{"id":93935,"date":"2021-06-12T10:30:50","date_gmt":"2021-06-12T10:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=93935"},"modified":"2025-07-23T20:39:35","modified_gmt":"2025-07-23T20:39:35","slug":"ha-maiores-dificuldades-de-convivencia-na-liberdade-de-imprensa-regional-e-local-e-isso-agravou-se-com-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/en\/ha-maiores-dificuldades-de-convivencia-na-liberdade-de-imprensa-regional-e-local-e-isso-agravou-se-com-a-pandemia\/","title":{"rendered":"\u201cH\u00e1 maiores dificuldades de conviv\u00eancia na liberdade de imprensa regional e local e isso agravou-se com a pandemia\u201d"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\">O mundo mudou e a forma como os jornalistas trabalham tamb\u00e9m. A covid-19 limitou a liberdade de informar? Um diretor, um ex-diretor, uma sindicalista e uma investigadora arriscam algumas respostas<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"639\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/newspapers-pixabay.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-109613\" srcset=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/newspapers-pixabay.jpg 960w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/newspapers-pixabay-300x200.jpg 300w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/newspapers-pixabay-768x511.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sup>Acesso \u00e0 cobertura da pandemia n\u00e3o acontece de forma igual em todas as ilhas dos A\u00e7ores <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>\u201cAppari\u00e7\u00e3o\u201d escrevia-se com dois p\u00eas e \u201cannunciada\u201d com dois enes, no dia em que nascia a Gazeta da Lagoa, a 1 de outubro de 1892. Nessa altura ainda a Rep\u00fablica n\u00e3o tinha chegado ao \u201cpaiz\u201d, que tamb\u00e9m terminava com um z\u00ea em vez do atual esse. H\u00e1 128 anos os jornalistas assinavam os artigos com pseud\u00f3nimos, eram presos e perseguidos e nessa altura j\u00e1 se escrevia sobre a liberdade de imprensa, ou a falta dela, nos jornais da Lagoa e da regi\u00e3o \u2014 j\u00e1 l\u00e1 iremos.<\/p>\n<p>Hoje, o cen\u00e1rio \u00e9 rotundamente diferente, mas continua a impor-se falar de liberdade de imprensa quando at\u00e9 com isso, uma pandemia pode mexer. \u201cCostumo dizer meio a s\u00e9rio meio a brincar que no dia em que n\u00e3o tivermos liberdade de imprensa \u00e9 porque no dia anterior a democracia morreu\u201d, come\u00e7a por dizer Paulo Sim\u00f5es ao Di\u00e1rio da Lagoa. O diretor do A\u00e7oriano Oriental (AO) fala de forma aguerrida de tudo o que implica defender a liberdade dos jornais e dos jornalistas. No passado dia 29 de abril viu-se obrigado a vir a p\u00fablico defender uma reportagem do di\u00e1rio que dirige h\u00e1 18 anos. Nesse mesmo dia, o coordenador regional de sa\u00fade p\u00fablica dos A\u00e7ores tinha exibido um s\u00edmbolo de proibido numa proje\u00e7\u00e3o que fez em <em>powerpoint<\/em> sobre uma reportagem do AO sobre a pandemia. Na confer\u00eancia de imprensa semanal de atualiza\u00e7\u00e3o dos dados da pandemia na regi\u00e3o, Gustavo Tato Borges considerou que a reportagem \u201cRestri\u00e7\u00f5es transformam Ponta Delgada em cidade fantasma\u201d tinha uma mensagem \u201cerrada\u201d sugerindo mesmo um novo t\u00edtulo. \u201cFoi um momento de grande infelicidade, n\u00e3o tenho d\u00favidas nenhumas de que se tratou de censura. A censura n\u00e3o \u00e9 apenas o ato pr\u00e9vio. Aquela que aconteceu \u00e9 uma censura de condicionamento, foi censurar a atitude de um jornal e condicionar ou tentar condicionar a maneira de se comunicar as not\u00edcias relativamente \u00e0 pandemia\u201d, garante o diretor do AO. Paulo Sim\u00f5es considera que o coordenador de sa\u00fade p\u00fablica tem o direito de \u201cdiscordar das abordagens que s\u00e3o feitas\u201d mas \u201calterar o t\u00edtulo que ali estava para o que ele achava mais correto, \u00e9 tentar condicionar o trabalho da comunica\u00e7\u00e3o social e n\u00f3s n\u00e3o podemos compactuar com isso porque abrimos um precedente e a liberdade de imprensa tem de ser total, n\u00e3o h\u00e1 meias liberdades de imprensa\u201d, assegura Sim\u00f5es.<\/p>\n<p>Opini\u00e3o diferente tem a presidente do Sindicato dos Jornalistas (SJ) (em fun\u00e7\u00f5es at\u00e9 ao passado dia 19 de maio). \u201cTemos que ter um bocadinho de cuidado com os termos, censura \u00e9 uma coisa bastante grave, censura \u00e9 mesmo quando do outro lado n\u00e3o h\u00e1 hip\u00f3tese de reagir\u201d, considera Sofia Branco. \u201cPress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 censura. O jornalista do AO foi impedido de trabalhar a partir dali? N\u00e3o. O jornal foi impedido de sair para as bancas? N\u00e3o. A administra\u00e7\u00e3o demitiu a dire\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o por causa daquele caso? N\u00e3o. A consequ\u00eancia da censura tem de ser muito mais forte\u201d, assegura a respons\u00e1vel do SJ.<\/p>\n<p>J\u00e1 Paulo Sim\u00f5es n\u00e3o tem d\u00favidas de que \u201ca censura n\u00e3o \u00e9 apenas o ato pr\u00e9vio e ele [Gustavo Tato Borges] censurou claramente a not\u00edcia do AO, o pr\u00f3prio s\u00edmbolo que \u00e9 escolhido \u00e9 manifestamente infeliz\u201d, assegura. Sofia Branco considera que \u201c\u00e9 abusivo, claramente, e quis-se de certa forma ridicularizar. A sociedade devia ter reagido a isso, os media dos A\u00e7ores, no sentido coletivo deviam ter reagido a isso\u201d, diz, e o pr\u00f3prio jornal avan\u00e7ar para a justi\u00e7a caso o entenda, mas para o sindicato \u201ca auto-regula\u00e7\u00e3o e a auto-decis\u00e3o\u201d deve prevalecer neste caso.<\/p>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Press\u00f5es, h\u00e1 muitas?<\/strong><\/h3>\n\n\n<p>A palavra \u201cpress\u00e3o\u201d acaba por n\u00e3o se dissociar do jornalismo mas quando se fala de jornalismo regional e local, onde a proximidade e a familiaridade s\u00e3o denominadores mais do que comuns, o termo ganha ainda mais for\u00e7a. A somar a isso, veio uma pandemia que virou muitos mundos do avesso. A covid-19 limitou a liberdade de informar? Ao Sindicato dos Jornalistas chegaram v\u00e1rios exemplos: uma equipa de jornalistas da ag\u00eancia Lusa foi impedida pela PSP de passar a fronteira. \u201cNunca ningu\u00e9m disse que os jornalistas n\u00e3o podiam passar as fronteiras. Essa equipa n\u00e3o passou mas a segunda equipa passou depois de falarmos com o Minist\u00e9rio da Administra\u00e7\u00e3o Interna\u201d, conta Sofia Branco. A presidente do sindicato garante que a press\u00e3o sobre a imprensa regional e local \u00e9 maior do que no continente. \u201c\u00c0 boleia da pandemia, v\u00e1rias autarquias diziam que os jornalistas n\u00e3o podiam ir a reuni\u00f5es de car\u00e1cter p\u00fablico. H\u00e1 maiores dificuldades de conviv\u00eancia na liberdade de imprensa regional e local e isso agravou-se com a pandemia\u201d, garante a respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>No continente e nos A\u00e7ores tamb\u00e9m se limitou o acesso \u00e0s confer\u00eancias de imprensa de atualiza\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o da pandemia. O diretor do AO defende que as confer\u00eancias de imprensa, que sempre aconteceram na ilha Terceira, devem ser deslocalizadas, sempre que necess\u00e1rio. \u201c\u00c9 aqui o foco do problema e para mim enquanto jornalista h\u00e1 quest\u00f5es que eu quero colocar que t\u00eam haver com S\u00e3o Miguel e que assim n\u00e3o funciona. Quando as coisas est\u00e3o a pegar fogo aqui n\u00e3o faz sentido que o Governo n\u00e3o desloque as confer\u00eancias para responder \u00e0quilo que os jornalistas t\u00eam a perguntar\u201d, defende Sim\u00f5es.<\/p>\n<p>Norberto Silveira Lu\u00eds, ex-diretor do Di\u00e1rio da Lagoa (DL), segue agora a pandemia na ilha de S\u00e3o Jorge, para onde se mudou depois de deixar a dire\u00e7\u00e3o do jornal. Considera que a press\u00e3o sobre os jornalistas nos A\u00e7ores \u201c\u00e9 muito pior\u201d sobretudo quando o assunto \u00e9 pol\u00edtico. Garante que enquanto foi diretor nunca recebeu nenhum telefonema a contestar nenhum artigo. \u201cAt\u00e9 podem achar que \u00e9 mentira na Lagoa mas nem tudo \u00e9 como as pessoas querem ou pensam que \u00e9. Na r\u00e1dio sim, tive telefonemas a tentar pressionar para fazer ou n\u00e3o fazer\u201d, assegura.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center\">\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><strong>&#8220;No dia em que n\u00e3o tivermos liberdade de imprensa <br>\u00e9 porque no dia anterior a democracia morreu&#8221;<\/strong><\/h3>\n<cite><em>PAULO SIM\u00d5ES<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:24px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 Paulo Sim\u00f5es garante que por mais de uma vez foi pressionado. Quando voltou para S\u00e3o Miguel, depois de alguns anos a trabalhar em Lisboa, assumiu a dire\u00e7\u00e3o do AO. \u201cComo \u00e9 que vou contar isso?\u201d, questiona a rir. Sem querer tornar p\u00fablicos os epis\u00f3dios em que se viu envolvido, garante apenas que j\u00e1 foi alvo de press\u00f5es dos dois lados do espectro pol\u00edtico a\u00e7oriano ao longo das quase duas d\u00e9cadas \u00e0 frente do jornal mais antigo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Norberto Silveira Lu\u00eds conta que numa campanha eleitoral, em particular, que o DL cobriu teve \u201cmuitas cr\u00edticas\u201d. Pela primeira vez, garante o ex-diretor, \u201cas pessoas da Lagoa tiveram oportunidade de falar sobre o que ia mal na sua freguesia e sobre o que devia ser feito. Houve cr\u00edticas porque era imposs\u00edvel as pessoas dizerem aquilo. N\u00f3s demos liberdade \u00e0s pessoas para dizerem o que queriam mas depois essa liberdade n\u00e3o era aceite por outras pessoas porque achavam que aquilo n\u00e3o era assim\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica acompanha a hist\u00f3ria da imprensa em todo o mundo e a Lagoa, n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o. A investigadora e professora universit\u00e1ria de Hist\u00f3ria, Susana Goulart, estuda o que nos antecede e ajudando a perceber o presente. <br>No primeiro n\u00famero da Gazeta da Lagoa, com que come\u00e7\u00e1mos este artigo, assinava o editorial um tal de Samorim. \u201cSe estiv\u00e9ssemos nas redes sociais dir\u00edamos que era um perfil falso, este Samorim n\u00e3o existe\u201d, assegura a investigadora. Susana Goulart explica que, na altura, era muito comum recorrer a pseud\u00f3nimos para escapar \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es. \u201cComo eles sabiam que havia editoriais que n\u00e3o eram assinados com os nomes pr\u00f3prios, faziam uma persegui\u00e7\u00e3o em domin\u00f3\u201d. No caso, os mon\u00e1rquicos, iam atr\u00e1s do jornalista que defendia a Rep\u00fablica. Caso n\u00e3o o encontrasse \u201cia-se atacar o editor, se o editor n\u00e3o fosse identificado ia-se atr\u00e1s do dono da tipografia, era uma censura em domin\u00f3 a tentar silenciar quem era progressista ou regenerador\u201d, explica a docente.<\/p>\n<p>No primeiro n\u00famero da Gazeta da Lagoa, Samorim escrevia que \u201cpor motivos completamente alheios \u00e0 nossa vontade temos retardado a sua publica\u00e7\u00e3o e quando impera uma lei como a lei da imprensa, toda a cautela \u00e9 pouca para que n\u00e3o sejamos v\u00edtimas d\u00b4esse aborto\u201d. A justifica\u00e7\u00e3o embrulhada em forma de aviso anunciava que a repress\u00e3o era constante. \u201cA lei da imprensa facilitava a repress\u00e3o judicial sobre tudo o que era jornais e havia uma grande liberdade para prender jornalistas ou autores de artigos de jornais contra a monarquia\u201d, explica a investigadora.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada em que saiu a Gazeta da Lagoa, a taxa de analfabetismo chegava aos 80 por cento. Ainda assim, mesmo com censura, press\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es, o n\u00famero de jornais impressos na Lagoa ao longo das d\u00e9cadas ultrapassou a d\u00fazia.<\/p>\n<p>O n\u00famero de jornais impressos era reduzido e os custos elevados. \u201cPara manter um jornal aberto naquela altura era preciso muita coragem, muita ousadia e tamb\u00e9m financiamento\u201d, garante Susana Goulart. Apesar de encontrar paralelismos entre o que foi e o que \u00e9 a imprensa na atualidade, a investigadora considera que hoje, a Hist\u00f3ria \u00e9 bem diferente e a liberdade, a todos os n\u00edveis, \u00e9 incomparavelmente maior e mais rica.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo mudou e a forma como os jornalistas trabalham tamb\u00e9m. A covid-19 limitou a liberdade de informar? Um diretor, um ex-diretor, uma sindicalista e uma investigadora arriscam algumas respostas \u201cAppari\u00e7\u00e3o\u201d escrevia-se com dois p\u00eas e \u201cannunciada\u201d com dois enes, no dia em que nascia a Gazeta da Lagoa, a 1 de outubro de 1892. 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