
“Sim, quando as coisas pioram temos de nos privar das pessoas que gostamos. Quando as coisas estão melhores, fazemos uma visitas com cuidados mas com a vacinação acho que vai correr melhor. Ficámos privados de tudo durante muito tempo, da família, de momentos ao ar livre, das brincadeiras que fazíamos, a parte social ficou de lado. Em termos laborais, há o teletrabalho que é um bocadinho pior, não é a mesma coisa trabalhar em casa do que estar no nosso posto de trabalho.”

“Eu vou fazer 79 anos e estou muito fechada em casa, estou sozinha, sou viúva e não tenho ninguém. Tenho um filho que não está cá e tenho uma outra filha que está em Lisboa. A pandemia deixou-me muito em baixo. Fui seguida por uma psicóloga, gostei muito e arranjaram-me um centro de dia no Cabouco mas fechou tudo outra vez, não sei quando é que o centro vai abrir, quando abrir estou pronta para sair de casa. Esta pandemia limitou-me em tudo e fez-me muito mal, tenho fibromialgia, tenho osteoporose, estou sempre nos médicos, centro de saúde e é complicado fazer tudo agora e com estas máscaras é ainda pior.”

“Retirou-nos autonomia, retirou-nos liberdade em família. Num passeio ao ar livre há sempre aquele receio de quantas pessoas vão estar. Tenho uma filha com um ano e meio e ela cresceu no confinamento. Ela tem quase tanto tempo de vida quanto a pandemia. Não foi nada fácil, principalmente para a minha mulher nos primeiros meses em que isto era um inimigo novo e agora vamos aprendendo a lidar com ele. As crianças ficaram muito privadas da liberdade. Felizmente temos um quintal que para ela é bom. Só há um mês, quando tirei férias, é que ela conheceu a praia, quando antes ir à praia era uma coisa comum e normal ainda antes de um ano de vida. Há sempre aquele receio se existe alguém infetado se tem o vírus ou não, não é fácil.”

“Sim, em tudo: sair, criar a minha filha, estar com a família. Tenho uma bebé de dois anos e ela passou muito tempo em casa com esta pandemia, ela não convive com a família, não sai para certos sítios. Há sempre medo de sair com ela, sei lá quando é que ela vai levar a vacina, será que a vacina é suficientemente boa para nos proteger? Trabalhar de máscara também é terrível, no início usávamos também viseiras. Todo o dia com máscara é péssimo, até a liberdade para respirar mudou, a qualidade da pele mudou, tudo.”

“Não, não me tirou liberdade nenhuma. Trouxe-me muitos constrangimentos mas para me retirar a liberdade teria de não fazer sentido aquilo que eu deixei de fazer. Livremente eu aceitei as limitações que me foram apresentadas. Tudo o que deixei de fazer foi por amor, por respeito aos outros e isso não mexeu na minha liberdade, trouxe-me dissabores mas a minha liberdade ficou intacta. Obviamente que foram colocados novos limites mas a liberdade é mais do que isto. É aquela velha história de alguém que mesmo numa cadeia se sente livre e é isto que acho que aconteceu, a todos os níveis, também espiritual. Recordo-me de um bispo de um país asiático que levou muitos anos preso por uma questão de liberdade religiosa mas ele celebrava missa todos os dias, espiritualmente, na cadeia. Pessoalmente, vejo a liberdade para além destes limites visíveis que temos na nossa vida.”

“Alguma. No nosso dia a dia o que fazíamos e dávamos como adquirido não conseguimos fazer por precaução e para o bem de todos mas sinto que há coisas que não fazemos mesmo. Não socializamos como queríamos. Transmitir afetos, que é tão bom, transmitimos de outra forma, com distância e isso privou-nos de muita coisa. A liberdade de circulação ficou diferente. Tem de haver uma consciencialização das pessoas e se houver isso estamo-nos a privar por um bom motivo. Não é bom mas é para o bem de todos. O que mais me custou talvez tenha sido não estar com a família, principalmente com os mais idosos que precisam cada vez mais de companhia, da nossa presença, custou-me a mim e custou-lhes a eles.”
Vox Pop na edição impressa de junho de 2021
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