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O si bemol perdido

Dr. Ângelo Flecha Ançã © DIREITOS RESERVADOS

No final dos anos sessenta, o meu avô João passou uma temporada em New Bedford. Foi a forma que o seu sobrinho Jánin encontrou para retribuir a hospitalidade que, anos antes, o seu tio lhe oferecera em sua casa.

Sabendo dos constrangimentos que ele enfrentava por causa da surdez progressiva num ouvido, o Jánin levou-o a um conceituado otorrinolaringologista de Boston. Foi ali que o médico, com uma pistola que parecia saída de um laboratório futurista, lhe devolveu o som. Uma simples picada, seguida da colocação de um catéter minúsculo, que mantinha aberto o caminho recém-criado para a audição.

Durante dias, o meu avô viveu em êxtase. Dizia sentir-se leve, rejuvenescido, a ouvir tudo e todos — até a gargalhada de um melro negro que regressava ao ninho na árvore ao fundo do jardim.

Mas, de regresso a São Miguel, o paraíso começou a esbater-se. Poucos meses depois, voltámos a vê-lo com o semblante triste, resmungando quando lhe dizíamos que o si bemol que ele acreditava arrancar do violoncelo nos soava a lá natural. Os ensaios do trio Lima — contratado para casamentos e festas pela ilha — eram interrompidos por breves explosões de impaciência, sempre que lhe chamávamos a atenção para as frequentes desafinações. Nessas alturas, pousava o arco na estante, encostava o violoncelo, levantava-se devagar e desaparecia para ir tirar umas boas fumaças do seu fiel Santa Justa sem filtro.

Um dia, depois de dar uma aula de violino ao filho de um médico, o meu pai expôs-lhe o problema do meu avô. Sentia-se à vontade com o Dr. Ângelo Flecha Ançã, licenciado por Coimbra em 1950, otorrinolaringologista no IPO de Lisboa e com estágios em Nova Iorque, Boston e Vancouver. O médico concordou em recebê-lo poucos dias depois.

No seu consultório da Rua do Valverde, perto da igreja matriz de Ponta Delgada, o Dr. Ançã observou longamente o meu avô. Depois, levantou-se, abriu um móvel, retirou uma caixa e pousou-a sobre a secretária. Abriu-a e mostrou o tal instrumento mágico, igual ou semelhante àquele que, em Boston, lhe devolvera a audição.

— Trouxe-o o ano passado dos Estados Unidos. Testei-o lá várias vezes, mas está por estrear aqui nos Açores — disse o médico.

— Então, Sr. Doutor, faça o favor de fazer como o seu colega de Boston — pediu o meu avô.

E assim a operação repetiu-se. O sorriso regressou-lhe ao rosto. E os sons do violoncelo, do violão ou da flauta voltaram a fluir mais límpidos, mais livres, como se a música tivesse finalmente reencontrado o caminho de volta até ele.

Este episódio consolidou a amizade que já unia o meu pai ao otorrinolaringologista. Durou, porém, pouco tempo. O Dr. Ançã, nascido em Beja a 5 de setembro de 1923, faleceria a 18 de maio de 1971, contando apenas 47 anos de idade. Confirmei, recentemente, que o consultório do Dr. Ançã mantém todos os instrumentos de ORL guardados em expositores, tipo museu, e que o mesmo consultório mantém atividade médica pela filha na especialidade de Psiquiatria.

O achismo da nossa opinião

Octávio Lima
Professor

Há muito tempo que dois chavões, empregados com excessiva frequência por comentadores da rádio e da televisão, me causam particular incómodo. Refiro-me ao “eu acho” e “esta é a minha opinião”. Confesso que ainda não consegui discernir os objetivos desta tendência, o que me suscita várias interrogações. Conto com a vossa colaboração para as esclarecer.
Serão estas expressões um selo de independência, uma forma de reforçar a credibilidade perante um público específico? Farão parte de uma estratégia retórica mais ampla, destinada a criar uma ligação de suposta autenticidade e a reduzir a defensividade do ouvinte? Convenhamos que ao apresentar uma ideia como mera perspetiva pessoal, o comentador não só torna o argumento mais palatável e difícil de contestar frontalmente, como também se facilita a introdução de afirmações fortes ou polémicas sob o manto da subjetividade.

E não estaremos perante um mecanismo de defesa, consciente ou não, contra a chamada cultura do cancelamento e a condenação sumária nas redes sociais? Ao demarcarem o território do “mero ponto de vista”, estarão os comentadores a resguardar-se antecipadamente de críticas mais contundentes?

Será que o “achismo” usa a opinião como escudo protetor? Perante a ausência de dados ou rigor, a “minha opinião” converte-se muitas vezes numa licença para a descarga de banalidades – uma estratégia retórica que, afinal, nivela todos os discursos, colocando um facto comprovado e um preconceito infundado no mesmo plano.

Mas se tudo se reduz ao território da “mera opinião”, da análise do especialista ao palpite do leigo, não estaremos a perder a capacidade coletiva de hierarquizar a qualidade e a fundamentação dos discursos? Ao normalizarmos que qualquer afirmação, por mais frágil, merece igual respeito, não estaremos a abdicar de um critério essencial para o pensamento crítico? E, na prática, quando a autoridade da evidência é posta sistematicamente em pé de igualdade com a assertividade da convicção vazia, o resultado inevitável não será o empobrecimento do debate público?

Ao “achar” e imediatamente declarar que se trata de uma “opinião pessoal”, não se estará a fomentar uma tríade perniciosa: a preguiça intelectual, a inibição da crítica (e da autocrítica) e, em última análise, uma cómoda desresponsabilização pelo que se diz?

Ou estaremos, afinal, perante uma técnica dissimulatória? Ao amparar-se no manto da opinião pessoal, o comentador pode estar a introduzir uma acusação grave ou uma meia-verdade como se fosse um mero juízo inocente — uma manobra que o exonera do escrutínio factual e da responsabilidade pelo conteúdo emitido. Em suma, não será isto a pura arte de “lançar a pedra e esconder a mão”?

E, numa camada mais profunda, o abuso crónico destes chavões não funcionará como uma barreira retórica? Em vez de estimular o diálogo, a fórmula “é apenas a minha opinião” parece servir frequentemente para encerrá-lo, imunizando o discurso contra qualquer contraditório.
Tantas perguntas. Tantas dúvidas que este vício de linguagem, aparentemente inofensivo, acaba por suscitar.

Emigrou, mas agora rejeita os imigrantes

Octávio Lima
Professor

Há alguns anos, uma mulher pediu-me amizade numa rede social. Alegava conhecer-me da infância e, para confirmar a sua identidade, citava nomes da minha família, amigos de antigamente e vizinhos da época.

A história por trás do pedido era como um conto: ela era a menina que, no final dos anos 1960, tinha emigrado com os pais para o outro lado do Atlântico, onde se radicou, não tendo mais regressado ao lugar onde nasceu. 

As impressões que guarda do seu passado na ilha permanecem congeladas no tempo. As imagens do seu presente, porém, resumem-se a manifestações exacerbadas, nas redes sociais, de um novo patriotismo: o apoio incondicional ao atual chefe máximo e o combate feroz àqueles que, tal como ela há sessenta anos, imigraram sonhando colher os doces frutos da prometida árvore dos dólares.

Quando a saturação desses temas se instala, replica todos os feitos que tornaram o seu país de acolhimento a maior potência mundial. Assim, espraia-se na celebração do Dia da Queda das Torres, do Dia da Independência, do Halloween, do Dia de Ação de Graças – com os seus inevitáveis perus desmedidos. E, na míngua absoluta de assunto, subsiste sempre o postal de uma bandeira cravada na areia, contra o pano de fundo de um pôr do sol no horizonte.

Ela não está sozinha; muito pelo contrário. Sempre que ostenta o seu orgulho patriótico e desprezo pelos imigrantes, recebe apoio incondicional de amigas que não só reforçam a mensagem, como lhe acrescentam substância e tempero. Uma cola-lhe a imagem de um fac-símile do Preâmbulo da Constituição, riscado com o grafito ‘We the people have had enough’. Outra acrescenta a estampa do Grande Chefe. Uma terceira anexa um selo que agradece o ‘heroico trabalho’ das milícias de caça ao imigrante. 

Creio residir aqui uma ironia profunda e triste: quem conheceu na pele o desenraizamento, a saudade e a luta por uma vida melhor, vira agora as costas a quem trilha o mesmo caminho. Esta emigrante que hoje critica os imigrantes poderá ser vítima do que os especialistas chamam de ‘amnésia geracional’, apagando da memória as lutas dos seus antepassados — ou as suas próprias. 

A história da emigração portuguesa é um testemunho de resiliência, mas também de solidariedade comunitária. Esquecê-lo é trair a nossa memória coletiva. O sucesso alcançado não deve ser uma escada que se puxa para cima, mas uma ponte que se estende para trás.   

No fundo, a condição de imigrante — com a sua vulnerabilidade e esperança — é um laço humano mais forte do que qualquer diferença de origem ou época. Negar este fio que nos une é, em última análise, negar uma parte essencial de quem somos.