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Água de Pau celebra o diálogo entre tradição e modernidade

Exposição “Fibras Vegetais” e o documentário “Memórias da Água” colocam o saber ancestral dos artesãos lagoenses no centro da agenda cultural, cruzando técnicas seculares com a visão da arte contemporânea

© CM LAGOA

A Vila de Água de Pau reafirma-se como o coração do artesanato concelhio com a inauguração, no Auditório Ferreira da Silva, de dois projetos que homenageiam a identidade material e imaterial da Lagoa. A exposição “Fibras Vegetais” e o documentário “Memórias da Água” surgem como ferramentas de preservação de um legado que moldou o território e a vida das populações locais ao longo de gerações.

A mostra “Fibras Vegetais” é o resultado de uma residência artística de Sofia de Medeiros, que mergulhou nas oficinas dos artesãos Alcídio Andrade e Lurdes Couto para criar seis peças inéditas. O projeto destaca a vitalidade da arte cesteira, do trabalho em folha de milho e da espadana, matérias-primas que outrora nasceram da necessidade e que hoje ganham uma nova dimensão estética. Segundo uma nota enviada pela autarquia lagoense à redação, esta iniciativa valoriza não apenas o resultado final, mas todo o processo criativo assente em práticas que respeitam os ritmos da natureza.

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Presente na inauguração, o presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, destacou o significado cultural da simbiose entre artistas e artesãos. “Esta mostra valoriza um património que está vivo, que une gerações e que respeita os ritmos da natureza”, afirmou o autarca, citado no comunicado da autarquia. Frederico Sousa enalteceu ainda o trabalho de Alcídio Andrade e Lurdes Couto, apelidando-os de “guardiões de alguns dos saberes tradicionais da nossa terra”.

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A par desta valorização manual, o documentário “Memórias da Água” oferece uma viagem visual ao passado da comunidade. Construído a partir do espólio fotográfico de Roberto Medeiros, o filme resgata vivências coletivas e histórias de um tempo em que a água era o motor central do trabalho e da organização social na Lagoa. Sobre esta obra, o presidente da edilidade salientou que se trata de “um testemunho essencial da nossa identidade coletiva”, garantindo que as novas gerações compreendam a riqueza do seu passado.

Ao elevar os artesãos locais ao estatuto de protagonistas, estes projetos asseguram que as técnicas ancestrais continuam a ter lugar no futuro da região, transformando a tradição numa semente para novas experimentações artísticas e reforçando a coesão social da vila.

Auditório Ferreira da Silva inaugura exposição e documentário sobre fibras vegetais e memória local em Água de Pau

Sofia de Medeiros apresenta exposição ‘Fibras Vegetais’ e é apresentado documentário ‘Água de Pau: Memórias da Água’, destacando património e identidade da vila

© CM LAGOA

O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, inaugura na próxima sexta-feira, 6 de março, pelas 18h00, a exposição «Fibras Vegetais», da artista Sofia de Medeiros, e apresenta o documentário «Água de Pau: Memórias da Água», com base no espólio fotográfico de Roberto Medeiros.

O anúncio foi feito pela Câmara Municipal da Lagoa e revela que a exposição resulta de uma residência artística em colaboração com os artesãos lagoenses Alcídio Andrade e Lurdes Couto, focada na exploração e valorização das fibras vegetais, matéria-prima inserida no projeto municipal «Entrelaçar Fibras Vegetais».

De acordo com a autarquia lagoense, o projeto foi criado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e preservação da arte do entrelaçado com fibras vegetais, valorizando os saberes tradicionais transmitidos de geração em geração e o conhecimento das plantas e dos seus ciclos. Assentando em matérias-primas de maior expressão no concelho da Lagoa, como o vime, a espadana e a folha de milho, o projeto visa assegurar a transmissão destas técnicas e incentivar o surgimento de novos artesãos, face à redução do seu número atualmente.

O projeto estrutura-se em dois eixos: um dirigido à comunidade em geral e outro à comunidade escolar do concelho de Lagoa. No eixo escolar, a arte de entrançar fibras vegetais integra a disciplina de Educação Tecnológica do segundo e terceiro ciclo, sensibilizando os alunos para a sua importância e promovendo competências técnicas e criativas.

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O documentário «Água de Pau: Memórias da Água» é um registo audiovisual que recupera histórias, vivências e identidades locais através das imagens da coleção fotográfica de Roberto Medeiros. Este trabalho constitui um importante testemunho visual da comunidade pauense e da sua evolução ao longo do tempo, propondo uma reflexão sobre a fotografia enquanto instrumento de memória e identidade coletiva.

O documentário abordará numa primeira parte o colecionismo e o papel do colecionador na construção da memória social. Numa segunda parte, através da coleção fotográfica, destaca a importância do elemento água na história da vila, explorando dimensões como vida, espiritualidade e património, e reforçando o sentimento de pertença da comunidade à sua terra.

Este momento cultural pretende afirmar-se como um espaço de encontro entre arte contemporânea, património e memória coletiva, reforçando a criação artística enquanto instrumento de preservação e valorização da identidade local. A entrada no Auditório Ferreira da Silva será livre.

Jovem de Água de Pau reforça laços diplomáticos com a Ucrânia quatro anos após o início da guerra

Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko em Lisboa, entregando lembranças oficiais da região e dos municípios açorianos

Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko em Lisboa © DIREITOS RESERVADOS

O dia 24 de fevereiro de 2026, que assinalou o quarto aniversário da invasão russa à Ucrânia, ficou marcado por um novo capítulo na relação de solidariedade entre o arquipélago dos Açores e o povo ucraniano. Álvaro Borges, jovem de 25 anos natural da Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, e licenciado em Direito, marcou presença em Lisboa numa conferência de alto nível promovida pela Embaixada da Ucrânia e pelo Canadá. No encontro, o jovem lagoense reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko, consolidando uma ligação que nasceu em setembro de 2025, quando Álvaro integrou uma missão internacional de jovens a Lviv, a Capital Europeia da Juventude.

A presença de Álvaro Borges nesta iniciativa não foi apenas simbólica, mas também institucional. O jovem procedeu à entrega de lembranças oficiais confiadas pelo Governo dos Açores, pelas Câmaras Municipais da Lagoa e de Ponta Delgada e pela Junta de Freguesia do Livramento, onde reside atualmente. Este gesto mereceu o reconhecimento da embaixadora, que manifestou novamente o desejo de se deslocar aos Açores para participar numa conferência sobre o conflito. A iniciativa conta já com a disponibilidade de Andriy Chesnokov, consultor permanente da Ucrânia em Viena e antigo governante ucraniano, que se mostrou pronto para visitar a região e partilhar a realidade do seu país com os açorianos.

Segundo Álvaro Borges, este envolvimento é o prolongamento de uma experiência profunda vivida no terreno. Recorde-se que, durante a sua estada na Ucrânia, o jovem chegou a enfrentar alertas aéreos e a ter de recolher a abrigos antiaéreos perante a ameaça de bombardeamentos. Além do perigo vivido, Álvaro trouxe consigo histórias de resiliência, como a de um jovem amigo e refugiado que acolheu nos Açores durante o período natalício.

Com este novo encontro diplomático em Lisboa, o percurso de Álvaro Borges reafirma-se como uma ponte ativa entre as instituições açorianas e a resistência ucraniana, promovendo um espaço de informação e reflexão direta sobre os impactos globais da guerra.

Deputadas jovens levam propostas à Assembleia Municipal da Lagoa

Requalificação de espaços desportivos, segurança rodoviária e apoio à saúde estão entre as prioridades apresentadas por Júlia Rego e Natacha Vieira

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As deputadas jovens municipais Júlia Rego, da Escola Secundária de Lagoa, e Natacha Vieira, do INETESE, participaram esta quinta-feira, 19 de fevereiro, na sessão da Assembleia Municipal da Lagoa, realizada no Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau. Na qualidade de representantes da juventude lagoense, as jovens apresentaram um resumo estruturado das propostas resultantes da reunião da Assembleia Municipal Jovem (AMJ), realizada no passado mês de novembro. Esta presença decorre da responsabilidade assumida no âmbito da quarta edição da AMJ, que prevê não só a apresentação das conclusões dos trabalhos desenvolvidos em sessão de Assembleia Municipal, mas também a colaboração ativa em futuras iniciativas dirigidas aos jovens do concelho.

De acordo com nota de imprensa enviada pela Câmara da Lagoa às redações, o documento com as prioridades geradas pelos jovens foi entregue ao presidente da Assembleia Municipal da Lagoa, Ricardo Martins Mota, aos respetivos deputados municipais e ao presidente da Câmara Municipal, Frederico Sousa.

Durante a intervenção, as principais propostas debatidas incidiram sobre áreas que a juventude local considera prioritárias para o desenvolvimento da Lagoa. Entre os pontos destacados figuram a requalificação de espaços desportivos e polivalentes, a criação de parques infantis e skate parques, bem como a melhoria das acessibilidades e da pavimentação de passeios. As deputadas jovens alertaram ainda para a necessidade de reforço da segurança rodoviária e da iluminação pública, para além da valorização do património e da dinamização de eventos culturais e desportivos. No plano social, o caderno de encargos apresentado incluiu o apoio à saúde, o combate à toxicodependência e a promoção do envelhecimento ativo.

Na ocasião, Ricardo Martins Mota agradeceu a presença das deputadas e congratulou todos os membros jovens pelo trabalho desenvolvido. O autarca sublinhou que as propostas transmitidas “evidenciam participação, trabalho e generosidade na forma como dedicam o vosso tempo e ideias, no propósito maior de valorizar o nosso concelho e o bem-estar desta comunidade”.

Com esta iniciativa, a autarquia lagoense conclui que a Assembleia Municipal Jovem afirma-se “como um espaço de participação e construção coletiva, incentivando as novas gerações a contribuir ativamente para o desenvolvimento do concelho”.

Coral de São José atua em concerto de Natal no Auditório Ferreira da Silva

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O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, irá acolher no dia 14 de dezembro, pelas 20h30, um Concerto de Natal pelo Coral de São José.

Sob a direção musical de Luís Filipe Carreiro e acompanhado ao piano por Natália Atamas Silva, o Coro Sinfónico do Coral de São José interpretará um programa musical que promete envolver o público com temas como «Natal de Elvas» e «Natal de Linhares».

O concerto incluirá, depois, arranjos contemporâneos de temas amplamente reconhecidos do universo cinematográfico e musical natalício, tais como «O Magnum Mysterium», de Morten Lauridsen, «Jesus Bleibet meine Freude», de J. S. Bach, «Lully, Lulla, Lullay», de Philip Stopford e «Mingle Bells», de Alex Woolf, e temas icónicos como «Have Yourself a Merry Little Christmas», «Christmas on Broadway», «Joy to the World», «The Polar Express» e «Merry Christmas! Merry Christmas!», de John Williams.

O Coral de São José, fundado em 1967, em Ponta Delgada, começou por servir as celebrações litúrgicas da Igreja de São José e as transmissões da RTP Açores. Ao longo dos anos, ampliou a sua atuação para o âmbito concertístico, apresentando-se nos Açores, no continente e nos Estados Unidos. O Coral de São José conta com várias distinções, incluindo o estatuto de Entidade de Utilidade Pública Regional, reconhecimentos municipais e regionais, e condecorações como a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico e a Cruz da Ordem Pro Mérito Militense. Em 2017, no seu 50.º aniversário, recebeu ainda a Bênção Apostólica do Papa Francisco.

Torneio de Natal reúne 112 judocas na Vila de Água de Pau

A forte adesão demonstrou a vitalidade crescente da modalidade na ilha, contando com a participação de 36 atletas do Judolag

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A Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, recebeu no passado fim de semana, no Pavilhão da EBI de Água de Pau, o “Torneio de Natal de Judo – Lagoa 2025”. Organizado pelo Judolag, em parceria com a Associação de Judo do Arquipélago dos Açores, o evento reuniu um total de 112 jovens atletas de vários clubes da ilha de São Miguel.

A competição foi marcada por um forte espírito desportivo, entusiasmo e o convívio que une a comunidade judoca, reforçando os valores fundamentais da modalidade como o respeito, a disciplina, a amizade e a entreajuda, em ambiente de época festiva.

A forte adesão demonstrou a vitalidade crescente da modalidade na ilha, contando com a participação de 36 atletas do Judolag; 29 do Samurai; 23 do Clube de Judo Ribeira Grande; 22 do Judo Clube de Ponta Delgada; e ainda um atleta do CEDA e outro do Passarada. No total o pavilhão da escola pauense acolheu 112 inscritos.

O acompanhamento técnico e o bom funcionamento da prova foram garantidos por uma estrutura de seis treinadores do Judolag e oito árbitros, com o apoio de dois árbitros do Clube de Judo da Ribeira Grande, um do Judo Clube de Ponta Delgada e um da Academia Samurai.

Os jovens competidores foram distribuídos por três grupos distintos, organizados por faixas etárias para garantir a equidade da competição: o Grupo 1, para os atletas menores de oito anos; o Grupo 2, destinado aos menores de 13 anos; e o Grupo 3, que englobou as categorias Juvenis, Cadetes e Juniores.

Autarquia lagoense acompanha no terreno operações em Água de Pau

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O presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, acompanhou no terreno as operações de resposta e recuperação na sequência da intempérie que, este sábado, afetou a Vila de Água de Pau, no concelho de Lagoa, provocada pela forte precipitação que se fez sentir na ilha de São Miguel.

De acordo com nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense, das situações reportadas destacam-se inundações em habitações e vias públicas na sequência do transbordo de ribeiras que provocaram o arrastamento de viaturas. Apesar dos danos materiais significativos, não há registo de vítimas.

Destaca-se a situação de inundação de uma moradia que ficou sem condições de habitabilidade, apesar de não se verificar a necessidade de realojamento, pelo facto dos habitantes da mesma terem ficado alojados em casa de familiares. Por outro lado, e pela força das águas que transbordaram da ribeira situada na Rua da Ribeira Seca, denominada de Ribeira de Santiago, foram arrastadas quatro viaturas, para a ribeira. No total, cerca de 15 viaturas ligeiras sofreram danos.

Durante o dia de sábado a autarquia refere que foi ativado, de imediato, o Plano Municipal de Proteção Civil do Município da Lagoa, e a Câmara Municipal, juntamente como apoio da Junta de Freguesia da Vila de Água de Pau, procederam à mobilização de meios de transportes e recursos humanos municipais para os trabalhos de limpeza e desobstrução das vias e das condutas da ribeira, bem como apoio às pessoas lesadas pelas inundações.

A limpeza e desobstrução das vias ficou concluída após oito horas de trabalho contínuo, acompanhados pelo presidente da Câmara da Lagoa, Frederico Sousa, pela presidente da Junta de Freguesia de Vila de Água de Pau, Vanessa Silva, a que se juntaram técnicas do Instituto de Segurança Social.

Durante esta segunda-feira, Frederico Sousa, Vanessa Silva e o serviço de proteção municipal da autarquia, acompanhados por técnicos da Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, encontram-se no local para proceder à análise e vistoria rigorosa à zona da Ribeira do Santiago, de forma a identificar as possíveis causas desta situação, uma vez que se verificou a presença de detritos no local, nomeadamente troncos de madeira, cuja remoção está a ser efetuada pelos operacionais da Secretaria do Ambiente e Câmara Municipal.

Relativamente aos prejuízos, já foram desencadeados pela autarquia da Lagoa, procedimentos no âmbito do Plano Municipal de Proteção Civil, para a ativação do Fundo de Emergência Climática do Governo Regional dos Açores, em estreita articulação e colaboração com a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática.

510 Anos de História e Tradição:  Celebração da Vila de Água de Pau (1515-2025)

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Ao revisitar a história desta vila, deixo-me entrar no túnel do tempo, embarcando numa caravela que, na segunda metade do século XV, partiu de Portugal rumo à costa sul da ilha de São Miguel. À medida que nos aproximamos, a embarcação desliza ao longo das escarpas e falésias de lava, revelando grutas e cavernas ocultas pelo tempo. Ao longe, diviso a silhueta de um penedo que lembra a quilha de uma galera, enquanto formações rochosas se erguem como um anfiteatro natural.

À medida que nos aventuramos mais, a falésia torna-se imponente, adornada por carrancas esculpidas pela lava. Então, diante de nós, desdobra-se uma baía serena, onde duas praias se encontram. Numa pequena enseada, uma gruta esconde-se à espera da maré cheia, quando as águas a preenchem e permitem a entrada de pequenas embarcações, tornando-a ainda mais mágica.

Ao nos aproximarmos da segunda praia, protegida pelo abraço da baía, avistamos uma cascata cristalina que se desprende da rocha, criando uma calheta que rasga a areia. O fio de água doce corre suavemente até se fundir com o mar, num espetáculo de beleza e harmonia que o tempo jamais apagará.

A bordo da caravela, viajavam distintos morgados, como Manuel Afonso Pavão e João Jorge, acompanhados de famílias de renome — Oliveiras, Araújos, Sousas —, todos em busca de um lugar onde pudessem erguer uma nova vila. A fertilidade dos solos e a abundância de recursos hídricos seriam determinantes na escolha do local.

Por fim, aportaram. Desembarcaram com a solenidade própria da época e, diante da imponência da natureza, tomaram posse daquela terra promissora. Naquela manhã luminosa, desenhava-se o início de uma nova história — a história de um povo que, entre campos férteis e águas cristalinas, faria daquele recanto o seu lar. Da Ponta da Galera à imponente serra, que para sempre se gravaria na memória como a Serra de Água de Pau.

Foi ali, nas proximidades, que Manuel Afonso Pavão se estabeleceu com a sua família, munido de uma carta régia que lhe concedia o direito de ocupar as terras que desejasse. Ao lugar que escolheu foi dado o nome de “Porto Manuel Afonso Pavão” e, mais tarde, passou a ser chamado de “Jubileu”, talvez em referência ao meio século de paz e segurança que a imponente rocha proporcionou ao povoado, protegendo-o dos ataques piratas. Hoje, passados 510 anos, como Vila, aquele recanto é conhecido como Baixa da Areia.

Com o tempo, Água de Pau começou a atrair novos colonos vindos de Portugal. Nas caravelas que atracavam na ilha de São Miguel, chegavam também, com frequência, escravizados de origem mourisca, trazidos para ajudar a desbravar a terra. Em outros casos, o reino enviava diretamente prisioneiros de má índole, numa tentativa de povoar e explorar aquelas paragens.

Foi por isso que Manuel Afonso Pavão ordenou a construção de uma armação no topo da rocha mais alta junto ao porto, onde se ergueriam um laço e uma forca, para que qualquer visitante de má-fé soubesse, à primeira vista, que ali imperava a lei. Até hoje, esse lugar é conhecido como Terra-da-Forca.

Com o passar do tempo, a comunidade cresceu, e o povoado expandiu-se. Os recém-chegados começaram por abrir atalhos e veredas, que mais tarde se transformariam em ruas. Seguindo as diretrizes do reino, um padre e um encarregado da administração local tomaram para si a tarefa de planear a disposição das ruas e a construção das primeiras habitações da vila nascente.

Após o Jubileu, o povo subiu a encosta, desbravando caminho pelos “Barrancos”, onde outrora corria uma ribeira de forte caudal. Foi ali que se estabeleceram os ferreiros, dando origem à rua que, naturalmente, passou a ser conhecida como a “Rua dos Ferreiros”.

Num largo que mais tarde se tornaria a Praça, o padre e o representante do reino, seguindo a margem direita da ribeira e escolhendo um ponto elevado, decidiram erguer a igreja dedicada à Senhora dos Anjos. A sua posição dominante permitia que o repicar do sino ecoasse por toda a vila e que a silhueta da igreja fosse avistada de qualquer ponto. A rua que ligava a igreja à Praça viria a chamar-se Rua da Trindade, nome inspirado na pequena ermida ali erguida, fruto da devoção de um dos habitantes.

A partir da Praça, as demais ruas foram tomando forma, desenhando os contornos da vila que, desde o século XV, passou a ser conhecida como Freguesia de Água de Pau (1505). Mais tarde, em 1515, por alvará do rei D. Manuel I, foi elevada a vila e tornou-se sede de concelho. A razão para tal distinção residia na extraordinária fertilidade das suas terras e na abundância dos seus recursos hídricos. Assim se fez jus ao seu nome – Água de Pau –, uma terra abençoada, rica em águas e abraçada por uma serra generosa em madeira

Os primeiros habitantes de Água de Pau, figuras influentes e próximas da corte, fixaram-se nesta terra e, entre eles, destacavam-se alguns dos mais ilustres pauenses, que foram armados cavaleiros e partiram para defender o reino e as praças conquistadas no Norte de África. Ao regressarem, trouxeram consigo o brasão de mérito, uma distinção que foi concedida à Igreja da Senhora dos Anjos e que ainda hoje pode ser admirada no altar principal.

O historiador Carreiro da Costa, ao abordar a criação do concelho de Água de Pau, sublinha que “a proximidade de Água de Pau em relação a Vila Franca do Campo – então capital da ilha –, o prestígio e a influência das suas personalidades mais proeminentes e o consequente progresso social e económico da localidade terão sido fatores determinantes para que Água de Pau fosse a primeira a conquistar o estatuto de vila, precedendo a Lagoa. Assim, a 28 de julho de 1515, cerca de sete anos antes da Lagoa, Água de Pau foi elevada a vila e tornou-se sede de um concelho com meia légua de raio”. [Cf. Carreiro da Costa, Memorial da Vila da Lagoa e do seu Concelho, Ponta Delgada, 1974, p. 13].

A extinção do concelho de Água de Pau, em 1853, pode ser compreendida à luz do seu notável desenvolvimento industrial nos séculos XVIII e XIX. Como argumenta Fátima Sequeira Dias, foi precisamente esse crescimento que garantiu a permanência do concelho até meados do século XIX, apesar da sua reduzida extensão geográfica. Com 30 moinhos de água e 12 fábricas de peles, a vila destacava-se como um importante polo económico da região. [Cf. Fátima Sequeira Dias].

Hoje, convido-vos a dar um novo salto no tempo e a redescobrir a Vila de Água de Pau com um olhar renovado. Percorrer as suas ruas e trilhos é embarcar numa viagem em que a natureza abraça a história, oferecendo cenários que acalmam a alma e revigoram o espírito. Um refúgio de serenidade infinita, onde cada recanto conta uma história e cada paisagem convida à contemplação.

Não perca a oportunidade de explorar o Caminho da Vila, passear pelas Murtas e pelo Jardim, conhecer Lourinhos, Junqueiras e a misteriosa Janela do Inferno. Encante-se com as nascentes da Ribeira das Cales, de Lourinhos, do Espigão e da Ribeira do Lance, onde a natureza exibe a sua pureza.

Deixe-se envolver pela beleza singular do Portinho da Caloura, do Castelo, do Cinzeiro, da Galera, do Cerco, do Jubileu e da Baixa D’Areia. Converse com os habitantes acolhedores e descubra os antigos topónimos que ecoam as pegadas dos nossos antepassados.

E, claro, não se esqueça de provar a frescura da água pura dos nossos quatro fontanários públicos: o do Pataco (no Largo de S. Pedro), o da Praça, o da Senhora dos Anjos e o da Canadinha-do-Porto. Há mais de um século, a água fresca da Serra corre 24 horas por dia, um presente da natureza que nos une ao passado.

Venha sentir a alma de Água de Pau.

A Vila de Água de Pau é um dos segredos mais bem guardados do concelho da Lagoa e da ilha de São Miguel, um verdadeiro tesouro de beleza natural. Quem a visita, leva consigo uma experiência inesquecível. É aqui que se encontra a Caloura, um autêntico paraíso único nos Açores, onde a pobreza não tem lugar.

Que privilégio é ter nascido na minha querida Vila de Água de Pau!

Guardas encantos sem igual.
Teu povo orgulha-se de ti,
Pois os séculos por ti passaram
E marcas profundas deixaram.
Quando, lá do mar, te avistaram,
Sem saber aonde chegavam,
Entre si se questionavam:
“Será isto Água ou será Pau?”

E, juntos, concordaram:
Seria, para sempre, ÁGUA DE PAU.

[In Livro, “Antes Que A Memória Se Acabe – Crónicas de Água de Pau vol II – de RoberTo MedeirOs, publicado em 30 de maio de 2025]

Emigrar de penedo p´á América

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Depois da missa das cinco e antes das Trindades da manhã, ainda no inverno, os homens e rapazes da nossa vila de Água de Pau começavam a acorrer à Praça Velha, onde todos os dias se procurava e encontrava trabalho nas nossas terras de cultivo, até quase ao cume da serra.

Todas as ruas levavam até lá, confirmando o ditado popular que dizia: «Todos os caminhos da nossa terra vão dar à Praça». Por regra, era assim, durante muitos anos. Poucos se livravam desse destino, a não ser que aprendessem outro ofício, seguissem os estudos – o que era um milagre – ou embarcassem para o Brasil, para a América, para a Argentina ou para Curaçau, à procura da sua sorte.

O José Luís, o «mata-gatas», sonhava acordado com um vapor que passava em frente à Ponta da Galera, a caminho da América. O sonho dele era embarcar «de penedo», pois sempre que passava um daqueles barcos baleeiros, ele subia até à rocha e acenava, esticando-se nas pontas dos pés, às vezes até pulando, para dar nas vistas de quem estivesse no barco, na esperança de o levarem.

Nem que fosse para trabalhar no barco, na faina do óleo da baleia que abastecia os candeeiros que iluminavam as cidades da América, como lhe tinha contado um tio da América ao ti Chico da Helena, a «burrica».

O José Luís não gostava nada de ir para a Praça: «A Senhora dos Anjos me livre do castigo do sacho, da arrematação da praça para ir dar o dia por aqui e por ali nas terras de cada um».

Na escola, um dia, lembra-se ele, o professor pediu uma redação com o tema: O que gostarias de ser quando fores grande? Dos mais astutos da turma, o José Luís pôs-se a pensar, lápis na boca, olhos fixos no teto, a tentar encontrar uma maneira de se livrar da tarefa. Depois de refletir um pouco, retirou o lápis da boca e começou a escrever. Passado algum tempo, já tinha escrito mais de uma dúzia de linhas, o suficiente, pensou ele.

A caligrafia dele era de excelente qualidade, das melhores, se não a melhor de todos os alunos da Escola do Outeiro. O professor costumava usá-lo como exemplo para os outros alunos e até para outra professora da escola em Água de Pau. Pena que o José Luís fosse tão irrequieto, tinha sempre o bicho carpinteiro.

Depois de corrigir as redações, o professor entregou-as de volta aos alunos, mas quando chegou à vez do José Luís, não resistiu e leu a sua redação em voz alta para todos:

«Quando eu for grande, gostava de ser bispo. Diz meu pai que é uma vida rica. Come-se do bom e do melhor e pouco ou nada se faz. O pior é falar latim. Mas o que mais importa é livrar-me da Praça, que é uma lástima de vida. Oxalá que consiga, mas ando cá desconfiado que não vai ser nada fácil, pois os empregos de bispo, e mesmo outros, estão muito escassos. Diz meu pai que são sete cães a um osso. Mas também diz que tudo isto há de acabar, haverá uma reviravolta e, então, desaparecerá do mapa a arrematação do trabalhador na Praça…»

O professor, discretamente, corrigiu alguns erros de pontuação, mas fez questão de sorrir de escantilhão, sem dar muita confiança.

José Luís chegou a casa e mostrou a redação à mãe, a senhora Lurdes Ramela. Depois de ler, ela lançou-lhe um olhar doce, passando-lhe a mão pela cabeça, como que a afagar-lhe o carinho. A irmã Gorete, a «sola-grossa», não dava muita importância à escola e, por isso, olhava com inveja o irmão, com um olhar matreiro.

O Luís «mata-gatas» era inteligente, por isso, ninguém sabia bem por que razão ganhou esse apelido, mas pensava-se que era porque o associaram a um homem da terra, o Luís Fragata, que tinha matado uma ou mais gatas. A corisca da Helena «burrica» foi quem lhe começou a chamar assim, e ficou. Mas, felizmente, o nome não lhe ficou para sempre.

Na verdade, o destino sorriu ao Luís da tia Lurdes Ramela, que, teimosamente, continuava a descer a rua dos Ferreiros, olhando sempre para o mar. Sempre que avistava um barco a atravessar o mar da prata, em frente ao Jubileu e Cerco, corria pela ladeira abaixo da Galera em direção ao seu penedo, na esperança de que o vissem a acenar, como alguém pedindo: «Levem-me!»

Um dia, finalmente, um barco baleeiro americano vindo da ilha do Faial arriou um bote e enviaram alguém para o apanhar e levaram-no para a América! Durante quase dois meses, o Luís trabalhou com outros homens na faina baleeira, transformando a gordura do mamífero em óleo, que ia sendo armazenado nos barris a bordo. O fedor horrível daquela tarefa nunca o derrotou. Quando finalmente os barris estavam cheios, seguiram rumo a New Bedford, o maior porto baleeiro da costa leste dos Estados Unidos.

Ao chegar, com algumas patacas na algibeira que não lhe serviam de nada, pois o trato que fizera para ser levado no barco para a América envolvia integrar-se ao trabalho até o fim da viagem, sem pagamento, apostou num emprego no porto da cidade. Já com alguns dólares no bolso, decidiu escrever uma carta aos pais, que o tinham dado por morto, acreditando que ele tinha desaparecido na apanha de lapas na ponta da Galera.

Um dia, a senhora Maria da Estação dos Correios de Água de Pau mandou o seu filho Rodolfo entregar uma carta da América, enviada por Louis Eye-Gunk (tradução de Ramela) para a tia Lurdes Ramela , que vivia na rua da Boavista [hoje rua do Pico]. Pelo caminho, Rodolfo não tirava os olhos das listras azuis e vermelhas estampadas no envelope.

«Ti Lurdes Ramela, minha mãe arrecebeu essa carta da América pá senhora».

A tia Lurdes Ramela, assim que abriu o envelope e reconheceu a caligrafia bem feita do seu filho, caiu no sofá de vimes, quase desfalecida. «Meu querido Luís, estás vivo, alma de Deus!»

«Querida Nossa Senhora dos Anjos, obrigada minha Santa, vou de promessa na procissão com um molhe de círios às costas. Ah, isso é que vou!»

A filha Gorete, «sola-grossa», comovida, prometeu à mãe que a ajudaria a carregar os círios na procissão do dia 15 de agosto, pois sabia que a mãe nunca conseguiria suportar tal esforço.

«Mamã, o Luís mudou de nome lá na América. Agora chama-se Louis Eye-Gunk. Quando a gente for para a América, achas que vão mudar o meu nome também?»

Gorete olhou para a mãe, mas o pensamento estava nas 500 «dólas» que o irmão mandara. «Estas e mais umas patacas que teu pai foi guardando na algibeira do colchão de folha de toqueiro de milho, a gente vai todos para a América, queres ver, quando o teu irmão arranjar casa para todos nós lá?»

«Vai agora, minha filha, à grota dos cães, chama teu pai que foi dar um dia com o António «chemiado» e diz-lhe que eu mando dizer que ele se vá embora para casa, que me venha ajudar! E continua… Vamos para a América e o «chemiado» que se lixe com o trabalho de escravo dele, na raíz do passo que lhe vazou!»

Anda rapariga e não te esqueças de nada do que te disse para dizeres! Ala-pés!

NOBLE atua no auditório da Vila de Água de Pau

© RITA CARMO

O auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, concelho da Lagoa, vai receber o concerto com a atuação do artista nacional, Pedro Fidalgo, conhecido como NOBLE, no próximo dia 10 de maio, a partir das 21h30.

NOBLE é um cantor, autor, da cidade de Amarante e foi o artista com mais AirPlay nacional com o seu tema de estreia “Honey”, por mais de 18 meses. O tema, cantado em inglês, foi escolhido para genérico da telenovela “Amar Depois de Amar”. Seguiram-se singles como “Coming Back” e “Beautiful” que alcançaram também o Top AirPlay nacional.

Nos últimos anos, NOBLE editou diversos singles e conta com dois álbuns: “Honey”, lançado em 2019 e “Secrets”, em 2022. Também editou singles de Natal que alcançaram sucesso junto das rádios locais e televisão, com inúmeras presenças. Com o lançamento de “Forever” e a sua participação no Festival da Canção em 2024.