{"id":152522,"date":"2025-06-02T20:11:27","date_gmt":"2025-06-02T20:11:27","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/?p=152522"},"modified":"2025-06-02T20:15:31","modified_gmt":"2025-06-02T20:15:31","slug":"os-acores-merecem-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/os-acores-merecem-melhor\/","title":{"rendered":"Os A\u00e7ores Merecem Melhor"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-128234\" width=\"382\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato.jpg 960w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato-300x300.jpg 300w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato-150x150.jpg 150w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato-768x768.jpg 768w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/andre-silveira-retrato-12x12.jpg 12w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Andr\u00e9 Silveira<\/strong><\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p>Vivemos tempos perigosos para as democracias liberais. O avan\u00e7o de discursos populistas, muitas vezes ancorados na simplifica\u00e7\u00e3o demag\u00f3gica dos problemas e na explora\u00e7\u00e3o emocional das massas, \u00e9 um fen\u00f3meno global, mas ganha contornos particularmente graves em comunidades pequenas, insulares e perif\u00e9ricas como a nossa. Nos A\u00e7ores, esse risco \u00e9 real, palp\u00e1vel e alimentado, sobretudo, pela fal\u00eancia \u00e9tica e institucional da pol\u00edtica convencional, como pelo fracasso desta Autonomia, com as suas clientelas e desigualdades acentuadas.<\/p>\n<p>Combater o populismo exige, antes de mais, dignidade, compet\u00eancia e transpar\u00eancia. Exige falar a verdade \u00e0s pessoas, mesmo quando ela \u00e9 inc\u00f3moda, e sobretudo aceitar a responsabilidade pol\u00edtica pelos atos e pelas decis\u00f5es. Tudo o que n\u00e3o se faz nos A\u00e7ores. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, acumulam-se os insucessos: aus\u00eancia generalizada de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes, gest\u00e3o danosa de recursos p\u00fablicos, oportunidades perdidas em \u00e1reas como o turismo, a mobilidade ou a gest\u00e3o do mar, mas principalmente o fracasso na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas das pessoas. Contudo, n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria de um \u00fanico pol\u00edtico A\u00e7oriano que, perante o falhan\u00e7o de uma estrat\u00e9gia ou a evidente incompet\u00eancia de uma execu\u00e7\u00e3o, tenha assumido responsabilidades e apresentado a demiss\u00e3o. Esta cultura de irresponsabilidade \u00e9, por si s\u00f3, um convite ao populismo.<\/p>\n<p>A narrativa populista cresce quando as pessoas percebem que h\u00e1 uma elite pol\u00edtica imune \u00e0s consequ\u00eancias dos seus erros. Nos A\u00e7ores, o populismo n\u00e3o se combate apenas com bons programas ou promessas eleitorais; combate-se, essencialmente, criando muros intranspon\u00edveis entre a governa\u00e7\u00e3o e os interesses econ\u00f3micos, religiosos e corporativos que historicamente se habituaram a ter assento privilegiado \u00e0 mesa do poder. A proximidade, para n\u00e3o dizer promiscuidade, entre estes interesses e o aparelho pol\u00edtico-partid\u00e1rio \u00e9 um fator de instabilidade democr\u00e1tica. Ela fomenta a indigna\u00e7\u00e3o popular, alimenta teorias conspirat\u00f3rias e gera terreno f\u00e9rtil para o voto emocional nos que prometem &#8220;varrer tudo&#8221; e &#8220;devolver o poder ao povo&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esta dilui\u00e7\u00e3o de fronteiras entre os decisores p\u00fablicos e os interesses privados que corr\u00f3i os alicerces da democracia regional. A promiscuidade hist\u00f3rica entre neg\u00f3cios, enclaves religiosos e aparelhos partid\u00e1rios constitui, h\u00e1 d\u00e9cadas, a verdadeira marca d&#8217;\u00e1gua da pol\u00edtica A\u00e7oriana, comprometendo a integridade das institui\u00e7\u00f5es e a imparcialidade da governa\u00e7\u00e3o. E cada vez que o cidad\u00e3o comum se depara com decis\u00f5es p\u00fablicas que favorecem sistematicamente os mesmos protagonistas, ou com a nomea\u00e7\u00e3o de familiares e amigos para cargos p\u00fablicos, mais se aproxima o dia em que os populistas ter\u00e3o votos suficientes para p\u00f4r em causa as regras do jogo.<\/p>\n<p>O combate ao populismo faz-se tamb\u00e9m com desapego ao poder. A demiss\u00e3o, quando existe raz\u00e3o objetiva para tal, n\u00e3o \u00e9 um ato de fraqueza, mas o expoente m\u00e1ximo de dignidade pol\u00edtica. Em democracias maduras, \u00e9 normal\u00edssimo que quem assume um cargo de servi\u00e7o p\u00fablico abandone fun\u00e7\u00f5es ap\u00f3s falhan\u00e7os graves ou perda de condi\u00e7\u00f5es de governabilidade. Nos A\u00e7ores, esse gesto \u00e9 visto quase como heresia. Esta incapacidade de reconhecer limites n\u00e3o enobrece quem se agarra ao cargo, pelo contr\u00e1rio, descredibiliza a fun\u00e7\u00e3o e contribui para o descr\u00e9dito generalizado da pol\u00edtica. E cada vez que algu\u00e9m se agarra ao poder sem condi\u00e7\u00f5es objetivas para governar, abre-se mais uma brecha por onde o populismo se insinua.<\/p>\n<p>Parte do problema reside no facto de muitos dos nossos pol\u00edticos n\u00e3o terem qualquer alternativa profissional para al\u00e9m da pol\u00edtica. S\u00e3o produtos de um sistema partid\u00e1rio fechado sobre si mesmo, que n\u00e3o premia a compet\u00eancia nem a meritocracia, mas antes a fidelidade e a obedi\u00eancia. A pol\u00edtica regional tornou-se, em demasiadas ocasi\u00f5es, um centro de emprego onde se distribuem cargos e assessorias como pr\u00e9mio de carreira ou compensa\u00e7\u00e3o por lealdades passadas. Este ciclo vicioso perpetua a mediocridade e impede a renova\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico, afastando da vida p\u00fablica os melhores e mais capazes.<\/p>\n<p>Urge, pois, refundar a pr\u00e1tica pol\u00edtica A\u00e7oriana em valores s\u00f3lidos. Reintroduzir a responsabilidade, a dignidade, a compet\u00eancia e o desapego ao poder como requisitos m\u00ednimos para o exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. S\u00f3 assim se resgata a confian\u00e7a das pessoas e se bloqueia o avan\u00e7o dos aventureiros do ressentimento. Contudo, tenho muito pouca esperan\u00e7a de que essa refunda\u00e7\u00e3o venha dos partidos ditos convencionais, demasiado enredados nas suas pr\u00f3prias clientelas e incapazes de fazer a ruptura que se imp\u00f5e. Creio, antes, que essa responsabilidade acabar\u00e1 por recair sobre a pr\u00f3pria sociedade civil, sobre cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es independentes, sobre os que n\u00e3o t\u00eam medo de afrontar o status quo e de exigir uma pol\u00edtica feita de princ\u00edpios e n\u00e3o de interesses. Porque a alternativa a isso \u00e9 conhecida, e a hist\u00f3ria ensina-nos que, quando a democracia falha repetidamente, os populistas n\u00e3o perdoam. Os A\u00e7ores merecem mais e melhor.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abVivemos tempos perigosos para as democracias liberais. 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