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Zeca Medeiros: “não faço fronteiras entre ser músico, ator ou fazer teatrices, é algo profundo e orgânico em mim”

Em entrevista ao nosso jornal, o realizador, músico e ator açoriano Zeca Medeiros abordou o seu percurso multifacetado, marcado pelas memórias da Guerra Colonial e pela forte ligação às suas raízes insulares. O artista defendeu ainda o legado do 25 de Abril face ao esquecimento e lamentou a atual falta de apoios à produção de ficção televisiva regional nos Açores

Zeca Medeiros tem 74 anos e uma vida dedicada às artes © ACÁCIO MATEUS
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Na sétima arte já interpretou muitos papéis. Quando os representa, esse papel fica consigo na sua memória?
Essa é uma pergunta muito difícil. Cortou, saiu, e deixei a personagem lá no bengaleiro para o dia seguinte. No entanto, durante o processo, há muito de mim próprio nas personagens. Há mais personagem do que Zeca Medeiros, mas às vezes levamos muito de nós próprios. Isso tem a ver com o que no teatro chamam de “memória afetiva”. Aproveito para deixar a minha humilde homenagem: não faço fronteira entre atores de profissão e os que não são de profissão. Tenho o privilégio de já ter trabalhado com alguns atores locais que nunca viveram da arte de ser ator e que são dos maiores com quem trabalhei. Celebro a memória da Maria Bifa, da Ribeira Grande, e da Dona Natália Marcelino. Ambas tinham uma capacidade incrível de transformação. Temos várias Natálias fantásticas nestas ilhas: a Natália Correia e a Natália Marcelino.

Como foi sair de Vila Franca?
Nasci em Vila Franca, mas saí de lá com um ano e meio. Vivi quase sempre na Lagoa, em São Miguel, em frente à igreja e depois em frente ao teatro. O primeiro filme que vi na vida foi no Cineteatro Lagoense, aos cinco anos, com as minhas irmãs. Daí resultou esta cinefilia. Quando vi o filme Cinema Paraíso, do Tornatore, senti que era aquele miúdo, o Totó. Mal sabia eu que, anos mais tarde, iria fazer a versão em português para a canção do maestro Ennio Morricone para esse filme, em colaboração com o meu falecido amigo João Mendoza, para um trabalho da Dulce Pontes.

Viveu a Guerra Colonial? O que é que lhe trouxe a guerra?
Sim, estive na Guerra Colonial. Fui obrigado, porque não conseguia desertar; se pudesse, tinha desertado. Era uma guerra absurda, injusta, obscena, como todas as guerras. A guerra trouxe-me o perceber que o meu coração está do lado esquerdo e tornei-me pacifista. A Guerra Colonial durou oficialmente 13 anos, mas foram 14, porque só voltei depois do 25 de Abril, quando aconteceu eu estava lá. Alguns companheiros morreram lá, outros entretanto. A tatuagem que trouxe de lá é interior, e ainda cá está dentro.

Começou pelo teatro, mas além de teatro, canta, compõe, foi realizador. Onde prefere estar?
Tudo isso se prende com herança familiar. A minha família estava toda ligada à música e ao teatro amador — amador no sentido daquele que ama. O meu pai era pianista, as minhas tias cantavam e dançavam, e o meu avô era marceneiro e caracterizador teatral. Habituei-me desde miúdo a isto. Eu tinha pânico do palco quando era miúdo, tinha muito medo, e ainda hoje tenho um bocadinho. Mas não faço fronteiras entre ser músico, ator ou fazer teatrices, é algo profundo e orgânico em mim. Sobre ver-me na televisão, prefiro ver-me quando estou em personagem. Segundo o mestre Federico Fellini, as pessoas que dizem não gostar de se ver na imagem têm, na verdade, uma forma mais aguda de narcisismo; têm uma ideia tão extraordinária de si próprias que, quando se veem na realidade, dizem que não vale a pena. Ele era muito irónico.

Toda a gente o conhece pela sua voz.
É resultado de muitos anos de cigarros e de folias. E também porque durante muitos anos fui assistente de realização em Lisboa, onde temos de falar muito alto. Ao mesmo tempo, cantava em bares até às tantas sem microfone. Quando era jovem, com 18 ou 19 anos, a minha primeira profissão foi músico de bordo no navio Funchal, onde estive 11 meses. Eu queria imitar os grandes cantores de blues, sobretudo o Ray Charles. Como há coisas impossíveis na vida, não consegui imitá-lo e fui ficando com a voz assim. Naquela altura, tocávamos covers dos Beatles, dos Rolling Stones, e a certa altura começámos a descobrir e a homenagear o José Afonso.

Há uma música sua, “O Cantador”, que homenageia o Zeca Afonso.
Era difícil, sobretudo em São Miguel, ter acesso às canções do Zeca Afonso, muitas vezes proibidas pela ditadura. Um belo dia no barco, tocámos um tema dele em versão pop/rock e fomos chamados de imediato. Quem nos chamou, chamou-nos de malucos por tocarmos aquilo. Esse trabalho a bordo iniciou o meu fado viajeiro entre os Açores e Lisboa. Anos mais tarde, o meu filho ofereceu-me uma gravação do último espetáculo do Zeca Afonso no Coliseu. Fiquei tão comovido que fiz essa canção. Canto-a nos meus concertos e o ano passado, na Guarda, fizemos uma versão com vários corais da Serra da Estrela; foi arrepiantemente belo.

Sente-se reconhecido pelo seu trabalho?
Às vezes sim, às vezes não. Se trabalhas numa novela, tens um tipo de visibilidade instantânea. Nós não podemos trabalhar à espera do reconhecimento, temos de trabalhar porque queremos ser úteis e dizer alguma coisa. Mas, para ser muito sincero, na minha profissão básica, que é realizador de televisão, tenho tido grandes dificuldades e muito pouco apoio. Na RTP Açores, durante 20 anos, criámos uma equipa de ficção açoriana com o José Lopes de Araújo. Formámos pessoas em imagem, guarda-roupa, caracterização e, de um momento para o outro, acabou. Dizem que não há dinheiro, o que muitas vezes é uma falácia. Não há dinheiro para a cultura, mas há milhões para armas e guerras.

Cumpriu-se verdadeiramente Abril, cinquenta anos depois?
Cumpriu-se muita coisa. Acabar com um império louco, fora do tempo, e com uma guerra colonial onde morreram nove mil jovens portugueses, não é cumprir Abril? Quando eu ia para a escola primária, a maior parte dos miúdos ia descalço, vivia em casas com chão de terra e os professores podiam dar-nos porrada. Abril atenuou muito isso. As cadeias estavam cheias de presos políticos que foram libertados. Claro que há muitas outras coisas para resolver, mas dizer que em 50 anos não se fez nada é mentira. Como dizia Victor Hugo em Os Miseráveis, nós não podemos acabar com os infelizes, mas podemos acabar com os miseráveis. O Portugal de agora é incomparável com o Portugal de 1973. Prefiro uma democracia imperfeita do que uma perfeita ditadura. O problema é que há um grande esquecimento. Como dizia a Natália Correia: “Não há nada mais reacionário do que o esquecimento”.

Qual é a sua ligação com as ilhas? Quer viver o resto da vida aqui ou em Lisboa?
Se os deuses não forem cruéis, aqui, nos Açores. O que não significa que não vá a Lisboa com frequência, pois tenho três filhos e uma grande ligação lá. Mas a melhor maneira de estar na ilha é saindo dela. Quando estamos fora da floresta, vemo-la melhor. Ganhei uma grande consciência de ser açoriano, do mar e da cultura açoriana quando estive fora. Tenho uma profunda ligação a todas as ilhas dos Açores, embora tenho uma relação mais profunda com algumas delas. O trabalho mais difícil que fiz como realizador foi uma adaptação de época, em 1917, que implicava uma sequência de baleação no Pico, foi uma experiência muito intensa.

Sente que a vida é como um barco?
É uma metáfora interessante. Andamos a navegar na vida em barcos e marés, às vezes a favor, outras não. A minha vida profissional começou num navio e o meu filme “O Barco e o Sonho” é inspirado numa história real sobre o “American Dream”. Nós somos um arquipélago de emigrantes porque a estratificação social aqui sempre foi obscena e passava-se fome. Eu sou de uma família de emigrantes, tenho metade da família nos Estados Unidos e Canadá. Quem reabriu o caminho para a emigração na altura do Vulcão dos Capelinhos, em 57/58, foi o então senador John Kennedy. Lembro-me perfeitamente do dia em que o assassinaram; em casa das minhas tias foi um pranto, como se tivesse morrido alguém da família, porque ele reabriu o caminho para o sonho. As pessoas lá trabalhavam muito, mas já não tinham chão de terra.

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