrito um livro? Não colabora para o jornal?”. Questões inapropriadas, mas que merecem as minhas repetitivas respostas: Não estou rica; não me apontaram uma arma à cabeça para vir trabalhar ou enviar currículo.
O discurso já vos faz sentido?
O que é nosso, do nosso trabalho, da nossa dedicação é, sem dúvida, o nosso maior mérito. E é trabalho!
Não sei como e a que ponto chegamos, mas sei que vivemos sem oportunidades. Ora temos excesso de habilitações, ora não sabemos, mas também não nos querem ensinar. Afinal querem o quê? Qual é o problema?
Lamento que os Açores continuem poucochinhos – só para alguns. Lamento sobretudo, que a maioria dos jovens não tenha capacidade para comprar uma casa, porque os Açores destacaram-se com subidas de preços anunciados superiores a 20%, com Ponta Delgada a superar os 4.000€/m². Relembrando que a Área Metropolitana de Lisboa registou valores médios de 4.322€/m² em janeiro de 2026.
Agora questiono: Está tudo bem?
Recém-licenciados, não esperem uma vaga exclusivamente na vossa área, a menos que possuam património. Aos que trabalham horas infinitas na hotelaria e com retribuições de meio tostão, aos que trabalham arduamente a recibos verdes, aos artistas, aos que não vos dão oportunidade, o mundo é grande e generoso, desde que corram atrás. Talvez a ausência surta efeito.
Os Açores já não são “o local ideal para criar filhos”, a partir do momento que se esquecem dos que cá nasceram e aqui querem permanecer.
Aos que ficam ou, pelo menos, que ainda permanecem, vamos continuar a redigir a verdade, porque o jornalismo não é um combate de egos, até porque todos temos espelhos em casa.

O alerta do Papa Leão XIV sobre os perigos da Inteligência Artificial, lançado na mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, reflete um receio global perante uma tecnologia que, embora inovadora, carece ainda de regulamentação e tem um impacto profundo no jornalismo e na vida quotidiana. A análise é de Clife Botelho, diretor do Diário da Lagoa, que em declarações à agência Igreja Açores sublinhou a urgência de reforçar a literacia mediática e preservar o humanismo na comunicação social. Para o diretor, a mensagem do Papa ecoa o “medo do desconhecido”, uma reação natural do ser humano perante algo que evolui de forma tão rápida e imprevisível, sublinhando que a voz do Pontífice é um alerta relevante não apenas para a comunidade católica, mas para toda a sociedade civil.
No campo da comunicação social, Clife Botelho sublinha que a Inteligência Artificial (IA) já é uma realidade incontornável e pode ser uma aliada nas redações, nomeadamente em tarefas técnicas como a transcrição de entrevistas ou a organização de dados, permitindo uma gestão de tempo mais eficiente. No entanto, o diretor do Diário da Lagoa deixa um aviso: a tecnologia deve ser encarada estritamente como um instrumento e “nunca como um substituto do jornalista”. O grande risco, aponta, reside na tentação de alguns órgãos de comunicação optarem por conteúdos gerados integralmente por algoritmos, o que sacrificaria a ética, o espírito crítico e a autenticidade que definem o bom jornalismo.
Um dos perigos mais prementes identificados pelo responsável é a proliferação desenfreada de notícias falsas e de plataformas digitais que sobrevivem à custa de “cliques” e publicidade enganosa. Neste ecossistema, torna-se cada vez mais difícil para o cidadão comum distinguir a informação verificada de conteúdos manipulados. Clife Botelho recorda casos mediáticos de imagens geradas por IA que enganaram milhões de utilizadores em todo o mundo, alertando para o facto de que esta confusão generalizada leva a que as pessoas comecem a duvidar de tudo, incluindo do jornalismo sério e credível que se faz nas comunidades locais.
A situação agrava-se com a dependência dos dispositivos móveis para o consumo de notícias. Segundo o diretor do Diário da Lagoa, sem uma base sólida de literacia mediática, os cidadãos ficam vulneráveis a manobras de desinformação e boatos que se espalham instantaneamente nas redes sociais. Por esta razão, Clife Botelho defende que a educação para os media deve ser uma prioridade nas escolas, começando desde os primeiros anos de escolaridade. O objetivo é capacitar as novas gerações para o escrutínio das fontes e para a distinção clara entre factos verificáveis e opiniões infundadas ou discursos de ódio.
Clife Botelho destaca ainda a importância do apelo do Papa para a preservação de “vozes e rostos humanos”. Num futuro onde pivôs virtuais e vozes sintéticas podem simular a presença humana, a questão da autenticidade torna-se central. O diretor sublinha que a perda do lado humano na comunicação não é apenas uma perda profissional, mas um risco para a própria democracia. Além disso, aponta o dedo ao papel dos algoritmos que alimentam a polarização social, criando “bolhas” onde as pessoas apenas recebem conteúdos que reforçam os seus preconceitos, impedindo o diálogo e o contraditório.
Apesar deste cenário desafiante, Clife Botelho evita adotar uma visão catastrofista, acreditando que a regulamentação será o caminho inevitável. Aponta a União Europeia como um exemplo de onde o debate legislativo já começou e reforça o papel vital das entidades reguladoras em Portugal. Para o responsável do Diário da Lagoa, o jornalismo de proximidade tem agora uma responsabilidade redobrada: ser o porto de abrigo da verdade num mar de conteúdos artificiais. “O jornalismo tem de reafirmar a sua utilidade essencial: a verificação dos factos”, conclui, reforçando que a mensagem papal é, acima de tudo, um convite à ética e à defesa de uma comunicação humana num mundo digitalizado.

Alexandra Manes
A democracia morre na escuridão. É esse o lema que permanece na montra do afamado jornal The Washington Post, e que simboliza aquilo que melhor representa o espírito livre do jornalismo. Na prática, o Post é agora o braço armado do bilionário Jeff Bezos, que controla a sua linha editorial de forma inflexível. Com a ascensão do ditador Trump à Casa Branca, e a queda das máscaras dos oligarcas americanos, o jornal passou a assumir uma postura clara, contra quem é adversário do dinheiro, procurando sempre favorecer os interesses do senhor do novo fascismo que agora emana das sedes do poder, nos Estados Unidos, para o resto do mundo.
A democracia morreu, às claras, e ninguém a conseguiu salvar. Lá. E cá? A realidade é inevitável, mesmo que continue a surpreender os mais distraídos desta vida, quando escutam debates e procuram soluções impossíveis de encontrar. Portugal, tal como o resto do mundo, segue a rota de colisão dos americanos. A polarização alcançou proporções monumentais e é agora quase impossível voltar ao que era dantes. Assim, o nosso país corre o risco sério de ser governado por um salazarista convicto, apoiado por neonazis e outros que tal, nos próximos dez anos, se não o for já agora, com as presidenciais de domingo, dia 8.
E o que é que isso tem a ver com o Washington Post? Quase tudo. Nos últimos tempos, graças ao esforço dantesco de algumas personalidades da nossa praça digital, conseguimos apurar a quantidade de vezes que o Ventura foi entrevistado. Às vezes, estão a transmitir uma conversa com ele, em direto, enquanto em rodapé vai passando mais informação sobre o seu gangue de alegados criminosos, e nos jornais de tiragem em papel, aludirem à sua ascensão e suposta inteligência. Quem o ouve com mais atenção sabe que ele não é tão brilhante como o querem vender. Mas, isso não interessa. O que vende é a polémica. O imediatismo. A luz dos holofotes jornalísticos que esmaga a democracia com mais força do que alguma escuridão poderia imaginar.
Já não me restam muitas dúvidas acerca do futuro estatuto de primeiro-ministro de Ventura. Espero apenas que seja como o primeiro mandato de Trump, e que o consigamos impedir de alcançar o segundo. Entristece-me ver como a comunicação social foi transformada, de pilar da democracia para instrumento deste novo poder, que joga com as regras velhas do absolutismo e dos salazarentos dossiers do dinheiro. Aprofundo a minha depressão ao perceber as ameaças que sofre o jornalismo. Problema profundo, com raízes nas dificuldades da periferia, aprofundadas pelas crises e finalmente cimentados em regras e estatutos que promovem o imediatismo e combatem a reflexão de acalmia.
Assim, resta-me apelar a que continuem a pensar pela sua cabeça e desconstruam as mentiras virais. A partir de hoje, serei mais concisa na minha opinião. Três mil e quinhentos caracteres. Eu respeito a lógica e reconheço o esforço hercúleo da comunicação social escrita na manutenção de espaço para as reflexões, mas aborrece-me a ideia de que só posso escrever dentro de uma baliza. A democracia morre, em jaulas. Esperemos que não seja o caso. E, no domingo, não se esqueçam de votar, e de votar com democracia, luz e humanidade, porque hoje são garrafões de água, mas futuramente sabemos nós se teremos acesso ao copo de água?

O DL contactou Rui Pedro Paiva e Rui Soares numa tarde de segunda-feira. Ambos a trabalhar, fizeram uma pausa no seu dia agitado e reviveram connosco memórias de um início de carreira.
Rui Pedro Paiva, natural de Ponta Delgada, nasceu em 1996 e após esta breve apresentação pessoal afirma com convicção: “Desde que me lembro sempre quis seguir jornalismo”. Rui Paiva explica que a paixão pela área surgiu de forma natural. Crescer numa casa de assinantes de jornais, onde estar informado sempre foi crucial, teve grande influência na sua decisão, já que, em criança, folheava jornais mesmo antes de os saber ler. Como não podia deixar de ser, ingressou, mais tarde, em Comunicação Social e Cultura na Universidade dos Açores, seguindo para a Universidade do Porto, onde concluiu o mestrado em Ciências da Comunicação. O seu percurso académico termina em 2019, mas em 2018 já inicia um “estágio no Público”. A sua experiência profissional começa aí e passa por diversas colaborações com jornais, incluindo o Diário da Lagoa. Em 2024 foi diretor do Açoriano Oriental, “num breve período” e, hoje, é “jornalista da Agência Lusa nos Açores” e “correspondente no Público”.
Já Rui Soares não encontrou a sua carreira de sonho à primeira. O fotojornalista de 45 anos, natural de Santa Cruz, na Lagoa, relata que começou “por estudar Educação Física e Desporto”, mas rapidamente percebeu que “não era algo das nove às cinco” que o “fascinava”. “Não era isso que me fazia feliz”, acrescenta. Foi aos 27 anos que sentiu ter “renascido” quando conhece a sua paixão: a fotografia. “Um amigo meu emprestou-me uma câmara numa competição de Rally. Achei o primeiro disparo tão mágico que comprei uma máquina fotográfica no mesmo dia”, conta ao DL com satisfação na voz. Seis meses depois, Rui partiu para Lisboa e lá estudou fotografia. “Encontrei o que queria fazer e sabia muito bem que queria ser fotojornalista e que queria trabalhar para o Público”, conclui convicto. O seu primeiro trabalho de fotojornalismo foi no Festival da Canção de 2011 e, após iniciar um estágio no jornal Público, permanece lá como fotojornalista até hoje.
Atualmente, Rui Paiva e Rui Soares trabalham frequentemente juntos, com dedicação naquilo que fazem. O seu trabalho parece “combinar”, o que acontece, diz o fotojornalista, pela “familiaridade” e “amizade” que existe entre os dois, acompanhada de um uma “paixão” em comum: o jornalismo.
Em 2020 nasce “a primeira reportagem sobre o Rendimento Social de Inserção (RSI)” de Rui Pedro Paiva e Rui Soares. A ideia partiu de uma discussão interna “dentro do próprio jornal”, tal como a decisão de, quatro anos mais tarde, dar seguimento a esta peça.
“Pobreza: quatro anos depois, os relatos de quem vivia do RSI”, é o título da continuação dessa história, que teve grande “impacto nacional”. Em 2024, surge o desejo de perceber onde se encontravam as pessoas que tinham dado o seu testemunho como beneficiárias do RSI. Rui Paiva e Rui Soares regressaram a Rabo de Peixe, não mantiveram qualquer contacto com quem, quatro anos antes, haviam conversado, e o regresso à freguesia trouxe consigo uma busca sem pistas.
“Foi muito reconfortante saber que as pessoas se lembravam de nós”, refletem e realçam que, na maior parte das vezes, os visitantes perdem o respeito pelos cidadãos de Rabo de Peixe. “As pessoas olham para Rabo de Peixe como uma espécie de zoo, e para nós nunca foi isso”. Rui Paiva e Rui Soares recordam ainda a confiança que os rabo-peixenses demonstraram no seu trabalho. “Quando contamos a história de uma pessoa, a base é a confiança que elas têm em nós”, diz Rui Soares. Ambos acreditam que, no jornalismo, dar continuidade às histórias é “importante”. Não é algo que se faça com frequência, e a necessidade de relembrar os leitores de certos assuntos é um aspeto a ter em conta numa altura em que “parece que tudo fica desatualizado de um momento para o outro”, explica Rui Paiva. Foi um trabalho de continuidade, algo que raramente se vê na comunicação social”, acrescenta Rui Soares.
Foi em setembro que se conheceram os resultados da oitava edição do prémio “Analisar a Pobreza na Imprensa”, atribuído pela Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN). “Trata-se da maior rede de instituições que combatem a pobreza a nível europeu”, explica Rui Paiva. O jornalista conta que a decisão da atribuição dos prémios é tomada por 19 concelhos locais, um por cada distrito de Portugal Continental e da Madeira. “Os Açores, mais uma vez, ficaram excluídos, como ficam excluídos de uma série de coisas”, aponta, ressaltando que este é um aspeto “relevante” no que cabe à atribuição do prémio, por demonstrar que o arquipélago não teve qualquer influência na análise e escolha dos vencedores. “É um prémio honesto, que procura valorizar aquilo que se faz”.
Rui Paiva e Rui Soares demonstram uma “grande satisfação” por vencerem o primeiro lugar num prémio que não funciona por participação própria, mas sim que parte de uma escolha da EAPN, que reconheceu o esforço e impacto desta reportagem. Apesar disto, Rui Paiva destaca que, com os problemas que enfrenta o jornalismo atualmente, o que move quem trabalha nesta profissão é o interesse público: “não se anda aqui à procura de prémios”.
Rui Paiva apela a um “voltar a resgatar a essência do jornalismo” e realça que quem escolhe esta profissão “não anda à procura de salários avultados”, mas vive de um trabalho “que exige esforço”. Para o jornalista, a existência do jornalismo nos Açores deve ser vista como “crucial”, dada a realidade social da região, que requer uma atenção constante dos meios de comunicação. “Haver um reconhecimento nacional de um jornalista e de um fotojornalista açorianos, é a prova que há jornalismo feito nos Açores que é reconhecido a nível nacional”, conclui referindo-se ao prémio vencido.
Rui Soares fala em “responsabilidade” e admite senti-la, sobretudo para com quem, futuramente, deseja ingressar nesta área. Mas também a sente nas histórias que conta, através das imagens que captura.
Pedem ainda aos leitores que continuem a acreditar nos jornais e na veracidade das notícias que estes divulgam porque, “só assim se reforça o papel importante que o jornalismo tem na democracia”.

A exposição dos 11 anos do lançamento da edição impressa do Diário da Lagoa (DL) que esteve patente no mês de outubro no Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), na cidade da Lagoa, foi visitada por 425 pessoas, segundo dados recolhidos pelo OVGA.
A seleção de capas e páginas soltas do DL dos últimos 11 anos está agora na Escola Secundária de Lagoa desde o primeiro dia de novembro e podem ser visitadas pelos alunos e comunidade educativa escolar durante o horário de funcionamento da escola.
A exposição vai também rumar aos Estados Unidos da América através do cronista mais antigo com presença regular no DL, Roberto Medeiros, que irá expor a seleção de primeiras páginas dos jornais dos últimos 11 anos no Portugalia MarketPlace, em Fall River, e também na Biblioteca da Casa da Saudade, em New Bedford, Massachussets.
Nessa mesma mostra serão ainda integradas igualmente todas as crónicas que Roberto Medeiros escreveu até à data, perfazendo um total de 83 páginas.

A reportagem “Estética nos cuidados paliativos: o voluntariado que aproxima mulheres” da colaboradora Sara Lima Sousa publicada na edição de setembro do Diário da Lagoa recebeu o Prémio de Reportagem em Cuidados Paliativos de 2025, da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP).
Sara Lima Sousa venceu na categoria de “Estudante universitário” no âmbito do estágio que fez no Diário da Lagoa (DL). Esta é a primeira vez que o jornal é premiado com uma reportagem a nível nacional.
Para Sara Lima Sousa “foi uma surpresa mas com uma sensação boa, de reconhecimento e também por ser o primeiro prémio”.
Como jornalista, já passou pelo jornal Público e no estágio de verão que fez no DL diz ter sido uma “experiência muito positiva, sendo um mês muito bom porque já conhecia as pessoas e o jornal”.
“Quando fiz aquela reportagem não tinha noção que havia um prémio para esta área. Em setembro saiu o comunicado sobre o prémio. Concorri porque tive um bom feedback da reportagem quando foi publicada. Foi uma junção de timing com bom feedback”, diz Sara Lima Sousa ao DL.
A autora conta que “a reportagem despertou-me muito interesse porque junta dois temas que, antes nunca pensei que poderiam estar juntos, a estética e os cuidados paliativos. São dois tópicos que eu nunca tinha imaginado na mesma fotografia. E quando tive conhecimento desse voluntariado nos cuidados paliativos pareceu-me um trabalho muito interessante”.
“Sinto-me orgulhosa por ter sido a primeira colaboradora a conquistar um prémio no Diário da Lagoa mas tenho a certeza que não vou ser a única por isso sinto-me orgulhosa e esperançosa no futuro. Os meus avós são da Lagoa, a minha família é da Lagoa e por isso é sempre bom ganhar este tipo de reconhecimento a partir do trabalho do jornal da terra”.
Sara Lima Sousa tem 22 anos e tem mestrado em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Coimbra. Desde 2022 que colabora com o Diário da Lagoa.