Log in

Quando Apagar Abril é Apagar a Liberdade

Márcia Pimentel
Técnica Auxiliar de Saúde
Estudante do 2.º ano da Licenciatura em Serviço Social

Há datas que não são apenas datas. Há momentos na história de um país que carregam dentro de si a memória de muitos silêncios, de muitos medos e também de muita coragem. O 25 de Abril é um desses momentos.

Não foi apenas uma mudança de regime. Foi o dia em que Portugal começou a sair de décadas de ditadura, censura, guerra colonial, pobreza escondida e falta de direitos fundamentais. Foi o dia em que um povo começou, finalmente, a poder respirar com mais liberdade.

Por isso, custa ver o 25 de Abril tratado como se fosse uma cerimónia incómoda, uma obrigação protocolar ou uma memória que se pode pôr de lado quando não dá jeito. Abril não é um detalhe da nossa história. Abril é a raiz da democracia portuguesa.

Quando um governo desvaloriza esta revolução, reduz a sua importância ou parece colocá-la num lugar secundário da memória coletiva, não estamos apenas perante distração ou falta de sensibilidade. Estamos perante uma escolha política. E as escolhas políticas, principalmente quando mexem com a memória democrática de um país, devem ser olhadas com muita atenção.

Nos últimos tempos, tem-se tornado visível um certo desconforto com o significado profundo do 25 de Abril. E isso preocupa-me. Porque quando se tenta diminuir Abril, não se está apenas a falar de uma data comemorativa. Está-se a mexer na memória de um povo. Está-se a mexer na lembrança de tudo aquilo que foi conquistado por quem viveu antes de nós.

A pergunta impõe-se: que intenções tem um governo que parece incomodado com a celebração da revolução que tornou possível a própria democracia onde hoje governa? Que país se quer construir quando se tenta esvaziar Abril do seu significado? Um país com menos memória? Menos consciência? Menos capacidade de questionar?

Um país que esquece como conquistou a liberdade torna-se sempre mais frágil. E um povo que começa a acreditar que os direitos sempre existiram pode, um dia, não perceber quando eles começam a desaparecer.

Desvalorizar o 25 de Abril é perigoso porque abre espaço ao revisionismo histórico. E o revisionismo nem sempre aparece de forma evidente. Às vezes começa devagar, quase sem se dar por isso. Começa quando se diz que “isso já passou”, que “não vale a pena falar sempre do mesmo”, que “há coisas mais importantes”, ou quando se tenta tratar a ditadura como se tivesse sido apenas mais uma fase da história portuguesa.

Mas não foi.

Antes do 25 de Abril havia censura. Havia polícia política. Havia perseguição. Havia medo de falar. Havia homens enviados para uma guerra colonial sem fim. Havia mulheres com direitos limitados. Havia pobreza, silêncio e obediência forçada. E isto não pode ser suavizado, relativizado ou varrido para debaixo do tapete.

Depois de Abril abriu-se caminho à liberdade de expressão, ao voto livre, à participação política, aos direitos laborais, à escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde e a uma ideia de país mais justo e mais digno. Nada disto nasceu por acaso. Nada disto caiu do céu. Foi conquistado.

Talvez seja precisamente por isso que Abril ainda incomoda tanta gente. Porque Abril lembra-nos que o povo pode levantar-se. Lembra-nos que nenhum poder é eterno. Lembra-nos que a liberdade exige memória, vigilância e participação.

O 25 de Abril não pertence a um partido. Não pertence apenas à esquerda, nem a uma geração, nem a um grupo. Pertence ao povo português. Mas também é verdade que os seus valores — liberdade, justiça social, igualdade, dignidade, participação e resistência ao autoritarismo — entram em choque com todos os projetos políticos que preferem uma sociedade mais calada, mais obediente e menos crítica.

Quando se tenta apagar Abril, não se apaga apenas uma data. Tenta-se apagar uma consciência. Tenta-se enfraquecer a lembrança de que houve quem dissesse basta ao medo. Tenta-se tornar normal aquilo que nunca deve ser normal: o desprezo pela história, a relativização da ditadura e a ideia perigosa de que a liberdade está garantida para sempre.

E não está.

A liberdade precisa de ser cuidada. A democracia precisa de ser defendida. A memória precisa de ser transmitida, sobretudo às gerações mais novas, que não viveram a ditadura e que podem facilmente ser levadas a pensar que tudo isto é apenas passado distante.

Um governo que desvaloriza o 25 de Abril revela, no mínimo, desconforto com a memória democrática do país. E quando um governo se sente desconfortável com a liberdade que o tornou possível, os cidadãos têm o dever de estar atentos.

Porque Abril não é passado morto. Abril é raiz. É aviso. É herança. É compromisso.

E enquanto Abril continuar vivo na consciência do povo, haverá sempre quem se recuse a aceitar o silêncio, o medo e a injustiça como destino.

Deixem o legado de Francisco trabalhar

Alexandra Manes

Ainda com a memória do 25 de abril passado entre nós, a semana que se segue deverá ser sempre motivo para relembrar a valorização das nossas e dos nossos trabalhadores, e a sua luta por mais e melhores direitos, numa sociedade que se quer cada vez mais voltada para as elites. No entanto, esta é também a semana em que devemos refletir sobre o legado de um ser humano bom que partiu recentemente.

A 21 de abril, pelo alvor da madrugada, recebemos a notícia de que o Papa tinha falecido. Jorge, de seu nome profano, mais tarde ungido como Francisco, pelos poderes investidos no Vaticano, foi uma personalidade de elevado destaque na história recente da Humanidade. Mesmo sendo líder de uma das nações com mais vícios e complicações, e com um vasto historial de opressão e corrupção, Francisco destacou-se, não só pela sua atitude reformista, mas também pela sinceridade e pelo carinho na forma como se comportou ao longo da sua vida. Ainda que sentado no centro de um gigantesco palácio, construído com dinheiro discutivelmente adquirido, aquele Papa nunca abandonou uma matriz humanista na forma como agiu e como dialogou com os milhões de fiéis que o seguiram, pelo mundo fora.

Já muito foi escrito acerca da vida e obra de Francisco. Não tenho pretensão de aqui trazer nada de novo, sobre o assunto, e já fiz a minha reflexão pessoal, aquando da sua morte, e da forma como a mesma me tocou, particularmente. Mas quando me sentei em frente a um teclado para escrever a crónica desta semana, referente ao Dia do Trabalhador, foi de Francisco que me lembrei, primeiramente.

Ao longo do seu tempo como Papa, foram imensos os discursos e pensamentos que deixou ao mundo, sobre quase todas as grandes questões fraturantes do nosso tempo. Entre o grande manancial de conhecimento que partilhou connosco, e em virtude do 1 de maio, não posso deixar de destacar um pouco do que Francisco nos ofereceu. Desde logo, o falecido pontífice era um fervoroso defensor do papel dos sindicatos na vida profissional. Para ele, aquelas eram organizações de importância fundamental na defesa da dignidade laboral, devendo ser homenageadas pelo relevo que assumiram, historicamente, e apoiadas, para continuarem a elevar adequadamente o lugar do trabalhador comum ao destaque que ele merece.

Francisco nunca fugiu dos fantasmas da Igreja, mas soube reorganizá-los, valorizando as colunas da liberdade e da igualdade social, em detrimento da estratigrafia de classes, que outros Papas defenderam de forma desenfreada. Para aquele homem bom, o sol quando nasce deve nascer para “todos, todos, todos”. Já se tornou um cliché citar essa sua expressão, no entanto não nos devemos esquecer da ideologia subjacente a tal afirmação. Muito mais do que algum presidente poderá almejar ser, aquele foi verdadeiramente um líder de afetos, que deixa uma profunda saudade na sua partida, e um manifesto de trabalho para um dia o Vaticano voltar a ser verdadeiramente cristão.

Certamente, por isso mesmo, as forças do ódio e da extrema-direita ficaram profundamente magoadas com o legado de Francisco. O pequeno líder português desse movimento parasitário, ávido de sensacionalismo, em plena campanha eleitoral, veio lamentar o falecimento daquele homem, enquanto continua na nossa memória a frase dele, sobre o péssimo serviço que diz que o Papa terá prestado ao cristianismo. Maria Vieira, deputada municipal em Cascais, ao serviço do partido de Ventura, esclareceu a posição, e a dos correligionários, insultando vergonhosamente o trabalho de Francisco, com palavras que nem me atrevo a reproduzir aqui, mas que espelham a verdadeira postura daquela gente. Se a hipocrisia pudesse concorrer à Assembleia, sabemos porque partido o faria.

Hoje, mais do que nunca, urge homenagear o Trabalhador e a Liberdade, mas também lutar para manter a justiça social já conquistada, e para conquistar mais igualdade, em nome da verdade que querem destruir. Em tempos de crescente escuridão, o fumo branco que esperamos receber não se limitará à escolha de uma nova pessoa para ocupar o lugar no Vaticano. Desejamos que seja o legado de Francisco a perpetuar a ação da sua Igreja, contra as tiranias e as pequenas vaidades, que almejam destruir as pedras do templo de São Pedro. Com o começo da caminhada em nome do Espírito Santo, que agora iniciamos, começa também uma nova madrugada de ação. Feito o merecido luto e honrando a humildade de um lutador, devemos permanecer ativamente no combate às oligarquias e aos poderes instituídos que financiam a desconstrução da sociedade, assentando a nossa balança pela bitola do Trabalho digno e da qualidade de vida, em todas as suas vertentes.

A 1 de maio de 2025, o hino do nosso país não deve apelar a que o Luís possa trabalhar. Não podemos admitir que se façam campanhas eleitorais apenas com base em músicas tornadas virais pela comunicação social. Não podemos deixar passar incólume uma sucessão de atos musculados para suprimir graves acusações levantadas e ainda não esclarecidas.

Quem necessita de trabalhar são todas as pessoas que fazem do nosso país e do nosso mundo um lugar melhor. Com os valores de Francisco, com os ideais de Abril e com a certeza de Maio. Construindo um futuro que seja, verdadeiramente, para todas e todos. Em nome de Franciscus e da sua fé.

Luís Garcia convoca novas gerações a defender e perpetuar legado de abril

© PARL

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, convocou hoje, em Lisboa, as gerações mais jovens a defender e a perpetuar o legado conquistado no 25 de abril de 1974.

“Essa convocatória dirige-se a todos, mas sobretudo às camadas mais jovens porque ninguém defende aquilo que não conhece e, portanto, temos que lhes ensinar qual foi o significado e a importância do 25 de abril”, afirmou o presidente da Assembleia, que marcou presença esta manhã na sessão solene do 50.º aniversário do 25 de abril 1974, na Assembleia da República.

Para o presidente Luís Garcia, “a Revolução de Abril foi um momento marcante e determinante
para a vida dos portugueses porque abriu as portas do país à democracia e, nos Açores, à nossa
autonomia”, afirmou o presidente da Assembleia Legislativa, sublinhando a atualidade desse
legado “valioso que não pode de maneira nenhuma ser esquecido”.

“Nunca podemos pensar que a democracia, a liberdade e a autonomia foram dádivas. Foram conquistas que devem ser transmitidas a todos, sobretudo os mais jovens, para que percebam a importância desses valores incutindo-lhes a missão de os defender e fortalecer, afirmou o presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, em declarações à comunicação social.

Na sessão solene, que contou com a presença das mais altas entidades do país, usaram da palavra os deputados únicos representantes de partido, os representantes dos grupos parlamentares, o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na ocasião, o presidente do parlamento açoriano relembrou as iniciativas que têm sido desenvolvidas pela ALRAA, no âmbito do cinquentenário do 25 de Abril, que vão ao encontro das camadas mais jovens, através da organização de tertúlias e atividades lúdico-pedagógicas que lhes permitam conhecer a realidade do país antes e depois da Revolução dos Cravos.

A legitimidade de 25 de abril

Alexandra Manes

Corria o ano de 2013. Portugal vivia tempos desesperantes, apertado pelo garrote da Troika e asfixiado pelos passos mais troikistas de um governo impositivo. Numa semana daquele ano, foi noticiado um alegado caso de violência doméstica, que nunca ficou bem provado ou desmentido. O jornal O Crime deu à luz uma série de acusações sobre o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que ainda hoje não se sabe se foram ou não encomendadas.

Sabemos, todavia, que naquele tempo as pessoas suspiraram e não quiseram acreditar que tal pessoa fosse capaz disso. Com todos os defeitos que algumas pessoas lhe reconheciam, Passos Coelho era visto como um homem de fibra moral, e, portanto, não se colocava a hipótese de ter levantado uma mão para magoar qualquer esposa ou companheira de vida.

Passaram mais de dez anos desde o episódio caricato, que acabou esquecido pela neblina do tempo. Coelho deixou de ser primeiro-ministro, deixou os holofotes e, a certa altura, pareceu estar reformado da vida política.

Não sabemos se foi uma coincidência infeliz, ou uma propositada ação concertada. O que sabemos é que, alguns dias depois da eleição de cinquenta deputados para o partido da extrema-direita nacional, Passos Coelho voltou a público para fazer a apresentação de um livro de propaganda ideológica digno de Marcelo. Neste caso, de Marcelo Caetano, ainda que se possa inferir que Rebelo de Sousa também concorde com muito do que o tal livro afirma.

Identidade e Família é o título de uma obra que mistura comunismo, homossexualidade, interrupção voluntária da gravidez, donas de casa e muitas outras coisas que tal. É um delirante ensaio de conservadorismo, reflexo de um mundo que vive agarrado às publicações chalupas de redes sociais, promovido por algumas das mais bafientas figuras do salazarismo. Perdão. Do passismo.

Passos apresentou a obra e apareceu ombreado com André Ventura, que defendeu como sendo uma solução pragmática para o futuro da direita em Portugal. Essa postura só surpreendeu quem seletivamente decidiu esquecer que a rampa de lançamento do partido de Ventura foi precisamente Pedro Passos Coelho. Dias depois, o antigo primeiro-ministro veio criticar o seu antigo número dois, Paulo Portas, e lançar suspeitas de fraqueza para cima do governo do atual primeiro-ministro e antigo discípulo do passismo, Luís Montenegro.

Este é o mês da Liberdade. Passaram-se cinquenta anos desde a madrugada que todos esperávamos. Cinco décadas desde que Natália Correia chegou a casa naquela noite escura e recebeu uma chamada que mudou o nosso destino. A mesma Natália, que do seu Botequim ajudou o relacionamento de Sá Carneiro com Snu Abecassis, à revelia da esposa dele e dos seus amigos conservadores. Sá Carneiro, figura idolatrada pelo mesmo partido social-democrata que deu à luz o obscurantismo que Coelho agora nos vende. Que diria aquele casal, que floresceu na escuridão do bar, à revelia do tradicionalismo, ao ler a obra que Coelho promove?

Da Identidade e da Família, Coelho lançou-se ao ataque. Deu a mão à extrema-direita, mas manteve a sua postura alaranjada, para granjear os dois lados daquela maçã podre e galvanizar o país no lançamento da sua candidatura a Belém. É evidente que Coelho quer ser presidente de um país onde Ventura seja primeiro-ministro e, a julgar por sondagens recentes, onde mais de metade dos portugueses nem se importe de ficar sem eleições, desde que tenha um líder forte.

Mas voltemos ao livro e ao seu conteúdo. A defesa da chamada família tradicional por aquela obra de ideologia do género masculino, passa pelo branqueamento da narrativa e dos dados. Durante a discussão da mesma, falou-se de violência doméstica, alegando-se que a mulher que apanha e não reclama é porque gosta. Falou-se do papel da senhora, recatada e no lar, enquanto o homem pode sair para apanhar uma bebedeira, arranjar três ou quatro amantes e voltar para casa, com batom na gravata, e sem barulho da parte dela.

É essa a família que a extrema-direita, de Ventura, mas também de Passos Coelho, endeusa. É nesse agregado familiar que se reveem, como senhores de um lar onde são imperadores. Também Trump, que Ventura e Coelho adoram, está agora a ser julgado pelo horrendo episódio em que alegadamente dormiu com uma modelo da Playboy enquanto a sua atual esposa estava no hospital a dar à luz ao filho mais novo.

É esse o país que todos esses homens desejam. Com mulheres caladinhas e subservientes. Cabe a todas nós levantar a mão. Repetir a estalada na cara deles. Uma e outra vez. Até perceberem que a nossa identidade, a nossa família e a nossa alma não é deles. É nossa! E eles não passarão!

25 de abril, sempre!

A liberdade de expressão está em causa nos Açores?

Fernando Diogo
Professor e Investigador

Não de uma forma dramática, mas não deixa de estar quando muito daquilo que é a informação que os jovens recebem sobre a sociedade e a política vem de fontes não credíveis, e não da comunicação social. Isso preocupa-me muito porque tem um impacto enorme na classe profissional, na sua estabilidade, salário e naquilo que é a organização e saúde da democracia. Há diversos anos, a saúde da democracia está fragilizada pela forma como o jornalismo está a ser tratado e feito.

Gilberta Rocha
Professora e Investigadora

A liberdade de expressão está em causa em todo o lado e já não é de agora. Não a sinto propriamente na pele, porque não sou jornalista, mas sinto no tipo de notícias que se faz. Vê-se que as notícias por vezes não são totalmente verdadeiras, ou melhor, muitas vezes não vão aos assuntos que são essenciais debater.

Luisa Bairos
Documentalista de Televisão

Não em particular nos Açores. Isto é uma tendência que está em todo o mundo, e como em todo o mundo, quando há um ataque ao jornalismo, há a toda a sociedade, e, obviamente, à democracia e à liberdade de expressão. Portanto, nos Açores, quando se ataca essa fonte, está-se a atacar a democracia.

José Melo
Empresário

Se nos Açores, mesmo com pouco e fraco jornalismo que existe, está em causa, imagine-se como será, quanto mais precários forem os salários dos jornalistas e quanto mais pressão for exercida sobre eles. O jornalismo é o quarto poder. Este ataque à democracia, via jornalismo, não é de agora, agrava-se com esta situação. Basta estar atento para percebermos, quer em termos de jornalistas e de comentadores, que está tudo perfeitamente indexado a um determinado poder: o económico.

Nuno Martins Neves
Jornalista

Não considero que esteja em causa. Nunca me senti constrangido em noticiar seja o que for. Mas não podemos dizer que essa liberdade está totalmente garantida, quando há ilhas que não têm jornalistas, ou têm órgãos de comunicação com apenas um membro, que tem de fazer tudo. Em São Miguel, há concelhos em que muitas vezes se passam semanas até haver notícias deles. Obviamente que a liberdade de expressão e de informação também fica em risco porque essas pessoas não têm voz.

O que é que o 25 de Abril de 1974 e o meu avô têm em comum?

Júlio Tavares Oliveira
Escritor

O que é que o dia 25 de Abril de 1974 e o meu avô António Tavares têm em comum? Muito pouco, na verdade, quase nada. Na verdade, até ao 25 de Abril de 1974, nada havia de especial entre esses dois binómios – data e nome -, avô e tempo; espaço e lugar. O meu avô, em 1974, não estava em Lisboa, não era Capitão, nem derrubou – ou ajudou a derrubar o regime marcelista.

O meu avô não era, nem jamais foi, um homem revolucionário. Nem era, digo com toda a certeza, um fascista, nem era tampouco um democrata absolutamente convicto naquele tempo. O meu avô, como militar, não podia ser, senão, um simples, e humilde, militar – isso mesmo, sem outra conduta que não fosse a de cumprir ordens. O meu avô não é, nunca foi, uma peça do 25 de Abril de 1974, mas foi – sim – um combatente que procurou, na sombra dos que fugiam e se refugiavam, ou buscavam outro exílio, assumir um país em guerra consigo mesmo e absolutamente amordaçado, com um défice de gente para combater numa guerra que era de «todos» – muitos dos quais fugiam.

Em 1974, o meu avô cumpria o desígnio de cumprir – e fazer cumprir – as ordens militares, e políticas, que lhe eram dadas pelos seus superiores hierárquicos – coisa que toda a vida fez com dedicação e elevação -, tanto para sustentar a sua família, como para viver, e ter de viver, designadamente, defendendo a sua nação numa guerra totalmente «perdida», à partida, mas nunca absolutamente abandonada à sua imensa sorte pelos que a ainda combatiam do seu suor, sangue e lágrimas em África. Alguém havia de combater, ainda que perdida, a guerra; alguém havia de existir, no terreno, de arma em riste, para defender, e honrar, a Pátria despedaçada. Um deles, um dos últimos combatentes a abandonar África num avião civil, em 1975, seria o meu avô.

No dia 25 de Abril de 1974, o meu avô não teve um cravo na mão; nem andou a marchar pelas ruas de Lisboa ao som da Liberdade. Se tinha, era a distância estonteante da sua casa, dos Açores, para se mover, e vivia, à tangente, em Angola, com a sua família, nas condições possíveis à beira de uma guerra civil. Se tinha algo na mão, com certeza não era um cravo; era a espingarda apontada aos arbustos. O meu avô, contudo, nasceu a 25 de Abril de 1940.

O 25 de Abril é um dia de celebração da Liberdade: o meu avô não participou nessa conquista; mas, hoje, é parte de uma Nação livre, que ajudou a defender, no seu tempo mais negro de sempre, e que, com orgulho imenso, devemos honrar, respeitar e valorizar. O meu avô pensa como um Homem Livre. Age como um Homem Livre. E, posso dizer, ajudou-me a ser, também, um Homem de pensamento e ação Livres. Terei sempre orgulho no homem que me fez ter noção das responsabilidades mais duras. Da vida. Da importância do combate; que me educou e reeduca constantemente num sentido de pura orientação cívica e social. Um homem que – com stress pós-traumático, pesadelos imensos e traumas de guerra – conseguiu convencer o neto de que toda a guerra, tendo participado nela, é um crime contra a Humanidade.

Liberdade de Abril

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

No dia 24 de Abril de 1974, Portugal adormeceu numa ditadura, sem saber que acordaria, a 25 de Abril, livre, sob o signo da democracia, naquela que seria uma das transformações de regime mais admiradas da história, devido à pacífica autolibertação de um povo. Fez-se uma mudança de regime político do dia para a noite, sem sangue, e com cravos.

A revolução dos cravos simboliza, na sua essência, a rejeição de um regime autoritário e fechado, substituído por um sistema político aberto, livre e integrado no mundo livre. A ordem política resultante dessa transição constitui a mais duradoura e estável de todas as experiências democráticas de Portugal.

Porém, temos o dever de retroceder na história da história e recordar que o Portugal derrotado no século XIX pelos liberais, continua a existir, à espreita para romper com a democracia. Por isso, temos o dever de proteger a democracia e aquilo que ela nos dá, fazer perdurar este ciclo democrático.

A revolução de Abril sonhou a democracia, e hoje temos democracia, sendo o expoente máximo da sua expressão a liberdade. Democracia sem igualdade e liberdade é farsa.

Hoje somos governados num sistema livre e com ganhos sociais incomparáveis com os de épocas anteriores: mais do dobro do nível de vida; metade da taxa de pobreza; esperança média de vida superior em cerca de dez anos e mortalidade infantil inferior a um décimo da que era então. Mais, as mulheres têm direitos e a imprensa é livre. O que hoje nos parece básico, nem sempre o foi. Por isso, pergunto: quem tem saudades de Salazar?

A filha pródiga de Abril, a Constituição da República Portuguesa – a mãe de todas as leis portuguesas, definiu os pilares organizacionais da sociedade portuguesa, construindo uma sociedade livre, justa e solidária, com margem para progresso e não para retrocesso. Ver o futuro, olhando o passado, para que não se repita.

Ora, volvidos 50 anos de “Abril”, nunca foi tão oportuno falar de Abril e daquilo que nos trouxe: liberdade. Em Portugal, falar “Abril” é falar livremente de liberdade. Não há liberdade na língua de Natália Correia sem Abril, e esta soube-o bem enquanto mulher e poetisa.

Aos dias de hoje temos e somos o produto de uma liberdade que nos foi dada por quem a conquistou: liberdade de escolha, movimento, pensamento e expressão.

Viver Abril é romper com a propaganda da mentira, combater a distorção da verdade enquanto padrão para imposição de uma falsa realidade, aproveitando a ignorância de um povo fragilizado, fruto da subnutrição intelectual a que foi sujeito.

A história tem-nos ensinado que os radicalismos, especialmente, de direita, chegam ao poder pela via democrática, enquanto resultado da escolha popular que foi, sucessivamente, ignorando os sinais de alerta. Uma legitimação popular do exercício «democrático autoritário» que ostraciza a liberdade e é apaixonado pela força.

Sindicar Abril é repudiar autoapregoados messias de origem divina com a única missão de defender ou salvar o que “resta” da democracia.

Não vamos reciclar falácias já experimentadas.

Sempre se dirá que as atuais convulsões sociais são produto da liberdade de Abril, pois tal só é possível devido à liberdade que nos foi dada. Não obstante, a liberdade de Abril é uma oportunidade para sermos melhores. Esta é a visão de Abril.

É obrigação honrar Abril.

Luís Garcia desafia jovens a defender legado de Abril

Apelo foi lançado no âmbito das comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos, numa iniciativa da Assembleia Legislativa açoriana

© ALRAA

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, desafia os jovens a defender os valores democráticos conquistados com o 25 de Abril de 1974, com base no conhecimento mais aprofundado da história do país e da região antes da Revolução dos Cravos.

“É essencial que os mais jovens percebam que Portugal e os Açores nem sempre foram assim”, evidenciou o presidente da Assembleia Legislativa num apelo lançado na sessão de abertura da tertúlia “Conversas de Abril” que decorreu na passada segunda-feira, na ilha do Faial.

A tertúlia teve lugar na Galeria dos Presidentes do Museu do Parlamento dos Açores, na cidade da Horta, e marcou o arranque do programa das comemorações do cinquentenário da Revolução dos Cravos organizado pela ALRAA em parceria com outras instituições governamentais e autárquicas.

O presidente do parlamento açoriano realçou, ainda, que “a democracia, a liberdade e também a autonomia, a que abril abriu as portas, não foram dádivas mas sim conquistas” que devem ser lembradas “em especial neste ano em que celebramos meio século de democracia em Portugal”.

A iniciativa contou com a participação do antigo presidente da Assembleia da República e do Governo regional, João Bosco Mota Amaral e do antigo político e académico, José António Martins Goulart, sob a moderação do antigo deputado à ALRAA, Jorge Costa Pereira.

A tertúlia integra o programa de atividades organizado pela ALRAA no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril que se estenderão até ao próximo ano.