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Centenário de Natália Correia

João Carlos Macêdo
Antigo presidente da Junta de Freguesia da Fajã de Baixo

A imagem que temos de Natália Correia é a de uma pessoa com enorme capacidade de luta, não por qualquer interesse próprio e pessoal, mas pelas causas sociais, políticas e culturais em que frequentemente se envolvia por nelas acreditar.
Daqui, ressaltava o seu inconformismo e a inquietação que acabou por iluminar toda a sua profícua existência.
Poeta como ela e, também como ela, defensor de ideias elaboradas por um forte sentimento patriótico, Manuel Alegre soube sintetizar em breves palavras a ímpar personalidade de Natália:
«Ela era a Feiticeira Cotovia, desafiava os homens e os deuses, punha em causa a ordem e a moral estabelecidas, contestava as certezas e os dogmas, combatia todas as inquisições e todas as tiranias.»
Os que a conheceram, nomeadamente como deputada, na Assembleia da República, lembram-se bem da verve que animava as suas intervenções, como uma marca que deixou plasmada na memória dos seus contemporâneos.
Não obstante, como vi escrito algures, há também quem recorde a sua enorme fragilidade.
Conheci Natália Correia durante a década de 80, quando, numa noite, me dirigi ao seu famoso Botequim, onde fui cumprimenta-la e dar-me a conhecer pessoalmente — na altura, cumulativamente, como presidente da Junta de Freguesia da sua terra natal, que era também a minha.
Recebeu-me com grande carinho e, a partir daí, estabeleceu-se uma forte amizade.
Desde logo, por razões de segurança, não quis que eu regressasse ao hotel, sozinho, a meio da noite, e, por isso, como também ia regressar a casa, na Rua Rodrigues Sampaio, deixou-me, como lhe sugeri, na proximidade do local pretendido.
Mais tarde, quando veio a Ponta Delgada, tive o ensejo de lhe retribuir a amabilidade, a partir da casa de Victor Lima Meireles, onde decorrera um agradável serão.
Após a sua partida desta vida, em 1993, numa «manhã em que as garças não voaram», empenhei-me arduamente na preservação da sua memória, particularmente, na Fajã de Baixo.
Desde logo, através da aquisição da casa onde nasceu — que fora escola e entreposto de receção e expedição de ananás — para funcionamento da Casa do Povo local e das suas valências de interesse comunitário.
Mas também com a afetação de um lote de terreno, contíguo à sede da Junta, para a construção do Centro de Estudos Natália Correia, na forma em que ainda lá está.
Algum tempo depois, Dórdio Guimarães, cineasta, marido e herdeiro de Natália, deu-me o gosto da sua visita, durante a qual ficou assente que as cinzas da escritora seriam colocadas no jardim anexo, o que não se concretizou por opção autoritária dos decisores do setor cultural, que arranjaram maneira de colocá-las na Biblioteca Pública, num ridículo armarinho de pedra serrada, que os funcionários gostam de mostrar aos visitantes protocolares.
Tenho a fotocópia do testamento e é certo que, por minha parte e pelo que lá está escrito, este assunto ainda não está encerrado. A ver vamos.