A 22 de janeiro não fazia ideia do que escrever para o espaço que me é reservado mensalmente neste periódico. A meio da tarde daquele mesmo dia, não só se me afigurava a ideia do que redigir, como já possuía o título: Quando o corpo mirra. As palavras que o compõem foram ditas por Santos Narciso no colóquio Os desafios da solidão, organizado pelo Lions Clube da Lagoa.
Creio que o sentir foi comum a muitos dos que assistiram às diversas intervenções: abriram-se comportas para uma reflexão sobre o envelhecimento, e o modo como é vivido e encarado na contemporaneidade. Santos Narciso falou do isolamento, transversal a diversas gerações, potencializado pelas novas tecnologias; da busca da eterna juventude; do que enfrentam os idosos dos dias de hoje: dos medos, da perda de capacidades biológicas e psicológicas, da dependência, do ser-se descartável.
As suas palavras sacudiram-nos ante a dura realidade de não só se ter transferido para o Estado a responsabilidade de cuidar dos idosos, como também pelo facto deste mesmo Estado, que criou expectativas naquela faixa etária, lhes medrou sonhos, agora não só os amputa, como é o maior potencializador dos seus medos.
Estas e outras palavras fizeram-me refletir. Trouxeram à memória as minhas idas, há dois anos, a centros de dia e lares de idosos da ilha, a propósito de um trabalho pessoal de investigação: Os “casos” na literatura oral micaelense. No parco tempo (confesso) que tive em alguns espaços, com estupefacção, deparei-me com atividades ocupacionais infantilizadas: os idosos coloriam desenhos de personagens que integram o universo de livros e de séries de animação para a infância.
Ora, mesmo não se tendo muitos saberes na área da gerontologia, há que ter consciência que é possível recriar, de forma construtiva, útil e prazerosa, os tempos livres desta população, com ações que trabalhem a auto-estima, os afetos, a motricidade e o intelecto. Mais não seja por uma razão egoísta, o saber que não quereria estar eu a ver o meu tempo ocupado daquela maneira, daqui a uns bons anos, basta-me para pensar desta forma. Ademais, assisti na primeira pessoa aos olhos de alguns idosos, antes vazados de tanto, avivarem-se, quando se lhes perguntava sobre as suas recordações, sobre as estórias da sua terra, das suas gentes.
Numa sociedade, que por vezes deserda os mais velhos ou os encara como incapacitados, é preciso que haja uma descontrução desta representação: são autênticos documentos vivos, cujo saber importa valorizar. São seres humanos que, como tal, merecem ser tratados com dignidade, humanidade!
Importa também que a comunidade local seja mobilizada de modo intergeracional, e desengane-se quem pensa que esta não é uma tarefa de centros de acolhimento. Importa replicar iniciativas como as que têm vindo a acontecer pelo país, de jovens voluntariarem-se para fazer companhia ou prestar auxílio nas tarefas do dia-a-dia. Importa que as famílias não encarem os seus, agora envelhecidos, como descartáveis e assumam a sua responsabilidade.
Por não ter feito o devido trabalho de pesquisa, desconheço estudos que revelem a satisfação dos idosos ao ingressarem num lar da terceira idade, e reconheço e compreendo, genuinamente, a dificuldade de muitas famílias prestarem os devidos cuidados em casa. Mas, tenho bem presente o querer da minha avó: a minha velhinha de olhos sacarinos quis ficar até ao último respiro rodeada da sua gente. Assim foi.
Valter Hugo Mãe, na obra A máquina de fazer espanhóis, relata-nos a história do senhor Silva que vive com amargura a sua ida para um lar. O filme de António-Pedro Vasconcelos, Os Gatos não têm vertigens, narra não só a história de amizade entre Rosa, mulher com mais de 70 anos, com Jó, jovem entregue a si próprio, como também nos demonstra que aquela faz finca-pé com a família para ter o direito de permanecer na sua casa.
Quando o corpo vai mirrando, e mesmo que não seja possível um renascimento, poderá, em contrapartida, haver um “nascimento num novo estilo de vida, num aprofundamento novo do pensamento”, como escreveu Marcel Eck. Quando a vida entardece, há sempre quem opte por fazer o que agora tem pressa. David Lynch, no delicioso filme Uma história simples, vai inspirar-se na experiência real de um homem octogenário que viaja num tractor, ao longo de várias semanas, para fazer as pazes com o irmão. Trata-se de uma história que enternece e rega-nos o olhar; de alguém que sente o tempo a apertar e que faz o que tem que ser feito. “É que o tempo aperta”, disse Saramago, justificando o porquê de ter uma vida tão ativa e produtiva.
O nosso tempo também há-de apertar, caber-nos-á, hoje, contribuir para uma sociedade que será nossa cuidadora.
Texto: Teresa Viveiros
Crónica na edição Impressa de fevereiro de 2016.
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