
Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Fala-se frequentemente de pleno emprego, de salários mais “justos” e de menor desigualdade salarial como conquistas sociais inquestionáveis. Em teoria, aproximar o salário mínimo do salário médio ou mediano — o chamado achatamento salarial — deveria aumentar a liberdade dos trabalhadores: se as diferenças entre empregos de maior ou menor exigência forem pequenas, torna-se mais fácil sair de um trabalho stressante ou fisicamente pesado para outro de menor esforço, sem uma grande perda de rendimento. A promessa, dizem eles, é simples: mais escolha para mudar, mais bem-estar social e maior satisfação no trabalho.
O problema é quando saímos do reino da teoria e olhamos melhor para a realidade portuguesa. Entre 2015 e 2025, o salário mínimo (SMN) cresceu mais de 72%, enquanto o salário médio líquido (SML) aumentou cerca de 40%, de acordo com dados públicos do INE. Este desfasamento tem impacto significativo nas estruturas salariais. Hoje em dia, assistimos, em muitas empresas portuguesas, a situações em que trabalhadores assumem mais responsabilidade por um acréscimo salarial de 40 a 50 euros mensais. É aqui que a teoria do achatamento começa a desfazer-se. Não se põe em causa a redução da desigualdade em si, mas sim o momento em que a estrutura salarial deixa de refletir níveis reais de responsabilidade, exigência e valor acrescentado.
É neste contexto que se verifica que a compressão salarial reduz o incentivo financeiro à mobilidade. De acordo com Sónia Félix, economista do Banco de Portugal, mudar de emprego está normalmente associado a um ganho salarial de cerca de 10%. Este “prémio de mobilidade” é um dos principais dinamizadores do mercado de trabalho, porque as pessoas mudam na expectativa de melhorar a sua situação financeira. Quando o SMN se aproxima demasiado do SML, as diferenças salariais entre empregos encolhem e o potencial incentivo para mudar rotinas e começar de novo torna-se cada vez menor. O novo trabalho pode até ser mais interessante ou menos desgastante, mas o ganho simplesmente não vale o risco. Ou seja, o que deveria facilitar a saída de maus empregos acaba por prender as pessoas naquele mesmo local.
E este achatamento salarial enfraquece o incentivo à progressão na carreira. Quando um emprego mais exigente paga apenas um pouco mais do que um emprego simples, a mensagem que passa é que o esforço extra não compensa! E no final ficam todos descontentes, quem já está num trabalho duro sente que o sacrifício não é reconhecido, enquanto quem está num posto mais leve não se sente motivado a aceitar mais responsabilidade por um aumento marginal. Isto é perverso e corrói a lógica de progressão profissional e alimenta a estagnação.
Há ainda mais um impacto negativo na alocação da mão de obra. Num mercado que se quer saudável tem de haver um bom “encaixe” entre as capacidades das pessoas e os empregos. Com diferenças salariais tão reduzidas e os elevados riscos associados à mudança, muitos trabalhadores preferem ficar em postos que não correspondem às suas capacidades ou preferências. Ou seja, o mercado fica menos eficiente, com pessoas menos realizadas e empresas a desperdiçar talento. E assim assistimos passivamente a técnicos altamente qualificados a permanecer em funções administrativas – porque a diferença salarial não compensa o risco.
O achatamento salarial é um trade-off clássico. Protege rendimentos mais baixos e reduz desigualdades, o que é socialmente louvável. No entanto, vem com claro contraponto, limitando a mobilidade, a progressão e a escolha real. A teoria sugere mais liberdade, mas a prática mostra menos movimento, menos incentivo e mais sensação de bloqueio. Não há necessidade de negar a importância de salários mais justos. Mas não podemos consegui-los matando a dinâmica que permite às pessoas mudarem verdadeiramente de vida através do trabalho.

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Falhamos enquanto sociedade. Falhamos em transmitir valores de união enquanto povo. Falhamos em ensinar as pessoas a não serem manipuláveis. Falhamos em utilizar a escola pública para aquilo que deveria ser a sua principal função: formar cidadãos capazes de pensar, questionar e interpretar o que ouvem.
Precisamos de uma sociedade culta, não apenas em fórmulas matemáticas ou equações químicas, mas sobretudo em pensamento crítico. Só assim se combate o populismo que grassa em setores da nossa política, tanto à esquerda como à direita. Só assim se evita cair no “conto do vigário” de quem manipula factos, distorce números e vende ilusões impossíveis: milhares de viagens em poucos anos, festas inventadas ou slogans que soam bem, mas não resistem a uma simples análise lógica.
Este é um dos grandes problemas de Portugal: em vez de formar cidadãos críticos, estamos a formar papagaios — ecoadores de opiniões alheias, sem nelas pensarem um minuto. Esta falta de free thinkers abre espaço para outro fenómeno cada vez mais preocupante: a cultura de cancelamento.
O cancelamento tornou-se uma arma política e cultural. A última vítima veio dos Estados Unidos da América: Jimmy Kimmel, famoso humorista e há mais de 20 anos apresentador de um talk show em prime time, foi suspenso pela própria network após uma tirada sobre o assassinato de Charlie Kirk. A ABC, prestes a realizar um negócio de 6,2 mil milhões de dólares, suspendeu preventivamente o programa, receosa de represálias da administração Trump. Bill Maher, antecessor de Kimmel no mesmo programa, já tinha sido cancelado depois de uma piada sobre o 11 de setembro de 2001. Maher, com uma vasta legião de fãs, costuma enfrentar a fúria tanto da esquerda progressista — por questionar dogmas ideológicos — como de setores da direita conservadora, que rejeitam as suas críticas às políticas da extrema-direita. Mas a lista de cancelamentos é longa: J.K. Rowling, Dave Chappelle, Kevin Hart, Stephen Colbert, entre tantos outros. Carreiras postas em xeque não pelo que efetivamente disseram, mas pelo que outros interpretaram do que disseram — independentemente de estarem mais à esquerda ou à direita.
E aqui está o ponto crucial: quando queremos proibir alguém de falar, já todos perdemos.
Posso discordar de ti, posso até achar o que dizes moralmente repugnante, mas lutarei com toda a minha força para que continues a ter o direito de o dizer. Porque, se hoje alguém te cala, amanhã será a mim que alguém vai calar.
Tu és dono da tua boca. Eu sou dono dos meus ouvidos e da minha mente. Cabe-me a mim escolher o que ouço e cabe-me a mim discordar, refutar ou simplesmente desligar. O que não me cabe é exigir que se cale quem pensa diferente de mim.
A liberdade de expressão não existe para proteger o que é popular ou consensual. Existe precisamente para proteger o que é incómodo, o que desafia, o que provoca. Quando trocamos a liberdade pela segurança do silêncio, ficamos entregues a uma sociedade infantilizada, incapaz de distinguir o trigo do joio, presa em bolhas de conformidade.
Mais do que nunca, precisamos de cidadãos preparados para ouvir, pensar e discordar sem querer silenciar. Só assim teremos uma sociedade verdadeiramente livre.

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores
Numa tentativa recente de submeter um projeto de arquitetura, um amigo arquiteto viu-se preso num daqueles labirintos que só a burocracia portuguesa consegue montar. Queria apenas assinar um ficheiro DWFx com o novo Cartão de Cidadão. Resultado? Missão impossível.
O DWFx é um formato digital que permite visualizar desenhos técnicos sem os editar, mantendo uma assinatura digital que garante a sua autenticidade. Tornou-se obrigatório na submissão de projetos urbanísticos através da Portaria n.º 113/2015, entretanto revogada pela Portaria n.º 71-A/2024 — mas que, no seu Anexo II, continua a referir o DWFx, levando muitas câmaras municipais a manter a exigência.
Até aqui, tudo bem. O problema surge quando o novo Cartão de Cidadão, lançado em junho de 2024 com maior segurança e alinhado com normas europeias, deixa de ser compatível com o único programa capaz de assinar ficheiros DWFx: o Design Review 2013, da Autodesk. Sim, uma versão de 2013 — desatualizada, descontinuada e sem suporte técnico.
O resultado? Profissionais com cartões novos, ficheiros exigidos e software obsoleto. Tudo certo, menos o essencial: funcionar.
E isto acontece em plena crise habitacional, onde atrasos nos licenciamentos têm impacto direto em custos e prazos. Arquitetos e engenheiros veem-se bloqueados por um erro técnico com ar de “volte amanhã”.
A solução? Alterar a portaria e substituir o DWFx por formatos mais práticos e robustos, como o PDF assinado digitalmente — amplamente aceite e de uso intuitivo — ou o ficheiro ASiC, uma espécie de “zip” com assinatura digital que garante integridade e autenticidade.
Pode parecer um detalhe técnico, mas tem efeitos reais. Cada dia perdido a tentar resolver este impasse é um dia de trabalho não feito. Multiplicado por centenas de profissionais, o impacto traduz-se em atrasos nos licenciamentos, custos adicionais e muito tempo desperdiçado, entre cafés, à espera que funcione.
Mais do que um problema de software, é uma questão de lógica: se o próprio Estado fornece um cartão incompatível com as suas exigências, talvez seja tempo de rever… as exigências.
É verdade que o Estado tem feito esforços para digitalizar processos — e isso é positivo. Mas há uma diferença entre digitalizar e criar um labirinto digital. Quando os profissionais precisam de recorrer a fóruns, tutoriais, vídeos no YouTube e chamadas de socorro para conseguir submeter um projeto, talvez o sistema precise de atenção. Ou de reforma.
Várias ordens profissionais já alertaram para esta situação e apresentaram propostas concretas para resolver o problema. E, imagine-se, as soluções funcionam. Mas como tudo em Portugal, mudar uma regra exige mais do que bom senso: exige pareceres, grupos de trabalho, reuniões e — claro — mais café.
No fim do dia, a questão é simples: quem quer construir, devia poder fazê-lo sem se tornar especialista em assinaturas digitais e formatos de ficheiros. A tecnologia devia servir para ajudar, não para transformar um projeto num exercício de frustração.
E se o objetivo é acelerar a construção e dar resposta à crise da habitação, talvez seja boa ideia começar por não dificultar o que já devia estar resolvido – e por facilitar o trabalho daqueles que querem trabalhar.

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores
A Argentina, essa mistura improvável de tango, carne suculenta e inflação galopante, passou os últimos 15 anos a assistir a uma queda na sua religiosidade tradicional. Em 2008, mais de 75% da população dizia-se católica; hoje, esse número ronda os 50%. Um declínio visível, mesmo após a eleição de um Papa argentino — Francisco — que levou a identidade vibrante do seu povo e uma visão social latino-americana para o Vaticano.
Mas a verdade é que nem a presença de um pontífice local bastou para reacender a esperança numa terra onde a fé, muitas vezes, tem de dividir espaço com o desespero económico. Entre a inflação de três dígitos, a moeda que se derretia mais rápido que um gelado ao sol, e governos que prometiam tudo menos estabilidade, muitos argentinos olharam para o céu… e depois para o talão de compras. A fé não desapareceu, mas foi, talvez, deslocada para outras esferas. Mais terrenas. Mais urgentes.
Foi nesse cenário que apareceu Javier Milei, um economista excêntrico, libertário convicto e personagem que parece ter saído diretamente de um romance político escrito num ataque de nervos. Com a sua famosa motosserra (às vezes literal, outras vezes metafórica), prometeu o impensável: cortar o Estado, domar a inflação e tirar o país do buraco sem anestesia. E por mais que a proposta parecesse uma batalha de alto risco, os números mais recentes mostram que… está a resultar.
Em junho de 2025, a inflação mensal ficou nos 1,6%, bem abaixo dos 25,5% registados em dezembro de 2023, antes da posse de Milei. No acumulado de 12 meses, o índice caiu para 39,4% — o que, no contexto argentino, soa quase a estabilidade nórdica, principalmente quando eram superiores a 210% em 2023. O salário médio duplicou desde a sua entrada e a percentagem de pessoas abaixo do limiar de pobreza recuou para 31,6%, o valor mais baixo desde 2018.
O Estado, esse eterno glutão orçamental, começa a dar sinais de contenção. Com esta retoma financeira, os investidores reapareceram e, curiosamente, até os argentinos mais céticos começaram a falar num “milagre económico”. Não o milagre das aparições ou das águas que curam, mas o das folhas de cálculo que finalmente fecham com saldo positivo.
E se antes muitos se perguntavam por que razão, com um Papa argentino, o país não via milagres… agora começam a brincar que talvez o verdadeiro milagreiro fosse afinal o homem de fato amarrotado e cabelo desalinhado.
Na terra que nos deu alguns dos maiores astros de futebol, a fé religiosa continua viva — como sempre esteve — mas, no presente, partilha espaço com uma outra esperança: a de que um país inteiro consiga, finalmente, sair do labirinto económico sem precisar de velas, promessas ou mais empréstimos ao FMI.
No ritmo atual, não será surpresa se surgir um novo padroeiro — São Javier Milei da Motosserra, guardião do superavit, defensor da economia e intercessor das reformas impossíveis. Porque sim, Deus pode continuar no comando… mas, neste momento, quem segura o volante da nação albiceleste é Milei.


Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores
Portugal vai novamente a votos, pela quarta vez em pouco mais de cinco anos. Desde 6 de outubro de 2019, temos ido às urnas, em média, a cada 1 ano, 10 meses e 15 dias — uma frequência superior à observada durante a Primeira República. Esta elevada rotatividade eleitoral reflete a instabilidade política que o país tem vivido nos últimos anos, marcada por divisões acentuadas entre forças políticas e pela ascensão de movimentos radicais e populistas que se apresentam como alternativa aos partidos tradicionais, mas que, ao longo do tempo, têm gerado mais conflitos do que soluções.
Esse partido deve ter tido génese no provérbio português “Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”, pois não se apresenta como uma alternativa séria, carece de capacidade para agregar consensos e está marcado por casos criminais e comportamentos antidemocráticos — desde condução sob influência de álcool, acusações de assédio e furto qualificado até casos de pedofilia. Aqueles que prometeram “limpar” o país demonstram comportamentos que nos levam a questionar seriamente a sua integridade e a exigir uma análise mais profunda da ética e da responsabilidade de quem escolhem para ocupar cargos públicos.
Neste contexto, é essencial refletir sobre um princípio fundamental da democracia: a importância da estabilidade política. Sem estabilidade, é difícil implementar reformas estruturais e fazer avançar um país que se quer afirmar como uma potência europeia e global. A história portuguesa já nos ensinou que períodos de grande instabilidade conduzem a graves consequências, como as que se registaram durante a Primeira República e que acabaram por resultar no autoritarismo da ditadura do Estado Novo. Não podemos ignorar os riscos de uma instabilidade política prolongada e as suas repercussões para a democracia.
Então o que podemos fazer para reduzir esta instabilidade?
Em primeiro lugar, é necessário reduzir a elevada taxa de abstenção. A abstenção é um reflexo da desilusão e do cansaço dos eleitores com um sistema político que, por vezes, parece estar mais interessado em disputas partidárias do que em solucionar os problemas reais do país. O combate à abstenção exige um empenho genuíno dos partidos para apresentarem propostas concretas e para evitarem recorrer a retóricas polarizadoras, que apenas afastam os eleitores e reforçam o clima de divisão.
Em segundo lugar, é urgente promover uma reforma da lei eleitoral. Pessoalmente, sou um defensor do estabelecimento de um círculo de compensação nacional, semelhante ao que já ocorre nas eleições regionais açorianas.
A título de exemplo, nas últimas eleições legislativas, mais de 670 mil eleitores (aproximadamente 10% do total) viram o seu voto não ter qualquer efeito na distribuição de mandatos. Este é um sinal claro de que o sistema eleitoral precisa de ser revisto para garantir uma verdadeira representatividade na composição do parlamento. O modelo do círculo de compensação permitiria garantir que os votos nas regiões mais pequenas ou em partidos menos representados tivessem um impacto real no resultado final, contribuindo para uma representação mais justa e equilibrada.
Em complemento, considero que a revisão da lei eleitoral deveria inspirar-se em exemplos internacionais que já demonstraram sucesso em contextos similares. Há modelos interessantes na Grécia, na Alemanha e nos países nórdicos que podem servir de referência para uma adaptação ao contexto português. Sem querer avançar com a solução definitiva, é importante que o sistema político português faça este exercício de análise para identificar possíveis caminhos que conduzam a uma maior estabilidade e eficácia governativa.
Portugal não pode continuar refém de ciclos políticos instáveis e de um sistema que, em muitos casos, não reflete de forma fiel a vontade dos eleitores. A reforma política e eleitoral é essencial para garantir que todos os votos contem e que o país tenha condições para implementar reformas estruturais de longo prazo. É hora de os nossos políticos demonstrarem coragem e visão estratégica para concretizar o nosso Fado de liderar na Europa e no mundo!

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores
Aplicar políticas económicas sem dados estatísticos é como tentar pilotar um avião sem apoio cartográfico: podemos ir seguindo algumas tendências com base na nossa intuição, mas, no final, apenas nos guiamos pela linha de vista.
Na Iniciativa Liberal, gostamos de nos guiar por números de fontes oficiais como o SREA, o INE ou o EUROSTAT e, a partir daí, definir um plano e as políticas que melhor se enquadrem em cada contexto.
É por este motivo que acreditamos que estas instituições devem primar pela isenção e pela disponibilização de dados atualizados e em bruto, permitindo uma interpretação livre por terceiros. Caso contrário, ficamos dependentes dos resumos de informações que o governo decide divulgar — numa versão moderna do clássico orwelliano 1984.
A título de exemplo, ainda este mês de fevereiro, surgiram notícias de que o salário médio regional ilíquido nos Açores, em 2024, foi de 1.742,00€. Os mais incautos poderão pensar que metade dos açorianos aufere esse montante. No entanto, apenas com recurso à mediana ou a séries de dados por intervalo conseguimos perceber qual o valor auferido por metade dos açorianos. Num mundo em que a economia muda à velocidade de uma publicação de Trump, a ausência de dados críticos como a mediana salarial prejudica qualquer análise e avaliação das políticas públicas e dos resultados obtidos.
Pois bem, apesar de termos valores da média salarial para 2024 nas bases de dados do INE e do SREA, a verdade é que, desde dezembro de 2022, a mediana salarial não é publicada. Nessa data, os valores líquidos para o salário médio na RAA eram de 1.273,71€, enquanto a mediana era de apenas 938,51€ e o terceiro quartil situava-se nos 1.208,60€. Isto significa que metade dos açorianos ganhava menos de 938,51€ e que 75% da população auferia menos 65,11€ do que a média salarial. E como será em 2024? Não sabemos, porque não há dados estatísticos disponíveis.
Numa época em que enfrentamos uma crise habitacional sem precedentes, como podemos perceber o que são preços acessíveis à compra de habitação e a respetiva taxa de esforço das famílias, se não sabemos o que 50% ou 75% da população aufere? E, na mesma linha de pensamento, como podemos identificar o Índice de Gini, avaliar o impacto da inflação ou perceber se os aumentos salariais estão a acompanhar as necessidades da população?
Se o SREA e o INE conseguem calcular médias salariais, é evidente que têm acesso aos dados para calcular medianas — o que nos leva a questionar o motivo para a sua não publicação. Será um lapso, desorganização ou simplesmente falta de prioridade? No final, a imagem que passa é a de uma estratégia política para controlar a narrativa e evitar críticas que exponham as falhas governativas, deixando a oposição sem ferramentas para contestar os discursos oficiais.
Nas palavras do saudoso Alexandre Soares dos Santos, filantropo e fundador da Pordata, «não há maior defesa contra a manipulação nem arma mais eficaz contra as propagandas e ilusões do que o poder dos dados rigorosos e independentes.» E acrescentava que «se o conhecimento não pode ter limites, também o autoconhecimento de um país os não tem.»
Sem dados, não há análise séria — apenas propaganda. Uma região que não mede corretamente os seus problemas está condenada a nunca os resolver. Se o governo esconde ou negligencia dados essenciais, como podemos confiar que as suas decisões são baseadas na realidade e não apenas numa estratégia de comunicação populista?

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Bem-vindo à campanha para as eleições autárquicas. De 4 em 4 anos, as autarquias portuguesas parecem descobrir o número do Euromilhões, ou encontrar ouro ou petróleo no seu território. Só isso pode explicar que os orçamentos municipais, em ano de autárquicas, sejam sempre “o maior de sempre”.
Em 14 dos 19 concelhos açorianos, teremos o maior orçamento de sempre, o que nos leva a questionar o motivo de tal fenómeno. Será devido à inflação? Poderia ser, mas, tendo em conta que a previsão é que a inflação de 2024 termine em cerca de 2%, isso não justifica aumentos que variam entre 4% e 73%. Será resultado de um superavit financeiro? Talvez, mas algumas destas autarquias encontram-se em plano de recuperação financeira. Será devido a uma maior disponibilidade para o trabalho? Então, o que andaram a fazer nos últimos 3 anos?
São muitas suposições, mas vamos aos factos, que estão facilmente disponíveis na internet.
Em São Miguel, o orçamento campeão é o de Ponta Delgada. Para termos uma noção: em 2021, o orçamento municipal era de 56.000.000€. Para 2025, o orçamento previsto é de 96.400.000€! Um aumento de 44,4 milhões de euros em apenas quatro anos! Em relação ao ano passado, registou-se um incremento de 20,8 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 28%.
Quanto aos restantes municípios micaelenses, destacam-se ainda o Nordeste e Vila Franca do Campo, que aumentaram os seus orçamentos em 45% e 33%, respetivamente. Em relação ao arquipélago açoriano, relevo para a Praia da Vitória, com um aumento de 73%, e São Roque do Pico, com 47%. Em sentido inverso, menção honrosa para Velas, Santa Cruz da Graciosa e Lajes das Flores, que mantiveram ou reduziram os seus orçamentos.
Se tivermos em conta que, em média, a taxa de execução dos orçamentos municipais situa-se abaixo dos 90%, como é que estes autarcas aumentam o valor do orçamento de forma desproporcional e esperam manter uma taxa de execução aceitável? Será que vão contratar técnicos para este ano que se espera excecional? Ou será que, com os técnicos atuais, conseguirão duplicar o trabalho, numa prova evidente de que estão sobredimensionados em pessoal para as necessidades habituais da autarquia?
Mesmo que recorram à subcontratação de empresas, não há empresas nem técnicos suficientes para fiscalizar as obras, e não é em escassos meses que se vão formar esses profissionais.
Além disso, há uma grave escassez de empresas de construção civil no mercado. Para executar esses planos megalómanos, seria necessário absorver praticamente toda a indústria da construção civil, deixando o mercado dos particulares em apuros, sem técnicos disponíveis para atender às suas necessidades.
Estamos perante uma época de completo desvario, sem condições reais para executar tais planos, e mais uma vez as autarquias demonstram estar a ser conduzidas por pessoas sem visão, cujo único objetivo é o populismo: mostrar obra apenas em época de eleições!
Nunca se esqueçam: cada euro gasto pelas autarquias é um euro que foi tirado do bolso dos contribuintes! Haja parcimónia na forma como ele é gasto!

Carlos Caetano Martins
Engenheiro Técnico Senior
As trotinetes e bicicletas urbanas são um importante meio de locomoção em cidades. Quando bem implementadas, reduzem o tráfego local e aumentam o número de pessoas que optam por deslocações mais amigas do ambiente. Para além disso, se enquadradas com as políticas corretas, permitem aumentar e complementar a utilização de transportes públicos.
Pessoalmente sou um grande defensor deste tipo de meio de transporte e já tive a oportunidade de o experimentar em várias metrópoles europeias. É por este motivo que esperava que a implementação na maior cidade açoriana fosse bem-sucedida, mas infelizmente não tem sido assim. Aliás, Ponta Delgada poderia servir como exemplo de como até os projetos bem-sucedidos em outras cidades podem falhar quando mal executados.
Até prova em contrário, a implementação do modelo Bolt em Ponta Delgada parece não ter sido precedida de um correto planeamento estratégico, mas sim de uma fugaz ideia sem o devido acautelamento e com várias situações para melhorar.
Por exemplo, verifica-se uma completa ausência de delimitação e orientação dos espaços afetos ao parqueamento. A simples identificação de alguns lugares de estacionamento de viaturas para alocação às bicicletas e trotinetes partilhadas, resolveria constrangimentos que se verificam nos pequenos passeios das vias publicas. Para além disso, a localização das zonas de parqueamento, pese embora em número adequado, encontram-se em locais distantes dos pontos de interesse da maioria da população, como por exemplo centros comerciais, ginásios, parques de estacionamento, grandes empresas etc.
Também não se compreende o motivo para não se ter estendido a rede de mobilidade às freguesias dos Arrifes e da Relva, dois dos maiores centros populacionais do concelho.
A ausência de investimento em ciclovias também é uma falha grave e não acompanha a crescente tendência em mobilidade urbana sustentável.
Por último, os preços apresentados tornam o serviço inacessível para a maioria da população local tornando o seu uso uma quase exclusividade para turistas. Uma viagem de apenas 2km, cerca de 10 minutos, custa 2€, o que representa um valor incomportável para a maioria dos açorianos se utilizado diariamente (cerca de 90€ mensais).
Tenha este executivo camarário coragem de assumir o erro na implementação deste bom projeto e corrija os erros apresentados.
Juntos, podemos construir um futuro melhor para os Açores!