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A doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós

Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês

Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.

O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.

Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.

Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.

São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.

E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.

Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.

É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.

É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.

Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.

Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.

“Estava doente e foste visitar-me”

Padre André Furtado

“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.

Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.

Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.

Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.

Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.

E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.

Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.

Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.

Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.

Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.

Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.

Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.

Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).

Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.

O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.

Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.

A Fórmula do Amor: Pilhas Duracell

A lenda de São Valentim nasceu do amor proibido.

Conta-se que, no Império Romano, os jovens soldados eram proibidos de ter parceira, por se acreditar que o amor diminuía a sua performance bélica. Valentim, sendo frade — e frade numa época em que amar era também um ato de desobediência — discordou e celebrou inúmeros casamentos em segredo.

Já se sabe que ninguém apaga a chama do amor.

Mas também se sabe que, ao longo da história, ela surge quase sempre acompanhada de dramas, cenas e mártires.

Talvez por isso Valentim tenha ficado associado à valentia.

Porque o amor não é para todos.

É só para quem aguenta.

É precisamente por isso que este artigo começou por se chamar A Fórmula do Amor e acabou por falar, na prática, de relacionamentos amorosos. A diferença está na distância entre a química idealizada do início e a prática quotidiana partilhada. Se a primeira exigia valentia, a segunda exige, com certeza, criatividade — e outras coisas mais — que são o mote desta formulação.

Vamos, então, dar início à escrita do problema.

1. Enunciado

Ao formular o problema — digo, o do amor, melhor dizendo, o das relações amorosas — resta determinar se ele é solucionável, indeterminado ou impossível.

A questão que se coloca é simples apenas na aparência: o que estaríamos dispostos a aceitar como solução?

Considere-se uma relação amorosa como um sistema instável, sujeito a variações constantes e a fatores externos inesperados, como cansaço acumulado, decisões financeiras tomadas “em boa fé” ou discussões recorrentes sobre quem deixou a luz da casa de banho acesa.

Para efeitos práticos, adotam-se as seguintes variáveis:

2. Hipótese inicial

Parte-se do princípio de que uma relação não se sustenta na intensidade do início, mas na repetição. Não é o jantar romântico ocasional que garante continuidade, mas o cuidado diário — como perguntar “como correu o teu dia?” e não desaparecer a meio da resposta para ir ver o telemóvel.

Na ausência de cuidado, o sistema começa a falhar, mesmo quando tudo parece bem nas fotografias.

3. Condição necessária

Nenhuma relação se mantém sem tempo.

Tempo real, não apenas partilhado no mesmo sofá enquanto cada um vê uma série diferente.

É aqui que surgem dilemas clássicos: ver a série juntos ou avançar “só um episódio”, jantar fora ou pedir comida, ir dormir cedo ou prolongar a conversa que começou por nada e acabou em tudo. O tempo só conta quando há presença.

4. Variável frequentemente ignorada

Define-se escuta como a capacidade de ouvir sem interromper, corrigir ou preparar mentalmente a resposta.

Muitos conflitos conjugais não resultam do tema em si — seja a loiça por lavar ou o tom de uma mensagem — mas da sensação persistente de não estar a ser ouvido.

5. O fator de perturbação

Introduz-se o ego como variável instável e expansiva.

Ao contrário das restantes, o ego não soma: ocupa espaço.

Manifesta-se na necessidade de ter razão, na dificuldade em pedir desculpa ou na convicção de que “não era preciso avisar” antes de uma decisão importante. Em excesso, o ego consome energia que faria falta ao resto do sistema.

6. Formulação provisória

♥ = ( C + T + S ) ÷ ( 1 + E )

Não é preciso gostar de matemática para compreender: quanto mais cuidado, tempo e escuta, maior a relação. Quanto maior o ego, menor o resultado.

Nota final

Os relacionamentos não se resolvem.

Ajustam-se.

Duram mais quando há energia disponível, manutenção regular e a capacidade de trocar as pilhas antes de tudo se desligar — de preferência antes da próxima discussão sobre o ar condicionado.

Talvez por isso seja curioso que, ainda hoje, em contexto profissional, se continue a perguntar se alguém pensa engravidar nos próximos tempos ou se está numa relação, como se isso fosse um indicador de desempenho.

Talvez a pergunta relevante fosse outra.

Mais simples.

Mais honesta.

És feliz na tua relação?

Ou, pelo menos, tens uma relação estável?

Porque relações estáveis — afetivas, emocionais, humanas — não retiram energia ao trabalho. Pelo contrário: dão-lhe base, foco e continuidade. E talvez seja tempo de perceber que a maturidade emocional não é um risco profissional, mas um ativo silencioso.

Quando o amor é um luxo

Micaela Pimentel

Revi recentemente Moulin Rouge. Não por nostalgia, mas porque há filmes que pedem para ser revistos quando já não somos a mesma pessoa. À primeira vista, continua a ser o mesmo excesso: cores vibrantes, música alta, amores intensos e promessas grandiosas. Mas, desta vez, o que mais me ficou não foi o romance. Foi tudo o resto.

Moulin Rouge fala de amor, sim, mas fala sobretudo de quem pode amar livremente e de quem paga um preço por isso.

Satine é apresentada como estrela, desejo, fantasia. Mas rapidamente percebemos que, apesar do brilho, não lhe pertence quase nada: nem o corpo, nem o futuro, nem as escolhas. O amor, para ela, é um risco. Um luxo que não pode verdadeiramente permitir-se. Christian, pelo contrário, pode amar de forma idealista, pura, quase ingénua. Não porque ama mais, mas porque pode.

E é aqui que o filme deixa de ser apenas um musical e se transforma numa crítica social subtil, mas contundente. Nem todos amam em pé de igualdade. Nem todos sofrem com a mesma rede de proteção. A romantização da pobreza, do sacrifício e da dor torna-se bonita no ecrã, mas desconfortável quando pensamos nela fora da ficção.

Talvez por isso choremos tanto com este tipo de histórias. A ficção permite-nos sentir empatia sem responsabilidade. Sabemos que a tragédia termina com os créditos. Na vida real, não há música a subir no momento certo nem aplausos no fim do sofrimento.

Há histórias de amor, de perda e de luta que não cabem em duas horas de filme. Pessoas que não tiveram escolha, que nunca tiveram margem para errar, que vivem constantemente no limite entre sobreviver e desistir. Não há glamour nisso. Não há figurinos exuberantes nem frases memoráveis. Há cansaço. Há silêncio. Há dignidade ferida.

A arte ajuda-nos a reconhecer emoções, mas também pode anestesiar-nos se ficarmos apenas no conforto da história bem contada. Moulin Rouge lembra-nos que por trás da estética existe desigualdade e que o amor, esse sentimento que gostamos de pensar como universal, é profundamente condicionado pelo contexto social.

A música do filme insiste que “the greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return” (A coisa mais importante que alguma vez aprenderás é simplesmente amar e ser amado de volta). Talvez seja verdade. Mas talvez seja igualmente importante reconhecer que, para alguns, amar é um ato de coragem extrema, enquanto para outros é apenas uma possibilidade natural.

Rever Moulin Rouge foi, para mim, menos sobre romance e mais sobre empatia. Sobre perceber que nem todas as histórias podem acabar bem. E que a nossa sensibilidade não deve ficar reservada às personagens fictícias que nos comovem no sofá, mas estender-se às pessoas reais que vivem sem banda sonora, sem aplausos e sem garantias de final feliz.

Talvez a verdadeira crítica social comece aí: em não desligarmos a empatia quando o filme acaba.

A (im)paciência para amar

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

O outro dia, num habitual fim de semana típico de compras, numa grande superfície comercial, deparei-me, de súbito, com um casal de dois idosos a afrontar-se mutuamente numa, também ela aparente, falta de paciência de ambas as partes.

De um lado, um idoso, genuíno e de bengala, que chamava, bruscamente, pela senhora idosa que, absorta nos seus pensamentos, insistia ela, que queria ver melhor um produto com mais atenção pelo seu rótulo; uma idosa que, na sua infinita atenção ao produto, em específico, ignorava o idoso apressado e já com imensa falta de paciência.

Assisti a este episódio calado e no meu canto, mas, no meio desta falta de paciência, notei algo muito mais profundo e significativo: houve sempre, sempre respeito entre ambos, mesmo na forma como perdiam, ambos, a paciência um com o outro. Se o idoso chamava a idosa pelo nome, repetidas vezes, num tom baixo, mas apressado e impaciente; a idosa não respondia, nem mal nem bem, mas baixava a cabeça, e atentava, mais ainda, no produto, e no rótulo, que vasculhava, conhecendo, transportando-se e pessoalizando-se no discurso do seu companheiro.

Até que, num momento, foi ter com o seu marido e ambos seguiram o seu caminho – de infinita paciência e impaciência que, no fundo, encontram uma forma de andar juntas ao serão.

Não obstante, hoje em dia, perde-se a paciência (de ambos os lados) para a impaciência que não se contorna nem encontra um jeito. Para tudo; pois queremos tudo para ontem – bem ou mal feito. Queremos tudo de uma forma subtil, bela e pura – mas apressada, instantânea, rápida, fugaz, efémera (e ao nosso jeito). De uma forma que, não insistindo com a nossa teimosia e mexendo com os nossos nervos e a nossa infinita paciência, não nos teste jamais, e à nossa paciência, mas nos faça sentir sempre algum prazer e nos encha de todo o amor e de todo o carinho – que os outros, infelizmente, não nos são capazes de dar desta forma.

Um amor que não nos testa não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não nos sirva para sermos pacientes, com ele, não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não implique faltas de paciência e teimosias, não é um amor real – é uma ficção. Hoje em dia, perdemos, bruscamente, o hábito de ser pacientes, connosco e com os outros, e, com isso, o hábito de buscar as coisas que concentram genuíno amor – porque o amor não é uma questão de alguns segundos; não é a duração e o contar dos dias, sobre os dias, o prazer dos momentos na espuma dos corpos – não é.

É, tantas vezes, as dolorosas, e voláteis, consequências das palavras, dos gestos e dos significados. O peso absurdo e inconsequente, leviano, dos erros cometidos e omissos. O fardo acometido de culpa sem absolvição que não desiste jamais de amar o outro – e de ser impaciente naquele amor, também. É, o amor, o primeiro amor, que foi apalavrado, mas não passou de uma simples palavra suspensa no ar para sempre – algo que vive connosco, implica jogo e paciência, teste, contraste e cura. É o amor, também, a solidão profunda na cama da noite alta – porque, e quem diria que isso seria possível…, quem ama também está, e se sente, sozinho.

É preciso cuidar, e falar disso: quem ama, e tem quem o ame, também se sente sozinho; sente essa dor a que tem todo o direito de sentir.

Acima de tudo, perdemos a paciência para esperar. Para esperar que nos amem e, quando realmente nos amam, para amar de forma generosa e cuidada – e simples (com paciência).

Perdemos a Esperança. Essa botija de oxigénio que nos faz andar para a frente.

Perdemos o Empenho. Essa vontade pura, e grata, de sermos melhores a cada dia que passa.

Perdemos a Fé. Tão importante nos dias de hoje, dias sem luz e sem Norte.

Perdemos a Fidelidade. Esse ficar, até ao fim, onde já não estamos; e esse estar onde já não vamos ficar.

… Só ainda não perdemos mesmo… o Amor.

Outro amor é fantasia

Júlio Tavares Oliveira
Escritor

Só se ama uma vez
Outro amor é fantasia
Só se ama em quem crês
Que o amor é noite e dia

Bem que o teu amor te dizia
«Quem vier depois não te diz
o que o anterior te dizia»
Que o depois não te condiz

O que o dantes te condizia
Pois não tem comparação
Só se ama uma vez
Uma vez só – sem exceção

O resto é demagogia
Quimera, sonho e espuma
Banho imerso na farsa bruma
Outro amor é fantasia.

Amou-os até ao fim

Padre André Furtado

Irmãos e irmãs,

hoje iniciamos o Tríduo Pascal, os três dias mais sagrados da nossa fé. A liturgia desta Quinta-feira Santa leva-nos ao Cenáculo, à última Ceia de Jesus com os seus discípulos. É uma noite de entrega, de amor profundo, de lições que nos devem transformar. Celebramos três realidades fundamentais: A instituição da Eucaristia – o alimento da nossa fé; O nascimento do sacerdócio ministerial – ao serviço do povo de Deus; E o mandamento novo do amor, vivido no gesto humilde do lava-pés.

Amou-os até ao fim

O Evangelho segundo São João não descreve a consagração do pão e do vinho como os outros evangelistas. Em vez disso, mostra-nos um gesto inesperado: Jesus ajoelha-se e lava os pés dos discípulos.

Um gesto simples, mas profundamente revolucionário. O Mestre faz-se servo. Aquele que é Senhor de tudo, torna-se escravo de todos. Lava os pés dos seus amigos, até mesmo de Judas, que o iria trair.

E depois diz: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.”

Um gesto para o nosso tempo

Este gesto de Jesus fala diretamente à realidade do mundo em que vivemos. Um mundo marcado por divisões, conflitos, individualismo, indiferença, orgulho e vaidades.

Vivemos numa sociedade em que lavar os pés dos outros parece absurdo. Muitos querem subir, dominar, aparecer… mas poucos querem servir.

Jesus, porém, ensina-nos que a grandeza está em abaixar-se. A Eucaristia que Ele nos deixa nesta noite não é apenas um rito bonito: é vida doada, amor que se torna pão, serviço que se torna concreto.

Comungar e servir: duas faces da mesma fé

São Paulo recorda-nos: “Sempre que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.” Ou seja: cada Missa é um envio. Somos enviados a continuar o que celebramos.

De nada serve comungar o Corpo de Cristo se não reconhecemos Cristo no irmão. A Eucaristia que não nos leva ao perdão, ao cuidado, ao compromisso com os mais frágeis… não cumpre o seu verdadeiro fim.

No mundo de hoje, Jesus continua a perguntar-nos: “Estás disposto a lavar os pés da humanidade ferida?”:  Daquele vizinho que te irrita… Do pobre que pediste que fosse “trabalhar” em vez de estender a mão… Do imigrante desprezado, do doente esquecido, do familiar com quem cortaste relações…

Sacerdócio: serviço, não privilégio

Hoje também é o dia do sacerdócio. Mas o modelo de sacerdote que Jesus nos mostra não é um homem distante, mas alguém que se aproxima, que serve, que ama com humildade.

E isso aplica-se a todos nós. Porque, pelo nosso Batismo, todos participamos deste sacerdócio do serviço. Todos somos chamados a ser Eucaristia para o mundo.

Amar até ao fim

Meus irmãos e irmãs, Jesus amou até ao fim. Não até onde dava jeito. Não até ser traído. Até ao fim.

E este amor é o que salva o mundo.

Peçamos hoje a graça de: voltarmos ao essencial da nossa fé; de deixarmos de lado divisões, orgulhos, medos e desconfianças; de nos tornarmos comunidades e famílias mais unidas, sociedades mais fraternas, capazes de amar como Jesus amou.

Que nesta Ceia do Senhor, Ele nos ensine a: comungar com o coração cheio; servir com humildade; amar com verdade.

Amém.

É urgente

Beatriz Moreira da Silva

A nossa conversa interna, que se produz de dentro para fora. A que nos deixa no
zumbido, relembrando-nos constantemente de que não nos podemos perder de vista.
Ninguém quer se perder de vista!

O corpo pede calma, silêncio, contemplação, enquanto a alma grita por urgências,
objetivos, propósitos. E se nos quisermos perder? E se quisermos ultrapassar as
margens do suposto? Ninguém se ofende pelo apego! Ninguém se reencontra sem se
perder nos seus medos! Ninguém!

E que necessidade temporal é essa de não se falar? É uma descrença e despreocupação
aparentemente compartilhada sob um molde.

O desassossego só termina quando chegar o abraço da oportunidade. Não é a
oportunidade! É o lance que daremos sobre ela, na primeira pessoa do singular.
Ecoarão certezas irrefutáveis que antagonizam o ensurdecedor e a calma.

A autenticidade será sempre recompensada com a leveza que, por si só, desentrelaça
tempestades, furacões ou tornados, e creio que se puxarmos o fio do nó, ofegante de
explicação, de suspiro pendente do desenrolar do que nos entope a alma, faz-se magia.

É urgente ser intenso em tudo o que se toca, em tudo o que se faz. É urgente renovar
a esperança de que o que é para ser teu, assim o será!

Rosário dinamiza quarta edição do concurso “Carta ao meu Amor”

© DL

A Junta de Freguesia do Rosário vai dinamizar a quarta edição do concurso “Carta ao meu Amor”. Os interessados em participar devem escrever uma carta romântica e criativa, indicando no fim o seu nome e contacto. Num envelope fechado, deve deixar a carta na caixa do concurso, localizada na Junta de Freguesia do Rosário, até 13 de fevereiro. O concurso destina-se a maiores de idade e residentes no Rosário. As seis cartas mais criativas serão premiadas, nomeadamente com uma noite em hotel (1.º lugar), massagem para casal (2.º e 4.º), e jantar para duas pessoas (3.º, 5.º e 6.º lugares).

A Junta de Freguesia do Rosário continua a apostar em formações de desenvolvimento pessoal gratuitas para a população. Novamente com a formadora Brigitte Cabral, fundadora da Unloose, a nova sessão aconteceu no passado dia 31 de janeiro, nas instalações da Junta de Freguesia e teve como tema “O narcisismo pode estar mais perto do que imagina”. A sessão de desenvolvimento pessoal ajudou os participantes a identificar sinais e a aprender a cuidar de si em relações desafiantes.