
O título desta reportagem tem tanto de óbvio quanto de verdadeiro. Até pode ser provocatório mas no bom sentido. “Cozinhar sem tempero é só não deixar queimar a comida”. Quem o diz é Valter Franco, membro da Confraria de Gastrónomos dos Açores. Acompanhado de António Cavaco, da mesma confraria, e José Serra, juntos, degustaram o menu do “Wine in the wild” no restaurante Frondoso, do hotel DoubleTree by Hilton, na Lagoa, ilha de São Miguel. Não foi o que aconteceu na experiência gastronómica desenhada pelos chefes João Fevereiro, do Frondoso, e Paulo Costa, do restaurante Caldeiras e Vulcões das Furnas, onde nada ficou sem tempero ou com cozedura a mais.
As Furnas foram o denominador comum na ementa que os dois chefes criaram a quatro mãos. “Inspirado no cozido das furnas, trouxemo-lo em formato de croquete, no prato de peixe que fizemos, trouxemos um molho de caldeirada de peixe que é feito nas caldeiras e temos também umas mini queijadas de inhame das Furnas” explica o chef Paulo Costa.
O chef João Fevereiro diz que criaram “pratos básicos” mas depois “usando o toque geotérmico, com sabor a enxofre”. Fevereiro explica que “os sabores da própria comida têm de ser muito equilibrados para não se perder nenhum e o vinho tem de fazer parte dessa história”. Cada prato, de “new cuisine”, foi acompanhado por um vinho diferente. Só a escolha dos vinhos durou cinco dias explicou o sommelier — profissional responsável pelas bebidas num restaurante — ao Diário da Lagoa. “Respeitamos a natureza que temos, respeitamos o produto, respeitamos o que a terra nos dá e depois menos é mais”, assegura o chef do Frondoso.
O jantar foi servido no dia 28 de março e teve dezenas de convidados. António Cavaco faz questão de sublinhar a importância do vinho na comida: “em gastronomia, o apontamento requer um vinho que normalmente exponencie e se encostarmos ali vinhos que não dão uma boa saída, acabam por fechar, nem o vinho é bom nem a comida é boa, quando ela o é de facto”.
Valter Franco tem pena que a cozinha açoriana esteja a perder qualidade. “A gastronomia açoriana está constantemente a ser adulterada porque acham que o turista não gosta disto, não gosta daquilo, mas nem sempre é isso que acontece. O turista quando vai a um sítio é para provar o que é da terra. Saber cozinhar é cozinhar a comida com o tempero certo, quem cozinha tem de saber fazer isso”, diz Valter Franco, satisfeito com o que provou no Frondoso: “o balanço é muito bom, muito positivo”. José Serra diz que na gastronomia moderna “os pratos embora confeccionados com pouca comida” apresentam “o sabor do prato, todo lá, e isso é muito importante”. “Hoje se calhar comemos 200 gramas de comida, ao todo, e o que é facto é que estamos cheios”, sublinha o gastrónomo. Os três dão nota positiva à experiência gastronómica que tiveram.