
Venicio da Costa Ponte
Vice-coordenador da Iniciativa Liberal Açores
Há manhãs em que a leitura da imprensa regional nos devolve uma dose de entretenimento que nenhum algoritmo de Inteligência Artificial conseguiria replicar. Estava eu, no meu habitual périplo pelas notícias das nossas nove ilhas, quando me deparo com uma declaração de José Manuel Bolieiro que merece figurar no panteão do otimismo antropológico: em 2028, o PSD concorrerá sozinho.
Tal como o apóstolo São Tomé, confesso que a minha natureza é a da dúvida metódica. “Só vendo”, pensei eu, enquanto tentava processar a ideia de um partido que governa em coligação tripartida — e que ainda assim precisa de equilibrar pratos com o Chega, a IL e o PAN para não deixar cair o orçamento — anunciar, com dois anos de antecedência, que afinal já não precisa de companhia para ir ao baile.
O sarcasmo é inevitável. Bolieiro garante que “não há risco de melindres” entre os parceiros CDS e PPM. É uma forma elegante de dizer que o divórcio está assinado antes mesmo da renovação dos votos, mas que, até lá, todos continuam a partilhar o mesmo teto institucional com um sorriso diplomático. É a política do “estamos bem”, embora a perceção pública, como a própria entrevista sugere, insinue por vezes que o vice-presidente manda mais do que o presidente. Bolieiro desmente, claro. Mas na política, como na física, quando se gasta tanta energia a desmentir quem manda, é porque a autoridade está a ser exercida por osmose.
Para um liberal, esta súbita vontade de “solidão” do PSD Açores levanta questões interessantes. Se o PSD quer concorrer sozinho para “não se anular”, por que razão não aproveita essa clareza de liderança agora? Por que razão continuamos a ver uma governação que, nas Lajes, admite a ingenuidade do otimismo e, na SATA, navega entre a ausência de pessimismos e a falta de soluções concretas para a saída da Ryanair?
A visão de futuro que os Açores exigem não passa por saber se o PSD vai sozinho ou acompanhado ao altar das urnas em 2028. Passa por saber se teremos a coragem de transformar a Região num polo de competitividade real, livre da “dependência crónica das transferências do Estado” que o próprio Bolieiro critica ao apontar o dedo à Lei das Finanças Regionais. Culpar o centralismo de Lisboa é o desporto nacional preferido de qualquer governo regional, mas a verdadeira autonomia conquista-se com reformas, com o tal “choque fiscal” que atraia investimento.
Em 2028, veremos se o PSD vai sozinho. Até lá, ficamos com a promessa da “palavra dada”. Prefiro focar-me nos resultados dados. Porque, no fim do dia, o que interessa ao pagador de impostos açoriano não é a composição da lista eleitoral, mas sim se o governo — seja ele de que cor for — tem a coragem de tirar a mão do seu bolso e deixar a economia respirar. Veremos.

Venicio da Costa Ponte
Vice-Coordenador IL Açores
A geografia é um destino, mas a política é a escolha consciente do que fazer com ele. Durante décadas, a visão nacional sobre os Açores foi limitada por uma lente de “extensão atlântica”, um arquipélago de importância histórica, mas frequentemente tratado como uma periferia economicamente dependente e geograficamente isolada. No entanto, o Projeto de Resolução recentemente apresentado pelo deputado Pedro Ferreira, no Parlamento dos Açores, propõe uma rutura necessária com esta passividade. Ao recomendar que a Região assuma a sua centralidade na arquitetura de defesa transatlântica e europeia, a Iniciativa Liberal toca no ponto fulcral da modernização das nossas instituições: a transformação da nossa posição no mapa em prosperidade real e segurança partilhada.
O modelo de gestão excessivamente centralizado em Lisboa tem funcionado, demasiadas vezes, como um filtro que retarda o potencial das regiões autónomas. As decisões críticas sobre o futuro da Base das Lajes ou a gestão do mar profundo não podem continuar a ser vistas apenas sob o prisma da diplomacia bilateral clássica ou de interesses conjunturais da capital. O que este Projeto de Resolução introduz é uma visão pragmática e ambiciosa, onde os Açores deixam de ser a periferia de Portugal para serem compreendidos como o nó central da União Europeia no Atlântico. No coração dos fluxos de dados que atravessam os cabos submarinos e sustentam a economia digital do continente, a proteção e rentabilização desta infraestrutura exige uma coordenação que ultrapassa a escala nacional e se insere plenamente num quadro de cooperação europeia de segurança e defesa.
Esta visão não beneficia apenas o arquipélago; ela redefine o papel do próprio país no projeto europeu. Portugal tem passado décadas a tentar provar a sua relevância através do cumprimento de metas orçamentais, mas a nossa verdadeira mais-valia para a Europa é geopolítica. Numa União que ambiciona uma autonomia estratégica real, Portugal deixa de ser um Estado na borda do continente para se tornar o pilar central de uma soberania partilhada no Atlântico. É esta escala de integração, onde a defesa e a segurança das infraestruturas críticas são geridas como um bem comum europeu, que permite a Portugal projetar uma influência que, isoladamente, seria inalcançável.
O projeto apresentado não se limita a pedir uma presença militar estática; propõe a criação de um verdadeiro ecossistema tecnológico. Ao recomendar a integração dos Açores em projetos inovadores de escala europeia, como o Fundo Europeu de Defesa, abre-se a porta a investimentos em áreas de vanguarda, da cibersegurança à vigilância marítima e tecnologias espaciais. Para uma visão liberal de futuro, isto representa a máxima eficiência: utilizar a segurança como um motor de inovação e emprego qualificado, fixando jovens talentos nas ilhas através da captação de investimento privado e de parcerias internacionais. Como bem sublinhou Pedro Ferreira, a questão é se queremos continuar a ser um território de passagem ou se preferimos ser protagonistas estratégicos.
Se queremos celebrar os cinquenta anos de Autonomia com os olhos postos no futuro, temos de parar de olhar para o mar como um fosso que nos separa e passar a vê-lo como a plataforma que nos torna indispensáveis. O futuro dos Açores, e de Portugal, exige esta ambição de escala europeia e uma inserção inteligente no espaço euro-atlântico. É tempo de liderarmos a partir do centro do oceano, provando que a geografia, quando aliada à visão política correta, é o nosso maior ativo económico e diplomático.

Venicio da Costa Ponte
Vice coordenador da Iniciativa Liberal Açores
A decisão da Ryanair de cancelar todos os voos de e para os Açores a partir de 29 de março de 2026 não é apenas mais um episódio turbulento na aviação europeia. É um sinal claro de que algo estruturalmente profundo falhou na gestão da conectividade aérea da região. E, apesar de todos os constrangimentos operacionais associados ao arquipélago, meteorologia imprevisível, dispersão territorial, custos inerentes ao insularismo, essas dificuldades não chegam para justificar uma perda tão grave.
A própria companhia aérea foi explícita: a responsabilidade recai sobre dois alvos bem definidos, a ANA, que detém o monopólio da gestão aeroportuária, e o Governo português, cuja “inação” é criticada pela transportadora. Segundo a Ryanair, as taxas aeroportuárias continuam a subir sem contrapartidas em conectividade, as taxas de navegação aérea aumentaram 120% após a pandemia, e foi ainda introduzida uma taxa adicional de 2 € por passageiro num momento em que vários países europeus fazem precisamente o contrário. Por fim, a crítica estende-se ao ETS europeu, que penaliza regiões remotas como os Açores, mas isso apenas reforça a necessidade de uma atuação governamental robusta — não a dispensa.
É aqui que se torna impossível ignorar uma realidade desconfortável: a região tem sido incapaz de garantir um quadro estável, competitivo e previsível para as companhias aéreas que operam no arquipélago. As low-cost não abandonam um destino por capricho; fazem-no quando as contas deixam de fechar. E o que a Ryanair diz sobre os Açores é grave: o ambiente regulatório português, associado ao monopólio aeroportuário, tornou o destino insustentável quando comparado com alternativas na Europa.
Enquanto isso, o Governo Regional mantém um discurso que, apesar de politicamente prudente, pouco acrescenta à resolução do problema. Entre afirmações como “fizemos o que tínhamos a fazer” ou expectativas de que a companhia “honre os compromissos”, não surgem medidas concretas, renegociações eficazes ou um plano plurianual de conectividade que dê garantias à economia regional. A ausência de respostas públicas firmes às acusações da Ryanair contrasta com o impacto económico anunciado: perder-se-ão ligações diretas para Londres, Bruxelas, Lisboa e Porto, rotas críticas para a mobilidade e o turismo.
A acompanhar esta indefinição política, o setor privado faz soar os alarmes. O alojamento local, que já alertara para perdas superiores a 30% se a companhia reduzisse operações, enfrenta agora um cenário drasticamente pior. A economia açoriana, altamente dependente da aviação, não pode funcionar com incerteza permanente.
É verdade: gerir aviação nos Açores é mais complexo do que gerir aviação na Madeira ou nas Canárias. O clima é mais instável, os custos são maiores e a fragmentação territorial exige uma logística mais exigente. Mas isso não torna a operação impossível. Torna-a, isso sim, dependente de governação competente, de visão estratégica e de políticas que compreendam, de facto, as regras da aviação moderna.
Num setor em que tudo depende de margens apertadas e previsibilidade, os Açores têm oferecido exatamente o contrário: decisões tardias, negociações opacas, hesitação permanente e uma estrutura tarifária nacional que penaliza especialmente a região. Sem alterar esse quadro, qualquer tentativa de atrair ou reter operadores será apenas cosmética.
O cancelamento anunciado pela Ryanair não é um aviso. É a consequência.
Para garantir o futuro da conectividade aérea açoriana, será necessário um programa quinquenal de incentivos estáveis, um organismo técnico dedicado exclusivamente à negociação com companhias aéreas, e uma estratégia clara que coloque Ponta Delgada como hub principal, não por preferência política, mas porque é assim que o mercado funciona.
Até lá, os Açores continuarão a perder altitude. E a responsabilidade não será do clima.

Venicio da Costa Ponte
Vice coordenador da iniciativa Liberal Açores
Abril é o mês da liberdade. Mas mais do que uma memória de cravos nas janelas, deve ser um convite à ação — especialmente quando estamos a poucos dias de novas eleições. No dia 18 de maio, os portugueses voltam às urnas para escolher quem vai governar. Nesta escolha, há uma coisa que importa relembrar: a liberdade não foi sempre garantida. E não é garantida para sempre.
A 25 de Abril de 1974, Portugal acordou de uma longa noite. Durante 48 anos, o país viveu sob uma ditadura que silenciava opiniões, censurava jornais, perseguia opositores e negava a participação política livre. A Revolução dos Cravos foi muito mais do que a queda de um regime — foi o renascimento da cidadania, da pluralidade, da possibilidade de discordar e de propor caminhos diferentes. Foi o começo de um país novo.
Mas o processo democrático não se consolidou num só dia. Após o 25 de Abril, houve tempos de instabilidade e tensão, em que se disputava não apenas o poder, mas o próprio modelo de sociedade que iríamos construir. Foi nesse contexto que o 26 de novembro de 1975 tornou-se um marco. Nessa data, as Forças Armadas — divididas internamente — puseram fim a uma tentativa de desvio autoritário por parte da extrema-esquerda. O que estava em causa não era apenas quem mandava, mas se Portugal seguiria um caminho democrático e plural ou cairia noutra forma de repressão, ainda que em nome de uma ideologia diferente. O resultado foi claro: escolhemos a liberdade — de expressão, de organização, de voto. Liberdade para todos.
Hoje, quase cinco décadas depois, essa mesma liberdade continua a viver em cada ato eleitoral. É fácil esquecermo-nos do seu valor quando nascemos já em democracia. Mas votar continua a ser um dos gestos mais poderosos que podemos fazer — não apenas por nós, mas por quem virá depois.
No próximo dia 18 de maio , somos chamados novamente a escolher. Entre muitas opções legítimas, está também a possibilidade de votar liberal. Em ideias que defendem a liberdade individual, o mérito, o empreendedorismo, a descentralização do poder e uma economia aberta. Essa escolha não tem sido tradicionalmente dominante em Portugal — talvez por herança histórica, talvez por preconceitos persistentes — mas é uma escolha válida, legítima e profundamente democrática.
Escolher votar liberal não é virar as costas a abril — é afirmar uma visão diferente sobre como cumprir os seus ideais. Porque liberdade também é isso: poder acreditar que o Estado não tem de estar em todo o lado, que o indivíduo pode e deve ter espaço para crescer, que a responsabilidade pessoal é uma forma de dignidade, e que uma sociedade aberta e exigente pode ser mais justa do que uma sociedade controlada e paternalista.
Para os mais jovens, que muitas vezes se sentem distantes da política, esta pode ser uma oportunidade de fazer a diferença. O voto não muda tudo — mas é o começo de tudo. É o primeiro passo para exigir, construir, transformar. É a forma mais direta de dizer: estou aqui, tenho voz, quero participar.
Abril de 1974 devolveu-nos essa voz. Novembro de 1975 protegeu-a. Em Maio de 2025, cabe-nos a nós usá-la — com liberdade, com consciência e com coragem.
Neste mês da liberdade façamos uma reflexão, sejamos dignos da história que herdámos. E façamos do voto uma afirmação clara do país em que queremos viver.