{"id":92267,"date":"2021-04-18T15:22:12","date_gmt":"2021-04-18T15:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=92267"},"modified":"2021-04-18T15:22:12","modified_gmt":"2021-04-18T15:22:12","slug":"nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/","title":{"rendered":"Nalgum tempo, botando contas \u00e0 vida\u2026 emigraram!"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/RoberTo-MedeirOs-_DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83287\" width=\"382\" height=\"382\"\/><figcaption><strong>Roberto Medeiros<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">\u201c(\u2026) os irm\u00e3os Jos\u00e9 \u201csoleta\u201d e o Ant\u00f3nio \u201cperna comprida\u201d agarraram suas roupinhas, pegaram em si e nas saquinhas e l\u00e1 foram \u00e0 conta de Deus em direitura \u00e0 canada do Cerco, por l\u00e1 abaixo at\u00e9 \u00e0 Ponta da Galera, em cata da sua ventura e embarcaram de calhau&#8221;<\/h4>\n\n\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/A-Praca-Nova-\u00a9-DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92268\" width=\"839\" height=\"526\"\/><figcaption><sup>Pra\u00e7a Nova na Vila de \u00c1gua de Pau, na d\u00e9cada de 1960, onde antigamente ouv\u00edamos os mais velhos contarem &#8220;casos&#8221;<span class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\"><strong> <\/strong>FOTO D.R.<\/span><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p style=\"text-align: left;\">Sentados no ch\u00e3o, a gente escutava o velhinho Ti Z\u00e9 Balaio que sozinho quase enchia o banco de cima da pra\u00e7a nova, contando casos sucedidos nalgum tempo, dos irm\u00e3os d\u2019\u00c1gua de Pau que haviam embarcado num vapor para a Am\u00e9rica e nunca mais tinham posto os p\u00e9s na nossa vila, nem de visita. C\u00e1 por minha parte, dizia o ti Balaio, s\u00f3 os conhe\u00e7o de um retrato deste tamanho pregado numa das paredes do quarto de sala, as mulheres e os filhos e os netos, todos vestidos no \u00faltimo ponto, vestimentas assead\u00edssimas, tudo enfim gente fina e bem-criada. O retrato era de empenho, estava \u00e0 ilharga da estampa do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e a minha m\u00e3e dizia sempre quando olhava para ele: E n\u00e3o h\u00e1 agora uma lei do governo que autorizasse a gente a sair daqui pra fora, quanto mais depressa melhor!<br \/><br \/>Nalgum tempo, afirmava o ti Balaio, era muito pior que hoje em dia, havia pouco descanso e quem trabalhava nas terras vinha quase sempre de bra\u00e7os ca\u00eddos. Um home comia quando comia, bolo assado na sert\u00e3 com pimenta ou cebola curtida e era dar gra\u00e7as. Voc\u00eas hoje n\u00e3o podem dar o valor ao que se penava nalgum tempo, e ningu\u00e9m reclamava.<br \/><br \/>Os meus tios, o Jos\u00e9 \u201csoleta\u201d e o Ant\u00f3nio \u201cperna comprida\u201d, principiaram a botar contas \u00e0 vida e n\u00e3o estiveram com mais aquelas; agarraram suas roupinhas e numa bela ocasi\u00e3o, altas horas da noite, pegaram em si e nas saquinhas e l\u00e1 foram \u00e0 conta de Deus em direitura \u00e0 canada do Cerco, por l\u00e1 abaixo at\u00e9 \u00e0 Ponta da Galera, sem dizerem pio. Em nossa casa ningu\u00e9m cuidava que ia assuceder o que assucedeu, que nos deixou a todos como se a gente estivesse de luto fechado. Aquela Sexta-Feira de desgosto durou semanas acrescentadas, mas s\u00f3 Nosso Senhor e eles \u00e9 que sabiam as linhas travessas do seu destino. Segue-se intance que eles l\u00e1 foram em cata da sua ventura, embarcaram de calhau, num bote de madeira a remos at\u00e9 \u00e0 baixa-de-fora para apanhar o barco que os recebeu. Nesse tempo, a gente podia comprar a papelada para poder emigrar, n\u00e3o havia moleste de qualidade nenhuma, o que era preciso era o patac\u00e3o na palma da m\u00e3o, contas s\u00e3o contas.<br \/><br \/>\u00d3 despous, chegando \u00e0 Amerca, os meus tios n\u00e3o ficaram na cidade de Batefete, amanharam trabalho mais para cima, n\u00e3o me alembra agora o nome do lugar, o que sei \u00e9 que era uma grande farme de reses com muita gente a trabalhar. Ganhavam bom patac\u00e3o, dolas e mais dolas, comiam do bom e do melhor, ele era carne e peixe de todas as qualidades, ele era p\u00e3o de trigo \u00e0 larga, o pior era o vinho que n\u00e3o havia ou se aparecia era mais caro que um corisco e nunca se comparava ao nosso da Caloura. Mas, l\u00e1 se iam arremediando com uma outra bebida de muita fama daquela terra, eles l\u00e1 na sua l\u00edngua davam-lhe o nome de \u201cbia\u201d ou l\u00e1 que raio era, mas o certo \u00e9 que a lapareira da bebida era muito gostosa, em um home se acostumando \u00e0quele amargor n\u00e3o queria outra coisa. Fazia uma espumaceira de dois dedos da borda do copo para baixo. Costumes diferentes dos nossos, louvado seja Deus, cada terra com o seu uso, cada roca com seu fuso, e \u00e9 assim esta grande m\u00e1nica do mundo. Mas o mal era o excomungado do frio no inverno, muito pior sem compara\u00e7\u00e3o com o nosso no pico da merda-seca, onde dizem que a porca furou. O que valia no meio de tanta frieza era serem as casas aquecidas por meio de canos onde corria \u00e1gua fervendo. L\u00e1 dentro parecia uma estufa, mas c\u00e1 fora era de um home tremer com dores nos ossos. Era uma gelidez terr\u00edvel, e ainda para mais ajuda ficava tudo coberto de \u201csen\u00f3\u201d como se em compara\u00e7\u00e3o os moleiros todos da Am\u00e9rca se tivessem alembrado de despejar todas as sacas de farinha em cima das terras, dos caminhos, das telhas, e ficasse tudo enfarinhado. O pior era quando o raio do sen\u00f3 ficava vidrado e nessas alturas tornava-se escorregadio e uma criatura dava cada margulho de ver estrelas durante o dia. Aquela gente n\u00e3o tinha outro rem\u00e9dio sen\u00e3o desimpedir estradas e caminhos e passeios com p\u00e1s que eram os seus terminos para rapar todo aquele sen\u00f3. \u00c1s vezes, as portas intance ficavam com um mont\u00e3o at\u00e9 ao pica-porte, um verdadeiro castigo para se sair de casa. Mas, tirante a chaga do frio, a terra da Amerca era mesmo uma terra aben\u00e7oada de Deus, hoje nem tanto, quem ca\u00e7ara um home ter podido sair daqui pra fora, agora n\u00e3o h\u00e1 outro jeito sen\u00e3o sofrer de boca calada esta caipora de vida enquanto Nosso Senhor permitir. N\u00e3o deixo de n\u00e3o dizer que meus tios agarraram a sorte, foram engatinhando devagarinho e hoje \u00e9 o que a gente sabe: pessoas de teres e muito estimadas na cidade de F\u00f3-Riva, onde j\u00e1 vivem h\u00e1 poderis de anos, filhos criados, netos bem encaminhados nos caminhos desta vida, arrecebendo instru\u00e7\u00e3o nas Escolas Altas, batendo bem a l\u00edngua amarcana e lendo naqueles livros de muita sabedoria.<br \/><br \/>Meus tios, nados e criados no bafo dos nossos costumes antigos, tornaram-se mesmo assim pessoas muito consideradas na cidade de F\u00f3-Riva, n\u00e3o s\u00f3 entre a nossa gente, mas tamb\u00e9m entre os amarcanos. Os meus tios Jos\u00e9 e o Ant\u00f3nio mandaram-me dizer tudo tintim por tintim, a carta ainda est\u00e1 guardada na gaveta da c\u00f3moda, \u00e9 uma lindeza que me n\u00e3o canso de ler. Houve intance numa grande festa com muito povo, mais ainda que aquele que se ajunta na rua da Trindade, ao despous do arrecolher da prociss\u00e3o da nossa quirida Senhora dos Anjos. O Maior de F\u00f3-Riva de cima de um palanquim disse que os \u201cBalaios\u201d eram homes de primeira qualidade e trabalhadores de mandar peso, homes de respeito e de cara direita, honra e gl\u00f3ria das duas na\u00e7\u00e3s, de Portugal e da Amerca. J\u00e1 se sabe que todas estas cousas mexem com um home c\u00e1 por dentro e n\u00e3o \u00e9 para menos, pois o sangue tem muita for\u00e7a e ajunta a gente mesmo com o mar a separar-nos.<br \/><br \/>Se eu fosse mais novo, e houvesse licen\u00e7a como nalgum tempo, era capaz de me botar em cata da minha ventura. N\u00e3o era aqui, meu rico home, que acabava os meus \u00faltimos dias de vida que Nosso Senhor tem ainda para me dar.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cr\u00f3nica publicada na edi\u00e7\u00e3o impressa de <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/DL_2021.04.pdf\">abril de 2021<\/a><\/span><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c(\u2026) os irm\u00e3os Jos\u00e9 \u201csoleta\u201d e o Ant\u00f3nio \u201cperna comprida\u201d agarraram suas roupinhas, pegaram em si e nas saquinhas e l\u00e1 foram \u00e0 conta de Deus em direitura \u00e0 canada do Cerco, por l\u00e1 abaixo at\u00e9 \u00e0 Ponta da Galera, em cata da sua ventura e embarcaram de calhau&#8221; Sentados no ch\u00e3o, a gente escutava [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":109989,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Nalgum tempo, botando contas \u00e0 vida\u2026 emigraram! - Not\u00edcias que contam<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Roberto Medeiros conta-nos que na Pra\u00e7a Nova na Vila de \u00c1gua de Pau, na d\u00e9cada de 1960, ouvia-se os mais velhos contarem \u201ccasos\u201d.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Nalgum tempo, botando contas \u00e0 vida\u2026 emigraram! - Not\u00edcias que contam\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Roberto Medeiros conta-nos que na Pra\u00e7a Nova na Vila de \u00c1gua de Pau, na d\u00e9cada de 1960, ouvia-se os mais velhos contarem \u201ccasos\u201d.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Not\u00edcias que contam\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2021-04-18T15:22:12+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/roberto-medeiros-dr.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"774\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"774\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"6 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/\",\"url\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/\",\"name\":\"Nalgum tempo, botando contas \u00e0 vida\u2026 emigraram! - Not\u00edcias que contam\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2021-04-18T15:22:12+00:00\",\"dateModified\":\"2021-04-18T15:22:12+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/#\/schema\/person\/1615a002370e8857b6f972834bc43ece\"},\"description\":\"Roberto Medeiros conta-nos que na Pra\u00e7a Nova na Vila de \u00c1gua de Pau, na d\u00e9cada de 1960, ouvia-se os mais velhos contarem \u201ccasos\u201d.\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/nalgum-tempo-botando-contas-a-vida-emigraram\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Nalgum tempo, botando contas \u00e0 vida\u2026 emigraram!\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/\",\"name\":\"Not\u00edcias que contam\",\"description\":\"Not\u00edcias que contam. 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