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Trump está a arrastar o mundo para o abismo económico

Álvaro Borges

A guerra no Médio Oriente está a representar um choque histórico nos mercados derivados de matérias-primas. Em março de 2026, registou-se a maior perda na oferta de petróleo alguma vez registada, em cerca de 10 milhões de barris por dia. E parece que não ficará por aqui.

O encerramento do Estreito de Ormuz, combinado com o bloqueio naval pelos EUA, representa uma grande via marítima para a passagem dos navios petroleiros e de gás natural liquefeito, entre 35% e 20%, respetivamente, do comércio global.

O fracasso nas negociações, o risco do rompimento do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a manutenção da paralisação do Estreito de Ormuz, a escassez de matérias-primas e a dependência dos combustíveis fósseis lançam-nos a todos para uma incerteza nunca antes vista.

A recuperar da pandemia, a somar a isto a guerra na Ucrânia, ainda em curso, e o conflito no Médio Oriente levam-nos ao contágio da subida dos índices de preços dos fertilizantes, dos produtos alimentares, metais e minerais, gás natural, metais preciosos e matérias-primas agrícolas.

Este conflito turbulento, iniciado por Donald Trump e por Israel contra o Irão, teve duas consequências e factos indesmentíveis: primeiro, antes o líder supremo do Irão era Khamenei, agora está outro Khamenei; segundo, antes o Estreito de Ormuz estava aberto, agora está encerrado. Vislumbram-se aqui grandes vitórias para os EUA e para o seu aliado Israel, se não lançassem o mundo para um pântano de instabilidade, de choques dinâmicos nos mercados de matérias-primas que afetam as economias globais.

A inflação da Zona Euro, situada nos 3%, e a decisão do Banco Central Europeu de manter as taxas de juro inalteradas em 2% serão difíceis de sustentar na próxima reunião de governadores, caso se mantenha o atual choque geopolítico.

Se tal conflito não for sanado, nem houver estabilidade na região, os preços vão continuar a aumentar.

Como vão as famílias conseguir suportar todos estes custos? O aumento do cabaz alimentar, os preços dos combustíveis em flecha, o aumento do gás natural e as prestações bancárias, se se confirmar o aumento das taxas de juro do BCE na próxima reunião, levam o mundo a uma incerteza sem precedentes, causada por um punho de homens instalado em Telavive e Washington, que mergulhou o mundo num completo abismo sem fim, sem clareza, restando aos países lançar mão de políticas de intervenção na economia, desregulando a concorrência, ou proteger as famílias mais pobres.

Curioso é saber que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro pretende elevar o salário mínimo nacional para 1000€ até 2027. Não nos surpreende, pois, ao ritmo da situação atual, o custo do cabaz alimentar, o esforço económico e o poder de compra das famílias atingem níveis absurdos, em grande parte devido à política circense e irresponsável de Donald Trump.

* O texto teve por base o relatório “Commodity Markets Outlook”, de abril de 2026, da autoria do Banco Mundial

Uma guerra com fim à vista ou fantasia?

Álvaro Borges

Os Estados Unidos da América e Israel lançaram mão de uma intervenção em território iraniano, configurando uma flagrante violação grosseira do Direito Internacional.

Os objetivos da guerra, que foram variando para Donald Trump ao longo dos dias, não foram alcançados. Assistimos a uma “trégua” de duas semanas de guerra. Será esta pausa uma ilusão?

Em junho de 2025, Trump declarou que os EUA tinham obliterado as principais instalações nucleares do Irão e que dificilmente a República Islâmica teria condições de construir armas nucleares. Hoje, é claro para todos que o programa nuclear foi atrasado, mas nunca eliminado. Julgamos que o Irão tem capacidade suficiente para construir centrifugadoras de enriquecimento de urânio, cuja localização se desconhece. Procurar ou resgatar cerca de 440 quilos de urânio enriquecido através de forças especiais terrestres israelo-americanas é entrar num terreno complexo, irrealista e desfasado da realidade. Desta forma, é extremamente difícil que o eixo EUA-Israel consiga somente através da força aérea sonegar este objetivo nuclear do Irão.

Além disso, a eliminação e a degradação total do programa de mísseis balísticos do Irão foi outro objetivo fundamental para os EUA. Trump tem afirmado que cerca de 90% dos mísseis e lançadores do Irão foram eliminados, e que drones e fábricas estão muito reduzidos. Apesar de reconhecermos que houve danos operacionais significativos, nomeadamente em instalações de produção e locais de armazenamento, erradicar o conhecimento técnico e científico é navegar numa fantasia. Entendemos que a indústria iraniana está em posição, embora com forte limitação e degradação grave, de voltar a longo prazo à sua capacidade de produzir o seu arsenal, visto que estes mísseis balísticos não são importados.

Quanto ao grande objetivo de eliminar a marinha e a força aérea do Irão, em boa verdade os Estados Unidos e Israel detêm superioridade aérea nos céus do Irão, mas não detêm a exclusividade desse espaço aéreo. Exemplo disso foi o incidente do abate de um avião F15 americano pelas forças iranianas. Este objetivo é talvez aquele que os EUA e Israel alcançaram.

A mudança de regime iraniano não funcionou. O impacto que teve em segmentos da sociedade não resultou, embora tenha eliminado grande parte de estruturas militares de topo. O supremo líder do Irão foi morto e substituído pelo seu filho Mojtaba Khamenei.

Donald Trump, na sua retórica e ultimato para que o Irão abrisse o estreito de Ormuz ou “toda uma civilização morreria”, conseguiu uma trégua de duas semanas profundamente ambígua.

Entretanto, apesar de uma trégua periclitante alcançada, e dos ataques de Israel ao Líbano contra o grupo Hezbollah, podemos ver que o estreito de Ormuz continua sob forte influência iraniana e fechado ainda em grande parte à navegação. As últimas informações apontam que o Irão poderá permitir a passagem de um máximo de 15 embarcações por dia através do estreito de Ormuz, segundo a agência de notícias estatal russa TASS, citando uma fonte iraniana não identificada, tal a ser verdade “é uma gota no meio do oceano” Ainda assim, e embora ainda não confirmado, o Irão poderá querer impor uma taxa de passagem no estreito.

Entretanto, o grande ponto de tensão continua a ser o estreito de Ormuz. A circulação do petróleo mundial permanece condicionada, com profundas restrições, limites de passagem e possíveis taxas impostas pelo Irão. Um corredor vital transformado num instrumento político e económico com uma enorme pressão permanente.

Quais foram afinal as vantagens desta intervenção? A leitura imediata aponta-nos para um cenário ambíguo: um golpe estratégico para Donald Trump. Um estreito antes aberto, agora instável e intermitente. Mercados em convulsão. E uma sensação crescente de que o controlo da situação é mais frágil do que parecia.

Resta-nos as conversações entre os intervenientes. Que não haja colapso. Não podemos prever o que sairá destas conversações, que têm o Paquistão como um dos maiores ativos para o fim do conflito e a reabertura do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20 % de todo o petróleo do mundo.

Temos muitas dúvidas sobre a exequibilidade destas conversações, uma trégua frágil e periclitante. 

Será que o ego de Benjamin Netanyahu e Donald Trump não vai prevalecer? Temos muitas dúvidas. 

A única certeza é que quem sofre com isto tudo são as pessoas, os mais frágeis, os inocentes.