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Jorge Rita: “o leite de «vacas felizes» é pago quase ao preço do leite normal, o que não é apetecível para o produtor”

Sobre a produção leiteira, o presidente da Federação Agrícola dos Açores denuncia o “paradoxo” entre o aumento dos custos de produção e a queda no preço pago ao produtor. Perante a falta de medidas governamentais e do peso da grande distribuição, Jorge Rita defende a criação de fundos de compensação

Jorge Rita afirma a resiliência e resistência dos agricultores açorianos © DL

DL: Relativamente à questão do preço do leite pago ao produtor, estamos aqui com uma espécie de impasse, não é?
Sim. A questão do preço do leite para nós é sempre preocupante, principalmente quando vivemos das receitas e despesas residuais. Qualquer descida no preço é complicada para o rendimento e para a economia agrícola. O que vemos é um contraciclo mundial: tudo sobe, inclusive para o consumidor, mas o preço pago ao produtor baixa. Nas hortícolas, frutas e carne, os rendimentos sobem mesmo com o aumento dos custos. No leite, passa-se o contrário: os custos aumentam e o preço baixa, gerando perda clara de rendimento.

DL: Como é que se resolve isso?
É uma situação difícil de compreender. Houve baixas internacionais, mas as subidas lá fora são muito mais acentuadas do que na região. Esperamos que a situação se inverta, pois o que se avizinha é difícil devido ao impacto brutal dos combustíveis, que afeta fertilizantes, sementes e cereais. Se o preço do leite não subir no inverno, passaremos por grandes dificuldades. Não vejo medidas dos Governos regional, nacional ou da União Europeia para minimizar este impacto. A Espanha, por exemplo, é um bom exemplo de política proativa com ajudas diretas no combustível, algo que não assistimos aqui.

DL: E o que é que acha dessa falta de medidas?
Acho que a Europa ignora um setor vital. Estão focados na guerra e na defesa, mas não se pode investir na defesa e desinvestir na agricultura. Isso torna a Europa mais pobre, dependente de terceiros e fragilizada na sua autossuficiência alimentar. O setor leiteiro precisava de fundos de compensação para crises, algo que nunca foi criado e nem parece estar projetado. Devia haver um fundo para situações anormais.

DL: Na prática, o que impede a criação de um mecanismo regional que garanta que o aumento do preço no supermercado chegue diretamente ao produtor?
Há muita fiscalização em algumas áreas e pouca em outras. O mercado passa pela livre concorrência, mas devia haver um instituto nacional ou europeu — como em França, que comunica bem ao consumidor que pagar mais pelo produto reflete-se na produção. Nós assistimos a descidas no preço pago ao produtor, mas o consumidor não vê descidas nos laticínios. A grande distribuição deveria dividir melhor as margens em toda a fileira; nós somos sempre os mais prejudicados.

DL: É utópico pensar que os Açores podem um dia produzir os seus próprios alimentos para o gado, ou estamos condenados a ser “reféns” dos mercados externos?
Estamos condenados a depender de fatores externos porque a nossa superfície agrícola é limitada. Nunca fomos autossuficientes em cereais. Para sermos menos dependentes, teríamos de baixar drasticamente a produção de leite e carne, o que não é viável. Aumentamos a produção de milho forrageiro, o que ajuda, mas a dependência de cereais externos é impensável de inverter agora. O que precisamos é de transportes marítimos competitivos. Defendo indemnizações compensatórias para o transporte marítimo, tal como existem para o aéreo, pois a economia dos Açores faz-se pelo mar.

DL: A diversificação para as fruteiras, flores ou agricultura biológica é um caminho real ou continua a ser um discurso secundário perante o peso dos laticínios?
Elas complementam-se. Podemos crescer em todas as áreas, e sou um grande defensor das produções locais. Quanto mais produzirmos, melhor para a balança comercial. O mercado de proximidade é um bom exemplo de venda direta que encurta a cadeia. No entanto, temos dois problemas graves: a falta de mão de obra, que condiciona tudo, e as condições climatéricas adversas.

DL: Acha que os produtores deviam pensar nos seguros?
Os agricultores pensam nisso, mas os governos e a Europa é que têm de pensar seriamente em criar seguros agrícolas fiáveis para intempéries. É muito mais barato para a região ter seguros do que ficar à espera de ajudas do Governo após cada tempestade. É preciso um trabalho de reflexão para dar segurança a quem quer produzir.

DL: As exigências de bem-estar animal estão a subir. Estão os produtores açorianos capacitados para responder a isso sem perderem competitividade?
Totalmente preparados não, mas estamos em evolução constante. A produção evoluiu muito mais que a indústria em termos genéticos e de pastagens. O conceito das “vacas felizes” foi o melhor marketing feito até hoje, mas a indústria não soube alimentar o projeto convenientemente. Hoje, o leite de “vacas felizes” é pago quase ao preço do leite normal, o que não é apetecível para o produtor. O marketing não se faz por um ano ou dois; alimenta-se.

DL: Que mensagem deixa em relação ao futuro?
Somos muito resistentes e resilientes. Trabalhamos 365 dias por ano. O meu desígnio é que não tenhamos a obsessão pela quantidade, mas sim pela qualidade e excelência. A produção tem feito a sua parte; esperamos que a indústria e o Governo continuem a investir em infraestruturas e apoios para valorizarmos em conjunto este produto de excelência que é o leite dos Açores.

Ponta Delgada lança nova campanha de esterilização gratuita abrangendo municípios vizinhos

Iniciativa que decorre entre abril e outubro permite a esterilização de até quatro animais por agregado familiar, estendendo-se também aos residentes de Vila Franca do Campo e da Povoação

© DIREITOS RESERVADOS

A Câmara Municipal de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, anunciou a abertura de uma nova campanha gratuita de esterilização de animais de companhia, que terá lugar entre os meses de abril e outubro através do seu Centro de Recolha Oficial (CRO).

Segundo a nota de imprensa enviada pela autarquia, a medida não se limita apenas aos munícipes de Ponta Delgada, abrangendo igualmente as populações de Vila Franca do Campo e da Povoação, fruto de protocolos de colaboração estabelecidos entre estes municípios. Esta abrangência reforça o esforço conjunto no controlo das populações de animais de companhia e na promoção do bem-estar animal em diversas frentes da ilha de São Miguel.

A campanha é direcionada a cadelas, gatas e gatos, estipulando-se que cada agregado familiar possa beneficiar da esterilização de até quatro animais. Os interessados em usufruir deste serviço gratuito deverão proceder ao agendamento diretamente junto do Centro de Recolha Oficial de Ponta Delgada. Esta iniciativa resulta de uma parceria estratégica entre o Município de Ponta Delgada e a Direção Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação, contando ainda com a coordenação das Juntas de Freguesia para garantir que a resposta chegue de forma eficaz e próxima a todos os cidadãos.

Para além do controlo reprodutivo, a autarquia recorda que se mantém em vigor, até ao final do ano, a campanha gratuita de identificação eletrónica. Ambas as medidas integram uma estratégia municipal mais vasta que visa a prevenção do abandono e a proteção da saúde pública. A eficácia deste modelo de intervenção é sustentada pelos dados do ano transato: em 2025, foram esterilizados 615 animais externos ao CRO (sendo 501 felinos e 114 canídeos) números que, segundo a autarquia, comprovam a forte adesão da população e a necessidade contínua de investir em políticas estruturantes para a causa animal na região.

Lagoa promove campanha gratuita de esterilização e identificação animal

Iniciativa permite a inscrição de até três animais por agregado familiar para combater o abandono e controlar a sobrepopulação

© CM LAGOA

O Centro de Recolha Oficial (CRO) no concelho da Lagoa vai proceder ao lançamento de uma nova edição da campanha gratuita de esterilização e de identificação eletrónica (microchip) destinada a cães e gatos, anunciou esta quarta-feira, 25 de março, a Câmara Municipal. A medida, que se prolongará durante todo o ano, assume-se como uma ferramenta para incentivar a posse responsável e garantir o controlo da população animal no concelho. Segundo a nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense, o projeto visa facilitar o acesso a cuidados de saúde animal que são considerados essenciais, promovendo não só o bem-estar dos animais de companhia, mas também a segurança e a saúde pública de toda a comunidade.

A campanha é totalmente gratuita e apresenta uma forte componente de apoio social, destinando-se a agregados familiares residentes no concelho, que podem inscrever até três animais por família. Num esforço de descentralização e colaboração local, os munícipes interessados devem formalizar a sua inscrição diretamente na Junta de Freguesia da sua área de residência. De acordo com o Município, este é um trabalho conjunto coordenado pelo CRO, em estreita cooperação com todas as Juntas de Freguesia da Lagoa, sendo estas as entidades corresponsáveis pela seleção das prioridades de intervenção no terreno.

Com esta ação, o Município da Lagoa pretende consolidar uma medida de prevenção contra o abandono animal, problema que o executivo camarário identifica como prioritário. Esta iniciativa conta com o apoio do Governo regional dos Açores, através da Secretaria Regional da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, e beneficia ainda de uma parceria estabelecida com o Município do Nordeste, reforçando a rede de cuidados animais na ilha de São Miguel.