{"id":109306,"date":"2023-06-08T11:31:00","date_gmt":"2023-06-08T11:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/?p=109306"},"modified":"2025-09-27T21:56:15","modified_gmt":"2025-09-27T21:56:15","slug":"historias-da-minha-antiga-vila-dagua-de-pau-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/historias-da-minha-antiga-vila-dagua-de-pau-v\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias da minha antiga Vila D\u2019\u00c1gua de Pau \u2013 V"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\">\u00c0 marralha, era no largo grande que se jogava<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Jovens-pauenses-DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-109307\" width=\"1023\" height=\"250\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sup><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>Passou, um dia, certa velha por uma rapariga que tinha o amor da sua alma ausente, em terras do Ultramar a cumprir servi\u00e7o militar.<\/p>\n<p>Como era natural, a rapariga andava entristecida, cheia de saudades, o len\u00e7o sempre puxado sobre os olhos, a cabe\u00e7a baixa. Enfim, quando o servi\u00e7o militar recrutava os seus namorados, apresentavam-se assim as mo\u00e7as dos anos sessenta do meu tempo, quando sa\u00edam \u00e0 rua.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Que triste tu andas Am\u00e9lia, disse-lhe a tal velha ao passar por ela. Tudo isso s\u00e3o saudades do que l\u00e1 fora anda?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Am\u00e9lia n\u00e3o quis, como se costuma dizer, dar o seu bra\u00e7o a torcer, e p\u00f4s-se ent\u00e3o a desculpar com doen\u00e7as e faltas de sono.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; \u00c9 uma doen\u00e7a essa, minha filha, tornou a velha, e m\u00e1 doen\u00e7a que ela \u00e9! No meu tempo, quando eu era rapariga, chamavam-lhe \u2013 flautos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 que parecendo que n\u00e3o tem cura, curam-se afinal com mais facilidade que todas as outras. \u00c0s vezes basta pensar numa pessoa que trazemos no pensamento e ir aos lugares onde ela gostava mais de passar seu tempo, para a cura se fazer logo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E com estas palavras, parece que se avivaram os olhares da rapariga, que levantando a cabe\u00e7a se via que um raio de esperan\u00e7a lhe passava alegremente pelo rosto, que animou a velha a continuar na sua:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Pois \u00e9, minha filha, isso que trazes s\u00e3o flautos do cora\u00e7\u00e3o, que eu sei curar, se quiser, e curo-te numa s\u00f3 tarde de domingo, levando-te a ver aquele que sabes, e que est\u00e1 em terras do ultramar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O espanto era cada vez maior na rapariga, que arregalando os olhos dizia que &#8211; o namorado estava em Angola na tropa, como soldado, correndo perigo de morte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Eu sei, insistia a velha, num sorriso manhoso, chegando-se ent\u00e3o junto da Am\u00e9lia, como se lhe quisesse dar uma grande novidade:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Gostavas de o ver tamb\u00e9m?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Ora se queria, faria qualquer sacrif\u00edcio se fosse necess\u00e1rio, s\u00f3 para o ver com vida e sa\u00fade!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso nenhum sacrif\u00edcio, nada disso, s\u00f3 tens de seguir os meus conselhos. Pois ent\u00e3o, ouve l\u00e1, e toma bem sentido no que te vou dizer, para fazeres:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Afian\u00e7o-te que se fores pedir emprestadas ao senhor Manuel Eg\u00eddio da Cova da On\u00e7a, nove moedas do antigo dinheiro \u201cmarralho\u201d (sem utilidade) do tamanho duma \u201cpataca\u201d, porque ele, ainda as tem guardadas no seu cofre, resolve-se o assunto. Depois, convidas duas amigas e leva-as para o largo do cemit\u00e9rio num domingo \u00e0 tarde, mas antes das Trindades. Ali chegadas, d\u00e1s a cada uma, tr\u00eas moedas e v\u00e3o jogar \u00e0 \u201cmarralha\u201d no passeio cimentado, da parede do lado esquerdo do port\u00e3o do cemit\u00e9rio. Tu ser\u00e1s a primeira a jogar atirando uma moeda marralha contra a parede e, as tuas amigas jogar\u00e3o a seguir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Jogar \u00e0 Marralha nos passeios do cemit\u00e9rio do largo grande, era o que o meu Gabriel mais gostava de fazer nos domingos \u00e0 tarde, mas do lado direito do port\u00e3o! \u2013 disse Am\u00e9lia \u00e0 velha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Pois era mesmo do lado direito do port\u00e3o que o teu namorado jogava \u00e0 marralha com os amigos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; E porque teremos de jogar este jogo da marralha do lado esquerdo? &#8211; Perguntou \u00e0 velha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; De cada vez que tu venceres no jogo \u00e0s tuas amigas, deves olhar para a direita e vais ver o teu Gabriel a jogar do lado direito com os seus dois amigos Amorim e Esteves.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Am\u00e9lia n\u00e3o sabia se havia de acreditar pois nem sabia como jogar \u00e0 marralha, mas a velha parece que lhe adivinhava os pensamentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Quando atirares o teu \u201cdinheiro marralho\u201d contra a parede, tens de o fazer com peso e medida, ou seja sem demasiada for\u00e7a, mas o suficiente para a moeda cair e ficar o mais pr\u00f3xima da parede. Pois a que ficar mais rente \u00e0 parede, ditar\u00e1 a vencedora. Deves treinar em casa antes de ires para o largo do cemit\u00e9rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; E se eu n\u00e3o vencer nunca verei o Gabriel?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; N\u00e3o te atormentes, vais vencer, mas ainda tens outra coisa que n\u00e3o poder\u00e1s fazer. Nunca olhes para dentro do cemit\u00e9rio atrav\u00e9s dos balaustres. Se o fizeres, nunca ver\u00e1s o amor da tua vida nem naquela tarde, nem nunca mais. Pensa bem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E, a rapariga, agora de olhares espantadi\u00e7os, voltou \u00e0 acostumada melancolia, meia receosa, numa indecis\u00e3o, meia incr\u00e9dula, queria certificar-se, saber como era aquilo e se seria capaz de levar por diante o desafio lan\u00e7ado pela velha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquela vontade e \u00e2nsia de ver o namorado, a rapariga acedeu \u00e0 aventura que o acaso lhe deparava e prometeu \u00e0 velha seguir o seu conselho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Est\u00e1 bem\u2026, sempre quero ver como isso vai ser e um sorriso malicioso e incr\u00e9dulo assomou-lhe aos l\u00e1bios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E a velha despediu-se.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Am\u00e9lia, obteve sem dificuldade as 9 moedas escuras de dinheiro marralho assim como a anu\u00eancia de duas amigas de vizinhan\u00e7a, da rua do Valverde de Baixo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desengane-se quem pensa que houve mal\u00edcia na escolha do lugar e do jogo por parte da velha. A juventude da vila de \u00c1gua de Pau da d\u00e9cada de 1950\/60 dirigia-se muito ao largo do cemit\u00e9rio para \u201cjogar \u00e0 marralha\u201d nas tardes domingueiras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O \u00fanico inconveniente era que por vezes tinham de \u201cfugir a sete-p\u00e9s\u201d quando sabiam aproximar-se do local o Ernesto Pol\u00edcia, para os multar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para ele, o que tilintava ali no cimento do passeio do largo grande, era dinheiro! Queria l\u00e1 saber se era dinheiro marralho ou patac\u00e3o, ou seja, escudos ou serrilhas? Jogo a dinheiro era proibido!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todavia, n\u00e3o apanhou ningu\u00e9m. Fugiam todos antes dele chegar a meio da antiga canada que ligava a rua da Vila Nova, ao largo onde a rapaziada jogava \u00e0 marralha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltando \u00e0 nossa hist\u00f3ria, Am\u00e9lia e as duas amigas seguiram os conselhos da velha e na segunda partida quando ela venceu as amigas, olhou para a direita e, l\u00e1 estavam, alguns rapazes a jogar de corpo inclinado, atirando moedas \u00e0 parede. Um deles, a dado momento, levantou-se e virou-se para onde Am\u00e9lia estava. Estava vestido de camuflado e de bivaque na cabe\u00e7a. Era o seu Gabriel\u2026 dizia Am\u00e9lia consigo, quase desfalecendo, tamanha era a sua alegria!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Joga Am\u00e9lia, trouxeste a gente para aqui e est\u00e1s a olhar para anteontem. N\u00e3o tem ningu\u00e9m ali naquele lado. Vamos, joga agora tu . . . \u00e9 a tua vez!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nisso, ouviu-se umas gargalhadas, vindas de dentro do cemit\u00e9rio. Mas, a rapariga lembrou-se do conselho da velha e manteve-se serena, concentrada no jogo da marralha, atirando um e outro dinheiro marralho contra a parede do cemit\u00e9rio, vendo ainda por mais algum tempo o seu Gabriel, sorridente e bem disposto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Passados 11 meses, Gabriel regressou do ultramar vivo e s\u00e3o, cheio de sa\u00fade. Tivera sorte e n\u00e3o apanhou maleita alguma, apesar de o seu batalh\u00e3o ter sofrido ataques dos \u201cturras\u201d num dos matos de Angola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais tarde, num dos ser\u00f5es \u00e0 volta da mesa da cozinha, Gabriel contou \u00e0 fam\u00edlia que tinha sonhado em Angola, com a sua Am\u00e9lia a jogar \u00e0 marralha no largo do cemit\u00e9rio! &#8211; O que havia um homem de sonhar \u00f3 minha m\u00e3e?!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Pois \u00e9, meu rico filho\u2026 v\u00ea l\u00e1, era um sinal das saudades que tinhas da tua Am\u00e9lia!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Am\u00e9lia, sentada a seu lado, de bra\u00e7o enfiado no dele, olhava Gabriel, num sorriso manhoso, mas feliz. Por\u00e9m sabia que nunca poderia contar nada a ningu\u00e9m, pois ningu\u00e9m acreditaria. Talvez um dia, contasse aos netos. E, contou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quanto ao \u201cJogo da Marralha\u201d continuou muito popular pelo menos at\u00e9 a maior parte dos seus principais jogadores e amantes da modalidade terem emigrado para os Estados Unidos e Canad\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Anos depois, como j\u00e1 se jogava, nas mais das vezes, com escudos e n\u00e3o dinheiro marralho, em determinada altura, a pol\u00edcia proibiu aquele tipo de jogo definitivamente. No entanto, a tradi\u00e7\u00e3o deste jogo ficou registada na mem\u00f3ria dos pauenses, pois usos e costumes deste povo, nunca se perder\u00e3o.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 marralha, era no largo grande que se jogava Passou, um dia, certa velha por uma rapariga que tinha o amor da sua alma ausente, em terras do Ultramar a cumprir servi\u00e7o militar. 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