
Beatriz Moreira da Silva
Enquanto não houve descanso,
o céu chorava dias cinzentos;
Seríamos nós os aplausos d’tempestade;
a conta gotas de pingas d’gente.
Talvez fosse prova d’nevoeiros,
ou trovoadas de raiva d’interesseiros;
Escassez de um nada que sempre tropeçou no mundo;
Não é assim tão estranho ser-se meio gente quando não se vê o profundo.
Enquanto não houve nada,
as estrelas sussurravam;
d’que nos pertence surgirá sempre consequente;
d’aquilo que abraçamos no escuro com a força d’que estamos seguros.

Beatriz Moreira da Silva
No sobressalto d’despertador,
que já nem atinge o mau humor;
O efeito habituou-se na corrida, na pressa, no suposto atraso que está por vir;
ainda nem o toque nos acordou.
Outrora já estava na hora,
não deveríamos ir já embora?
Quebrando o pequeno almoço,
vestindo o casaco roto.
Ainda nem no primeiro pestanejo entramos,
mas já mergulhamos em prantos;
Na pressa do ir e já nos esquecemos por onde fugir,
Tal soa a correria em plena escadaria.
Já chegamos, onde estamos,
ainda nem soou aquele som irritante,
atrasados na hora a contar cada segundo;
Mal adormecemos e já pensamos nos próximos submundos.
Chega a hora de acordar,
não era já hora de jantar ?
Afinal onde estamos,
vivendo em tantos solavancos?
– já tocou o despertador e nem chegamos a pousar sob o cobertor, mas temos de ir antes que chova.

Beatriz Moreira da Silva
N’o amor da minha vida,
pelo meio do desastre;
Descobri que outrora já havia de ser para mim,
súbito e irreverente o meu descendente.
Sob percalços d’obstáculos,
na angústia do suspiro q’errasse;
Sobressais muito além do que previ,
profundo enérgico e com fome do mundo vens ser meu testemunho – o amor é mesmo assim.
Sob doces olhos expressivos,
eu sempre soube que eras destemido;
No abraço apertado de quem é pequeno mas age alto,
soas-me toque d’alguém que já não está aqui.
Na herança da bondade resiliente,
como quem vem com tudo sem precedente;
Chegou um furacão d’entro de mim,
reiterando o universo d’um amor sem fim.
Da tua mãe

Beatriz Moreira da Silva
Popular d’censura e repreensão,
d’sonhos de insígnias por lembrança;
Palavras de frustração, dor e ilusão;
para quem nunca pediu permissão.
D’solução haveria um caderninho,
para espremerem a podre língua d’tanta frustração;
Algo por dizer não exige silêncio,
de liberdade não se fazem recados mal denunciados.
D’incapacidade de equilibrar malogro,
calai-vos ou recorram ao caderninho esponjoso;
Abortem-se nas próprias palavras,
que d’revés outrora vos salve abraço caloroso.
Ainda há recados para dar?

Beatriz Moreira da Silva
Como o sol está para a lua,
em sintonia d’encontros;
Que nunca se perdem,
d’efémeros pontos.
Enriquecedor e terno momento,
quando se ouvem corações em ritmos diferentes;
Assim como o sol está pra’lua;
Sempre presente.
Conduzir em obscuro,
espelhando a força d’existência;
Exigindo resiliência;
Amando em cada sequência.
D’infinito a incondicional,
engolindo a vulnerabilidade exposta;
Tal como o sol está pra’lua,
só fazem sentido os dois para sempre.

Beatriz Moreira da Silva
Eu não pertenço aqui,
não reconheço caras ou feições de figurinos anfitriões;
Não conheço a instância da conexão,
alheia de quem sorri na imersão do aceitável.
Sob reflexo d’basalto,
nem reconheço os caminhos;
Talvez nunca tenha concebido direções,
mediante a necessidade constante de não tirar os olhos do chão.
Eu não pertenço ao limite,
do permissível e d’outrora aceitável;
Nem sei onde pertenço,
apenas consinto o que penso.
Eu nunca sei onde vou,
apenas sei como aqui estou;
D’leme ao d’vento,
Sei quem eu sou.