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Tirem-me a autonomia

Carlos Caetano Martins
Engenheiro Técnico Sénior
Dirigente Iniciativa Liberal Açores

Eu, contra a autonomia, me levanto.

Calma. Antes que alguém me acuse de traição à causa açoriana, convém deixar isto claro: não me levanto contra os Açores, nem contra o direito dos açorianos a decidirem o seu destino. Levanto-me, isso sim, contra um modelo que nos promete autonomia e nos entrega dependência.

Porque mesmo com autonomia os Açores continuam entre as regiões mais pobres do país. O PIB per capita permanece 12,6% abaixo da média nacional. O poder de compra fica-se pelos 87,6 pontos, quando no continente ultrapassa os 100. E tudo isto apesar de recebermos, por habitante, mais transferências públicas do que qualquer região continental. Em 2026, entre a Lei das Finanças das Regiões Autónomas e os mecanismos de coesão, vão chegar mais de 1.400 euros por açoriano.

Recebemos mais e continuamos atrás. Porque é que mesmo recebendo mais recursos continuamos a ter resultados tão pobres? Talvez o problema já não esteja apenas no montante das transferências. Talvez esteja naquilo que fazemos com elas.

Ou, talvez o problema não esteja na quantidade de dinheiro que recebemos. Talvez o problema esteja naquilo que ele não está a construir.

O mundo está cheio de exemplos que ajudam a perceber o caminho que devemos seguir.

Vejamos as Ilhas Faroé. Recebem da Dinamarca um subsídio equivalente a cerca de 4% do seu PIB. Ainda assim, financiam mais de 90% do seu orçamento com recursos próprios. Ao longo da sua autonomia apostaram numa economia exportadora, assumiram responsabilidades fiscais e foram reduzindo a dependência de Copenhaga. Apesar de serem uma região periférica, hoje têm níveis de riqueza próximos dos restantes dinamarqueses. A autonomia, no caso deles, serviu para ganhar independência, não para a substituir.

No reverso da medalha podemos olhar para a Polinésia Francesa. Durante décadas recebeu transferências que chegaram a representar 20% ou 30% do seu PIB. O dinheiro nunca faltou. A dependência do estado francês também não. A única coisa que se fez foi garantir estabilidade, ao invés de uma economia capaz de andar pelas suas próprias pernas.

Por último observemos ainda as ilhas de Saint Martin e Saint-Barthélemy. Em 2017, o furacão Irma atingiu estas ilhas. A mesma tempestade, territórios diferentes. Saint-Barthélemy recuperou rapidamente. A parte francesa de Saint-Martin ficou presa na dependência do Estado central. Já Sint Maarten, a parte neerlandesa da ilha, apesar de ter recebido centenas de milhões de euros, enfrentou dificuldades sérias na execução da recuperação. A tempestade foi igual, e o dinheiro não resolveu tudo. O que fez a diferença nos resultados obtidos foi outra coisa: capacidade económica e institucional para transformar recursos em desenvolvimento.

E é aqui que a conversa começa a ficar desconfortável para nós.

Porque ninguém cresce sem investimento. Ninguém ultrapassa a insularidade sem apoio. Mas nem todo o investimento cria futuro, e nem toda a transferência cria autonomia.

Já não é uma questão de quanto dinheiro é suficiente. A verdadeira questão é perceber porque após 50 anos continuamos tão dependentes das transferências nacionais.

Temos mar, energia geotérmica, renováveis, turismo de natureza e uma posição atlântica que muitos países invejariam. Não nos faltam recursos! Falta-nos, demasiadas vezes, a capacidade de os transformar em riqueza duradoura e políticos com visão arrojada para nos tirar deste marasmo.

O artigo 229.º da Constituição determina que o Estado deve corrigir as desigualdades resultantes da insularidade. E bem. Que o faça. Mas que o faça criando capacidade. Que o faça criando economia. Que o faça criando autonomia a sério!

Porque há quem queira combater a dependência de transferências da República e não apenas as perpetuar com boas intenções.

Os Açores têm como lema uma frase que não devia ser apenas decorativa: “Antes morrer livres que em paz sujeitos.” Talvez seja aqui que o discurso tenha de ser testado. Não é pedir mais fundos, mas fazendo melhor com o que nos dão. Não és estar de mão estendida, mas construindo caminho para o futuro. Deem-nos os meios para podermos partir e as razões para querermos ficar. E isto não é uma ameaça, é uma exigência de liberdade. Nós queremos ficar, mas de pé.

Quando a política precisa sempre de inimigos

Márcia Pimentel
Técnica Auxiliar de Saúde
Estudante do 2.º ano da Licenciatura em Serviço Social

Nos últimos dias, a propósito da greve geral e da contestação às alterações à lei laboral, voltámos a ouvir um tipo de discurso político que merece que paremos para pensar. Não falo apenas da discordância em relação à greve. Discordar é legítimo. Numa democracia, cada pessoa tem o direito de apoiar, criticar ou questionar uma forma de protesto. O problema começa quando a discordância deixa de ser debate e passa a ser uma tentativa de fazer parecer suspeito aquilo que é um direito.

Quando os sindicatos são comparados a estruturas criminosas, quando os trabalhadores em greve são apresentados como se estivessem a prejudicar o país só porque apeteceu e era véspera de feriado, ou quando a contestação social é tratada como uma ameaça, há uma pergunta que se impõe: que ideia de democracia está por trás deste discurso?

A greve não é um favor concedido pelo poder. É um direito constitucional. Existe precisamente porque, ao longo da história, os trabalhadores perceberam que, sozinhos, tinham pouca força perante patrões, governos e decisões económicas que quase sempre acabam por pesar sobre quem trabalha. A greve incomoda, sim. Interrompe rotinas, cria pressão, obriga a olhar para problemas que muita gente preferia não ver nem discutir. Mas é exatamente por isso que ela existe. Um direito que só pudesse ser exercido sem incomodar ninguém seria apenas uma promessa vazia.

Podemos discutir se uma greve é oportuna. Podemos discutir os seus efeitos. Podemos até discordar da estratégia sindical. Mas uma coisa é discutir; outra, bem diferente, é transformar sindicatos em inimigos públicos. Os sindicatos são organizações reconhecidas numa sociedade democrática. Têm defeitos, como todas as instituições humanas. Podem e devem ser criticados. Mas não podem ser tratados como uma ameaça criminosa só porque contestam medidas políticas que são visivelmente prejudiciais para todos os trabalhadores.

E é aqui que a questão se torna mais séria. Esta forma de fazer política não é inocente. E são quase sempre os mesmos discursos, já nossos conhecidos, que parecem precisar de um inimigo para existir. Nunca há problemas complexos a analisar com calma. Nunca há desigualdades sociais a discutir com profundidade. Nunca há escolhas políticas a explicar. Nunca há responsabilidades a assumir. Há sempre alguém para culpar: os sindicatos, os trabalhadores, os professores, os funcionários públicos, os imigrantes, os beneficiários de apoios sociais, os jornalistas, os ativistas, a esquerda, quem protesta, quem discorda, quem não se cala.

Talvez devêssemos perguntar com mais frequência: qual é o objetivo de uma política que raramente procura pontes e quase sempre aponta culpados? A quem serve transformar cada conflito social numa guerra moral? Quem ganha quando os trabalhadores deixam de se reconhecer uns nos outros e passam a olhar com desconfiança para os seus próprios instrumentos de defesa?

Ao chamar privilégio a um direito constitucional, ao chamar bloqueio ao que é participação cívica, ao chamar ameaça ao que é contestação social, foge-se ao que realmente devia estar em discussão. Em vez de falarmos sobre precariedade, salários, horários, despedimentos, conciliação entre vida profissional e vida familiar, segurança laboral ou dignidade no trabalho, ficamos presos ao ruído das palavras que mais parecem gritos de guerra. A política deixa de procurar soluções e passa a alimentar ressentimentos.

Nos Açores, há demasiada gente que trabalha muito e, ainda assim, vive sempre no limite: baixos salários, rendas cada vez mais pesadas, contas que não esperam e uma pobreza que continua a marcar a vida de muitas famílias. Numa realidade assim, atacar a greve é, no fundo, pedir silêncio a quem já não tem voz.

É importante dizê-lo: os direitos laborais não caíram do céu. Foram conquistados. A jornada de trabalho, as férias, os subsídios de férias e Natal, os descansos, a proteção na doença, os contratos, a negociação coletiva e o direito à greve resultam de lutas sociais concretas. Houve quem perdesse emprego, salário, liberdade e até a vida para que hoje muitos considerem “normal” aquilo que antes parecia impossível. Por isso, quando alguém tenta ridicularizar ou criminalizar a luta laboral, não está apenas a comentar uma greve. Está a mexer na história democrática do país.

O perigo deste discurso não está apenas no exagero das palavras. Está na tentativa de habituar a sociedade à ideia de que quem reivindica direitos é suspeito, quem protesta é obstáculo e quem discorda é inimigo. É difícil não ouvir ao longe o eco da velha senhora. 

Não precisamos de concordar todos com a mesma greve, com o mesmo sindicato ou com o mesmo partido. Mas precisamos de defender um princípio básico: numa sociedade democrática, trabalhadores organizados não são criminosos, sindicatos não são inimigos e a greve não é chantagem. É uma forma legítima de dizer que há limites, que há direitos e que o trabalho humano não pode ser tratado como uma peça descartável da economia.

É importante refletir sobre o país que queremos construir: um país onde os problemas sociais são discutidos com seriedade, ou um país onde se procura sempre um inimigo para distrair daquilo que realmente importa?

Porque quando a política precisa sempre de inimigos, talvez o verdadeiro problema não esteja nos que protestam. Talvez esteja nos que não sabem governar sem dividir.

O dia em que mediram quanto tempo um agente demora a construir um ataque

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Em 13 de maio de 2026, investigadores da Universidade de Berkeley, do Max Planck Institute for Security and Privacy, e de três empresas que provavelmente estão a correr no seu browser enquanto lê isto, Anthropic, OpenAI e Google, publicaram um estudo com um título que parece saído de um exercício académico mas que, lido com atenção, é mais perturbante do que qualquer cenário de ficção científica que já tenha encontrado sobre inteligência artificial. O estudo chama-se ExploitGym, e a questão que lhe dá origem é esta: conseguem os agentes de IA actuais pegar numa vulnerabilidade conhecida de software e transformá-la num ataque funcional?

A resposta, documentada ao longo de 898 casos reais retirados de projectos como o FFmpeg, o OpenSSL, o motor JavaScript V8 do Chrome e o kernel Linux, é que sim, em muitos casos conseguem, e fazem-no dentro de duas horas. O Claude Mythos Preview, o modelo frontier da Anthropic que não está disponível ao público em geral, explorou com sucesso 157 das 898 instâncias. O GPT-5.5 da OpenAI conseguiu 120. Os investigadores deram a cada agente três coisas: o código-fonte do programa vulnerável, um input que desencadeia a falha, e um ambiente de execução isolado dentro de um contentor. A tarefa era transformar esse input num exploit real, ou seja, obter execução de código não autorizada, ler uma flag que o programa não devia revelar por nenhuma via legítima. Não houve atalhos. Não foi um teste de conhecimento geral sobre vulnerabilidades. Foi trabalho técnico de baixo nível: raciocinar sobre layouts de memória, encadear primitivas de ataque, adaptar abordagens quando a primeira falhou.

O detalhe que mais me ficou foi outro. Quando os investigadores activaram as defesas de segurança standard — ASLR, stack canaries, a sandbox do V8, KASLR no kernel, o número de sucessos caiu substancialmente. No Claude Mythos Preview, de 157 para 45. Mas não chegou a zero. O modelo encontrou formas de contornar cada uma das defesas: overwrites parciais de ponteiros para derrotar o ASLR, técnicas conhecidas de fuga da sandbox do V8, e truques de kernel como sobrescrever o caminho modprobe_path e canais laterais para iludir o KASLR. Estas não são técnicas triviais. São o tipo de trabalho que, num contexto de segurança ofensiva real, exige anos de especialização e muito tempo de engenheiro. O modelo fez em menos de duas horas, em vários casos, sem garantia de sucesso e sem acesso a nenhuma informação além do código e do input inicial.

Mas o dado mais desconcertante de todo o estudo não estava nas tabelas de resultados. Os investigadores notaram que, com frequência, os agentes conseguiram execução de código através de uma vulnerabilidade diferente da que lhes foi apontada. Foram às 898 instâncias com um alvo definido e encontraram, pelo caminho, outros buracos no código que os investigadores nem tinham identificado como relevantes. Um auditor de segurança humano faz isto raramente, e geralmente depois de muito tempo a examinar o código. O agente fê-lo como subproduto da tentativa de resolver o problema que lhe foi atribuído.

Há uma distinção que importa fazer antes de continuar. Um exploit, no sentido técnico, é diferente de uma vulnerabilidade. A vulnerabilidade é o bug, a falha no código. O exploit é o mecanismo que transforma essa falha num ataque concreto, a sequência de passos que leva o sistema a executar código que não devia, a revelar dados que não devia, a escalar privilégios que não devia. Durante anos, a diferença prática entre os dois era que encontrar uma vulnerabilidade era difícil mas estava a tornar-se progressivamente mais automatizável, enquanto construir um exploit fiável continuava a exigir perícia humana considerável. O ExploitGym mede, com precisão, onde essa linha está hoje: não desapareceu, mas recuou muito.

Tudo isto seria preocupante num mundo onde as vulnerabilidades conhecidas são corrigidas rapidamente. Não é esse o mundo em que vivemos. Em 2025, foram publicadas 48.185 CVEs, cerca de 131 por dia. O tempo médio para corrigir uma falha de segurança aumentou 47% desde 2020 e chegou aos 252 dias. Mas o problema mais fundo não é a lentidão nos patches: é que uma fatia considerável da infraestrutura digital em produção hoje não pode ser corrigida de forma alguma, porque corre software cujo suporte terminou e para o qual não existem patches. Em meados de 2025, 58% das organizações globais ainda tinham pelo menos um sistema além do ciclo de vida suportado pelo fabricante. Em sectores como a saúde, a energia ou a indústria transformadora, esses sistemas legados não são curiosidades históricas, são a espinha dorsal de operações críticas, muitas vezes integrados em hardware específico que não aceita actualizações, geridos por empresas que já não existem ou que simplesmente não têm orçamento para uma migração que pode custar mais do que o equipamento que está a substituir. Uma vulnerabilidade descoberta nesse software torna-se permanente no momento em que é divulgada, porque não haverá patch amanhã nem nunca. O que o ExploitGym demonstrou é que um agente com duas horas e o relatório dessa vulnerabilidade tem agora uma probabilidade real de a transformar num ataque funcional.

Os próprios investigadores são explícitos sobre a natureza dual desta capacidade. Para os defensores, a geração automatizada de exploits pode acelerar a triagem de severidade de vulnerabilidades, ajudar a priorizar patches e validar se as mitigações implementadas realmente funcionam. Para os atacantes, a mesma capacidade baixa a barreira de entrada para trabalho que antes exigia anos de especialização, e torna possível usar trajectórias parciais geradas por agentes como ponto de partida para exploits funcionais. Usaram a expressão force multiplier, que é o género de linguagem que os militares usam para descrever tecnologias que amplificam a eficácia de um operador, e que raramente aparece em papers de ciência da computação de forma casual.

O que fica por responder, e que o paper coloca de forma honesta sem fingir ter a resposta, é a questão da janela temporal. Se modelos acessíveis ao público como o Claude Opus 4.6 conseguiram apenas 15 sucessos nos mesmos 898 casos, e o Mythos Preview conseguiu 157, a diferença entre os dois é de uma geração de modelo. A trajectória de melhoria nos últimos dois anos neste tipo de capacidade tem sido rápida. Os investigadores escrevem que a janela para uma governação proactiva está a estreitar-se. Para os sistemas que podem ser corrigidos, talvez ainda haja tempo. Para os que não podem, a questão já está respondida.

Nostradamus Liberalis 2.0

Venício da Costa Ponte
Vice-Coordenador da IL Açores

Há profecias políticas que não exigem o alinhamento dos astros, nem a consulta de pergaminhos antigos; exigem apenas a leitura atenta de um balanço contabilístico e uma dose elementar de realismo económico. No teatro político dos Açores, o dossier da SATA transformou-se numa espécie de crónica de um resgate anunciado onde, no final, todos parecem fingir surpresa perante o óbvio. Contudo, os acontecimentos mais recentes,  com o recuo da manifestação de interesse da ALM Investment Holding, que acenava com um investimento estratégico de 500 milhões de euros, elevam o debate de um mero erro ideológico para um cenário de profunda perplexidade institucional.

Há seis anos, quando as primeiras vozes se levantaram (versão Nostradamus Liberalis 1.0),  para alertar que o modelo de gestão da transportadora aérea regional era uma bomba-relógio financeira, a reação do sistema foi unânime. Os arautos do estatismo regional uniram-se numa narrativa de indignação sagrada, tratando a reestruturação e a privatização como atentados à autonomia. O debate foi intencionalmente desviado da eficiência económica para o plano do sentimentalismo político, como se o orgulho açoriano se medisse pelo tamanho do défice acumulado.

O problema de tratar empresas comerciais como extensões da identidade regional é que o mercado global não aceita o patriotismo como moeda de pagamento. Enquanto o poder político local se entretinha a sacudir a água do capote, a realidade económica seguia o seu curso implacável: um plano de reestruturação severo imposto por Bruxelas e centenas de milhões de euros dos contribuintes injetados num poço sem fundo.

A reviravolta desta semana expõe, contudo, uma dupla fragilidade que deve merecer uma reflexão séria. O plano agora frustrado desenhava um futuro ambicioso, assente na transformação das nossas ilhas num hub transatlântico e no reforço da frota. No entanto, a justificação do consórcio para abandonar o processo, alegando que a venda teria de ser concretizada no prazo utópico de dois meses para “preparar o inverno”, introduz um elemento de profunda dúvida. Qualquer observador atento do mundo financeiro sabe que a alienação de um ativo desta complexidade, esmagado por uma dívida de 470 milhões de euros e sujeito ao escrutínio minucioso da Comissão Europeia, jamais se resolveria num bimestre.

É aqui que o cidadão comum fica encurralado numa dúvida desconfortável: o que é pior? A inércia de uma gestão pública que remete decisões para labirintos procedimentais sem fim, ou a falta de credibilidade de propostas cujos prazos parecem deliberadamente desenhados para colidir com a realidade legal do Estado? Exigir o impossível ao decisor público é, muitas vezes, a forma mais fácil de construir uma narrativa de saída para quem, afinal, não pretendia ir até ao fim.

Aqueles que em 2020 foram apodados de radicais por proporem a alienação atempada da companhia limitaram-se a aplicar as leis mais básicas da gravidade económica. Não foi necessária nenhuma capacidade divinatória de um Nostradamus; bastou perceber que nenhum erário público consegue sustentar indefinidamente uma estrutura desenhada para queimar capital. O custo desta teimosia não se reflete apenas no passivo da empresa; reflete-se no custo de oportunidade de tudo o que deixou de ser feito nas nossas nove ilhas em termos de redução fiscal ou apoio à inovação, seja  de que área for.

A saga da SATA deixa um aviso sério. Entre a rigidez burocrática da governação e a volatilidade de supostos salvadores da pátria, a verdadeira autonomia continua refém do improviso. Os Açores precisam urgentemente de um rumo assente no rigor e na transparência processual, evitando que o arquipélago continue a ser o palco de um espetáculo cujos bilhetes são pagos, invariavelmente, pelos mesmos contribuintes.

Universidade dos Açores – 50 anos

Alexandra Manes

No mesmo ano, em que se comemoram os 50 anos da nossa Autonomia, celebramos os 50 anos da Universidade dos Açores, uma conquista da Democracia e da Autonomia, da qual é essencial destacar o seu papel determinante para a nossa região, bem como a excelência do seu corpo docente, cujo seu maior desafio se prende com o carácter da sua tripolaridade.

Ao longo das últimas décadas, assistimos ao esvaziamento do Polo de Angra do Heroísmo com a saída de cursos como o de Educação Básica e seu mestrado e o de Gestão, este último bastante contestado. O de enfermagem, vai resistindo… Pelo Faial, houve a possibilidade de o curso de Ciências do Mar ser deslocalizado para Ponta Delgada, mas, devido a questões óbvias e à luta de docentes e investigadores(as), resistiu ao processo de contenção de custos e está onde deve estar e que, embora com pouco, produz Ciência reconhecida a nível mundial.

Foi neste contexto de celebração, que fui alertada para a realidade, que afeta a vida de muitas pessoas, mesmo sendo facilmente varrida para debaixo do tapete quando é tempo de discursos e frases feitas. Numa Região, cada vez mais dividida, há atitudes e estratégias de gestão que se refletem na falta de coesão, e que são menos notadas, todavia, igualmente sentidas pela população residente. É importante que se assuma o facto de que, de forma sistemática e propositada, a academia insular parece ter esquecido a sua raiz tripartida, cimentando-se em torno de um modelo de centralização, anacrónico, que não pode ser ignorado.

Na verdade, em pleno séc. XXI, com ferramentas proporcionadas pela evolução tecnológica, a Uaç contraria a coesão que se exige num território descontínuo e disperso, pela falta de resposta consistente no E-learning, impossibilitando a frequência, por exemplo de Mestrados, a pessoas de outras ilhas. Bem sei que esse impedimento resulta, não somente da concentração de respostas em Ponta Delgada, mas, também, da exigência de regras de acreditação de cursos oferecidos nessa modalidade pela agência A3ES. No entanto, cedemos a essas dificuldades ou esforçamo-nos para ultrapassar esse obstáculo?

Susana Mira Leal foi reeleita por maioria, por lista única. A nova e antiga reitora voltou a sublinhar querer diversificar e descentralizar a instituição, com maior abertura de cursos e modalidades digitais e híbridas. Só que bastará a qualquer possível aluna ou aluno uma breve consulta das normas institucionais e regulamentares em vigor, para perceber que uma boa parte do funcionamento da UAç vive impedido de funcionar à distância. Qualquer pessoa adulta, sob o Estatuto Trabalhador-Estudante, que almeje realizar um mestrado ao longe, terá que se preparar para duras provas.

Claro que restam sempre hipóteses funcionais para quem segue a teoria do empreendedorismo sem razão. Demissão e alterar a residência fiscal, seguir os percursos académicos da Aberta, ficando limitados às respostas. Ou não estudar, e deixar-se estar caladinhas e subservientes, que é como o sistema gosta. A decadência deste modelo é mais uma prova silenciosa do estado a que este Estado chegou. Vivemos a medo, sem saber como avançar, sempre retidos por algemas invisíveis, da centralização, do capitalismo e do absurdismo de aceitar que a aposta na valorização académica é só para algumas pessoas. Quebrar o ciclo da pobreza estrutural dos Açores passa pela Uaç, mas não podemos aceitar que para a frequentar, sejamos potenciais números nas estatísticas da pobreza.

Açores: A Face Oculta da Privação Material e Social Severa

Álvaro Borges

São João Paulo II, na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), alertava já no início do século XXI:
 
«Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se? E o cenário da pobreza poderá ampliar-se indefinidamente, se às antigas pobrezas acrescentarmos as novas que frequentemente atingem mesmo os ambientes e categorias dotadas de recursos económicos, mas sujeitos ao desespero da falta de sentido, à tentação da droga, à solidão na velhice ou na doença, à marginalização ou à discriminação social. […]»
 
Estas palavras, escritas há mais de duas décadas, continuam infelizmente atuais e interpelam-nos de forma particular quando analisamos a realidade social dos Açores.
 
Tendo em conta o mais recente relatório Portugal, Balanço Social 2025, de Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, João Fanha, Miguel Fonseca e Francisco Tavares, da Nova School of Business and Economics, publicado em 2026, verifica-se que a taxa de risco de pobreza, após transferências sociais, mede a proporção da população que vive com rendimentos abaixo do limiar de pobreza.
 
Em 2025, no território nacional, 15,4% das pessoas encontravam-se em risco de pobreza, uma redução de 1,2 pontos percentuais face ao ano anterior. Portugal conta, assim, com cerca de 1 milhão e 660 mil pessoas em situação de pobreza.
 
O relatório destaca igualmente o aumento nominal, isto é, sem ter em conta o efeito da inflação, das pensões de velhice, invalidez e sobrevivência desde 2017, com especial destaque para as pensões de velhice, cujo valor médio mensal atingiu os 669 euros em 2025.
 
Segundo dados do Eurostat, considera-se que uma pessoa está em situação de privação material e social quando não tem acesso a cinco ou mais dos treze elementos essenciais ao bem-estar e à participação plena na sociedade. 
Quando não tem acesso a sete ou mais, considera-se que está em situação de privação material e social severa.
 
Esta avaliação tem por base as seguintes dimensões:
  1. Capacidade para pagar uma semana de férias por ano fora de casa;
  2. Capacidade para suportar uma despesa imprevista sem recorrer a empréstimos;
  3. Capacidade para manter a habitação adequadamente aquecida;
  4. Ausência de atrasos no pagamento da renda, prestação da casa, contas de serviços ou outros empréstimos;
  5. Disponibilidade de automóvel;
  6. Capacidade para consumir uma refeição com carne, peixe ou equivalente vegetariano de dois em dois dias;
  7. Capacidade para substituir mobiliário usado;
  8. Capacidade para substituir roupa usada por roupa nova;
  9. Capacidade para possuir dois pares de sapatos adequados;
  10. Possibilidade de estar com amigos ou familiares pelo menos uma vez por mês;
  11. Possibilidade de participar regularmente em atividades de lazer;
  12. Capacidade para gastar semanalmente uma pequena quantia consigo próprio;
  13. Acesso à internet para uso pessoal em casa.
As taxas de privação material e social e de privação material e social severa diminuíram entre 2023 e 2025.
 
Em 2025, a taxa de privação material e social em Portugal foi de 10,2%, menos 0,9 pontos percentuais do que em 2024. 
 
Contudo, quando olhamos para a realidade regional, os dados revelam um desafio particularmente exigente para os Açores.
 
As regiões que registaram as maiores taxas de privação material e social em 2024 foram a Região Autónoma dos Açores, com 17,4%, e a Região Autónoma da Madeira, com 15,1%.
 
Isto significa que, nos Açores, quase uma em cada cinco pessoas vivia em situação de privação material e social. 
 
Mais preocupante ainda, a taxa de privação material e social severa atingia os 8,2%, o valor mais elevado do país, praticamente o dobro da média nacional.
 
A realidade habitacional evidencia igualmente dificuldades profundas. Em 2024, 48% das famílias açorianas viviam em habitações com telhados, paredes, janelas ou pavimentos permeáveis à água ou apodrecidos. Em termos simples, uma em cada duas famílias açorianas enfrentava problemas graves nas condições da sua habitação.
 
Também ao nível da alimentação os indicadores são extremamente preocupantes. 
 
Nos Açores, 13,4% das pessoas não tinham capacidade para adquirir alimentos necessários à preparação de refeições completas e saudáveis, registando-se novamente a percentagem mais elevada do país.
 
O artigo 25.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que:
 
“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento (…)” Não podemos ficar alheios àquilo que deveria ser um direito universal.
 
Reconhecemos que os Açores fizeram progressos importantes ao longo das últimas décadas. Contudo, estes dados recordam-nos que o desenvolvimento não pode ser medido apenas por indicadores económicos. Deve ser medido, acima de tudo, pela capacidade de garantir a cada pessoa uma vida digna e pelo respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem.
 
Estamos a caminhar, paulatinamente, no sentido certo, mas é necessário fazer mais. Estamos perante um desafio político, social e moral. O verdadeiro desígnio da nossa Autonomia deve ser garantir a todas as pessoas a dignidade inalienável da pessoa humana, tantas vezes violada. 
 
Enquanto houver um açoriano privado das condições mínimas para viver com dignidade, a nossa missão coletiva permanecerá inacabada.

O tempo deu-nos razão

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Lembro-me bem da noite de 4 de fevereiro de 2024. Enquanto muitos festejavam resultados, distribuíam lugares e faziam contas ao poder, deixei um aviso que na altura poucos quiseram ouvir.

Disse que a estabilidade dos Açores não podia ficar dependente apenas da soma de deputados. Disse que havia diferenças profundas entre os parceiros daquela solução governativa. E disse que mais cedo ou mais tarde essas divergências acabariam por vir ao de cima.

Na altura, houve quem desvalorizasse o alerta. Houve quem dissesse que o CHEGA estava apenas a fazer oposição. Houve quem acreditasse que bastava assinar acordos e distribuir cargos para garantir quatro anos de estabilidade.

Passaram mais de dois anos. E hoje, infelizmente para os Açores, toda a gente consegue ver aquilo que nós víamos nessa noite. O tempo deu-nos razão.

A crise não está no CHEGA ou na oposição. Nunca esteve.

A crise está dentro do Governo Regional. A crise está dentro da própria coligação. E quanto mais tentam escondê-la, mais evidente ela se torna.

Os açorianos assistem a declarações contraditórias, a sinais de desconfiança entre parceiros, a posicionamentos públicos incompatíveis com uma maioria coesa e a uma crescente sensação de que alguns dirigentes políticos estão mais preocupados com o seu futuro do que com o futuro da Região.

Mas existe um aspeto ainda mais grave.

Ao longo dos últimos anos, os Açores fizeram um esforço para ultrapassar velhos bairrismos e rivalidades artificiais entre ilhas. Com dificuldades, é certo.

Mas sempre com a consciência de que o futuro da Região depende da união das nove ilhas e não da divisão entre elas.

Infelizmente, o Vice-Presidente do Governo decidiu ressuscitar alguns dos piores fantasmas da política açoriana. Os fantasmas do bairrismo. Os fantasmas das ilhas contra ilhas. Os fantasmas daqueles que sempre viveram politicamente da divisão, da intriga e do conflito territorial.

E rapidamente apareceram os suspeitos do costume. Os mesmos que durante décadas alimentaram rivalidades artificiais.

Os mesmos que transformaram a política regional numa permanente disputa entre ilhas. Os mesmos que parecem acreditar que para uma ilha ganhar, outra tem de perder.

Essa nunca foi a nossa visão. Nem nunca será.

Os Açores não avançam divididos. Os Açores não crescem quando se alimentam ressentimentos. Os Açores não resolvem os seus problemas colocando açorianos contra açorianos.

Aquilo a que assistimos não é uma estratégia para os Açores. É uma estratégia de sobrevivência política. Uma estratégia que parece preocupar-se mais com a defesa de interesses localizados do que com os interesses da Região.

Mas quem exerce funções governativas não representa apenas uma ilha. Representa nove ilhas. Representa todos os açorianos. E tem a obrigação de governar para todos.

É precisamente por isso que esta situação não pode continuar a ser ignorada. Porque os Açores têm desafios demasiado importantes pela frente.

Temos a SATA. Temos o futuro do Hospital do Divino Espírito Santo.

Temos a preparação e execução dos próximos quadros comunitários europeus. Temos problemas graves na habitação. Temos dificuldades persistentes na saúde. Temos jovens que continuam a abandonar a Região por falta de oportunidades. Temos uma economia que precisa de mais crescimento, mais investimento e mais competitividade.

Nada disto se resolve com guerras internas. Nada disto se resolve com recados políticos. Nada disto se resolve com um Governo dividido. E é exatamente isso que temos hoje.

Uma paz podre. Uma paz podre onde todos fingem que está tudo bem. Uma paz podre onde ninguém quer assumir aquilo que já é evidente. Uma paz podre onde se tenta ganhar tempo enquanto a confiança desaparece e a instabilidade aumenta.

Quero deixar uma coisa muito clara. O CHEGA não quer eleições antecipadas. E aquilo que sentimos todos os dias na rua é que os açorianos também não as querem.

As pessoas estão cansadas de jogos políticos. As pessoas querem estabilidade. Mas estabilidade verdadeira.

Não estabilidade para proteger lugares. Não estabilidade para manter cargos. Não estabilidade para preservar interesses partidários.

Os açorianos querem estabilidade para governar. Querem estabilidade para decidir. Querem estabilidade para enfrentar os desafios que temos pela frente.

Foi precisamente por isso que o CHEGA foi o primeiro partido a exigir uma clarificação política. Foi o CHEGA o primeiro a dizer que os açorianos tinham direito a saber se esta maioria continua ou não unida. Foi o CHEGA o primeiro a defender uma Moção de Confiança.

Enquanto outros faziam cálculos eleitorais. Enquanto outros avaliavam sondagens. Enquanto outros se preocupavam em não perder os seus lugares dourados.

O CHEGA preocupou-se com aquilo que realmente interessa: a estabilidade da Região.

Porque quem acredita na sua maioria não tem medo de a confirmar. Quem acredita no seu Governo não tem medo da transparência. Quem acredita no seu projeto político não foge aos esclarecimentos.

Ao longo desta legislatura, o CHEGA demonstrou que sabe ser firme quando é necessário e responsável quando os interesses dos Açores estão em causa.

Fomos decisivos na defesa dos pensionistas mais pobres da Região. Fomos persistentes na denúncia dos problemas da saúde, dos transportes e da gestão pública. Fomos exigentes quando foi preciso.

E fomos responsáveis quando a estabilidade da Região esteve em causa. Continuaremos a sê-lo.

Porque aquilo que está em causa não é o futuro de um partido. É o futuro dos Açores.

E os Açores merecem mais do que uma coligação preocupada em sobreviver.

Merecem um Governo preocupado em governar. Merecem transparência. Merecem estabilidade. Merecem verdade.

Na noite de 4 de fevereiro de 2024 avisámos que os maiores riscos para a estabilidade da Região estavam dentro da própria solução governativa.

Dois anos depois, os factos falam por si. O tempo deu-nos razão.

Mas não retiramos qualquer satisfação disso.

Porque quando uma previsão política se confirma à custa da instabilidade governativa, quem perde não são os partidos. Quem perde são os Açores.

E os Açores já perderam demasiado tempo em pequenas guerras e lutas de egos inchados.

Açores estratégicos merecem compensação justa

João Bruto da Costa
Presidente do Grupo Parlamentar do PSD/Açores

Como expressou o intemporal Nemésio, “a geografia, para nós, vale outro tanto como a história.”

Recorro ao seu pensamento para sublinhar um facto incontornável: a mesma geografia que tanto nos exige é também aquela que torna os Açores indispensáveis ao país e ao projeto Europeu.

Numa conjuntura internacional cada vez mais tensa e fragmentada, os Açores afirmam-se como dimensão atlântica relevante, ponto de encontro de diversos interesses geopolíticos – ora convergentes, ora divergentes – mas sempre determinantes.

Para uma ilha, tudo à sua volta é fronteira.

Tudo é, ao mesmo tempo, abismo e possibilidade.

Mas cinquenta anos não são apenas memória.

São também mandato.

Um mandato para reconhecer o caminho percorrido: uma Autonomia que não nasceu por concessão, mas sim por afirmação.

É a afirmação de uma identidade moldada pelo Atlântico ao longo de séculos.

A Autonomia foi, desde o primeiro momento, um ato de confiança mútua entre os Açorianos e a República.

Hoje, 50 anos depois, podemos dizer com serenidade: essa confiança foi bem exercida.

Em meio século, os Açores ergueram instituições, afirmaram competências e desenvolveram políticas públicas com resultados concretos na saúde, na educação, na cultura, no ambiente ou nas infraestruturas.

Os Açores provaram que a Autonomia não fragmenta. A Autonomia une, aperfeiçoa e fortalece.

A Autonomia é inteligência territorial.

Mas celebrar esta efeméride também exige honestidade.

A Autonomia não eliminou a ultraperiferia.

Ajudou-nos, sim, a geri-la melhor.

Porque a verdade é muito simples: o isolamento tem custos. A continuidade territorial tem custos. A mobilidade tem custos.

O acesso desigual a serviços continua a existir.

E a dependência de cadeias logísticas frágeis permanece uma realidade.

Quando um jovem sente que tem de partir à procura de uma oportunidade obriga-nos a lembrar que a Autonomia não é uma tarefa acabada.

São factos que nenhuma celebração permite suavizar.

A Autonomia dos Açores não é um ponto de chegada.

É um caminho que percorremos permanentemente.

É um caminho que exige atualização, exigência e ambição.

As regiões ultraperiféricas têm um papel próprio no projeto europeu.

Mas esse projeto só será verdadeiramente justo se reconhecer o impacto real da geografia no percurso de quem aqui vive.

Porque há uma evidência que não pode ser ignorada: a mesma geografia que nos condiciona é aquela que nos torna estratégicos.

E é aqui que reside um desafio político central do nosso tempo: transformar esse valor estratégico em benefício concreto para os Açorianos.

A Europa precisa dos Açores.

A Aliança Atlântica precisa dos Açores.

As democracias ocidentais necessitam desta plataforma no meio do Atlântico.

Mas os açorianos precisam que essa importância vá além de meras palavras ou de discursos de ocasião.

Os açorianos precisam que a importância dos Açores para o Ocidente se traduza em investimento, conectividade e coesão.

A coesão de Robert Shumann!

Em suma, a relevância estratégica dos Açores para o mundo ocidental tem de traduzir-se numa compensação justa.

Não se pode ser “garante” e não ter “garantias”.

Cinquenta anos de Autonomia Democrática são motivo de celebração.

Mas são, sobretudo, um compromisso renovado.

Este é o compromisso de continuar a afirmar, com confiança e sem hesitações, que ser Açoriano não é uma limitação.

É uma identidade.

É uma responsabilidade.

É ocupar uma posição estratégica.

E é uma força que continuaremos a afirmar.

A “Bairrice” Partidária como Inimiga do Desenvolvimento

Venício da Costa Ponte
Vice-Coordenador da IL Açores

O liberalismo político e económico assenta, fundamentalmente, na premissa da responsabilidade institucional. Governar não é um exercício de sobrevivência partidária, nem uma constante guerrilha por espaços de influência mediática; é, sim, a gestão diligente e previsível dos recursos dos contribuintes. No entanto, o cenário a que temos assistido recentemente na Região Autónoma dos Açores revela uma inversão preocupante destas prioridades, onde a estabilidade parece ser tratada como um mero detalhe tático.

É incompreensível que, em pleno exercício de funções, forças políticas que integram o próprio executivo regional promovam, ou permitam que se alimentem, dinâmicas de fricção interna e o fomento de um bairrismo artificial. Quando agendas partidárias ou conflitos estéreis de protagonismo sobrepõem-se à solidez governativa, falha-se no dever mais elementar de um gestor público. A utilização da máquina política para alimentar pequenas polémicas de secretaria é um sintoma de imaturidade que o arquipélago, na atual conjuntura, simplesmente não se pode dar ao luxo de sustentar.

Enquanto estas escaramuças de bastidores se desenrolam, o custo real para os Açores não se mede apenas nos milhões de euros que uma eventual e fútil eleição antecipada custaria aos cofres públicos. O verdadeiro prejuízo, muito mais gravoso e silencioso, reside no custo de oportunidade.

Para quem empreende, cria valor ou tenta fixar projetos de inovação tecnológica no arquipélago, a incerteza política funciona como um autêntico veneno económico. A instabilidade traduz-se em dois bloqueios imediatos:

A Paralisia na Execução: O espartilho de potenciais crises e a ameaça de regimes duodecimais travam investimentos, atrasam licenciamentos vitais e paralisam a execução de fundos europeus estruturais, incluindo o PRR, cujo calendário não se compadece com calendários partidários.

O Afastamento de Investimento: O capital privado, e venha ele de onde vier, procura previsibilidade e clareza. Ao projetarem um ambiente de conflito constante, os partidos enviam uma mensagem de desconfiança aos parceiros externos, minando a competitividade e a reputação da Região.

A mensagem que transparece para a sociedade civil é a de uma clara dissociação entre as dores de crescimento dos partidos e as reais necessidades dos açorianos. Quando a manutenção de equilíbrios internos de poder é colocada à frente da continuidade e da eficácia das políticas públicas, as instituições públicas arriscam se transformar num entrave burocrático ao serviço de interesses particulares.

Os Açores não podem continuar reféns de estratégias de curto prazo ou de narrativas de sobrevivência. O eleitor, enquanto cidadão e pagador de impostos, tem o direito e o dever de exigir que os partidos que compõem o arco governativo, em especial aqueles com acrescida responsabilidade na hierarquia executiva, demonstrem um sentido de Estado à altura dos desafios que enfrentamos.

O desenvolvimento das nossas nove ilhas exige seriedade e foco na eficiência. É tempo de substituir as trincheiras partidárias pela modernização real da economia e pela atração de valor. Tudo o resto é apenas “bairrismo” de fachada, pago, infelizmente, com o erário público e com o atraso no futuro de todos nós.

A doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós

Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês

Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.

O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.

Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.

Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.

São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.

E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.

Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.

É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.

É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.

Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.

Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.