Log in

A história de Outsidah: o rapper de Água de Pau que usa a criatividade como motor das músicas que escreve e produz

Viveu entre Água de Pau e as Bermudas. “The Emigrant” é o seu mais recente tema inspirado na sua vivência. Viajámos com o artista pelo seu próprio mundo

Ruben Almeida tem 30 anos e assume que fazer rap é a sua grande paixão © CLIFE BOTELHO

A música, mais propriamente, o rap, ou hip-hop, está-lhe no sangue. Desde cedo que, Ruben Almeida, 30 anos, conhecido como Outsidah, se fundiu com as notas musicais sem contudo, nunca ter tido formação musical: “neste álbum que vai surgir em abril, eu tentei fazer uma coisa diferente, misturar o rap, o hip-hop, com a visão do fado e não perdendo a própria essência, transmitir a minha mensagem, a minha história, tudo o que eu sofro, tudo o que eu já vivi, tudo o que eu vivo, as minhas perspetivas diferentes” conta ao Diário da Lagoa (DL).

É a partir do seu “home studio”, estúdio em casa, no seu quarto, que escreve, compõe e cria as suas músicas. A mais recente, “The Emigrant”, mistura hip-hop com a sonoridade do fado, um género bem português. “Pensei mais nas minhas raízes. Os meus pais emigraram para a Bermuda quando eu tinha um ano e tal. E tive a vivência durante dez anos lá fora, na Bermuda. Eu sinto-me mais que obrigado a fazer algum tema neste sentido. Para a nossa comunidade dar valor aos emigrantes que se sacrificaram por terem saído da sua terra natal, para procurarem melhores condições de vida fora. Tentei dar valor e uma voz a essas pessoas”, destaca Ruben Almeida.

Natural da vila de Água de Pau, na ilha de São Miguel, é aqui que vive e cria a maior parte das suas músicas. “Já lancei um álbum de três faixas, um EP [Extended Play] com 10 e vou lançar mais um álbum agora para abril, com mais três faixas. Anteriormente eu lancei também um EP com quatro a cinco faixas e estou a persistir ainda”, diz.

O videoclipe do mais recente tema de Outsidah, “The Emigrant”, foi todo gravado em Água de Pau e Água D´Alto. “Eu tinha uma visão e disse assim, ok, na música eu já dei a entender o que é que eu quero trazer, mas também no vídeo, no visual, eu também quero transmitir as minhas raízes e de onde eu sou”. No videoclipe Ruben canta a música que ele próprio escreveu e compôs e conta com a ajuda de alguns figurantes especiais: os avós: “está a minha avó, está o meu avô, está a minha avó do lado materno também, então é ainda mais íntimo. Eles gostaram da experiência, gostaram do conceito e também do vídeo final”, assegura.

“E o que é que eles te dizem, encorajam-te a seguir a música?”, perguntámos. 

“Sim, eles já sabem que eu faço isso há algum tempo, tanto do lado materno, quanto do lado paterno, e gostam. Sempre que tenho algumas novidades, gosto de lhes mostrar, tanto à minha família mais chegada, aos meus pais, como à família que está na América e no Canadá”, conta Ruben Almeida ao DL.

Outsidah explica que ter sido emigrante não foi fácil. “A adaptação a uma cultura diferente foi difícil, vivi a minha infância toda lá fora. O diálogo era diferente, falava diferente, vestia e agia de outra maneira, então foi um bocado difícil” e conta que quando regressou a Água de Pau, demorou “ainda uns dois anos para conseguir fazer parte da comunidade”.

“Viver isto e não viver disto”

Ruben sublinha que nas suas músicas tenta “dar voz” a quem não a tem © CLIFE BOTELHO

Ruben é técnico de vendas e faz da música a sua grande paixão. Reconhece a importância de ter vivido nas Bermudas mas garante que não sente saudades deste território ultramarino do Reino Unido, no Atlântico Norte. “Acabou por dar-me o inglês perfeito que eu consigo transmitir na música”, admite.

Nas suas músicas, Outsidah fala sobretudo do que já passou: “eu sofri de bullying durante dois anos, tentei e consegui colocar todas as minhas tristezas, angústias na escrita, no papel, transformando-as em poesia e em rap, e até hoje, tenho 30 anos, vou fazer 31, ainda estou a persistir e a ser consistente neste assunto”, garante. 

“Se nós não tivermos paixão por aquilo que fazemos, isso se torna uma obrigação, e quando se torna uma obrigação, não vai ter o mesmo efeito. Como disse o meu amigo André Saudade noutra entrevista, o objetivo é ‘viver isto e não viver disto’”, assegura, referindo-se à música.

Com a sua música, Ruben tenta “dar voz” a quem não a tem: “não espero retorno, mas sim transmitir a minha mensagem, algo que eu tento sempre dar às pessoas que já passaram pelo mesmo, ou que passam por outras histórias similares, e não têm voz”. 

Outsidah faz da criatividade o motor de toda a sua criação musical. “Gosto sempre de explorar e expandir os meus horizontes. Tanto na escrita, quanto na forma de cantar vai ser sempre diferente para mim. Cada música tem a sua própria personalidade. Mas, claro, não perco a essência e eu falo sempre sobre a minha vivência”, garante.

Em abril, lança o seu novo álbum chamado “Roots”, que significa raízes. Sobre onde encontra inspiração para escrever e compor, Ruben diz que consegue “assentar as ideias, quando está tudo mais tranquilo, sem ninguém .Eu gosto muito de ir para perto do mar, porque transmite mais tranquilidade”. Mas também diz que “a inspiração pode surgir em qualquer lugar ou hora”. “Posso ter inspiração através de uma interação com um amigo, uma interação com uma pessoa de fora, ou quem não conheço. Pode depender de uma viagem que fiz ou de uma discussão antiga. Coisas que já passei ou que gostava de passar. Ou mesmo aleatórias. Sobretudo, foco-me no que eu vivo, o resto vem em ‘EgoTrip’”, uma espécie de “viagem do ego”.

Apesar de ser uma viagem muito dele, Ruben Almeida faz questão de sublinhar o apoio dos amigos durante todo o processo de concretização das suas músicas. “Consigo manter a minha criatividade ativa, falando com as pessoas certas. Tanto com o André Saudade, o Bruno Cabral, o Rafael Tavares, o Luís Coutinho. Tenho um amigo de infância, o Guilherme Pacheco que também me ajudou na mixagem e masterização”. Todos contam.

E porquê “Outsidah”? “Porque senti-me um forasteiro”, responde. “Ainda te sentes como um outsider?” quisemos saber. “Eu já me encaro como um insider”, conclui, a rir.

Rimas e marés guiam a música de Shiny, que encontrou nos Açores a sua casa

Vicente Brilhante, mais conhecido como Shiny, vem da capital para os Açores, onde tem descoberto a sua verdadeira essência. No seu novo álbum, transforma a conexão com as ilhas em música, ao mesmo tempo que celebra a liberdade, o mar e a constante evolução da vida

Vicente Brilhante, 24 anos, quis encontrar-se connosco no Complexo de Piscinas da Lagoa devido à sua ligação ao mar © CLIFE BOTELHO

“Dormir com as estrelas e acordar com o mar” – é assim que o rapper Shiny se dá a conhecer numa das suas músicas, “Brisa”, em que relata a sua conexão com a natureza dos Açores. “Se não fossem as ilhas, o meu álbum não existia”, partilha em conversa com o Diário da Lagoa. Em fevereiro, lançou as primeiras músicas do seu mais recente álbum, “Em Evol”, que dá continuidade a esta ligação, num processo de evolução pessoal e descoberta artística.

Vicente Brilhante tem 24 anos e é natural de Lisboa. Aos seis meses de idade, visitou pela primeira vez a ilha das Flores e, desde pequeno, que as cascatas e a vegetação do local o admiram. Habituado aos caos da capital, foi na ilha que encontrou a sua liberdade: “Flores sempre foram uma casa para mim. Sentia-me em liberdade, o que não tinha na cidade, porque a minha mãe não me deixava brincar na rua. E ali era o meu paraíso, os meus pais deixavam-me andar para onde eu quisesse.”

Todos os anos, no verão, o artista visita a ilha das Flores. E assim foi desde muito novo. Mais tarde, fez da ilha casa durante dois anos e, hoje em dia, reside em São Miguel – diz que o destino lhe “trouxe à Lagoa”. Nem em Londres, a estudar Finanças, se sentiu tão em casa como por cá, embora tenha sido uma experiência enriquecedora no que toca a aprendizagem. “Não me dou muito bem com o frio, nem com a falta de luz”, admite.

“Adoro estar aqui. Olho para o mar, infinito, e é isso que me inspira. Falo bastante do mar nas minhas músicas e da ligação com os elementos da natureza que nos rodeiam”, realça. Mas Shiny não é o único da família que sentiu essa conexão com os Açores. Também o seu pai, Jorge Brilhante, natural da Ericeira, apaixonou-se pela ilha das Flores, para onde se mudou em 2010. Atualmente, é proprietário do restaurante Maresia, na Fajã Grande. “Diz que é o sítio onde se sente melhor e ele já conheceu o mundo todo”, conta Shiny.

Aliás, apesar de nunca ter estudado música, foi o pai que sempre lhe introduziu a cultura musical. “Desde Bossa Nova, Tom Jobim, Chico Buarque, o próprio Cartola, que eu tenho uma sample numa das minhas músicas do novo álbum”, enumera. Perdia-se nesses sons. “Ele é muito eclético. Cresci a ouvir isso tudo e fez-me criar um leque de melodias dentro de mim”, acrescenta.

Em Evol”

© CLIFE BOTELHO

De entre milhares de notas guardadas no telemóvel, nasceu o novo álbum de Shiny – “Em Evol”. Inspirado na natureza do arquipélago que o rodeia, simboliza a “constante evolução a que nós somos e devemos ser sujeitos na nossa vida”, conta. Além disso, ao contrário lê-se “Love me” (ame-me, numa tradução literal), o que representa a sua “descoberta do amor próprio”, explica ainda o jovem.

Na capa deste álbum há três pontos principais: de um lado, Lisboa; depois, a ponte da lagoa das Sete Cidades, São Miguel; e, do lado direito, a ilha das Flores. No fundo, o triângulo que faz parte da vida de Vicente Brilhante. “Éden”, “Pico” e “Voo” são algumas das 24 músicas que compõem este projeto, lançado no dia 24 de fevereiro. “Acredito que faltaram alguns meses para ter feito o meu álbum ainda melhor. Se tivesse um orçamento maior, se calhar as pessoas entrariam mais no som”, reflete.

No entanto, reconhece que deu o seu melhor e orgulha-se de todas as pessoas que estiveram do seu lado na criação de “Em Evol”. Sem preocupações relativas às perceções dos outros sobre si, Shiny considera que “só expondo a nossa realidade é que as pessoas se podem identificar com isso”. E sublinha: “Não basta ter talento, tem de se ter visão.”

“Elevar as nossas ilhas é sem dúvida uma das minhas missões”, destaca Shiny. Em 2024, subiu ao palco do festival Monte Verde e já atuou na ilha das Flores e em Lisboa. Daqui a quatro anos, ambiciona estar no Altice Arena. À semelhança do músico madeirense Van Zee, que ganhou muito sucesso nos últimos tempos, acredita que é possível ser ilhéu e ter alcance a nível nacional. “Não tenho dúvidas que vou viver disto. Acredito muito em mim”, acrescenta.

“Se não fossem as ilhas, não existia o meu álbum. Se não fosse a minha experiência nas Flores, em São Miguel e Lisboa, não existia o álbum”, sublinha o jovem artista. E continua: “Tudo o que vem de mim é uma junção das minhas vivências. Todos os artistas deviam incorporar as suas experiências na sua arte.”
Quanto a outros artistas locais, garante estar disposto a colaborar com qualquer pessoa com quem se identifique. “Gosto de dar a mão ao outro. Não sou mais do que ninguém, somos todos indivíduos diferentes e acho que temos de crescer juntos”, declara ao DL. Contudo, sabe que nem todos pensam da mesma forma: “Ficam com receio de se juntar porque podem perder para o outro.”