
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
O outro dia, num habitual fim de semana típico de compras, numa grande superfície comercial, deparei-me, de súbito, com um casal de dois idosos a afrontar-se mutuamente numa, também ela aparente, falta de paciência de ambas as partes.
De um lado, um idoso, genuíno e de bengala, que chamava, bruscamente, pela senhora idosa que, absorta nos seus pensamentos, insistia ela, que queria ver melhor um produto com mais atenção pelo seu rótulo; uma idosa que, na sua infinita atenção ao produto, em específico, ignorava o idoso apressado e já com imensa falta de paciência.
Assisti a este episódio calado e no meu canto, mas, no meio desta falta de paciência, notei algo muito mais profundo e significativo: houve sempre, sempre respeito entre ambos, mesmo na forma como perdiam, ambos, a paciência um com o outro. Se o idoso chamava a idosa pelo nome, repetidas vezes, num tom baixo, mas apressado e impaciente; a idosa não respondia, nem mal nem bem, mas baixava a cabeça, e atentava, mais ainda, no produto, e no rótulo, que vasculhava, conhecendo, transportando-se e pessoalizando-se no discurso do seu companheiro.
Até que, num momento, foi ter com o seu marido e ambos seguiram o seu caminho – de infinita paciência e impaciência que, no fundo, encontram uma forma de andar juntas ao serão.
Não obstante, hoje em dia, perde-se a paciência (de ambos os lados) para a impaciência que não se contorna nem encontra um jeito. Para tudo; pois queremos tudo para ontem – bem ou mal feito. Queremos tudo de uma forma subtil, bela e pura – mas apressada, instantânea, rápida, fugaz, efémera (e ao nosso jeito). De uma forma que, não insistindo com a nossa teimosia e mexendo com os nossos nervos e a nossa infinita paciência, não nos teste jamais, e à nossa paciência, mas nos faça sentir sempre algum prazer e nos encha de todo o amor e de todo o carinho – que os outros, infelizmente, não nos são capazes de dar desta forma.
Um amor que não nos testa não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não nos sirva para sermos pacientes, com ele, não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não implique faltas de paciência e teimosias, não é um amor real – é uma ficção. Hoje em dia, perdemos, bruscamente, o hábito de ser pacientes, connosco e com os outros, e, com isso, o hábito de buscar as coisas que concentram genuíno amor – porque o amor não é uma questão de alguns segundos; não é a duração e o contar dos dias, sobre os dias, o prazer dos momentos na espuma dos corpos – não é.
É, tantas vezes, as dolorosas, e voláteis, consequências das palavras, dos gestos e dos significados. O peso absurdo e inconsequente, leviano, dos erros cometidos e omissos. O fardo acometido de culpa sem absolvição que não desiste jamais de amar o outro – e de ser impaciente naquele amor, também. É, o amor, o primeiro amor, que foi apalavrado, mas não passou de uma simples palavra suspensa no ar para sempre – algo que vive connosco, implica jogo e paciência, teste, contraste e cura. É o amor, também, a solidão profunda na cama da noite alta – porque, e quem diria que isso seria possível…, quem ama também está, e se sente, sozinho.
É preciso cuidar, e falar disso: quem ama, e tem quem o ame, também se sente sozinho; sente essa dor a que tem todo o direito de sentir.
Acima de tudo, perdemos a paciência para esperar. Para esperar que nos amem e, quando realmente nos amam, para amar de forma generosa e cuidada – e simples (com paciência).
Perdemos a Esperança. Essa botija de oxigénio que nos faz andar para a frente.
Perdemos o Empenho. Essa vontade pura, e grata, de sermos melhores a cada dia que passa.
Perdemos a Fé. Tão importante nos dias de hoje, dias sem luz e sem Norte.
Perdemos a Fidelidade. Esse ficar, até ao fim, onde já não estamos; e esse estar onde já não vamos ficar.
… Só ainda não perdemos mesmo… o Amor.