Log in

O erro não é falta de multas

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Os números da operação Páscoa 2026 são desoladores: 20 mortos, 53 feridos graves e 845 feridos ligeiros, distribuídos por um total de 2.602 acidentes. Em termos de fiscalização, foram controlados mais de 52.000 condutores.

Analisando os dados dos últimos cinco anos, a partir de 2022 e excluindo o período anterior marcado pela distorção da pandemia, o número médio de mortos por operação é de 9,4, enquanto os feridos graves se situam nos 39 e os acidentes nos 1.915.

Apesar da subida gradual em praticamente todos os indicadores, 2026 não é apenas mais um ano pior. É um ano fora da escala. E isso exige mais do que uma reação imediata. Exige análise. Não deve ser descartado como um simples outlier, nem usado como pretexto para respostas automáticas de eficácia duvidosa, como o aumento indiscriminado de multas.

A primeira conclusão é desconfortável. O aumento da fiscalização não apresenta um impacto direto e mensurável na redução de acidentes, mortos ou feridos. Mas isso não significa que a fiscalização não funcione. Significa que pode não estar a ser aplicada onde mais importa.

Entre as estradas com maior sinistralidade em Portugal, o padrão repete-se com consistência. A A5, que liga Lisboa a Cascais, e o IC19, entre Lisboa e Sintra, surgem regularmente entre as vias com mais acidentes e concentram também uma parte significativa da fiscalização, pela densidade de tráfego e facilidade logística. Ainda assim, apesar do elevado número de ocorrências, trata-se sobretudo de acidentes menos letais. Já em estradas nacionais como a EN125, no Algarve, o cenário é diferente. Há menor presença de fiscalização contínua e maior gravidade nos acidentes. Os dados globais ajudam a clarificar esta diferença. As estradas nacionais representam cerca de 20% dos acidentes, mas concentram mais de 30% das vítimas mortais. O resultado é um desalinhamento difícil de ignorar. Fiscaliza-se com maior intensidade onde há mais circulação, mas é fora desses eixos que os acidentes tendem a ser mais fatais.

Se cruzarmos volume de tráfego com sinistralidade, o contraste torna-se ainda mais evidente. Em vias como o IC19, com tráfego médio diário acima dos 90.000 veículos, ou a A5, que frequentemente ultrapassa os 60.000, o número absoluto de acidentes é elevado, mas a letalidade relativa mantém-se baixa. Já em estradas nacionais como a EN125, com volumes tipicamente entre 10.000 e 30.000 veículos por dia, a proporção de acidentes graves e mortais é significativamente superior. Os dados agregados confirmam este padrão. As estradas nacionais concentram cerca de 20% dos acidentes, mas mais de 30% das mortes, enquanto as autoestradas, apesar de suportarem a maior fatia do tráfego, apresentam uma taxa de mortalidade bastante inferior. Traduzindo isto num indicador simples, mortes por mil milhões de veículos, o risco em estradas nacionais pode ser duas a três vezes superior ao das autoestradas. O problema não está apenas onde se conduz mais, mas onde cada quilómetro percorrido tem maior probabilidade de terminar mal.

Esta leitura é necessariamente superficial. Cruza dados disponíveis, mas não esgota a complexidade do problema. Ainda assim, é suficiente para pôr em causa uma conclusão cómoda. A de que mais multas ou mais fiscalização, em termos absolutos, são por si só a solução. Os números sugerem o contrário. Fiscaliza-se mais, sanciona-se mais, e nem por isso o risco diminui onde mais importa. O problema não parece estar na quantidade, mas na forma. Não é apenas fiscalizar mais, é fiscalizar melhor, onde o risco é efetivamente maior e com critérios que tenham impacto real no comportamento. E é, sobretudo, intervir nas condições em que se conduz. Melhor sinalização, desenho de vias mais consistente e gestão de tráfego mais inteligente. Sem isso, continuaremos a medir esforço, mas não necessariamente resultados.

Não é alarme, é realidade: as contas dos Açores preocupam (e muito)

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Mesmo não sendo economista e com a informação que hoje abunda, fico demasiado preocupado com as contas da nossa Região.

E digo-o de forma direta, como costumo falar: isto não é conversa de técnicos, nem um tema para ficar fechado em gabinetes. Isto diz respeito à vida real dos Açorianos. E aquilo que os números mostram é preocupante, muito preocupante.

Durante anos, o Tribunal de Contas tem vindo a avisar. Não foi uma vez, não foi duas. Foram anos seguidos a dizer a mesma coisa: há problemas nas contas, há falta de controlo, há dívida a mais e transparência a menos.

E quando uma entidade destas repete o mesmo alerta durante uma década, há duas hipóteses: ou ninguém ouviu… ou não quiseram ouvir.

Os números não enganam. Em 2024, tivemos um défice de cerca de 247 milhões de euros. Em 2025, voltamos a ter um défice perto dos 200 milhões. Isto não é um acidente, é um padrão.

Ao mesmo tempo, a dívida já anda perto dos 3,4 mil milhões de euros, cerca de 60% da nossa economia. E mais grave ainda: já ultrapassámos os limites legais de endividamento em mais de mil milhões de euros.

Isto tem de ser dito como é:

Estamos a gastar mais do que aquilo que temos.

E estamos a fazer isso há anos.

Depois há outro problema que me preocupa ainda mais: a falta de clareza nas contas. O próprio Tribunal de Contas diz que as contas são aprovadas com reservas. Isto quer dizer, em linguagem simples, que passam… mas não estão bem.

E se nem as contas são claras, como é que alguém pode garantir aos Açorianos que tudo está controlado?

A isto junta-se uma dependência enorme de dinheiro que vem de fora , do Estado e da Europa. Atenção: esse dinheiro é importante, claro que é. Mas não podemos viver permanentemente agarrados a isso, como se fosse solução para tudo. Porque não é.

E depois temos as empresas públicas. Sempre que há prejuízos, quem paga? Somos todos nós. Sempre que há decisões erradas, a conta vai parar à dívida da Região. E ninguém assume responsabilidades.

O mais frustrante no meio disto tudo é que os problemas são conhecidos. O Tribunal de Contas tem recomendado, ano após ano, exatamente o que é preciso fazer: mais rigor, mais controlo, menos dívida, mais transparência.

Mas a pergunta é simples: O que mudou realmente? Muito pouco.

E enquanto nada muda, a Região continua a andar na corda bamba. Pode não cair hoje. Pode não cair amanhã. Mas está cada vez mais perto do limite.

E há uma coisa que temos de perceber de uma vez por todas: não há autonomia a sério sem contas certas. Podemos falar de autonomia política o que quisermos, mas se dependemos sempre de dinheiro de fora e se estamos afogados em dívida, essa autonomia é cada vez mais frágil. Isto não é ser alarmista. É ser responsável.

Os Açores precisam de mudar de rumo. Precisam de mais verdade nas contas, mais rigor na gestão e mais coragem para tomar decisões difíceis. Porque continuar assim é fingir que está tudo bem quando não está.

E a verdade é esta, sem rodeios: os Açores estão a viver no limite.

E quem anda no limite durante muito tempo, mais cedo ou mais tarde paga a fatura.

Os números não mentem

José Estêvão de Melo

Ouvimos muitas vezes dizer que os números não mentem, o que está correto. Mas isto porque o ato de mentir está associado a uma intenção de enganar, e apenas entidades com capacidade de intencionalidade são capazes de mentir, sendo os números desprovidos de qualquer intencionalidade, então é correto dizer que não mentem, da mesma maneira que não acusamos ninguém de mentir quando acredita legitimamente que o que está a dizer é verdade, independentemente de ser verdade ou não o que foi dito. Se não é verdade dizemos que estava enganado. Um paralelo simples para interiorizar este conceito é o caso de bater com o dedo mindinho do pé num móvel, o móvel não é bom nem mau, porque não é capaz de maldade ou bondade.

Estabelecemos até aqui que os números não mentem, mas os números também não representam a totalidade da realidade, por exemplo, em certas partes rurais de Inglaterra algumas zonas com mais cegonhas tinham mais bebés. É verdade, mas não é toda a verdade. Não podemos olhar para estes números, que são verdadeiros, e dizer que as cegonhas trazem bebés, ou que gostam de bebés, ou que os bebés trazem cegonhas. Estes dois números estão correlacionados, mas não existe uma relação causal entre os dois, isto porque existem outros fatores não representados nestes números que afetam o número de crianças ou o número de cegonhas, como por exemplo a disponibilidade de alimento em zonas rurais ser maior e por isso mais atrativa para as cegonhas.

Uma relação causal é quando um acontecimento é causado por, ou causa outro. Por exemplo, podemos dizer que a chuva molha o chão, mas não podemos dizer que choveu só porque o chão está molhado. Há outros motivos que fazem o chão ficar molhado para além da chuva, como por exemplo lavar o quintal para a festa. No caso das cegonhas existe uma correlação entre o número de bebés e o número de cegonhas, mas não existe uma relação causal entre os dois, no sentido em que ambos podem mudar sem influência mútua.

A estatística faz parte da nossa vida, e a prova disto é que muitas das nossas escolhas são feitas com base em estatísticas, por exemplo sempre que escolhemos a forma de sair de casa, tendencialmente descemos as escadas em vez de saltarmos da janela do primeiro andar, que apesar de ser mais rápido, tem maior probabilidade de partir ossos, ou se ao me pesar a balança indicar menos 10 kg, apesar de ser possível ter perdido este peso, era mais provável a balança estar avariada, e fui ver se tinha alguma coisa debaixo da balança, e para infelicidade minha tinha uma pequena peça de plástico entre o prato da balança e o chão.

A inteligência artificial de atualmente, aprende por inferências estatísticas, que como já vimos não é suficiente para decidir corretamente. Um caso conhecido foi com a deteção de melanomas por inteligência artificial, que em termos estatísticos tem melhores resultados a detetar melanomas do que os profissionais humanos, no entanto um estudo de 2017 publicado na revista Nature, verificou que as imagens que continham uma régua tinham uma taxa de positividade maior, isto porque os modelos de inteligência artificial aprenderam a associar à positividade de melanoma outros elementos contextuais como a presença de uma régua, não porque a régua tenha uma relação causal com a existência de melanoma, mas porque quando um profissional de saúde humano identifica um melanoma coloca uma régua ao lado para monitorizar a sua evolução, e o modelo de inteligência artificial aprendeu que as imagens que continham réguas eram mais prováveis de ser positivo e atribuiu um relação causal entre a presença de uma régua e a positividade de melanoma, quando não existe esta causalidade, apenas correlação.

Em conclusão, os números não mentem, mas também não dizem a verdade — e isso pelo mesmo motivo: são o que são e precisam apenas ser interpretados. É necessária uma inteligência geral (que a artificial ainda não possui) para olhar para os números, avaliar se são suficientes para tirar conclusões e, se não forem, ter a coragem de não concluir — ou então persistir na procura de mais e melhor informação, para concluir com honestidade e causalidade.