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Uma companheira de Fé

Carlos Alberto Oliveira

Uma cadela de nome Boneca tem acompanhado o rancho de Romeiros dos Fenais da Luz. É impressionante observar o seu comportamento: caminha lado a lado com os “irmãos” romeiros e é a primeira a entrar nas igrejas após as orações iniciais. Dirige-se, convicta, à zona mais nobre das celebrações — o altar. Só se deita quando os irmãos se ajoelham e apenas abandona o templo quando o Irmão da Cruz se dirige à saída. No momento do reagrupamento, a Boneca só avança para junto da cruz.

Hoje, dei guarida a três irmãos e à cadelinha. Ao entrar em minha casa, ela deitou-se de imediato sobre o tapete. Percebi o seu cansaço; coloquei-lhe água e ração à frente, mas ela olhou e não tocou no alimento. Estava sozinho com ela. Contudo, assim que os irmãos desceram e lhe dirigiram a palavra, começou a comer, ainda que timidamente.

© CARLOS OLIVEIRA

Durante o jantar, a Boneca deitou-se perto de nós, mas optou por não nos acompanhar na refeição; o descanso era-lhe mais urgente que o alimento. Adormeceu e ressonou profundamente sobre o tapete. Enquanto comíamos, de vez em quando, levantava a cabeça, voltando a baixá-la para retomar o sono num instante. Só quando os irmãos finalmente descansaram é que ela acordou, comeu e bebeu o suficiente para passar a noite de forma confortável.

O seu olhar e a sua ternura cativam qualquer ser humano. A Boneca não é uma cadela comum: nunca ladrou nem rosnou. Revela modos e gestos dignos de registo, virtudes que faltam a muitos humanos. Atesto-o porque o testemunhei.

Há mistérios que a razão não consegue explicar.