
Maria Isabel Martins Vidal
Especialista em Neurologia na Unidade de Vertigem do Hospital CUF Açores
A vertigem e o desequilíbrio são sintomas frequentes na consulta de Neurologia e podem ser provocados por doença neurológica (central) ou do ouvido (periférico). Ambos os sintomas podem resultar de causas agudas, crónicas ou recorrentes.
Nas causas agudas, o AVC isquémico ou hemorrágico é a mais prevalente, representando uma urgência médica. Acompanha-se de vertigem súbita, com descoordenação dos membros e alteração do andar (como se o doente estivesse embriagado), dificuldade em articular palavras, visão dupla, dor de cabeça ou alteração da força muscular ou coordenação. Sendo o tratamento emergente, após a identificação das características do doente, pode ter indicação para terapias específicas, nomeadamente, através de medicamentos que ajudam a desfazer coágulos de sangue ou através da sua remoção através de intervenção cirúrgica.
Dentro dos quadros crónicos, as doenças que atingem o cerebelo – conhecido como o órgão do equilíbrio – podem provocar desequilíbrio progressivo, com instabilidade da marcha, movimentos de balanceio do tronco e uma sensação de visão como se o ambiente estivesse em movimento. Entre estas patologias, incluem-se tumores, doenças degenerativas (como a Doença de Machado Joseph), intoxicações (por exemplo, abuso de álcool ou antiepiléticos) e processos inflamatórios. O tratamento é individualizado perante a causa.
A Doença de Parkinson e outras condições semelhantes podem também provocar alteração do equilíbrio, sendo um motivo frequente de instabilidade postural com quedas recorrentes associadas a outros sinais neurológicos, como lentificação da marcha, rigidez, tremor e postura encurvada. O tratamento do parkinsonismo pode passar por remover medicações que induzem este problema ou por terapêutica específica.
O desequilíbrio crónico também pode estar relacionado com o nervo periférico, que é responsável pela sensibilidade à dor, temperatura e noção de posição de determinada parte do corpo no espaço. A Diabetes Mellitus e o abuso crónico de álcool são doenças frequentes que atingem os nervos e podem manifestar-se com sensação de formigueiro e/ou dor nas extremidades, com agravamento do desequilíbrio no escuro. O manejo da neuropatia (doença do nervo) pode passar pela correção de fatores de risco vascular, como o bom controlo da Diabetes e cessação alcoólica para evitar a progressão das queixas.
Dentro das causas de vertigem recorrente, a enxaqueca vestibular corresponde a episódios de dor de cabeça pulsátil, com sensibilidade ao som e/ou luz, náuseas e/ou vómitos, intensidade moderada a grave, acompanhada temporalmente de vertigem. O tratamento pode passar por medidas higieno-dietéticas e medicamentos que atuam nos dois sintomas.
Nestes casos, é fundamental existir uma investigação neurológica detalhada através de um exame clínico minucioso e de exames complementares de diagnóstico. Diferenciar causas de vertigem e desequilíbrio do ouvido ou do sistema nervoso é essencial para guiar o tratamento e o prognóstico do doente.

O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, deu um passo decisivo na vanguarda da segurança hospitalar ao apresentar, no passado dia 13 de abril, o balanço final do projeto STOP Infeção 2.0. Segundo uma nota de imprensa enviada pela instituição hospitalar às redações, a unidade de saúde açoriana conseguiu eliminar totalmente as bacteriemias por cateter na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) entre 2022 e 2025. Este esforço de melhoria contínua não só elevou os padrões clínicos para níveis superiores à média nacional, como permitiu evitar 141 casos de infeção no triénio, traduzindo-se numa poupança direta de 439 mil euros para os cofres públicos da região.
O sucesso da iniciativa, que se enquadra no Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA), assenta na aplicação da metodologia “Planear-Fazer-Estudar-Agir”. O desempenho mais notável foi registado na UCI, onde a taxa de incidência de bacteriemia associada a cateter venoso central caiu de 2,72% em 2022 para uns absolutos 0,00% nos últimos dois anos. No mesmo período, as infeções urinárias associadas a cateter baixaram 66,5% e as pneumonias associadas à intubação reduziram cerca de 45%. Mais do que estatísticas, estes números representam um impacto humano profundo, com a estimativa de 24 mortes evitadas graças à adoção de protocolos rigorosos, como o uso sistemático de checklists e a padronização de procedimentos clínicos.
Para além de salvar vidas, a eficiência do projeto STOP Infeção 2.0 refletiu-se na gestão de recursos, libertando 1.464 dias de internamento que seriam consumidos por complicações hospitalares. Este resultado é particularmente significativo dado que foi alcançado num período de grandes desafios organizacionais e escassez de recursos humanos, culminando no reconhecimento público dos resultados na Alfândega do Porto. A nota de imprensa do HDES sublinha ainda que a adesão total dos profissionais de saúde aos novos protocolos foi o fator determinante para consolidar esta cultura de segurança, reafirmando o compromisso da maior unidade de saúde dos Açores com a excelência dos cuidados prestados aos utentes.

Suzana Calretas
Coordenadora do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado
SPMI – Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
O fígado é um dos órgãos mais importantes do corpo humano, desempenhando centenas de funções essenciais à vida. A nível mundial as doenças do fígado representam um problema muito relevante de saúde publica, afetando milhões de pessoas e contribuindo para uma taxa de mortalidade elevada. Em Portugal o panorama não é muito diferente.
Durante décadas, o consumo excessivo de álcool e as hepatites virais foram as principais causas de doença hepática; continuam a sê-lo. No entanto, nos últimos anos tem emergido de forma clara uma nova realidade: atualmente um terço da população adulta vive com uma condição chamada doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica, tradicionalmente conhecida como fígado gordo não alcoólico (esteatose é o termo médico que define a presença de gordura no fígado). Existem várias causas possíveis, embora as mais frequentes sejam o excesso de peso, a diabetes, a hipertensão, o colesterol e/ou os triglicerídeos elevados, sendo o consumo de álcool um fator que por si só provoca esteatose e por outro lado agrava a doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica.
E ter um fígado gordo ou esteatose hepática, não é inócuo. Esta doença, muito ligada ao estilo de vida contemporâneo, pode permanecer silenciosa durante anos. A esteatose pode evoluir com o aparecimento inflamação (esteatohepatite), cicatrizes no fígado (fibrose) que, não sendo atempadamente diagnosticada e tratada pode evoluir para cirrose e até cancro do fígado.
O diagnóstico passa pela realização de uma história clínica que identifique os fatores de risco; análises (que numa fase inicial podem ser perfeitamente normais) e exames de imagem, como a ecografia abdominal e a elastografia hepática; só excecionalmente pode ser necessária a realização de uma biopsia hepática.
Se atentarmos às causas desta doença, facilmente se conclui que ter uma alimentação equilibrada, com menos açúcar, menos ultraprocessados e menos excesso calórico; praticar regularmente exercício físico; controlar o peso e evitar o consumo de álcool são medidas concretas que ajudam a prevenir e melhorar ou reverter uma doença já instituída. Há ainda outros cuidados que têm toda a relevância: controlar a diabetes, a dislipidemia e a hipertensão não protege só o coração, mas também o fígado. Cumprir a medicação prescrita, evitar drogas, não usar medicamentos ou suplementos sem necessidade e manter comportamentos sexuais seguros são outras formas de reduzir riscos e a agressão hepática.
A propósito do Dia Mundial do Fígado que se celebra no dia 19 de Abril, e cujo lema é “Hábitos simples, fígado mais forte” importa por isso relembrar: muitas das doenças hepáticas estão ligadas a hábitos do dia a dia, e pequenas escolhas diárias, implementadas de forma consistente, podem fazer toda a diferença.

A secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, aprovou a adjudicação do procedimento concursal para a aquisição, instalação e manutenção de um sistema de cirurgia robótica destinado ao hospital do Divino Espírito Santo (HDES), investimento que reforça a modernização do serviço regional de saúde.
No âmbito da decisão agora tomada, foi adjudicada a aquisição, instalação e manutenção de um sistema de cirurgia robótica, pelo valor de 2,4 milhões de euros, e a aquisição, instalação e manutenção de uma mesa operatória emparelhável com sistema robótico, pelo valor de 114 mil euros.
O sistema a instalar no HDES corresponde ao modelo IS5000 – Intuitive da Vinci 5, o mais avançado sistema de cirurgia robótica de 5.ª geração, sendo o primeiro deste tipo a ser adjudicado em Portugal. Este equipamento incorpora mais de cento e cinquenta inovações tecnológicas, incluindo visualização tridimensional de alta-definição, maior precisão cirúrgica e tecnologia de ‘feedback’ de força, permitindo aos profissionais de saúde uma intervenção mais segura e eficaz.
Este avanço tecnológico traduz-se em benefícios diretos para os utentes, nomeadamente através da realização de cirurgias minimamente invasivas, com menor trauma, redução de complicações e tempos de recuperação mais curtos.
Para Mónica Seidi, “este investimento representa um passo decisivo na qualificação do serviço regional de Saúde, colocando os Açores na linha da frente da inovação tecnológica em saúde a nível nacional, com benefícios claros na qualidade dos cuidados prestados e na segurança dos utentes”.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Uma década é muito tempo, são dez anos, mas uma década de serotonina pode parecer tempo a mais na vida de um jovem – na verdade, é o tempo necessário.
Nem por acaso, há uma década que operacionalizo a minha vida pessoal, e profissional, através de ajuda clínica especializada, ajuda que é principalmente para alguém que, devido a problemas de saúde diversos, permanece numa demanda – muitas vezes, bastante solitária – de mudar de vida.
Se não mudarmos de vida, a vida muda-nos. Então, toda a ajuda é bem-vinda
Quando fiz 18 anos, em 2016, devido a vicissitudes várias na vida, comecei a ser seguido clinicamente, e, mais tarde, por outro clínico, com quem estou desde 2018, devido sobretudo à prevalência de problemas ligados à ansiedade bastante desregulada, a episódios recorrentes de depressão, bastante cíclicos e incapacitantes, entre outros fatores que se devem, entre outras causas diversas, a um défice meu na produção do neurotransmissor essencial para a regulação do humor, do sono, do apetite e da digestão, e que pode ter um impacto significativo na saúde física e também mental – a Serotonina.
A falta de Serotonina, ou a sua redução, está intimamente ligado a problemas de saúde mental adjacentes, como: depressão, ansiedade, transtono obsessivo-compulsivo; transtorno de pânico; problemas no sono ou dificuldades digestivas.
Devido a essa “falta” permanente, a esse défice natural, comecei a tomar vários medicamentos, que me compensaram essa lacuna, entre outras – uns mais grandes e mais potentes do que outros, inclusive, e que tornaram, gradualmente, uma pessoa mais saudável mentalmente, mais operacionalizável, mas que, outrora sem peso a mais, ganhou um aumento abrupto de peso e excesso de problemas de saúde física, devido ao seu peso, até atingir mesmo a Obesidade (grau I).
Embora a minha saúde mental tenha melhorado imenso – e até estabilizado de forma positiva -, o que tenho é, contudo, crónico – a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), esta resultante por exemplo de um défice de serotonina. É algo que, na minha vida, tem sido recorrente e só tem sido efetivamente controlado, mas não definitivamente curado.
Hoje, 10 anos depois, com 28 anos, assinalo 10 anos de ajuda mental, de acompanhamento clínico especializado – de uma acompanhamento que, na verdade, acompanha tanta gente por esse país, que não se reconhece ou que se reconhece como precisando de ajuda.
Um conselho que dou a quem, como eu, tem algo crónico, para a vida, e que provavelmente precisará de alguma medicação, é este: faz por ti, cuida de ti, ajuda-te muito, quando sentires que precisas dessa ajuda tua, também.
Todavia, nem tudo é por via de medicamentos solucionável, apenas, embora ajudem. Uma coisa que a experiência, e a prática, me ensinou é que podemos regular os níveis de serotonina também fazendo exercício físico regular; atividades ao ar livre e com luz natural; controlando o stress; e comendo, por exemplo, alimentos ricos em triptofano.
Uma reflexão pessoal que deixo a todos os leitores: apenas há 1 mês, em dez anos inteiros de tratamento, é que comecei a trabalhar, realmente com vontade e afinco, na regulação da minha serotonina, não apenas por via medicamentosa, que já o faço há dez anos, mas por via também natural, ou seja, recomecei, de forma permanente, as caminhadas ou corridas ao ar livre, dois a três quilómetros por dia, bem como recomecei a comer de forma mais equilibrada e saudável.
Tudo leva o seu tempo a acontecer. E, agora, tento manter uma postura mais saudável, mais rica, menos dolorosa – também para mim, como para os outros que gostam de mim.

A iniciativa «Tratar o cancro por tu» desloca-se a Angra do Heroísmo no próximo dia 12 de março para uma sessão dedicada à literacia em saúde. Segundo comunicado enviado às redações, a temática central deste encontro na ilha Terceira será “Prevenção de cancro: principais fatores de risco”, contando com a participação de Manuel Sobrinho Simões, diretor do Ipatimup e considerado o mais influente patologista do mundo pela revista The Pathologist.
O evento, que terá lugar no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo às 18h30, contará ainda com as intervenções de José Carlos Machado, Nuno Marcos e João Sarmento, além da participação especial de Jorge Sequeira. De acordo com a nota de imprensa da organização, a moderação do debate estará a cargo dos jornalistas da Antena 1, Miguel Soares e Tiago Alves, sendo que cada sessão deste ciclo dará origem a um podcast disponível na RTP Play e plataformas de streaming.
Cinco anos após o arranque do projeto, o Ipatimup regressa à estrada para combater o aumento de novos casos de cancro na Europa. Elisabete Weiderpass, líder do IARC (ramo da Organização Mundial da Saúde dedicado à oncologia), sublinha a importância da clareza na comunicação: “Ao falarem diretamente com os cidadãos com clareza, empatia e verdade, [os cientistas] são essenciais para quebrar tabus e promover o acesso à informação”. Para a investigadora, o uso de linguagem acessível “permite que todos compreendam os riscos” e oferece ferramentas para que as pessoas possam “cuidar da sua saúde com autonomia”.
O anfitrião da iniciativa, Manuel Sobrinho Simões, defende que estas sessões são fundamentais para inverter as estatísticas atuais através da mudança de comportamentos. “A aposta no conhecimento das pessoas com doença neoplásica passa pela mudança do comportamento no sentido da prevenção e do diagnóstico precoce, sem abandonar a importância da complexidade no contexto da medicina personalizada”, afirma o patologista. Além de Angra do Heroísmo, o ciclo de 2026 percorre cidades como Évora, Viana do Castelo e Guimarães, mantendo a parceria com a Antena 1, RTP e Jornal de Notícias.

Maria João Pereira
Farmacêutica
A insulina é uma hormona naturalmente produzida pelo pâncreas e desempenha diversas funções essenciais no organismo: regula os níveis de glucose no sangue, promove o armazenamento de glicogénio nos músculos, estimula a produção de proteínas e lípidos e inibe a produção de glucose pelo fígado.
Na ausência de insulina ou quando esta não atua de forma eficaz, o indivíduo pode desenvolver Diabetes Mellitus (DM), uma doença metabólica crónica, caracterizada por níveis persistententemente elevados de glucose (açúcar) no sangue.
Existem, essencialmente, três tipos de DM:
A DM é frequentemente conhecida como a “doença dos 4 P’s”: poliúria (aumento do volume urinário), polidipsia (sede excessiva), polifagia (fome aumentada) e perda de peso involuntário. Para além destes sintomas, podem surgir visão turva e cansaço.
A longo prazo, podem desenvolver-se várias complicações, nomeadamente: retinopatia diabética, pé diabético, nefropatia diabética, doenças cardiovasculares (como AVC, problemas de circulação e enfarte), maior dificuldade em cicatrizar feridas, infeções recorrentes, disfunção sexual e problemas de saúde oral.
A DM tipo 2 pode, em muitos casos, ser prevenida através da adoção de um estilo de vida saudável, que inclua uma alimentação equilibrada, prática de exercício físico regular, manutenção de um peso adequado, evicção de substâncias nocivas (como o tabaco e o álcool) e vigilância dos níveis de pressão arterial e colesterol.
A DM tipo 1 não é prevenível, por se tratar de uma doença autoimune. Contudo, a adoção de medidas acima mencionadas contribui para um melhor controlo da doença. Neste caso, é necessária a administração de insulina, uma vez que o pâncreas deixou de a produzir.
Por sua vez, a DM tipo 2 pode, inicialmente, ser controlada com alterações de estilo de vida e, posteriormente, com medicação, muitas vezes oral. Em alguns casos, pode também ser necessária a utilização de insulina, dependendo da evolução da doença.
Viver com diabetes pode ser um desafio, mas não significa perder qualidade de vida. Com informação adequada, acompanhamento regular e adoção de hábitos saudáveis é possível manter a doença controlada e prevenir complicações, promovendo uma vida plena e equilibrada.

Mafalda Melo
Psicomotricista
CDIJA
Os ecrãs tornaram-se inseparáveis do quotidiano, informando, entretendo e aproximando pessoas, espalhando-se por todo o lado — no bolso que carregamos, na sala onde nos encontramos e nas ruas por onde caminhamos. A infância cresce, também, neste cenário tecnológico e com ela surgem novos desafios que pedem um olhar atento para o corpo e para o desenvolvimento das crianças.
Na consulta de Psicomotricidade, surgem cada vez mais preocupações como estas: “Porque é que ele está sempre agitado?”, “Como é que consegue estar tão quieto diante de um telemóvel, mas depois fica tão irrequieto?”, “Porque é que ela parece desligada?”, “Porque é que custa tanto concentrar-se, acalmar ou dormir?” A resposta raramente é simples, mas, em muitos casos, o corpo está a dar sinais claros de sobrecarga.
Quando uma criança está diante de um ecrã, o corpo pode parecer quieto, mas o sistema nervoso está longe de estar em repouso. Luzes intensas, cores vibrantes, sons constantes, recompensas rápidas e estímulos sucessivos colocam o organismo num estado de alerta permanente. O corpo aprende a estar sempre pronto para reagir. Com o tempo, este estado de excitação constante pode traduzir-se em irritabilidade, impaciência, dificuldade em relaxar, menor tolerância à frustração e uma necessidade contínua de estímulos. Paralelamente, o sedentarismo prolongado e as posturas pouco funcionais interferem diretamente com o tónus muscular, podendo gerar tensão, fadiga, agitação sem propósito e uma menor consciência corporal.
Neste contexto, a psicomotricidade assume um papel fundamental na valorização do corpo em movimento, da exploração do espaço, do brincar livre e da interação real, promovendo o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional de forma integrada. O corpo da criança precisa de correr, saltar, cair, explorar, experimentar e até aborrecer-se. É através do movimento livre, dos sentidos e da ação corporal que a criança organiza emoções, constrói a atenção, estrutura o pensamento e conhece limites. Uma intervenção técnica especializada com um psicomotricista pode fazer a diferença, pois este fornece estratégias adequadas e direcionadas à família e à criança, de modo a promover habilidades essenciais para o seu desenvolvimento, sejam elas pegar corretamente num lápis para escrever, distinguir a esquerda e a direita, usar uma tesoura, equilibrar-se sem cair, lançar ou apanhar uma bola, começar e terminar uma tarefa, organizar e planear ações e outras aquisições motoras e cognitivas importantes. Desta forma, complementa o desenvolvimento, fortalecendo a confiança, a autonomia e a segurança da criança.
No dia a dia, pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. A criação de rotinas com menos ecrãs, sobretudo em momentos-chave como as refeições, antes de dormir ou durante a brincadeira, ajuda o corpo a abrandar. A troca de tempo passivo por tempo ativo, através de jogos de movimento, brincadeiras no chão, expressão corporal ou contacto com a natureza, devolve ao corpo aquilo de que ele precisa. Uma redução gradual do tempo de ecrã, mesmo que apenas de 10 a 15 minutos por dia, já representa um passo importante.
Os adultos têm um papel essencial, visto que as crianças aprendem pelo exemplo. A atenção plena, o olhar disponível, a presença sem distrações e o uso consciente do telemóvel transmitem mensagens poderosas às crianças. Quando os ecrãs são utilizados como resposta automática para acalmar ou silenciar emoções perde-se a oportunidade de ajudar a criança a desenvolver competências de autorregulação e de aprender a lidar com a frustração e o tédio.
Cada momento conta, sendo fundamental oferecer às crianças espaço para sentir o corpo, viver o movimento e descobrir a alegria simples de brincar. Que cada passo, cada salto, cada sorriso seja mais forte do que qualquer notificação. O mundo digital está à porta, mas o mundo real pulsa dentro delas — e é aí que o crescimento acontece.

Maria João Pereira
Farmacêutica
O tabagismo é o principal risco evitável para inúmeras doenças e a principal causa de morte prematura. Mesmo com toda a evidência científica disponível, continua a fazer parte do estilo de vida de muitas pessoas. E porquê? Porque provoca dependência física e psicológica. Os responsáveis por essa dependência são, entre outros, a nicotina e as nitrosaminas, componentes tóxicos e cancerígenos.
O consumo de tabaco é, assim, um hábito nocivo que não só prejudica a nossa saúde em diversos aspetos – físicos, emocionais e sociais – como a saúde daqueles que nos rodeiam, uma vez que a inalação do fumo do cigarro exalado afeta também os fumadores passivos.
O tabaco é um fator de risco para inúmeras doenças, nomeadamente:
Para além disso, o consumo de tabaco provoca alterações do paladar e do olfato, tosse e dificuldade respiratória, diminuição da capacidade de oxigenação, aumento do cansaço, úlceras gástricas, envelhecimento precoce e pele seca, entre muitos outros efeitos.
No foro psicológico, o consumo de tabaco intensifica a necessidade de fumar como forma de acalmar a ansiedade, criando um ciclo de falso alívio, breve e repetidamente seguido pela vontade de fumar.
Os benefícios? São desconhecidos.
Curiosamente, por ser considerado um ato social, faz com que os fumadores se sintam integrados num grupo. Chega mesmo a ser irónico como fazer uma pausa para fumar é, muitas vezes, mais aceite do que fazer uma pausa para respirar e organizar as ideias.
Uma boa resolução de Ano Novo seria, seriamente, a cessação tabágica, que traz consigo inúmeros benefícios: maior nível de energia, melhor capacidade de oxigenação, melhoria do bem-estar geral, mais saúde e vitalidade, melhoria do sistema imunitário, recuperação do paladar e olfato e entre muitos outros.
Apesar de ser um processo exigente, existem várias estratégias para deixar de fumar: consultas de cessação tabágica, fármacos, apoio psicológico, terapia comportamental e alteração do estilo de vida. A cessação pode ser abrupta ou gradual – o mais importante é tomar a decisão e mantê-la. A ajuda médica personalizada pode ser determinante no percurso.
Uma das estratégias existentes passa por definir o dia em que vai deixar de fumar, informar as pessoas próximas e cumprir – repetindo o ciclo as vezes que forem necessárias.
The ambiente em que nos encontramos também pode facilitar ou dificultar a mudança de comportamento. Evitar espaços com fumo, locais associados ao consumo ou situações que o incentivem pode ser particularmente útil numa fase inicial.
Deixar de fumar não é uma questão de falta de força de vontade, mas sim de enfrentar uma dependência real. Cada tentativa conta, mesmo as que parecem falhar. O mais importante é não desistir de si. Com apoio, informação e tempo, é possível quebrar este ciclo e recuperar saúde, liberdade e qualidade de vida. Nunca é tarde para recomeçar. Nunca é tarde para cuidarmos da nossa saúde.

O projeto para a instalação do Centro de Cuidados Renais no Tecnoparque da Lagoa, na ilha de São Miguel, foi formalmente dado como sem efeito pela autarquia lagoense. A decisão da Câmara Municipal surge após meses de silêncio por parte da empresa promotora, a Medifarma – José Horácio Rego Sousa, Lda., que havia solicitado um alargamento substancial dos prazos para o início da operação da unidade.
The Diário da Lagoa apurou que a candidatura da Medifarma ao programa municipal “Lagoa Investe” foi aprovada em dezembro de 2024, prevendo a ocupação do Lote 29 do parque tecnológico. No entanto, o processo entrou num impasse quando o promotor solicitou que a entrada em funcionamento fosse adiada. Segundo confirmou a autarquia, “o promotor apresentou o pedido de alargamento do prazo para início das obras de construção, até aos 3 anos a contar da data de assinatura do contrato e que o período para entrada em operação da unidade fosse alargado para os 6 anos”.
A Câmara Municipal de Lagoa recusou a pretensão em maio de 2025, invocando a salvaguarda do interesse público. Perante a ausência de resposta da empresa nos meses seguintes, a autarquia decidiu encerrar o processo, sendo que em “11 de novembro de 2025, [a Câmara] informou ao promotor que toma a ausência de resposta como perda de interesse por parte daquela Empresa, dando assim sem efeito a candidatura”, lê-se na resposta oficial enviada ao nosso jornal.
As suspeitas em torno deste investimento foram levantadas originalmente pelo Bloco de Esquerda (BE). O deputado António Lima denunciou que o projeto privado é promovido pelo irmão da presidente do Conselho de Administração do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), Paula Macedo. Para os bloquistas, a intenção de externalizar o serviço de hemodiálise do hospital público coincidia com o avanço deste centro privado e com a retirada das verbas para obras na unidade pública do Plano de Investimentos para 2026.
No parlamento açoriano, a maioria composta por PSD, CDS-PP e Chega rejeitou os requerimentos do BE para audições urgentes, o que o partido classificou como uma tentativa de “esconder as razões” da decisão. Questionada oficialmente sobre o projeto e as razões para o pedido de adiamento da obra, a empresa Medifarma não enviou qualquer resposta até ao momento. Por outro lado, a Direção Regional da Saúde tem reiterado que não existe uma decisão final sobre a privatização do setor, apesar de os registos municipais confirmarem a existência de um plano empresarial estruturado para a instalação da referida clínica.
Com o cancelamento do projeto do Centro de Cuidados Renais e a ausência de garantias de investimento na unidade pública do HDES, o modelo de prestação de cuidados aos doentes renais em São Miguel permanece sem uma definição clara por parte das autoridades regionais.